O mito da Argentina branca morre na pele parda de Milo J

Fonte: Luma Ruiz (@lumachiararuiz)

Por Camila Rodrigues

Terça-feira, quinze de setembro. São Paulo está debaixo de chuva há duas semanas e a temperatura é cruel para quem está na rua, mesmo assim, os fãs estão em fila desde o amanhecer. Independentemente das roupas molhadas, todos se organizam para criar projetos, distribuir folhas e assinar bandeiras. O português domina a comunicação entre as pessoas em espera, e apesar de haver diversidade nas nacionalidades latino-americanas ali presentes, se engana quem pensa que brasileiros não são maioria.

A emoção cresce após a abertura dos portões, e basta uma mudança no palco antes do show começar para que os gritos comecem a ecoar em antecipação à chegada de Milo J. Brasileiros usam estampas e gorros andinos, ou tons de marrom em homenagem à mensagem do disco. Talvez essa seja a primeira vez em que, entre um cantor argentino e um público brasileiro, o sentimento mais prevalecente seja a identificação cultural e política.

“A própria existência do Milo, seu sucesso e visibilidade obrigam todos a olharem para uma população “escondida” internamente na Argentina e muitas vezes desconhecida fora do país. Ele sempre faz questão de reafirmar a identidade marrom, e à medida que ele se torna um artista impossível de ser ignorado, as pautas que ele levanta também… Com o Brasil, especificamente, isso se torna mais relevante dada a rivalidade histórica entre os países que, infelizmente, às vezes ultrapassa o futebol. Artistas como o Milo fazem o público brasileiro enxergar os argentinos cada vez mais como nossos verdadeiros “hermanos” (@miloj_brasil, primeiro fã-clube brasileiro de Milo J).

Os shows de Milo J em São Paulo, por coincidência ou não, foram trazidos pelo Festival MUCHO!, que nasceu da união entre os diretores Hernan Halak, da Argentina, e Felipe França Gonzalez, brasileiro que para sua pós-graduação (na Argentina) criou o Difusa Fronteira. Os dois países de mais influência para a criação do projeto eram também os dois países mais difíceis de se unir em questões culturais. Quase dez anos após sua criação, ao trazer os primeiros shows solos de Milo J no Brasil, o festival sucedeu em seu plano inicial – unir as culturas separadas por barreiras de ignorância, mesmo que por duas noites apenas.

O ato de abertura escolhido foi realizado por Nelson D, um artista indígena do Norte brasileiro, que iniciou seu set saudando Abya Yala e seus povos, e terminou exigindo a demarcação de terras indígenas. Talvez por essa conexão pré-colombiana, que antecede rivalidades, a fronteira entre “nós” e “eles” se desfez em meio às músicas e gritos de resistência originária. Na grade em frente ao palco, a bandeira do Brasil está ao lado das cores que tanto repudia, mas as bandeiras já não parecem rivais para quem está presente.

Há décadas, no Brasil se supõe que não há diálogo com a Argentina e seu povo branco, que são continuadores do racismo implementado por seus descendentes diretos da Europa. Falharam no próprio significado do ser latino-americano, pois não são mestiços, e se esquecem de seu passado originário. Após o futebol aumentar a tensão, a América Latina se dividiu entre países exaustos do comportamento racista argentino, e argentinos em retorno os acusando de uma campanha contra sua nação.

Apesar de torcidas esportivas demonstrarem os sentimentos mais efervescentes entre brasileiros e argentinos, muitos se enganam ao pensar que a rivalidade e o racismo nascem no futebol. O senso mais creditado é que a disputa nasce entre Portugal e Espanha no século XIX com guerras sangrentas por territórios que iniciaram o desdém de uma população pela outra, e a necessidade de se provar diferente e melhor. Já o racismo argentino se populariza durante a Guerra do Paraguai, quando soldados da Argentina passam a apelidar soldados brasileiros (em sua maioria negros escravizados) de “macaquitos”, apelido que ecoa até hoje em estádios e nas ruas. O esporte veio como o maior e mais frequente contato entre as nações, e a rivalidade natural entre times, atrelada à identidade nacional para ambos, piorou pelo contexto histórico.

É inegável, porém, que existe um problema. O racismo que vem da Argentina é parte da estrutura social de todo país latino-americano, seu ódio racial e embranquecimento histórico não são exclusividade, mas o que os diferencia é a falta de políticas públicas antirracistas, e o mito de que suas peles são alvas e seus indígenas e negros estão extintos ou são imigrantes invasores – diferente do Brasil, onde há sangue e cara mestiça, e o racismo é reflexo de ódio próprio, pois todos aqui tem uma gota parda mas semeiam colorismo.

Mais importante, o racismo da Argentina é internalizado e mente sobre sua identidade, e é nessa lacuna que Milo J foi capaz de cativar seu público “rival”.

O rapper vem das periferias de Buenos Aires, autointitulado ‘morocho color lodo’ (moreno cor de barro), e chegou ao Brasil com a turnê de seu novo disco, La Vida Era Más Corta. Com a repercussão global de seu projeto e suas falas que reafirmam não apenas sua arte, mas seu país como marrons, o artista rompeu o véu da propaganda e espalhou ao resto do continente que a Argentina, branca, nunca foi.

O movimento da Argentina Marrom começou há anos, como uma forma de resistência à propaganda eurocêntrica do país, e ao termo “marrom”, usado de forma pejorativa contra pessoas pardas, indígenas, de baixa classe social ou periféricas. Apesar de não ter sido criado pelo artista, o movimento se popularizou e explodiu para o resto do continente após suas entrevistas e declarações nos últimos meses. Essas exatas declarações de identidade que o colocaram no radar cultural e político de outros países, são as mesmas que o fizeram sofrer ataques racistas de argentinos que ainda se recusam a enxergar seu país como pardo.

É importante relembrar que o momento político da Argentina é débil e crítico, e a nação é comandada por um presidente fascista com políticas liberais de direita, que impulsiona a parte da população que deseja eurocentrar mais ainda o país. Comentários em redes sociais vindo da parte argentina que, sim, é racista em grande escala, argumentam que Milo J não é um ‘argentino puro’. O chamam de Boliviano ou Peruano, de forma pejorativa, sem perceber que estão fazendo parte da exata amnésia sistemática que o álbum representa, e dizem que o rapper ‘marrom’ não representa o país.

Para muitos, ver uma foto de Milo J com “A Argentina é marrom” na legenda foi o primeiro motivo para prestar atenção no que ele dizia, e para outros, foi motivo de desdém e repulsa por seu discurso que agride a faceta branca do país. Seu último álbum é profundamente inspirado pelo folclore argentino, que por sua vez é inspirado na cultura indígena e afro-latina. Um aviso de que sim, a Argentina sobrevive, mesmo que seu plano de embranquecimento tenha funcionado mais do que em qualquer outra nação na região.

Giovana Arantes, organizadora de um projeto que homenageia a origem marrom sul-americana durante o show de Milo J, explica qual a sua motivação de levar folhas em tom terroso para distribuir no show. Seu ato é um breve exemplo da nova visão brasileira sobre a Argentina.

“A Argentina e o Brasil carregam uma rivalidade cultural que atravessa gerações, mas também carregam histórias de colonização, apagamento e resistência que dialogam entre si. Quando levantarmos, simultaneamente, folhas marrons no show, não é uma tentativa de sermos argentinos, nem de dizer que nossas histórias são iguais. É uma forma de dizer: “eu entendo o que você está dizendo. Eu reconheço a importância disso. Isso também me atravessa.”

Em conversa com o público de Milo J, que também estava presente para o projeto, algumas perguntas foram feitas individualmente, mas suas respostas representam uma coletividade que se espalha mesmo em opiniões pessoais. Em maioria, afirmam que sua visão da Argentina mudou após conhecer o artista, e apesar de episódios de racismo ainda serem um ponto de apreensão e ressalvas, acreditam que a representação de uma Argentina parda que se parece com o Brasil pode vir a ser – ou já é – um caminho para o fim da rivalidade. Apoiam que o diálogo entre nações deve acontecer, mais cedo do que nunca.

“A partir da forma que os países foram colonizados e como tentaram apagar a cultura de ambos, saber ouvir como esse silenciamento de cultura aconteceu de uma forma mais forte na Argentina, faz com que tenha uma reflexão do comportamento atual.” – Respondeu uma fã, ao ser perguntada sobre modos em que se torna possível a comunicação entre os países.

Há quem discorde, e diga que ainda é difícil enxergar os argentinos de forma diferente, em especial por termos passado recentemente por múltiplos cenários de agressão racial por parte da torcida argentina durante a copa.

“Sim e não, sim porque passei a consumir mais das expressões artísticas da Argentina, as quais gostei muito, e vi a diversidade que o país tem, assim como nós, pois é muito fácil esquecer disso, uma vez que eles mesmo pregam ser “a Europa na América Latina”; Não pela postura de sempre, sem qualquer mudança, dos episódios de racismo e outras violências no meio das torcidas de futebol quando jogam com outros países, fato muito noticiado na copa do mundo e Sul-americana e Libertadores.” – Respondeu outro fã ao ser perguntado se sua visão sobre a Argentina havia mudado.

O racismo sempre retorna como ferida aberta, é uma presença permanente no debate.

Na faixa ‘Recordé’ de seu novo disco, ao samplear um canto da Jurema Sagrada com cânticos indígenas e representação de comunidades originárias, Milo J traz não apenas versões do que desconhecemos sobre seu país, mas o que também desconhecemos do nosso. Religiões de matriz indígena e africana são perseguidas no Brasil, e não é apenas a Argentina que falha em recordar seu sangue. Com Nelson D usando seu momento no palco para lutar pela resistência indígena brasileira, e denunciar o que os povos aqui sofrem, a reflexão também deve ser exercida quando abordamos o racismo no Brasil. Aqui também sofremos de apagamento, e somos mais parecidos com argentinos do que muitos ousariam admitir.

O Brasil precisa, antes de tudo, reconhecer seu próprio problema de identidade, e na Argentina, com grande urgência, é necessário que a cultura racista seja criminalizada. Em diferentes graus, ambos representam diferentes tons do embranquecimento e eurocentrismo implantado em latinos. Há ainda muito que fazer se desejamos que mudanças estruturais ocorram, mas o primeiro passo para o caminho de uma reconciliação foi dado, e talvez seja irreversível para quem o presenciou.

Fonte: Luma Ruiz (@lumachiararuiz)

Em poucos dias de apresentações e entrevistas em solo brasileiro, Milo J conquistou o público ao se unir com vozes de grande importância da cultura nacional, como João Gomes e MC Hariel, artistas respeitados que dialogam diretamente com uma juventude que pode desmantelar a propaganda de ódio com que foram criados.

A música é fundamental para o brasileiro, não apenas porque é parte imutável de nossa cultura, mas também porque em épocas de crise política e social, a música brasileira foi capaz de contornar a repressão e mobilizar movimentos sociais. Artistas como Gilberto Gil, Rita Lee e Chico Buarque se tornaram clássicos mundiais após usarem a música como resistência à censura da ditadura militar. Quando Bolsonaro perdeu as eleições presidenciais para Lula em 2022, as redes sociais e passeatas foram tomadas por músicas do MPB, em especial, ‘Apesar de Você’.

Brasileiros conhecem o próprio país e o mundo através da música, e é nesse ponto que a arte de Milo J toca a parte do Brasil que está o conhecendo. Nossa única barreira quando se trata da musicalidade, é talvez a mais mencionada quando falamos de Brasil e América Latina: o idioma.

Natalie Menezes, professora de espanhol que apresentou Milo J aos seus alunos há meses, e pôde dividir a experiência do show com algum deles, fala um pouco sobre o papel de uma professora de idiomas na difusão da cultura latino-americana.

“Aprender um idioma vai muito além de estudar gramática, é conviver com ele na prática. E o que pode ser mais cotidiano do que ouvir música? Como professora, acho que meu papel não é apresentar uma música com uma mensagem política ou social e dizer ao aluno o que ele deve pensar sobre ela. É dar ferramentas para que ele consiga entender o que está sendo dito, conhecer o contexto por trás daquela obra, fazer perguntas e construir a própria leitura. Se vamos aprender espanhol por meio da música, que seja também com músicas que nos façam refletir, que nos conectem com realidades diferentes das nossas e que nos obriguem, de vez em quando, a furar a própria bolha. Aprender outra língua também é isso: descobrir que existem outras formas de enxergar e viver o mundo.”

A esperança é que com o crescimento da cultura hispânica no Brasil, o espanhol seja mais valorizado. Aprendemos inglês nas escolas para nos comunicar com países distantes que por muitas vezes nos perseguem e menosprezam, mas não aprendemos o espanhol que nos cerca e representa parte da nossa própria identidade continental. Imigrantes de outros países latinos chegam ao Brasil e aprendem o português, mas temos dificuldade em fazer o mesmo. Quando aprendermos o idioma de nossos parentes mais próximos, a comunicação para resolver problemas culturais e sistêmicos se tornará mais fácil.

Após o fim do show, ainda tomada pela emoção de presenciar a comunhão entre brasileiros, argentinos e latinos das mais variadas nacionalidades, encontrei uma peça chave ao deixar a parte interna da Audio Club. Felipe Solari, que acompanhou a vinda de Milo J ao Brasil, e até o presenteou com uma caixa de erva mate durante a visita ao Podpah, estava animosamente conversando com pessoas que o reconheciam. Usando sua bela jaqueta da seleção Argentina, o colunista, filho de argentinos, diz que acredita no poder de Milo J em impulsionar o diálogo entre as populações, e aborda o tema do racismo argentino como uma verdade, mas não absoluta.

“O Milo, ele vem para equalizar um pouco isso tudo. A música dele é muito forte e faz o brasileiro entender um pouco mais do argentino. Tem muito argentino racista, principalmente na época do futebol? Tem. Agora, tem uma Argentina marrom, que é a que o Milo traz, que ela é muito pertencente. Se você vai pra Argentina, a Argentina é marrom. Ela é marrom… Só que o argentino como um todo, ele tende a levar pra um lado que: “Não, a Argentina marrom não pertence a nós”. Mas pertence, e o Milo é o cara que traz esse simbolismo, é o cara que pisa nesse lugar… Ele faz o brasileiro entender a Argentina como um todo e eu tenho certeza que o Milo também sofre por ver argentinos sendo racistas com brasileiros… Porque quem acha que nenhum argentino se incomoda com racismo tá equivocado. O argentino se incomoda muito com racismo, mas é algo que tá lá. E o Milo vem pra combater.”

Existem duas Argentinas que batalham para vencer a guerra da identidade, e o resto do continente tenta entender e descobrir em qual delas acreditar. Há exaustão e hesitação para latinos que sofrem racismo da Argentina branca, mas também há empatia e identificação para aqueles que agora conhecem sua face marrom. Um país não é apenas um grupo, alto e insistente, de pessoas, mas também não se pode ser ignorado que suas políticas falham em resolver o problema, em especial com seus próprios cidadãos.

A conversa está apenas começando, assim como a carreira de Milo J no Brasil. É impossível prever o que sua arte fará no país, e quem mais irá chegar para complementar o movimento, mas é possível medir a grandeza do que já fez em quem o conheceu. Parte do Brasil aguarda ansiosamente a volta do nosso mais novo ‘hermano’, Milo J. Lá ou cá, há quem resista e grite que na América Latina somos todos marrons.

**** Camila Rodrigues é é escritora e pesquisadora independente, natural do interior de São Paulo, filha de uma família migrante cearense. Aos 16 anos, após interromper os estudos, construiu sua formação em história e ciência política por meio de cursos públicos e de coletivos socialistas, com foco na geopolítica do Sul Global. Autodidata em inglês e espanhol, criou, em 2024, um portal para traduzir notícias do Oriente Médio, que logo se tornou um jornal independente e que, atualmente, vem sendo continuado por meio de seu coletivo, El Pepe.


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