Unidos e ungidos por Trump: o que liga Flávio Bolsonaro a Javier Milei

Fonte: Agência Brasil

Por Rafael Rezende

Uma questão de soberania

Na sexta-feira, 2 de outubro, o presidente Lula participou de um de seus últimos atos de campanha antes do primeiro turno das eleições presidenciais, no centro do Rio de Janeiro. Em meio ao mar de gente que acompanhava o candidato, a primeira-dama e políticos aliados, alguém atirou para Lula uma camisa com os dizeres “Las Malvinas Son Argentinas”, na mesma grafia da faixa exibida pelos jogadores da seleção argentina na semifinal da última Copa do Mundo, após a vitória sobre a Inglaterra. Lula pegou a camisa, abriu-a e a mostrou para as câmeras. A imagem rapidamente viralizou no país vizinho, e Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires e um dos prováveis nomes do peronismo para a próxima eleição presidencial, a compartilhou em suas redes.

Por mais que a defesa da soberania argentina sobre as Malvinas seja uma posição do Estado brasileiro desde 1833, atravessando distintos governos e regimes, o gesto de Lula teve peso simbólico: reafirmou a importância da soberania dos países sul-americanos, ameaçada pela política externa dos EUA sob o comando de Trump, e expôs o posicionamento vacilante ou subordinado das extremas direitas que estão no poder na região diante dessa ameaça. Não por acaso, os opositores de Milei receberam o resultado do primeiro turno brasileiro com a mesma apreensão que as forças democráticas do Brasil. Todos sabem que o desfecho da eleição brasileira de 2026 influenciará a eleição argentina de 2027 e toda a geopolítica regional.

É importante recordar que, nos últimos dois anos, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru elegeram presidentes de direita e extrema direita, e a Venezuela teve seu presidente sequestrado e preso pelos EUA. Uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro, em um contexto global de crise do multilateralismo, acabaria com qualquer obstáculo real ao aumento quantitativo e qualitativo da influência estadunidense na América do Sul.

A internacional reacionária

Há muitos pontos em comum entre as agendas antipovo de Javier Milei e Flávio Bolsonaro, mas há algo que perpassa todos eles: a subserviência aos interesses estadunidenses na região. Tal circunstância não se deve ao acaso. O sociólogo argentino Ariel Goldstein adotou o termo “internacional reacionária” para se referir à rede de partidos, movimentos, lideranças e financiadores da extrema direita global. Dentro dessa rede, capitaneada por Trump, articulam-se e alinham-se estratégias políticas e eleitorais, produzem-se discursos e teorias conspiratórias compartilhados e acessam-se fontes de financiamento para atividades diversas, que vão da propaganda a ações de sabotagem. Um exemplo conhecido da ação dessa rede foi o tarifaço que Trump impôs à importação de produtos brasileiros, a pedido da família Bolsonaro, com o objetivo tácito de minar o crescimento da economia brasileira e debilitar o governo Lula.

A internacional reacionária conta com o apoio de um ator de peso na política contemporânea: o oligopólio dos grandes conglomerados de tecnologia. As big techs, como são chamadas, controlam o fluxo de informações nas redes sociais e, por isso, detêm um enorme volume de dados sobre os cidadãos. Podem utilizá-los para beneficiar campanhas eleitorais, manipular a opinião pública e impulsionar narrativas, com pouco ou nenhum controle dos Estados sobre suas atividades.

Não se trata de afirmar que a vitória de Milei, na Argentina, e o bom desempenho eleitoral de Flávio, no Brasil, sejam fruto direto de interferência estadunidense. O crescimento do extremismo de direita tem causas múltiplas e complexas, com características particulares em cada país. No entanto, ao observarmos a ação coordenada de atores nacionais e transnacionais em prol dessa agenda, é possível compreender que a relação entre Milei e a família Bolsonaro vai muito além de um discurso de solidariedade entre atores que compartilham uma ideologia. Trata-se de uma articulação de projetos políticos para uma região, promovida e chancelada por uma potência interessada em manter sua hegemonia global, hoje desafiada pela China.

Eu sou você amanhã?

Tendo em vista o que já foi dito sobre as agendas conjuntas da extrema direita, cabe um alerta: se alguém tem dúvida sobre como seria um governo encabeçado por Flávio Bolsonaro, caso ele vença as eleições, basta olhar para a Argentina de Milei. No plano interno, ataque frontal aos direitos sociais; descontinuidade de políticas públicas, especialmente as voltadas às mulheres, à população negra e à população LGBTQIA+; repressão aos movimentos sociais; afrouxamento da legislação ambiental; desindustrialização acelerada; e estagnação econômica. No plano regional, conivência ou colaboração com golpes e ações de desestabilização contra governos de esquerda. No plano internacional, alinhamento total aos EUA e, por conseguinte, a Israel; abandono de organismos multilaterais ou menor participação neles; e perda de autonomia para negociar com outros mercados, como China e Rússia.

Por outro lado, uma vitória eleitoral de Lula não apenas evitaria a argentinização do Brasil (recordemos que, segundo o INDEC, no primeiro semestre de 2026, 32,3% da população argentina vivia na pobreza e 7,5% em situação de indigência), como também serviria de contrapeso à crescente influência dos EUA na América do Sul. Mais do que isso, a permanência de um governo de centro-esquerda no maior país da região mostraria aos nossos vizinhos que outro presente é possível. Seria um contraste com suas próprias experiências de governo, fracassadas do ponto de vista econômico e social, que se sustentam pela coerção e por moderníssimos aparelhos ideológicos que colonizam o imaginário social contemporâneo.


*** Rafael Rezende é bacharel em relações internacionais e doutor em sociologia.


A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política 
Muryatan Santana Barbosa

Neste ensaio conciso, que combina profundidade filosófica, pesquisa acadêmica e intervenção crítica, Muryatan Barbosa apresenta aos leitores uma teoria política da descolonização — o que ele chama de “descolonização autodeterminada” — como alternativa às abordagens pós-coloniais, decoloniais e contracoloniais que atualmente dominam os debates contemporâneos. Para o autor, a autodeterminação dos países do Sul global só é possível com a construção de macronações autônomas no médio e longo prazo.


Abordando a descolonização como um fenômeno global e de longa duração, o livro examina as experiências americanas e afro-asiáticas. Dividido em duas partes — uma teórica e outra histórica e empírica —, a obra investiga os desafios políticos e conceituais impostos por esse processo, ao mesmo tempo em que busca atualizar e renovar o pensamento anticolonial e anti-imperialista.


Com uma forte trajetória intelectual que trafega entre a pesquisa acadêmica e o debate político, Muryatan oferece em A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, uma contribuição original às discussões contemporâneas sobre colonialismo, emancipação e teoria política.

📕📱 Livro A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, de Muryatan Santana Barbosa, em formato impresso e e-book
🎁 Livreto O Futebol como Arte, de Raí Oliveira.
🎁 Adesivo e marcador de páginas exclusivos
📰 Materiais multimídia para expandir a leitura
🛒 30% de desconto em todos os livros da Boitempo em nosso site


Descubra mais sobre Blog da Boitempo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário