Eleições de 2026, o Impasse Brasileiro: André Singer

Por Ronaldo Tadeu de Souza

Às vésperas da décima eleição da Nova República e em meio ao mais sério escândalo envolvendo o sistema financeiro e a classe política nacional, qual o cenário de conjunto, a curto e médio prazo, em que o Brasil se encontra? É esse o tema do último livro de André Singer, Impasse – o Brasil diante da Onda Reacionária (Companhia das Letras). Professor titular do departamento de ciência política da USP, Singer se tornou, desde que deixou a comunicação oficial do governo Lula em 2007, o principal intelectual da esquerda brasileira: essa é a avaliação de Perry Anderson, a autoridade editorial imponente (que sucedeu a Stuart Hall nos anos 1960), ao lado de Tariq Ali e Susan Watkins, da prestigiada revista inglesa New Left Review.

Obstinado na compreensão do significado das primeiras administrações de esquerda do Estado brasileiro (2002-2016 e 2022-2026), Singer construiu o que podemos considerar como uma tetralogia [Os Sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador, As Contradições do Lulismo: a que Ponto Chegamos?, O Lulismo em Crise: Um quebra-cabeça do período Dilma (2011-2016), e o recém-lançado Impasse – o Brasil Diante da Onda Reacionária]. Em todos eles, o eixo analítico é o conceito de Lulismo. Passando por momentos de sucesso, como no segundo mandato do PT, e por instabilidades que terminaram, ao menos uma delas, no impeachment (no diagnóstico da esquerda, e também de Singer, um golpe parlamentar) de Dilma Rousseff em 2016, o Lulismo organizou as linhas interpretativas acerca dos governos de Lula e do petismo. A obra de Singer ainda precisará passar por um balanço crítico, teórico, intelectual e político no debate público e acadêmico. Aqui não é o local adequado para tal.

Impasse é composto por três capítulos, uma introdução e uma conclusão. Em pouco mais de 100 páginas, Singer tem a proeza de analisar em detalhe os problemas mais complexos e urgentes da política brasileira a partir da ascensão da extrema-direita, particularmente, do bolsonarismo. Para ele, “o Planalto permanece em mãos democráticas, [mas] a insurgência conservadora” deseja “remover a Carta de 1988”. Com isto, após o sucesso do Lulismo, que estava assentado no tripé “Bolsa Família, valorização do salário mínimo e crédito consignado”, os espaços de poder mais importantes do país passam a ser ocupados pela “extrema direita, ponta de lança do reacionarismo”.

Mais do que isso. Mimetizando o trumpismo, Bolsonaro e sua coorte, para Singer, não são democratas. O que coloca em perigo real a democracia, mesmo essa sendo definida em termos minimalistas, pois é a partir dos cientistas políticos Robert Dahl e Adam Przeworski, portanto, por “critérios procedimentais”, que se lê aquela em Impasse.

Seguindo de certo modo a Escola Paulista de Sociologia, Impasse recorre a Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil, livre-docência de Fernando Henrique Cardoso transformada em livro nos anos 1960. Ao analisar o empresariado nacional, Fernando Henrique os dividiu em dois grupos. Os que tinham temperamento estatal-conservador (tradicionais) e os que estavam propensos a aderir ao capital externo (modernos); na reinterpretação de Singer, os primeiros, com a “onda reacionária […] despertariam [para] a direita” nos pós-Junho de 2013, enquanto os segundos, que estavam predispostos a articularem-se ao comércio internacional, deram continuidade no que ele nomeia de “burguesia cosmopolita”. Veremos adiante que a Frente Ampla, que elegeu Lula em 2022, foi composta, também, por esse grupo.

Os leitores irão notar que parte do nosso impasse começa, pontualmente, quando o PSDB deixa de ser o partido que representava “os estratos médios”; de 1998 a 2016, sustenta Singer, “a direita permaneceu latente”, dada a força social e institucional do tucanato. Há um “saudosismo” difuso que perpassa este e outros pontos específicos da obra. Na página 42 destaca-se a seguinte passagem: “apesar do programa antioperário e privatizante, FHC manteve o compromisso democrático de alternância do poder. De maneira complementar, dentro do PT o espírito do Anhembi suplantou em 2002 o do Sion e seus valores fundacionais […], o edifício rachou quando o centro decidiu pela derrubada de Rousseff, rasgando a Carta que organizava o convívio”. Talvez nem mesmo os cosmopolitas soubessem eles mesmos serem tão adeptos do jogo harmônico democrático. Dessa compreensão dependem as formulações de Singer acerca da Frente Ampla.

Seguindo o estilo de escrita experimental sobre conjunturas que caracterizou a tradição marxista desde O 18 Brumário de Luís Bonaparte – é certo que menos ensaístico que Os Sentidos do LulismoImpasse reconstrói, antes do retorno de Lula para seu terceiro mandato, os momentos fundamentais da reorganização da direita intransigente. Singer compara o grupo bolsonarista aos Confederados, grupo escravagista do sul dos Estados Unidos na Guerra Civil de 1864, que defendia a permanência do que Sylvia Wynter chamou de plantation (conceito usado por ele); pois o “meteoro agro-militar-religioso, cujo projeto [é] transformar o Brasil em uma grande fazenda de sofá, frango, uma fazenda a céu aberto […] deixou o bolsonarismo robusto”.

A partir daí, a sequência dos fatos é angustiante para a democracia de 1988: alinhamento à direita dos governadores dos três principais estados da federação, “São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais”; adesão irredutível dos “capitalistas de serviços e da construção civil […] proprietários de redes de ensino de línguas e restaurantes, locadoras de automóveis, academias de ginástica, lojas de material esportivo […], agentes do mercado financeiro”. As forças armadas acompanharam o movimento. Sérgio Etchegoyen, sobrenome com ancestralidade e serviços prestados no Exército Brasileiro, e Braga Neto, “depois candidato bolsonarista a vice-presidente da República”, foram peças fundamentais, afirma Singer, “na greve dos caminhoneiros e na intervenção federal do Rio”. Com efeito, os “integrantes das Forças Armadas admitiram ter aderido em massa a Bolsonaro”. O quadro para o Lulismo agravou-se com a bolsonarização das polícias militares nos estados e, em menor medida, da polícia federal. Conformou-se, assim, a mais ampla corrente antiesquerdista da nossa história.

A argúcia do cientista político da USP é estabelecer uma intrincada dialética constitutiva da difícil situação brasileira concernente à democracia. Neste aspecto, a Frente Ampla é “veneno-remédio”. Mas isto não significa que Singer a tenha recusado.

A questão assenta-se no seguinte. O Lulismo configurou-se como uma força; foi ele que conseguiu enfrentar as tentativas de avanço da direita. No período de 2002 a 2014, e particularmente de 2005-2006 em diante, quando aquele se forma, a reação conservadora “se calou”. A resiliência do Lulismo se estendeu mesmo após a crise de 2015-2016, no segundo governo de Dilma Rousseff, quando a Lava-Jato e Sérgio Moro pautavam diariamente o noticiário político; em uma frase lapidar, Singer sustenta que “os de menor renda sempre rejeitaram Bolsonaro”. Com a pandemia da Covid-19 em 2020, a situação começava a mudar. Aproveitando a criação do “auxílio emergencial de seiscentos reais, criado pelo Congresso”, o bolsonarismo catalisou para si a medida. Assim, “entre dezembro de 2019 e dezembro de 2020”, o capitão teve a aprovação aumentada de “22% para 37%”. Nas democracias representativas liberais no Ocidente, os elementos de distinção (Bernard Manin) dos que participam das esferas mais altas do poder têm amplo alcance. Pode destruir políticos, pode favorecer políticos. O executivo bolsonarista, a princípio contrário ao programa de salvação dos vulneráveis, percebeu a janela aberta pelo Congresso – esse sempre com avaliação negativa da população – e apropriou-se da política pública. “A população atribuiu ao mandatário a enorme abrangência do benefício […] e o importante valor pago”. O impasse ganharia maior densidade, analisa Singer, às vésperas das eleições de 2022. Além de criar o Auxílio Brasil, em substituição ao Bolsa Família, no valor de quatrocentos reais, passando “em agosto […] para seiscentos” e atingindo em setembro de 2022 “21 milhões de famílias”, o cinismo de Bolsonaro era tamanho: “o ex-paraquedista, agora fantasiado de Robin Wood, prometeu um décimo terceiro para mulheres inscritas no programa em 2022”. A base do Lulismo estava se deslocando. O rápido realinhamento para a direita exigia uma resposta.

Qual era a saída para a democracia brasileira na iminência de um segundo mandato de Jair Bolsonaro? Aos Confederados, “Impasse” mobiliza a noção de Concertación. Singer se inspira, com a imaginação que lhe é peculiar entre cientistas políticos sempre afeitos a métodos e modelos estatísticos, na experiência da “coligação chilena pós-Augusto Pinochet entre socialistas e democratas-cristãos”. Fundamentalmente, Singer argumenta que “bolsonarismo e lulismo estiveram no centro das respectivas coalizões [da confederação-plantation e da concertación]”. É, na minha avaliação do livro de André Singer, no desdobramento da Concertación na tática da Frente Ampla que reside o o núcleo do impasse brasileiro. O custo da unidade “entre o PT e destroços do PSDB, consequência do avassalador crescimento da direita” está cobrando seu preço neste exato momento – a alguns dias das eleições de 2026.

Assim, a Frente Ampla instituída por Lula, Haddad e o PT, congregando “do PSOL ao PSD […] e Alckmin”, economistas liberais como “Armínio Fraga, Edmar Bacha, Pérsio Arida e Pedro Malan […], destacados atores da era FHC […]”, ao declararem “apoio à chapa democrática na reta final do segundo turno”, impôs a condição (inegociável) à Concertación de “condução responsável da economia”, ou seja, corte de gastos, austeridade fiscal e desinvestimento social (saúde, educação, infraestrutura). Ao assumir “um programa que não era o seu”, o Lulismo corrói suas próprias bases sociais.

Desvendar em que medida é a teleologia de Singer, vale dizer, que a “destino manifesto” colonizado do cosmopolitismo do PSDB fundado após o PMDB ser “derrotado no Congresso Constituinte” derivou na “burguesia cosmopolita que se aliou a Lula para tirar o Mussolini canarinho do Alvorado” não nos deixando alternativa, ou se Impasse apreende de fato a dinâmica real da luta política da última década no Brasil entre o campo da platantion e o campo democrático, o primeiro com sucessos consideráveis até o momento, é tarefa que extrapola este artigo. Entretanto, na fatura da obra sobre o impasse brasileiro, assistimos aos obscenos escândalos do Banco Master serem atribuídos pelo desavergonhado bolsonarismo (já com viés fascista, dadas suas transformações internas, como aponta Singer no final do livro) ao Lulismo, e a eleição de 2026 em risco, sem termos a força daqueles que sempre resistiram à extrema-direita nacional, pois o programa que não é o deles e que, supostamente, vem sustentando a democracia – não merece ser defendido.

**** Ronaldo Tadeu de Souza é Professor no Departamento de Ciência Política do IFCS-UFRJ e Pesquisador Associado do Centro de Estudos em Cultura Contemporânea-Cedec.


As contradições do lulismo, autoria de André Singer

Analisando o “lulismo” desde 2002 até o impeachment de Dilma, destaca as contradições do “ensaio desenvolvimentista” tardio, expondo a farsa do sonho anterior e os elementos que levaram ao colapso. Explora, do “andar de baixo”, nuances como precariado, sindicalização e programas sociais.


Reconstrução negra, autoria de W. E. B. Du Bois


A obra mais madura de W. E. B. Du Bois ganha sua primeira tradução para o português. Reconstrução negra revisita um momento decisivo da história estadunidense: o pós-abolição e pós-guerra civil nos Estados Unidos – um dos períodos mais radicais da história do país, que não à toa foi sujeito a um violento processo de apagamento.


O ódio à democracia, autoria de Jacques Rancière


Coletânea exclusivamente digital, apresentando de forma interdisciplinar temas recentes do panorama político brasileiro. Com reflexões sobre o governo Bolsonaro, inclui análises da economia, sociologia, relações internacionais e eventos marcantes, como a greve dos caminhoneiros e a pandemia.




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