Cultura inútil | Dedos-duros, batatas, homens bons etc.

Cena de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. Imagem: Divulgação
Por Mouzar Benedito
Durante o macarthismo, período em que houve uma perseguição enorme a quem não fosse de direita, nos Estados Unidos, Charles Chaplin foi uma das vítimas, acusado de ser “comunista”. Wall Disney, Cecil B. de Mille e Gary Cooper foram alguns dos que denunciaram “os vermelhos de Hollywood”. Robert Taylor disse na Comissão de Atividades Antiamericanas: “Se fizessem o que eu quero, todos os comunistas seriam deportados para a URSS ou para qualquer lugar tão impossível para se viver quanto… Charles Chaplin é um indivíduo perigoso…” O ator Adolphe Menjou, famoso na época (chegou a ganhar o Oscar), disse: “São comunistas todas as pessoas que têm ideias antiamericanas. Deveríamos deportar todos os comunistas de Hollywood para o deserto do Texas, ou fuzilá-los no próprio lugar…”
Quando Garrastazu era ditador, no início dos anos 1970, foi elaborado um plano de invadir o Uruguai. Os militares daqui suspeitavam que os Tupamaros tentariam impedir a posse do presidente eleito no país vizinho, Juan Maria Bordaberry, e chegou a haver até a preparação de uma tropa para intervir, com apoio da OEA, segundo o brigadeiro Jorge Luiz Burger. A OEA era totalmente submissa aos Estados Unidos. Bordaberry tomou posse em 1972, governou normalmente até 1973, quando deu um golpe e se tornou ditador.
A escritora Rachel de Queiroz, autora do excelente romance O Quinze, ambientado no Ceará durante a seca de 1915, chegou a ser filiada ao PCB, mas depois se tornou uma direitista militante. Ela não só apoiou o golpe de 1964 como se gabava disso até quando a ditadura estava no auge. O rompimento dela com o PCB era justificável: representantes do partido liam os livros de seus filiados antes que eles fossem publicados e determinavam a mudança de trechos e comportamentos dos personagens, e tentaram impor isso à escritora, que não aceitou. Então, teve razão em sair, mas não em se bandear pra direita. Depois que ninguém (a não ser os bolsonaros da vida) falava bem da ditadura, perto do ano 2000, vi uma entrevista dela, acho que na TV Senado, se gabando de ter participado com um primo, o marechal Castelo Branco, na articulação do golpe e louvando o período ditatorial.
Carlos Drummond de Andrade também rompeu com o PCB por razão semelhante. Depois de várias discordâncias, por motivos diversos, Diógenes Arruda, do Comitê Central do partido, mandou que ele mudasse um verso de um poema para torná-lo apropriado ao “realismo socialista”, e ele recusou. Levou um tapa no rosto e se afastou do PCB.
A escritora Zélia Gattai conta (não me lembro bem, mas acho que foi em Chapéu para viagem) que quando ela e Jorge Amado estavam no exílio na Europa, o marido mandou os originais de um livro para o partido antes de publicar, como era praxe, e um tempo depois recebeu a visita de um enviado do PCB com uma lista de mudanças que ele devia fazer. Mudava o sentido do livro. Segundo ela, ele simplesmente ignorou e publicou como tinha escrito originalmente, e não houve reclamação depois. Lendo isso na época, eu me lembrei dos “sargentos” que são piores do que os oficiais, fazem coisas absurdas com os soldados, coisas que não seriam recomendadas pelos seus superiores, e impõem um monte de merdas. O mundo está cheio de “sargentos” – vi isso em escritórios de empresas, em que os chefetes eram piores que os donos, e até em redações de jornais, revistas e TVs.
O consumo de água depende do clima, das atividades que a pessoa desenvolve e da sua saúde. Mas, em termos gerais, uma pessoa necessita consumir de 2 a 3 litros de água por dia (35 ml por kg de peso corporal – exemplo: quem pesa 70 kg precisa de 2,4 litros por dia). Para uso doméstico (cozinha, higiene e limpeza), o mínimo necessário recomendado pela ONU é de 110 litros por dia, mas há lugares em que cada pessoa dispõe de até 300 litros/dia, enquanto em alguns outros, na África, por exemplo, não chega a 15 litros/dia. No Brasil, cada pessoa dispõe em média de 43.000 metros cúbicos de água por ano, o que dá em média 154 litros por dia, mas as diferenças regionais são enormes. Na Amazônia é muitas vezes mais do que no Sertão do Nordeste. No Kuwait, há em média 27,4 litros por dia; no Catar, 54,8 litros/dia.
A batata, levada da América para a Europa, tornou-se o principal alimento em vários países do velho continente. Na Irlanda, foi introduzida no século XVII, e a dieta principal do povo irlandês passou a ser batata misturada com leite e, muitas vezes, uma porção de repolho. Em 1845, chegou ao país um fungo trazido por navios da América do Norte ao qual as batatas eram muito suscetíveis. A produção desse alimento praticamente zerou. A população passou a se alimentar com uma fraquíssima mistura de fubá com água, ficou muito fraca e logo foi acometida por doenças como o tifo, a cólera, a disenteria e a pneumonia, e morria às centenas. De 1845 a 1850 foram contabilizadas 1.029.552 mortes e a emigração de 1.180.409 pessoas.
Segundo dados históricos, o Império Inca tinha 15 milhões de habitantes quando chegaram os espanhóis, liderados por Francisco Pizarro. Dez anos depois, a população estava reduzida a 1,5 milhão. A maior parte das mortes foi por doenças levadas pelos espanhóis, mas houve também muitas mortes pelas armas.
O espanhol Rodrigo de Borgia, que foi papa com o nome de Alexandre VI, de 1492 a 1503, tinha vários filhos, entre eles, César Borgia e a famosa Lucrécia Borgia. Numa época em que precisou se afastar de Roma e nomear um cardeal para o substituir enquanto estivesse fora, preferiu passar as funções a Lucrécia, única papisa da história. Ela tinha fama de devassa e diziam ter sido amante até do seu próprio irmão César, um sujeito que não tinha limites para conseguir o que queria e que inspirou Maquiavel a escrever o livro O Príncipe. Além dos filhos e da mãe deles, Alexandre Borgia levou outras amantes para o Vaticano. Ele costumava brindar os cardeais levando para eles belas prostitutas, e suas orgias eram famosas. Uma vez, César Borgia promoveu no seu apartamento, no Palácio Apostólico, um evento chamado “Torneio das Prostitutas”, com a participação de 50 das mais famosas trabalhadoras sexuais de Roma, muitos convidados, a irmã Lucrécia e o próprio Papa. Uma das competições desse torneio foi assim: as prostitutas ficaram todas nuas e em posição de cata-cavaco; Lucrécia jogou no chão um monte de castanhas para que elas catassem. A vencedora, que pegou mais castanhas, foi premiada pelo papa com joias e vestidos de seda. Depois partiram para a suruba: quem tivesse relação com o maior número de prostitutas seria premiado também…
Um Ministério da Verdade com a finalidade de manipular a informação, fazendo o povo acreditar em mentiras. Um Ministério da Paz, responsável pela guerra; um Ministério do Amor, responsável pela tortura; um Ministério da Abundância encarregado do racionamento… Sonho de bolosonaristas? Acredito que sim, inspirado no livro “1984”, de George Orwell. Lá por 2016 ou 17 vi que este livro, escrito há dezenas e dezenas de anos, voltou à lista dos mais vendidos. Fiquei surpreso, e logo ouvi bolsonaristas usando a chamada “novilíngua” do livro, dando às palavras um sentido inverso aos reais. “Tá aí”, pensei. Agora sei quem está comprando “1984”, não com a intenção de criticar um sistema ditatorial, como pretendia Orwell, mas com a determinação de pôr em prática um regime semelhante ao narrado por ele. Assim, falam em “democracia” defendendo a ditadura, por exemplo; em honestidade enquanto roubam, e se declaram “pessoas de bem” como qualificação não só deles, mas de todo tipo de gente ruim, como milicianos, grileiros, usuários de trabalho escravo, poluidores do ar, da água e da terra, matadores de indígenas…
*
Os bolsonaristas me fazem lembrar de umas histórias de “antigamente”: ladrões que tinham uma estratégia para a fuga depois de um assalto. Eles corriam como se estivessem perseguindo alguém, gritando “pega ladrão”, como se fossem vítimas. Quem não reparou que tudo quanto é merda que cometem, os bolsonaristas atribuem aos outros e se colocam como puros e mesmo vítimas? No Congresso, discursam atribuindo aos outros as suas safadezas, até esbravejam. Chamam adversários de corruptos (e enchem as mídias sociais com essas acusações) enquanto eles mesmos metem a mão na massa… e pior: dá certo para eles. Seus seguidores podem ter todas as informações sobre suas falcatruas que fanaticamente atribuem aos adversários. Enquanto fazem tudo de ruim, se autoproclamam “pessoas de bem”.
*
Isso de qualificar como “pessoas de bem” tudo quanto é tipo de gente de quem quero distância, porém, não é de hoje. O Brasil tem história, nesse sentido. No Império (e acredito que durante as décadas iniciais da República), chamavam de “homens bons” os que podiam votar e serem votados. Os tais “homens bons” eram brancos “de limpo sangue” (“sem mácula de sangue mouro, negro, judeu etc.”) e não exerciam “ofícios mecânicos”. Alfaiate, barbeiro, boticário, carpinteiro, ferreiro, marceneiro, ourives, pedreiro, músico e mesmo agricultor e comerciante não poderiam ser chamados de “homens bons”. Quer dizer, agricultor e comerciante, no caso, era o pequeno, que tinha que trabalhar. Claro que o grande proprietário (dono de escravos até a abolição) e o comerciante que não pegassem no duro, podiam ser. Comerciante atacadista, que tivesse empregados fazendo tudo, sem ter que trabalhar, estava nessa. O comércio atacadista não era considerado “aviltante”, como o varejista. Enfim, só “nobres” eram “homens bons”…
*
Provérbio russo: “Quando o czar dá um ovo, toma uma galinha.”
***
Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.
Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário