O Brasil adora destruir a democracia para “salvá-la” | Orelha de Marcelo Rubens Paiva para o livro “Meu Antônio”
Fonte: Acervo Boitempo
Por Marcelo Rubens Paiva
Esta é uma história de amor. Isa era uma adolescente feliz de Belém. Estudiosa e vaidosa. Ao passear pela praça num fim de semana, viu um jovem a encarando. Apaixonou-se instantaneamente.
Era um maranhense de uma região muito pobre e estava em Belém alistado na Força Aérea Brasileira. Influenciado pelo pai, lia filosofia. Mas ela só foi saber disso quando reencontrou o rapaz tempos depois, no Clube dos Aliados, numa festa em que ele, por sinal, estava de penetra. Que sorte do amor…
Passaram a se ver com frequência. Namoravam atrás de uma das milhares de mangueiras da cidade, até que ele decretou: “Teu futuro sou eu”. Acertou. O casal atravessou os fatos relevantes da história brasileira, a família cresceu, e ele foi perseguido politicamente, até virar uma lenda: o primeiro grande livreiro da cidade – e comunista. Foi quando o conheci, nos anos 1980.
Depois de 1945, o Brasil tentou voltar ao normal. Getúlio caiu, presos políticos saíram da cadeia e partidos reapareceram. Mas o Brasil nunca faz nada sem tensão. A democracia mal começara e já vinha acompanhada de golpe, paranoia e medo do comunismo.
Foi nesse país confuso que Raimundo Antônio Jinkings cresceu. Um homem que acreditava em livros quase como quem acredita em religião. Ou em salvação. E que anotava numa caderneta os filósofos que lia.
O Partido Comunista Brasileiro tornou-se ilegal de novo em 1947. Bastava pensar diferente para começar a chamar atenção errada. A Guerra Fria chegou às esquinas mais quentes de Belém. Ler Marx podia parecer mais perigoso que carregar um revólver. E Jinkings escolheu justamente o lado dos livros.
Em 1964, os militares tomaram o poder dizendo defender a democracia. O Brasil adora destruir a democracia para “salvá-la”. Depois vieram censura, prisão, tortura, medo. Os militares transformaram o silêncio em política de Estado. Professor virava suspeito. Jornalista virava inimigo. Artista virava ameaça. Jinkings, a essa altura bancário, com carteirinha do PCB, foi aposentado por um infame Ato Institucional. A seu lado, Isa acompanhava e participava, militava e não se queixava.
Foi no meio disso tudo que, em Belém, Jinkings viu uma saída: vender livros. E manteve aberta a Livraria Jinkings. Que não era só uma livraria, era quase um esconderijo emocional. Um lugar aonde as pessoas iam atrás de livros, mas também atrás de coragem. Conversas começavam sobre literatura e terminavam em política.
Ele era apaixonado pela mulher. Daquele jeito antigo, inteiro, sem cinismo. Enquanto o Brasil trocava de moeda, presidente e esperança, ele construía uma família enorme, barulhenta, viva. Filho entrando e saindo da sala, livros espalhados pela casa, calor amazônico, almoço longo, preocupação com dinheiro e conversa política atravessando a madrugada.
A resistência também acontecia ali. Dentro de casa. E está tudo registrado aqui, em bilhetes, cartas de amor e fotos, muitas fotos, de uma família que fala de boca cheia o sobrenome.
Criar muitos filhos durante a ditadura também era uma forma de acreditar no futuro. Continuar amando num país tomado pelo medo era quase um ato político.
Tem gente que muda um país. Jinkings foi um desses caras. Não comandou exército, não virou ministro, não fez discurso em rede nacional. Fez algo talvez mais difícil: manteve vivos a inteligência, a amizade, o amor e a circulação de ideias num Brasil treinado, tantas vezes, para ter medo de pensar. Merece ser lembrado. Especialmente pelo amor da sua vida.
*** Marcelo Rubens Paiva é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de uma extensa lista de romances, além de peças teatrais e roteiros para o cinema e a TV, recebeu prêmios importantes, como Jabuti, Prêmio Shell, Moinho Santista e da Academia Brasileira de Letras. Suas obras foram adaptadas para o cinema, teatro e séries de TV, e traduzidas para o inglês, espanhol, francês, italiano, alemão e tcheco. É autor, entre outros, dos romances Feliz Ano Velho (1982) — com mais e 1,5 milhão de exemplares vendidos —, Blecaute (1986), Ainda Estou Aqui (2015), Meninos em Fúria (2016), em parceria com Clemente Tadeu Nascimento e Do começo ao fim (2022). Em 2024, Ainda estou aqui ganhou adaptação para o cinema, com direção de Walter Salles, e foi vencedor do prêmio de melhor roteiro na 81ª edição do Festival de Veneza. É pai de Joaquim e Sebastião, e vive em São Paulo.
CONHEÇA A OBRA
Meu Antônio, de Isa Jinkings
Líder sindical e partidário, articulista na imprensa, militante socialista, livreiro, pai de cinco filhos, companheiro amoroso. Essas e outras facetas de Raimundo Jinkings estão reunidas em Meu Antônio, de Isa Jinkings, uma homenagem em textos e imagens da professora e também militante à trajetória dessa destacada figura do comunismo brasileiro e dos universos político e cultural paraenses.
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A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política
Muryatan Santana Barbosa
Neste ensaio conciso, que combina profundidade filosófica, pesquisa acadêmica e intervenção crítica, Muryatan Barbosa apresenta aos leitores uma teoria política da descolonização — o que ele chama de “descolonização autodeterminada” — como alternativa às abordagens pós-coloniais, decoloniais e contracoloniais que atualmente dominam os debates contemporâneos. Para o autor, a autodeterminação dos países do Sul global só é possível com a construção de macronações autônomas no médio e longo prazo.

Abordando a descolonização como um fenômeno global e de longa duração, o livro examina as experiências americanas e afro-asiáticas. Dividido em duas partes — uma teórica e outra histórica e empírica —, a obra investiga os desafios políticos e conceituais impostos por esse processo, ao mesmo tempo em que busca atualizar e renovar o pensamento anticolonial e anti-imperialista.
Com uma forte trajetória intelectual que trafega entre a pesquisa acadêmica e o debate político, Muryatan oferece em A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, uma contribuição original às discussões contemporâneas sobre colonialismo, emancipação e teoria política.

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