A trajetória sindical e político-partidária de Jinkings
Foto: Leila Jinkings
Por Roberto Ribeiro Corrêa
Nas lutas e jornadas da resistência à ditadura militar brasileira, o ano de 1979 teve por marca histórica a primeira greve de bancários deflagrada no pós-1964, com alcance em todo o território nacional. Vivíamos então a autodenominada abertura lenta, gradual e segura inaugurada no governo Ernesto Geisel (1974-1979) e levada adiante pela ação das forças democráticas no mandato do general João Baptista Figueiredo (1979-1985), o último do período ditatorial. Uma época marcada pela efervescência da redemocratização, encorajada pela retomada das lutas sindicais, ao mesmo tempo que a dívida pública, a inflação e o desemprego minavam o pouco que restava de sustentação política ao regime militar.
Em Belém, essa greve de 1979 contou com a participação de Raimundo Jinkings, em sintonia com a orientação nacional do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Reconhecido como liderança histórica do movimento sindical no estado e no país, ele possuía autoridade, legitimidade e carisma para convocar todas as tendências de esquerda a se reunir no segundo andar da Livraria Jinkings. O objetivo: articular a estratégia a ser definida em assembleia geral do Sindicato dos Bancários, a fim de garantir o sucesso do movimento tanto no Pará como no Amapá.
Feitos os acertos necessários, a greve foi aprovada por esmagadora maioria. No dia seguinte, por decisão colegiada da direção estadual do PCB, coube-me subir na mureta em frente ao edifício-sede do Banco da Amazônia (Basa), situado na praça da República, para proclamar o seguinte discurso:
Companheiros e companheiras, é uma honra e uma satisfação, nesta manhã, repetir as palavras que o companheiro Jinkings pronunciou na última greve dos bancários, ocorrida há quase vinte anos, às vésperas do golpe militar, para seus colegas do Banco da Amazônia. Disse ele: “Hoje, quem manda no Basa e em toda a rede bancária é o comando de greve, e não a diretoria, presidentes ou gerentes”. Faremos essa paralisação em cumprimento à decisão da assembleia geral ocorrida ontem na sede de nosso sindicato. Estamos em greve para reforçar o papel de nossas lideranças, que em breve negociarão com os banqueiros a recomposição de nossos salários, hoje defasados por uma inflação acumulada de 40,84%, em 1978, e que continua a crescer neste 1979, às vésperas de nossa data-base. Vamos à luta, companheiros!
Em seguida, com Jinkings à frente, saímos em passeata rumo a outros estabelecimentos bancários para dialogar com nossos companheiros, garantindo, com isso, o sucesso do movimento.
Falar do camarada Jinkings é recorrer à memória de uma época plena de compromissos com a boa política, representada não apenas pela busca do bem comum, do socialismo, da democracia, mas – e principalmente – por ações éticas e sábias em todos os campos daquilo que, em sua pluralidade de interesses, visões e ideologias, chamávamos de resistência democrática. Relembrar esse tempo é reconhecer a liderança inconteste de Jinkings, adquirida pela experimentação prática que lhe valeu e a sua família sacrifícios e aflições recorrentes. Desistir da luta, jamais! Era esse o seu lema.
Jinkings foi um gigante que reuniu, a um só tempo, virtude e carisma, irradiando confiança e otimismo a todos que o acompanhavam nessa jornada de lutas, mesmo diante das situações mais difíceis causadas pela repressão policial. Um autodidata que, no domínio intelectual dos clássicos do marxismo-leninismo, da história e da filosofia política, não se deixava seduzir pelos delírios radicais e voluntaristas que embasaram as ações armadas de esquerda e que tanto favoreceram os argumentos e as práticas violentas do regime militar, dificultando o retorno ao Estado democrático de direito. Ao peregrinar por uma senda que tinha por estratégia o realismo político, ele propunha como tática de transição a unidade das forças democráticas dedicadas à conquista pacífica da democracia.
A livraria cresceu e passou a ser frequentada por intelectuais, estudantes e pessoas de esquerda que faziam dali um lugar de debate. Ao mesmo tempo, Jinkings continuava sua resistência à ditadura militar e aos ataques dos opositores. Em um desses episódios, em 1979, às vésperas da visita de Miguel Arraes, a livraria – já na nova sede, na rua dos Tamoios, 1.592 – foi pichada e metralhada pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que ainda incendiou o carro do casal. As batidas da Polícia Federal em busca de “livros subversivos” também eram frequentes, levando o dono da livraria a desenvolver estratégias para não se deixar surpreender.
Durante toda a redemocratização, o salão no andar superior da livraria foi sede de inúmeros eventos e reuniões políticas e culturais. Quando a Frente Democrática de Oposição foi formada, Jinkings assumiu seu comando. A aliança acabou vitoriosa, derrotando a chapa dos conservadores remanescentes de 1964. Jinkings continuava a escrever artigos políticos, nos quais denunciava fraudes e escamoteações da “desesperada oposição” e expunha seu ideário marxista-leninista.
Em 1982, Jinkings foi novamente preso, agora em São Paulo, onde participava do VII Congresso do PCB. Oficialmente, tratava-se de um encontro da editora Novos Rumos, já que o partido ainda era ilegal. Na ocasião, ele foi eleito para o Comitê Central do PCB. Quatro anos depois, por recomendação dessa organização, foi candidato a deputado federal, obtendo cerca de 5 mil votos – número bastante expressivo, especialmente considerando-se a campanha anticomunista a que foi submetido, já que usava a sigla e o nome do partido.
Nem sempre, porém, a relação com o partido foi sem preocupações. A decepção veio quando alguns de seus membros, após simular maioria no X Congresso do PCB, realizado em São Paulo, apropriaram-se dos bens da instituição para manter sua estrutura física e formal, ainda que renegando seus símbolos e o ideal marxista. Acompanhado de inúmeras lideranças, como Oscar Niemeyer, Ana Montenegro, Horácio Macedo e Zuleide Melo, Jinkings refundou o Partido Comunista (PC) e lutou para reaver a sigla original (PCB), disputada com Roberto Freire, que chegou ao extremo de registrá-la como sua no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi). Ainda assim, o Pará foi um dos primeiros estados brasileiros a conseguir o registro formal do partido, enfrentando uma burocracia restritiva cruel.
Jinkings só foi vencido em 1995, depois de longa enfermidade, não sem muito lutar. Dois anos antes, foi eleito Livreiro do Ano pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e homenageado na Bienal do Livro. Deixou como legado sua luta pela igualdade e contra as injustiças, seu amor aos livros, uma família – cinco filhos, nove netos e um bisneto – e muitos amigos que permanentemente lhe prestam tributos. Em 2007, com o objetivo de manter viva sua história, uma página na internet foi criada por iniciativa de amigos, filhos, netos e de sua companheira Isa. Por fim, reproduzo a seguir o texto de minha autoria lido por ocasião das honras fúnebres ao camarada Jinkings e publicado em outubro de 1995 no jornal Diário do Pará:
O meu adeus ao camarada Jinkings
Por maior que seja o nosso esforço, jamais conseguiríamos, em palavras, expressar o sentimento comum daqueles que tiveram o privilégio de conhecer e viver ao lado de Jinkings nestes últimos cinquenta anos.
Conheci o camarada Jinkings no início da década de 1960. A amizade e o companheirismo, no entanto, viriam mais tarde, no período que se seguiu ao golpe militar de 1964, quando ele, após ser libertado [da prisão] pelos novos donos do poder, iniciou o trabalho de convencimento de todos aqueles que o procuravam, nos altos da Livraria Jinkings. Eram dezenas de estudantes, trabalhadores e sindicalistas que ali compareciam para ouvir e trocar ideias com um líder que, pela capacidade inata de combinar teoria e prática, infundia o ânimo tão necessário para uma geração de jovens ávidos de justiça e liberdade. Foi daquela cidadela de cultura política de expressão maior que surgiu a centelha da resistência democrática cuja trajetória todos conhecem e que se confunde com a trajetória de vida de Raimundo Jinkings.
Da luta pela anistia, pela Constituinte, contra os decretos-lei de arrocho salarial, pela legalização do PCB, pelas eleições diretas, em prol do socialismo, de todas participamos com entusiasmo, graças à coragem, ao exemplo e à autoconfiança da liderança de Jinkings. Nossa admiração pelo líder sindical, pelo dirigente político, pelo amigo e pai de família viria a ser construída em cima dos exemplos, grandes e pequenos, da vida diária de um grande e corajoso humanista. Jinkings faz parte de uma minoria muito escassa de homens públicos, raros não somente nos dias atuais, mas em todos os tempos da história, sempre raros porque são ímpares, únicos, inconfundíveis.
A morte de Jinkings deve ser lembrada, portanto, como marco de uma época que influenciou o caráter de toda uma geração de políticos, da qual, no Pará, ele foi centro. Foi Jinkings quem, como poucos no mundo, nos influenciou decisivamente a tomar parte na aventura da “revolução”. Foi esse gigante de coragem, disciplina e caráter quem nos levou a acreditar nela e no Partido, esta organização que, por ser única em nossas vidas, nos fez escrever seu nome com o “P” maiúsculo e o sufixo “dão”. Foi Jinkings quem nos ensinou a ser porta- -vozes de uma filosofia transformadora do mundo e a entender que “enquanto durar o tempo da desigualdade e da necessidade, nossa luta por liberdade será apenas o intervalo de uma luta maior, a luta pela igualdade”.
Este é o nosso legado, camarada Jinkings. Este é o legado que deixas para toda uma geração. Descansa em paz. Leva contigo a certeza de que a semente plantada germinará para sempre em nossos corações, e teus ensinamentos ecoarão nas mentes das futuras gerações de combatentes da classe operária!
CONHEÇA A OBRA
Meu Antônio, de Isa Jinkings
Líder sindical e partidário, articulista na imprensa, militante socialista, livreiro, pai de cinco filhos, companheiro amoroso. Essas e outras facetas de Raimundo Jinkings estão reunidas em Meu Antônio, de Isa Jinkings, uma homenagem em textos e imagens da professora e também militante à trajetória dessa destacada figura do comunismo brasileiro e dos universos político e cultural paraenses.
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