O sufrágio feminino se transformou no fenômeno das eleições brasileiras de 2026?

Foto: Ato #EleNão em outubro de 2018. Fonte: WikiCommons

Por Marlise Matos

Não há candidato ou Instituto de Pesquisa nessas eleições que não esteja se ocupando e preocupando com a votação das mulheres. Desde defender a ideia estapafúrdia de que as mulheres não deveriam mais votar, existindo inclusive redes de influencers atacando o voto feminino no país1 até insistir e buscar dar atenção para o fato delas serem “maioria entre indecisos e cobrarem propostas ligadas ao cotidiano”2, a gente quase chega a ficar surpresa com tamanha atenção.

É verdadeiramente um fenômeno político destacável como o voto das mulheres se tornou decisivo em 2026, ganhando proeminência pública, midiática e nas próprias campanhas político-eleitorais. Não há um único meio de comunicação que não esteja chamando atenção para o fato. E toda essa mobilização se deve basicamente a indicadores relativamente simples: segundo o Datafolha3, 29% das eleitoras ainda não definiu o voto, contra 16% dos homens. Elas representam quase 53% das pessoas aptas a votar no país e ainda, segundo a mesma fonte (em pesquisa de julho de 2026), seriam menos influenciadas do que homens pelas opiniões de amigos, filhos, líderes religiosos e companheiros. Assim, a decisão de voto delas tenderia a depender mais da avaliação individual a respeito das candidaturas e propostas apresentadas e essa decisão, de uma forma geral, costuma não ser tomada cedo, mas apenas próximo do dia da votação. E vamos ver, ao que tudo indica, essa atenção escalar ainda mais nesses últimos dias de campanha.

Historicamente já sabíamos que as mulheres levam mais tempo para decidir seu voto, pois elas esperam por propostas, costumam aguardar a apresentação detalhada dos projetos e planos de governo antes de definir e, questões práticas como economia, segurança pública, saúde e políticas sociais, pesam bastante na escolha final delas. Além do mais, são elas que estão dragadas pelas múltiplas jornadas, demandas materiais e concretas da vida e dos cuidados, estudos, trabalho (que nunca termina quando se chega em casa), pelo tempo extenso gasto nos transportes e por aí vai.

É preciso olhar de forma mais séria para esse fenômeno porque algo que a princípio poderia sinalizar visibilidade positiva para os direitos políticos das mulheres pode se transformar numa espécie de cilada ou de armadilha. Nas “redes sociais, circulam programas inteiros e ‘cortes’ de vídeos e podcasts que acumulam milhares de curtidas e comentários ao exibir frases como ‘o voto feminino é o erro da democracia ocidental’. Outros trechos responsabilizam o sufrágio feminino por problemas da sociedade e pelas dificuldades da vida do homem moderno” (Reportagem da BBC, 14 setembro de 2026).


Para compreendermos melhor o que se passa hoje, acho que precisamos dar alguns passos históricos para trás e entender que o nosso impasse democrático (senão corrosão e declínio) começou com um ataque violento e misógino a uma mulher. Na perspectiva institucional e da cultura política do golpe contra a democracia brasileira é preciso sempre relembrar a figura emblemática de Dilma Rousseff.

Entre 2014 e 2015, o “impeachment” começou a parecer, especialmente para os insatisfeitos das elites capitalistas e políticas do país que não mais ganhavam as nossas eleições, uma solução plausível para encerrar o governo recém reeleito de Dilma Rousseff e expurgar o PT da arena governamental. Findo o exercício das muitas alternativas de se vencer “no tapetão”, seja pela a) tentativa de impugnação da eleição por fraude, seja pela b) tentativa de cassação da chapa por abuso de poder econômico e, é claro, estelionato eleitoral; o inconformado então candidato derrotado Aécio Neves (o “insatisfeito” e/ou o “ungido”, que almejava a presidência da República, a posição que lhe havia sido “prometida” pelos padrinhos), e que perdeu as eleições em outubro de 2014, sobreveio afinal a ideia do impeachment. Esta “saída” revestiria de alguma institucionalidade a intervenção abrupta no sistema político, com o único objetivo de encerrar o ciclo de vitórias eleitorais do PT.

Se o/a eleitor/a não parecia querer desistir de eleger o PT, a “saída” formulada foi a de substituir o/a eleitor/a pelo Congresso Nacional. Não qualquer Congresso, mas o mais conservador desde 1964 (segundo o DIAPP) e ainda, principalmente, constituído por uma maioria de homens, muitos deles indiciados e acusados de toda a sorte de crimes. Havia institucionalidade suficiente para realizá-lo com o verniz de contestação do argumento da ilegitimidade.

O STF, esse mesmo que hoje “se desmancha no ar”, desempenhou o seu papel de testemunha e de atribuição da legitimidade, com a sua adesão à farsa e com festejo dos meios de comunicação, que após campanhas importantes de rodadas de (de)formação e (des)informação, consolidaram o apoio da maioria da opinião pública. Ao mesmo tempo, passou-se a dar visibilidade máxima à Operação Lava Jato (o braço jurídico-midiático do restante das reiteradas tentativas de aniquilamento do PT e de Lula). Durante algum tempo, a grande maioria dos brasileiros saudou o surgimento da operação Lava Jato como instrumento para fortalecer a democracia brasileira; mas as irregularidades processuais e a seletividade das investigações e dos próprios investigadores começaram a demonstrar que, de fato, não se tratava de combater “a” corrupção, mas de esforços de tentar liquidar, agora pela via judicial e através de lawfare (e não apenas pela via política), as conquistas sociais das últimas décadas no país.


A destituição ilegítima de Dilma Rousseff, a primeira e a única mulher Presidenta da nossa história, foi o primeiro decisivo ato do golpe contra a nossa democracia, aquele golpe que pôs fim à Nova República brasileira, iniciando a organização de uma espécie de estado de exceção no Brasil e abrindo as portas para o ataque autocrático do país.

O famigerado “impeachment” foi ademais permeado de misoginia, ataques violentamente sexistas, revelando a dimensão recolonizadora, neoconservadora e moralmente autoritária e de uma espécie – ainda tímida naqueles tempos – de ofensiva antifeminista e antigênero – de matiz cisheteropatriarcal branco e golpista. Escrevi/relatei sobre isso, juntamente com conjunto extenso de pesquisadoras e ativistas entrevistadas no livro “Mídia, Misoginia e Golpe”4, ainda no ano de 2016.

Ao longo de 2015 e 2016, estiveram nas ruas contra o neogolpe basicamente: os próprios petistas (uma parcela deles pelo menos), alguns formalistas políticos/defensores das regras do jogo (acadêmicos/as do direito constitucional e cientistas políticos e/ou sociólogos/as políticos/as com apreço às regras e aos procedimentos democráticos e do Estado de Direito) e, ao lado destes, uma extensa e fundamental rede de mulheres que foi, afinal, a contenção e o amparo para Rousseff quando ela, solitária e abandonada (inclusive pelo próprio PT), sofreu o golpe.

Antes e durante o golpe, no espaço público das classes médias, em efetivo momento de catarse nacional, as mega-manifestações designadas como “coxinhas”, vestidas com camiseta verde amarela da Seleção brasileira e bradando pelo retorno da ditadura militar foi se promovendo o necessário ajuste da opinião pública. Parte das classes médias ressentidas, finalmente, se tornou visível, abertamente apoiada (senão instrumentalizada) pela espetacularização midiática da Lava Jato. Segmentos de classes médias urbanas e metropolitanas, fortemente “mobilizados” pelas panelas e pelas ruas, passaram a se sentir “agentes da transformação” e da “limpeza” ética da política no país, tendo ido “às ruas” para, emblematicamente, “punir” o PT, espumando o seu atávico ódio de classe, bem como o seu temor coletivo (talvez ainda não consciente) de mais “perdas” com a nova redistribuição econômica e do poder político.

E na sequência foram, mais uma vez, as mulheres brasileiras que protagonizaram importante e massiva manifestação pública e política contra a possibilidade, no pós-Temer e da “Bela, Recatada e do Lar”, da ascensão ao poder presidencial do pior dos líderes, gritando a plenos pulmões que “Ele Não!”. E tivemos que escutar, eu cientista política pelo menos (já que um dos escritores a trazerem a público essa “hipótese”, publicando-a em um jornal de circulação nacional, foi colega de meu Departamento), que as mulheres teriam sido “responsáveis” pela eleição de Bolsonaro pois estavam “desfilando sua nudez radical” em momentos inoportunos civicamente.  Lembro que já era prenunciado os ataques sistêmicos de fakenews nas colagens de outras manifestações (como a Marcha das Vadias) como se tivessem sido do #EleNão. E é sempre bom lembrar da presença de uma máquina de ódio bem financiada e promovendo ainda intensos ataques de violência política contra a então candidata à vice-Presidência, Manuela D’Ávila. Foram sequenciados e ininterruptos ataques recheados de mentiras, ameaças de estupro e de morte nas redes sociais durante toda a campanha. Recorrentes as imagens disseminadas pelas plataformas com fotomontagens e dezenas de notícias falsas, quando circulou uma imagem manipulada digitalmente em que Manuela vestida com camiseta preta com a frase “Jesus é travesti” (a foto original exibia, na verdade, a palavra “Rebele-se”).

Ao mesmo tempo, as conexões do novo governo ilegítimo pós-golpe se rearticularam e o processo do golpe, iniciado com o impeachment, se aprofundou para as ações de verdadeiro “estelionato eleitoral” da dupla de governo ilegítimo Temer-Meirelles, que passou (de forma vertiginosamente célere) a lutar para implantar políticas públicas anti-sociais (que rapidamente se transformaram em antigênero), de austeridade fiscal e contendo reformas pró-mercado, com foco na diminuição do Estado. Quase todas elas, não coincidentemente, sucessivamente rejeitadas pelo voto popular nas últimas quatro eleições presidenciais anteriores. Como o mandato presidencial de Temer – o “vampiro ultraneoliberalista”, desfilado pela Paraíso do Tuiuti em 2018 – rigorosamente era sem compromisso com a soberania popular, houve pressa no desmonte estatal, que veio, de fato, de forma galopante contra os direitos e conquistas de uma população já agora aturdida, desorientada e exaurida pela “doutrina do choque”. E foi nesse contexto que emergiu o “mito”.

Os articuladores do golpe, entretanto, subestimaram os cenários políticos possíveis ao pós-golpe contra a democracia. Imaginaram, parece-me, que em 2018 – dois anos depois do golpe – teriam já o cenário eleitoral mais favorável: ou dominado por Aécio, ou por Alckmin, ou por alguma candidatura do MDB de Temer, ou ainda por alguma candidatura do DEM. Mas não foi assim… Com o golpe consumado, o cenário eleitoral de 2018 se abriu em todo o seu potencial desestabilizador da democracia brasileira. O sentimento anti-política, as ações abertas de necropolítica do governo de exceção, fragmentou e polarizou emocionalmente a oferta de representação política, além de despertar as forças fantasmagóricas dos conservadorismos/fascismos da extrema-direita à brasileira. Foi assim que o “mito” chegou à presidência do país – um parlamentar medíocre do baixo clero do Congresso nacional, misógino, truculento que declaradamente “odiava as mulheres”5– e governou emplacando uma agenda anti-direitos e antifeminista de dar inveja a líderes autoritários da direita global. O próprio IPEA reconheceu essa face e narrou em Textos de Discussão/TD a construção acelerada das retóricas da ofensiva antigênero e do anti-feminismo de Estado bolsonarista, declarando seu governo como uma fase de “deslegitimação da agenda e desmonte das políticas” (IPEA, TD 2866, Tokarski, Matias, Pinheiro e Correa, 2023). E, mais uma vez, foram as mulheres as atacadas. E os anos de pandemia trouxeram mais terror para o país: trancadas em casa, muitas delas com os próprios agressores, precisavam conseguir sobreviver e fazer sobreviver os seus.

Mas também foram elas resilientes. Especialmente a partir do feminicídio político de Marielle Franco (março de 2018) e das eleições daquele ano, seis fenômenos interconectados afetaram sobremaneira as intenções de voto, a elegibilidade e os ativismos recentes de mulheres no Brasil: metade para enterrá-los e a outra metade revelando a face mais objetiva das formas de resistência feminista. O primeiro deles foi a escalada da violência política, com o especial aumento da violência política contra as mulheres e o agravamento dos casos quando se tem nem perspectiva as dimensões interseccionais. Esse foi e continua sendo o cenário e o pano de fundo de praticamente todas as candidaturas e de todos os mandatos de mulheres neste país (principalmente à esquerda, mas também à direita), pelo menos desde 2016. Essa moldura ganhou contornos inimagináveis com o crescimento da “nova” direita no país – o segundo fenômeno interconectado-, que vem sistematicamente recrutando corpos, inclusive de mulheres, para as suas fileiras: o que tenho chamado de feminização do autoritarismo. Soma-se a esse caldo de horrores, a disseminação e o ativismo publicamente reconhecidos (senão valorizado) dos atores masculinos tóxicos da “machosfera”. Esse terceiro fenômeno tornou possível a articulação e transformação do ódio misógino em lucro do capitalismo de vigilância, que passou a ser promovido, sem freios, pelas plataformas digitais e sua rede de coaches. Violência política em nova escala e magnitude se conecta de forma quase umbilical ao crescimento da nova direita e à aceleração e disseminação da misoginia a partir da “machosfera”.


As resistências das mulheres se apresentaram principalmente a partir da forte presença de estratégias de ação oriundas do que chamo de ativismo interseccional feminista (onde principalmente os movimentos feministas conseguiram aglutinar pautas e ações): sendo este o quarto evento interconectado. Esse formato de ativismo novo para os feminismos brasileiros, teve no assassinato de Marielle Franco uma ancoragem singular: as “sementes de Marielle”. A partir de um renovado movimento feminista negro, por exemplo, ativistas, lideranças sociais e políticas negras, periféricas, todas feministas e defensoras dos direitos humanos, se inspiraram no legado de Marielle para ocupar espaços de poder e continuar a luta de transformação da realidade em suas comunidades. Claramente o termo faz referência simbólica à frase “não nos mataram, plantaram sementes”, usada após o crime bárbaro para indicar que essa morte multiplicaria as lutas das mulheres brasileiras por justiça e igualdade. Inclusive, o Instituto que leva o nome da vereadora, criou em 2021, a Rede de Sementes de Marielle Franco como um espaço de articulação que conecta ativistas, educadoras, mães e juventudes em todo o Brasil.

Mas esse formato de ativismo feminista veio com e foi além de Marielle, conectando lutas de mulheres negras e brancas, cis e trans, periféricas, pobres e de classe média, alta e baixamente escolarizadas, indígenas, quilombolas, ciganas de diferentes regiões do país (e mesmo fora dele). O quinto evento interconectado refere-se ao fato de ter se renovado na ocupação das redes (Blogueiras Feministas, Blogueiras negras etc.), a partir de uma juventude feminista antirracista que transbordou para a ocupação massiva das ruas, através de protestos e grandes manifestações coordenadas por mulheres. Esse fenômeno tornou-se evidente através das ocupações das escolas no Brasil que ocorreram em duas grandes ondas principais entre 2015 e 2016, no movimento que ficou conhecido como Primavera Secundarista. Em que pese tenha sido um movimento misto, foram as jovens estudantes a linha de frente do movimento, coordenando assembleias, a segurança e a rotina diária das escolas ocupadas. Elas eram ademais a porta-vozes e a face pública da visibilidade: meninas como Ana Júlia (estudante curitibana cujo discurso na Assembleia Legislativa do Paraná ganhou projeção nacional) tornaram-se símbolos da resistência estudantil e foram elas que promoveram estratégias de gestão comunitária e cuidado coletivo, organizando uma radical e inovadora forma de divisão sexual de tarefas cotidianas dentro dos prédios, como limpeza, vigília, segurança contra invasões e na preparação de refeições coletivas. Foram elas também que conduziram círculos de estudo, debates sobre política, gênero e sociedade, desafiando a estrutura hierárquica tradicional das escolas e da própria sociedade brasileira.

O sexto e último evento interconectado refere-se ao fenômeno de presença inédita de propostas e de eleição concreta de mandatos/mandatas coletivos/as, quase sempre capitaneados por mulheres negras, periféricas e feministas, que incluíam outras minorias tais como LGBTs, indígenas etc. Estas mandatas foram laboratório vivos de inovação democrática. O modelo ganhou grande visibilidade a partir de 2018 e se multiplicou nas eleições municipais de 2020 por todo o país, desafiando o formato tradicionalmente individualista das campanhas, dos mandatos e da própria política brasileira, quando se passa a dividir o poder e as decisões com um grupo de co-vereadoras ou co-deputadas, – por meio de renovados pactos políticos. Além do mais, houve impulsionamento inédito no país de candidaturas de mulheres negras, jovens, trans, lésbicas e indígenas, pavimentando os esforços de renovação (para além da inovação) democrática.


Os seis eventos descritos brevemente acima se interconectam justamente em função das próprias mulheres que, ora são tratadas como alvos e, exatamente por isso, reagem como agentes da sua própria transformação. Ficando apenas na cena contemporânea política mais recente, que começou com o golpe contra Dilma (em 2016) e chegou até a criação das mandatas coletivas, a política brasileira contemporânea se viu totalmente atravessada pelo protagonismo das mulheres em sua diversidade constitutiva e pelo seu correlato maléfico inverso reativo: o ódio contra elas, os seus direitos, os avanços e as suas pautas.

Não é nem um pouco verdadeiro, portanto, afirmar que é apenas nas eleições de 2026 que a participação, a representação e o voto das mulheres importam neste país. Respondendo à indagação que dá título a este ensaio: para esta autora, o maior fenômeno das eleições brasileiras de 2026 é, justamente, reconhecer a trajetória e o legado recente de pura e necessária resistência democrática feminina neste país. A depender apenas dos homens, o Brasil já teria se transformado numa republiqueta de fachada, a serviço dos interesses do neoimperalismo das direitas globais, a um só tempo rentistas, fundamentalistas e fascistas.

O voto das mulheres importa, as candidaturas das mulheres importam, as mulheres que elegemos importam, as mulheres que continuam ativas e agentes transformadoras da vida importam, são elas que continuam sustentando a vida e a renovação democráticas num cenário de pura desolação cívica, seja nas redes, nas ruas, nas escolas, nas universidades, nas periferias, no campo, nas aldeias, no Estado e em todos os lugares desse país.

Mas igualmente é verdade que não são todas as mulheres, por certo, comprometidas com a sustentação da ainda frágil democracia brasileira e há sim mulheres que participam, votam e lideram movimentos de direita radical por aqui. Mas somos em número suficiente ativas protagonistas da resistência e estrategicamente posicionadas para a urgência política do papel que nos coube no atual cenário da política brasileira: o de continuar a produzir os nossos melhores esforços para retirar o país das garras do autoritarismo, especialmente quando esse avanço autoritário vem acompanhado de pautas antigênero, antifeministas e de restrição de direitos. Assim, quanto mais o gênero (sempre em perspectiva interseccional) é politizado como ameaça pela nova direita, mais os feminismos se tornam espaços centrais de organização e resistência políticas. E os Institutos de Pesquisa, os e as jornalistas, os e as pesquisadoras de Ciência Política que estão nos meios de comunicação de massa fazendo esse debate parecem, nitidamente, que ainda não compreenderam isso.


Se em mais de 25 países europeus já se encontrou associação entre determinadas dimensões da promoção política e socioeconômica das mulheres e mudanças no hiato de gênero relacionado à direita radical (Path, 2022)6, discutindo justamente mecanismos de backlash de gênero, aqui não é diferente. Estamos em um ciclo de avanços e de reação a eles: e são as mulheres que mais empurram para os resultados políticos de conservação das democracias (aqui e em todo mundo). Esses “analistas” se esquecem que as mulheres já possuíam redes de organização construídas muito antes da atual reação neoconservadora e contam com elas hoje, agora! Essa parte é muito importante. Os feminismos não começaram a se organizar quando a nova direita chegou ao poder. Estamos nesse enfrentamento desde o alvorecer da modernidade, e é esse legado que nos fornece as condições morais e a infraestrutura de habilidades e capacidades necessárias para a resistência. Os detratores dos direitos das mulheres (os antigos e os novos) não podem apagar o que já fomos e tudo de centralmente importante que já fizemos (apenas poderão destruir o que poderemos ser e fazer adiante).  Somos hoje, cada mulher com consciência crítica do momento liminar que estamos vivendo, centrais na luta pelo futuro e pelo futuro das democracias em todo o mundo.

Em que pese como cientista política e acadêmica feminista ainda seja importante estudar e compreender melhor como simultaneamente a participação das mulheres na direita radical e o caráter generificado da própria direita radical vêm colaborando – via feminização do autoritarismo – para os processos de backlash antigênero contemporâneo, esta parcela de mulheres é uma minoria no Brasil. Além do mais elas também são, frequentemente, alvo de violência política contra as mulheres que pode e deve ser analisada não apenas como uma consequência individual de conflitos políticos atuais, mas como parte de uma disputa mais ampla sobre quem pode ocupar o espaço público, falar, representar e exercer, de fato, o poder. E antes, certamente antes de serem políticas de direita, elas são mulheres. E serão tratadas pelos homens de direita desta forma: como mulheres. Há muitas evidências de que mulheres defensoras de direitos humanos enfrentam justamente uma combinação de ameaças físicas, violência online, criminalização e restrição do espaço cívico, incluindo nesse bojo, as próprias mulheres de direita (os casos de Joyce Hasselmann e de Michele Bolsonaro são emblemáticos).

Assim, as mulheres aparecem como as frentes de resistência ao avanço da direita não por uma suposta predisposição feminina à resistência, mas porque a disputa contemporânea em torno da ordem social, dos direitos e da democracia passa indiscutivelmente e fortemente pelo gênero e suas dinâmicas interseccionais. E nem vou repetir aqui o meu rechaço à enxurrada de baboseiras que temos de escutar inclusive dos homens progressistas, que ainda tentam encaixotar e tratar as nossas lutas, profundamente democráticas, como “identitárias”. Resistimos a estes também, sem alianças portanto. Se recusam a compreender que os movimentos feministas (em todos os seus matizes) foram protagonistas de transformações que alteraram relações de poder, e também não conseguem identificar o backlash contra essas transformações como o motor que produz as condições para a mobilização e a resistência feministas. E sempre é bom declarar: não nos interessa, como feministas interseccionais, eliminar a participação feminina no campo da direita. Elas mesmas vão se encontrar, e com a dor inerente, as próprias grades, é apenas uma questão de tempo.

Mas eu acharia bom que os analistas políticos atuais passassem a compreender os feminismos, finalmente, como uma espécie de “infraestrutura social de resistência política” e isso não apenas nos períodos eleitorais e em relação ao voto feminino. Somos uma transformação em movimento, imparável.

Notas:

  1. Ver: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy74n45p7dyo ↩︎
  2. Ver: https://red.org.br/noticias/mulheres-maioria-indecisos-eleicoes-2026/#google_vignette ↩︎
  3. Ver: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/mulheres-sao-maioria-entre-eleitores-indecisos-e-contam-o-que-mobiliza-seu-voto-em-2026.shtml ↩︎
  4. Publicado pela FAC/UnB e disponível na íntegra para download: https://faclivros.wordpress.com/2017/03/07/midia-misoginia-e-golpe-2/ ↩︎
  5. Ver: https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/11159/bolsonaro-o-homem-que-nao-amava-as-mulheres ↩︎
  6. Ver: Parth, A.-M. (2022). Backlash by Men against the Socio-Economic and Political Promotion of Women in Europe. Social Sciences 11(10), 428. ↩︎

**** Marlise Matos é professora Titular UFMG, Coordenadora Executiva do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher.  Como pesquisadora tem atuado na área das relações de gênero, de avaliação de políticas públicas, políticas públicas e diversidade, de representação e participação políticas de minorias e movimentos sociais e comportamento político de mulheres e nas mais diversas temáticas sobre Direitos Humanos, especialmente os direitos humanos das mulheres.


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