Trend Anos 80: “Podemos lembrar disso para você no atacado”

Fonte: Pixabay
Por Walter Lippold
Em uma novela de ficção científica, que deu origem aos filmes Vingador do Futuro (Total Recall, 1990 e a nova versão de 2012), Philip. K. Dick imaginou a possibilidade de um turismo com memórias artificiais. Em Podemos Lembrar disso para você no atacado (We Can Remember It for You Wholesale, 1966), Douglas Quaid é um trabalhador que sonha em viajar para a colônia de Marte, mas obviamente não possui os recursos financeiros para isso. O que lhe resta é pagar uma corporação, a Rekall, que cria e insere memórias sintéticas de viagens que nunca foram feitas, tendo o cliente as lembranças de ir a lugares onde nunca realmente pisou. A questão da memória é também o que separa humanos de replicantes no filme Blade Runner (1982), oriundo de outro texto de K. Dick, o romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968).
A “volta aos anos” 80, modas retrô, revival, retromania 80s está em voga. A estética anos 80 de séries como Stranger Things (2016) e Cobra Kai (2018), atraiu naturalmente as quarentonas e cinquentões, mas também fez sucesso com os jovens. Stranger Things é um grande experimento de memória afetiva, feita sob demanda, com base em uso de nossos dados capturados no streamming Netflix, onde até elencos são montados levando o big data. O uso de inteligência artificial para sugar homenagear filmes famosos dos anos 80 e criar uma papinha foi um estrondo. Eu mesmo pude ver Stranger Things e Cobra Kai com minha filha adolescente, e ela teve que me aguentar comentando “isto é de Gonnies, isso é de E.T., isso é de Conta Comigo, aqui é do filme Scanners, isto é do jogo eletrônico Half Life“. Antes das referidas séries, lembro também da viralização de uma estética synth wave que foi espalhada com ajuda do filme Driver (2011) e memes na internet, sendo um dos mais conhecidos o hackerman saído do filme Kung Fury (2015). Eu nasci cravado em 1980. Fui bombardeado por enlatados yanques da Era Reagan, via Bradock e Rambo, Comando Delta, mas também vi coisa fina, como Blade Runner, filme que me marcou muito. Fui influenciado pela cena punk e cyberpunk, pela década perdida, década das distopias cibernéticas.
Foto: Divulgação
A recente trend dos anos 80, com uso de IA generativa de imagem, principalmente com chatGPT (OpenAI) ou com nano banana pro embutido no Gemini (Alphabet Google), possibilitou a emulação de memórias plasmadas sob a forma de imagem sintética, em uma projeção do passado controlada por vieses algorítmicos. A IA generativa é uma máquina de ideologia e máquina de revisionismo histórico, forjando cenas “verossímeis” e textos “eloquentes” sobre qualquer absurdo que se quiser fabricar. A IA de Elon Musk, o Grok, nos permite sem censura, gerar vídeos a partir de imagens estáticas, inclusive podemos colocar a configuração spicy, para “apimentar”, tornar “sensual”. Em um artigo chamado Pele Negra, Alucinações Brancas: capitalismo, IA e racialização, eu e Deivison Faustino fizemos a experimentação de fabricar cenas “históricas” com IA generativa e como resultado tivemos um Fanon brancão caminhando nas ruas das Casbah, bairro de Argel.
Na verdade, a trend parte da propaganda de lançamento do ChatGPT-6 Astra, que começa em 1979, com uma imagem retro, um usuário tentando usar uma interface de edição de imagens, com um controle remoto, muito rudimentar ainda. Corte. A propaganda nos leva para 2026 com uma interface de voz com IA agêntica, azeitando o workflow otimizado do editor inteirado no uso de chatGPT-6 Astra.

Em 8 de setembro de 2026 também foi lançado o chatGPT imagens 2.5, melhorando a edição e resultados da IA generativa.
Sim, você serviu de nó difusor no guerrilla marketing da OpenAi. Mas se não se sinta mal, continue alimentando estas trends, continue transformando a vida de seus filhos em um Show de Truman, como alguns tecnofatalistas dizem, não há o que fazer, está tudo dado, está tudo dominado, não faz a menor diferença. Será? Vamos analisar alguns dados e informações sobre as trends mais famosas.
Recolheram suas imagens, isso não é novidade. Já é feito nas redes “sociais”, plataformas, bancos de vigilantismo digital. No Tik Tok, as trends oitentistas vão além: ocorre a digitalização em massa de fotos antigas, fotos reveladas oriundas de negativos ASA 100 ou 200, de 12, 24 ou 36 poses, nas melancólicas trends dos amigos que morreram e a “nunca volte no lugar onde você foi feliz”, com fotos antigas de casas comparando com novas fotos da mesma casa, só que em ruínas, algo muito benjaminiano, a ruína como encarnação do tempo passando. Aqui a IA se transforma em um Moloch devorador de semblantes e de fotos antigas, assim como o Projeto Panama da Anthropic corta as lombadas de livros comprados a quilo, em sebos e alfarrabios. Para logo escanear todo seu conteúdo, indo a obra destruída para lixo, logo em seguida.
Alertar sim, mas não basta crucificar somente os participantes das trends, que são um sintoma de algo muito mais profundo e arraigado, a hiper-realidade da cultura da exposição de si e de seus filhos. Shareting, ou seja, transformar a vida das crianças num reality show, e o chamado oversharing são a tônica que mata a sede do modelo de negócios vigente, com esfolamento de nossa subjetividade, de nossa experiência em prol da formação de psicoperfis e anúncios perfilados e segmentados. Os tecnofatalistas nos criticam: “tá tudo dominado” “hipocrisia criticar a trend”, “eles já tem tudo nosso”, e por um lado estão corretos, não é fazer a trend ou não que vai mudar o controle das big techs sobre nossas vidas. Longe de um moralismo furado, vamos aos números: segundo dados relatados pelo vice-presidente do Gemini, Google Labs e AI Studio, a trend de miniaturas 3D hiper-realistas do Funko Pop criou 200 milhões de gerações de imagens e atraiu 10 milhões de novos usuários para a IA Gemini. Em menos de um mês, a trend gerou 5 bilhões de imagens e atraiu mais usuários chegando a 13 milhões, segundo a Reuters. Outras trends famosas: em 2025 a das imagens do Studio Ghibli no chatGPT, em março abril de 2025, action figures, a trend que fazia você virar um bonequinho dentro da embalagem, abraçar o eu mais jovem, Barbie, etc. A cada trend, bilhões de imagens criadas e milhões de novos usuários para o serviço da big tech.
Não podemos esquecer que os Modelos de IA da OpenAi servem ao Pentágono e a Alphabet Google serve ao Projeto Nimbus que viabiliza as nuvens que garantem o funcionamento do aparato de vigilantismo digital israelense e o uso de IAs no genocídio em Gaza, ou seja, toda a infraestrutra digital digital serve a fins militares via OpenAi e Palantir, Google e Anthropic. Então há problema sim em alimentar com novas fotos, principalmente fotos antigas, nestas “brincadeiras”. Mas as trends não estão sozinhas, são mais um elemento nas correlações entre colonialismo digital e capitalismo, sendo a graxa nas engrenagens de esfolamento da subjetividade e mecanização da imaginação.
As big techs se alinharam abertamente ao trumpismo e isso me leva a lembrar do caso Cambridge Analytica em 2013, quando os dados de 80 milhões de usuários foram raspados por um quiz “inocente”, um teste de personalidade. “É, mas já está tudo nas mãos deles”. Então porque eles insistem nesta “pescaria de otários” (phishing)? As trends de IA generativa são a versão atualizada e mais eficiente do quiz de personalidade da Cambridge Analytica, quando milhões de pessoas enviam voluntariamente fotos de rosto em alta resolução, fotos antigas de infância, imagens das crianças na IA que mostra como seu filho será quando crescer e ambientes domésticos.
Vivemos tempos de acumulação primitiva de dados não circunscrita a trends ou jogos como PokemonGo, nossos dados e biodados são sugados pelas redes proprietárias, pelas plataformas e algoritmos, pela internet das coisas, dispositivos smart, weareables como óculos meta, smartwatch e smart anéis que medem pulsação de quantas horas você dormiu.
As imagens geradas pela trend treinaram modelos e também estão disponíveis nos resultados de motores de busca, criando uma inundacão de imagens sintéticas, processo desastroso em tempos de iletramento digital. Há também a busca de otimização simulacral da auto imagem. Walter Ego, tipinho inútil criado pelo cartunista Angeli encarnava a egolatria yuppie dos anos 80. Assim, EGO se colocava em todos os cenários famosos e históricos: pisou na lua em 1969 com Armstrong, esteve na Sierra Maestra com os irmãos Castro e Che Guevara, foi o quinto Beatle, etc. Talvez, seja ainda um personagem interessante para pensar nossa atuação na internet, onde somos todos Walters Eguinhos, precisamos estar em tudo, precisamos fazer parte de tudo, precisamos mostrar que malhamos, corremos, lemos, viajamos e comemos bem, precisamos mostrar como nossos filhos são bonitos e espertos. Assim como a trend anos 80 entregou projeções sintéticas do passado pausterizadas, agora as IAs generativas de imagem são usadas para produção de materiais didáticos, como todas contradições desta reprodutibilidade técnica sintética.
*** Walter Lippold é doutor em história e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal Fluminense e do Núcleo Reflexos de Palmares da Universidade Federal de São Paulo. É professor do Curso Uniafro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador de colonialismo digital, história da tecnologia, cibercultura, hacktivismo, da obra de Frantz Fanon e da história da Argélia. Pela Boitempo, publicou Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana, com Deivison Faustino.
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A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política
Muryatan Santana Barbosa
Neste ensaio conciso, que combina profundidade filosófica, pesquisa acadêmica e intervenção crítica, Muryatan Barbosa apresenta aos leitores uma teoria política da descolonização — o que ele chama de “descolonização autodeterminada” — como alternativa às abordagens pós-coloniais, decoloniais e contracoloniais que atualmente dominam os debates contemporâneos. Para o autor, a autodeterminação dos países do Sul global só é possível com a construção de macronações autônomas no médio e longo prazo.

Abordando a descolonização como um fenômeno global e de longa duração, o livro examina as experiências americanas e afro-asiáticas. Dividido em duas partes — uma teórica e outra histórica e empírica —, a obra investiga os desafios políticos e conceituais impostos por esse processo, ao mesmo tempo em que busca atualizar e renovar o pensamento anticolonial e anti-imperialista.
Com uma forte trajetória intelectual que trafega entre a pesquisa acadêmica e o debate político, Muryatan oferece em A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, uma contribuição original às discussões contemporâneas sobre colonialismo, emancipação e teoria política.

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