Uma análise freudiana da votação na extrema direita no Brasil

Por que a extrema direita conquistou o futuro?

Imagem de divulgação.

Por Érico Andrade e Thais Klein

Dois pontos são necessários para começar a conversa. Primeiramente, é impossível subestimar a força do fascismo no Brasil que remonta pelo menos ao movimento integralista e que é capaz de mobilizar massas em larga escala tanto nas redes sociais quanto nas ruas. O fascismo compõe a história do Brasil. Segundo, acreditar que 47 por cento das pessoas que votam em Flávio Bolsonaro (e um número ainda maior de pessoas que votou para o Senado e para a Câmara dos Deputados na extrema direita) é fascista, é um erro de avaliação que pode custar neste segundo turno o sequestro das instituições pela milícia, pela corrupção sistêmica e pela dissolução do estado. Em outras palavras, esse erro de avaliação pode tornar a situação que é crítica em irreversível.

A justa medida em não superestimar o fascismo e não sucumbir à tese falsa de que todas as pessoas que votam na extrema direita são fascistas não é fácil de ser encontrada, mas pelo menos em termos pragmáticos, é essencial apostar nas várias pesquisas que demonstram que uma parcela significativa do Brasil, composta pela classe D e E, tem votado na extrema direita menos por uma convicção ideológica e mais por uma crença na mudança. Vota-se numa promessa que um governo, como o governo do PT, comprometido com o teto dos gastos e o controle fiscal não poderá oferecer.

Ademais, aquilo que é o grande trunfo de Lula, a sua experiência em eleições, é a mesma medida do que pode lhe conduzir ao fracasso, porque ele representa o que já foi feito, mas sem qualquer promessa de futuro. Um governo que tenta resguardar as garantias das instituições do estado burguês de bem estar social diante de uma população bombardeada por influencers ostentação, novos ricos e uma teologia de prosperidade recalcitrante, está condenado ao fracasso na atual conjuntura do capitalismo. O descompasso de Lula é um sintoma da falência do estado burguês que ao PT coube reformar e resguardar a sua existência em parceria com as instituições como o Supremo Tribunal Federal.

O desafio, portanto, não se resume a modernizar a comunicação do governo ou a acusá-lo de ser analógico. A dificuldade é mais profunda: enquanto Lula apresenta realizações e políticas de proteção social, a extrema direita oferece uma promessa de transformação individual. De um lado, fala-se da preservação de direitos e da melhoria das condições materiais de vida; de outro, mobilizam-se imagens de prosperidade, enriquecimento e ruptura com a precariedade presente. Para compreender a força dessa promessa, é preciso observar como mercadorias, imagens de sucesso e expectativas de ascensão social circulam juntas no capitalismo contemporâneo.

O capitalismo não mobiliza apenas pelo que entrega no presente, mas também pelas promessas que faz circular, ele é fundado na capacidade de endividamento e comercialização da dívida cujo exemplo lapidar é o valor de mercado da dívida pública do tesouro americano. Não é estranho ao capitalismo operar com o que não tem lastro material porque o capital só precisa existir como promessa de lucro para poder circular no mercado. Isso configura a lógica do sistema. É essa lógica que instaura a circulação dos afetos que envolvem, dentre outros, a criação da ilusão como forma de sustentação do desamparo.

Em O futuro de uma ilusão, Freud estabelece uma distinção que consideramos essencial entre ilusão e erro. Parte da esquerda tende a interpretar o voto das camadas populares na direita ou na extrema direita como um erro, isto é, como um ato irracional ou contraditório: o trabalhador estaria “votando em seu próprio algoz”. O conceito freudiano de ilusão permite formular o problema de outra maneira. A ilusão não é simplesmente um erro de avaliação que possa ser corrigido por meio de informações ou de um apelo à racionalidade. Ela funciona como uma defesa diante do desamparo e é alimentada pelo temor de que a precariedade, a insegurança e a ausência de perspectivas se tornem permanentes. A extrema direita mobiliza esse temor ao se apresentar como uma força capaz de restabelecer a ordem, eliminar ameaças e oferecer proteção. Sob essa perspectiva, não basta ao governo Lula apresentar mais realizações e acertos na área social, como se a adesão à extrema direita decorresse apenas do desconhecimento das políticas sociais existentes. Não se trata de um erro de compreensão da importância e do que foi feito socialmente, mas de uma saturação desse modelo porque ele não consegue promover a ascensão social estampada nas redes como orientação de conduta e de ação para o sucesso financeiro. Então, o primeiro ponto é entender que as pessoas que votam na extrema direita não são limitadas e equívocas.

É evidente que um governo Bolsonaro colocará em risco algumas dessas políticas sociais, mas o que ele vende, a exemplo do capitalismo, é a promessa de que as pessoas não precisarão mais recorrer a essas políticas porque terão ascensão social. Ou seja, o bolsonarismo vende a promessa de que elas próprias serão capazes de fazer frente ao desamparo sem precisarem recorrer ao Estado. É fundamental entender que as políticas sociais não podem ser percebidas como um fim em si mesmas porque desse modo se estaria condenando uma parcela da população a sempre depender delas. Ao contrário do que certo discurso preconceituoso sustenta, as pessoas beneficiárias de políticas sociais não desejam estar na condição que estão e viverem o resto da vida de auxílio do governo. Trata-se de um desejo ascensão social que não diz respeito a uma falta daquilo que é o básico, mas é justamente a aquisição do que é básico que se impõe como possibilidade para o desejo se estender para uma esfera mais complexa.

A aposta psicanalítica é que o indivíduo não se constitui apenas pela razão, mas também pelo desejo e, de modo mais fundamental, pelo desamparo. Isso não significa que suas ações sejam simplesmente irracionais. Pode haver irracionalidade no desejo, mas a lógica insiste: razão, desejo e temor se articulam na construção de explicações capazes de conferir alguma ordem à experiência. É precisamente nessa articulação que a ilusão se torna constitutiva da ação do indivíduo ocidental. Diferentemente do erro, ela não decorre apenas de uma compreensão inadequada da realidade, mas funciona como uma resposta ao desamparo que marca, em alguma medida, a condição no ocidente. Diante da precariedade e da incerteza, o indivíduo pode aderir a uma narrativa que não elimina a realidade concreta, mas a reorganiza de maneira a torná-la suportável. É por isso que a ilusão e a promessa coabitam uma mesma gramática religiosa porque se trata de uma negação da condição presente por meio da criação de um sistema de crenças de que em um ponto futuro haverá alguma sorte de redenção.

A força da ilusão reside na recusa da precariedade como destino e na fantasia de onipotência que se contrapõe ao desamparo. A extrema direita alimenta o temor de que essa precariedade se torne permanente e, ao mesmo tempo, apresenta-se como a única força capaz de oferecer uma saída para o medo que ela própria alimenta. Sua promessa não precisa se realizar para produzir adesão; basta que substitua a experiência de impotência pela expectativa de controle sobre o próprio destino. A ilusão mantém ativa uma forma de lidar com a precariedade que não é a da resignação. Em oposição à experiência de impotência, ela alimenta a fantasia de que o indivíduo pode controlar o próprio destino e superar sua condição. O Estado burguês, mesmo quando garante proteção social e condições mínimas de sobrevivência, já não consegue oferecer uma imagem convincente de futuro. É nesse espaço que as bets e a propaganda do empreendedorismo ganham força. Embora não sejam fenômenos equivalentes, ambas fazem circular a fantasia de que uma decisão individual — uma aposta bem-sucedida, a disposição para correr riscos ou a criação do próprio negócio — pode produzir uma mudança súbita de vida.

A extrema direita compreende a atual articulação entre a circulação de mercadorias e o regime de desejos, ao mesmo tempo que rompe com qualquer compromisso com uma realidade compartilhada. Não por acaso, o negacionismo constitui um de seus traços messiânicos mais notáveis. A extrema direita compreendeu que a ilusão pode bastar a si mesma: para que as pessoas adiram a um projeto de mudança, não é necessário que sua promessa encontre lastro na experiência comum; basta que ela organize o temor e sustente a crença de que as coisas poderão ser diferentes.A extrema direita realiza um sentido preciso da utopia. A compreensão de que a utopia é negação do que existe e não necessariamente a defesa de um lugar específico. A utopia é por excelência uma negação. Não há nada mais urgente para parte da população brasileira do que negar a sua condição de precarizado cuja representação máxima é a sua dependência do Estado. O fato de que a primeira eleição, após a redemocratização, ter um único candidato de esquerda com pontuação relevante é sinal de que a extrema direita comanda os nossos sonhos porque entendeu que “a verdade é o dom de iludir”.


*** Érico Andrade é psicanalista, doutor em filosofia pela Sorbonne (Paris IV), filósofo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

*** Thais Klein é psicanalista, doutora em Saúde Coletiva (IMS-UERJ) e doutora em Teoria Psicanalítica (PPGTP-UFRJ). Professora adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF-CURO) e professora do programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica (UFRJ).


A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política 
Muryatan Santana Barbosa

Neste ensaio conciso, que combina profundidade filosófica, pesquisa acadêmica e intervenção crítica, Muryatan Barbosa apresenta aos leitores uma teoria política da descolonização — o que ele chama de “descolonização autodeterminada” — como alternativa às abordagens pós-coloniais, decoloniais e contracoloniais que atualmente dominam os debates contemporâneos. Para o autor, a autodeterminação dos países do Sul global só é possível com a construção de macronações autônomas no médio e longo prazo.


Abordando a descolonização como um fenômeno global e de longa duração, o livro examina as experiências americanas e afro-asiáticas. Dividido em duas partes — uma teórica e outra histórica e empírica —, a obra investiga os desafios políticos e conceituais impostos por esse processo, ao mesmo tempo em que busca atualizar e renovar o pensamento anticolonial e anti-imperialista.


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