7 de outubro de 2023, 3 anos depois

O genocídio segue em curso enquanto a liberdade palestina é mais uma vez adiada

Foto: hosny salah Fonte: Pixabay

Por Rafael Domingos Oliveira

Chamou-se Gaza de primeiro genocídio televisionado. A expressão tem força, embora a televisão já tivesse mostrado massacres anteriores. Sua verdadeira singularidade está na transmissão incessante, em tempo quase real, feita também pelas próprias vítimas: jornalistas, médicos, mães, crianças que encontraram uma conexão para dizer que ainda estavam vivas. Recebemos imagens, nomes, pedidos de socorro. A abundância desses registros não impediu a destruição. Obriga-nos a abandonar a desculpa da ignorância e a perguntar como sociedades tão informadas conseguem conviver com aquilo que sabem. É dessa convivência com Aquilo que sabemos que o chamado “cessar-fogo” passou a fazer parte e se beneficia. Defendo que o anúncio dessa “trégua”, em outubro de 2025, quando convertido em certificado de encerramento da catástrofe, funciona como uma estratégia de invisibilização: devolve à normalidade diplomática e jornalística uma realidade na qual continuam os assassinatos, a privação e a expulsão. A intenção de cada ator precisa ser demonstrada, mas o mecanismo político pode ser examinado desde já. A violência perde centralidade quando passa a caber na notícia de uma “guerra” em curso. Os palestinos permanecem expostos à mais brutal violência. Aos demais oferece-se a possibilidade de seguir adiante.

Mas, como já sabemos, a história que nos trouxe até aqui começa muito antes de outubro de 2023. A Nakba designa a catástrofe da expulsão palestina de 1948, mas sua persistência também permite compreender a reprodução do despojamento: a família novamente deslocada, a casa demolida, a impossibilidade do retorno. Em Palestina: um século de guerra e resistência, Rashid Khalidi1 restitui, como em muito outros autores e livros, a duração colonial que desaparece quando a narrativa começa pelo último ataque. Sua leitura nos ajuda a enxergar a relação entre colonização e patrocínio internacional, assim como a continuidade de uma sociedade que precisou defender até o direito de contar a própria história.

Essa história secular chega às véspera do 7 de outubro, em que consolidava-se a expectativa de integrar Israel à região sem enfrentar a questão palestina. Os Acordos de Abraão haviam aberto esse caminho e a aproximação com a Arábia Saudita prometia ampliá-lo. Em setembro de 2023, Netanyahu anunciou na ONU a proximidade de um acordo histórico e sustentou que os palestinos não poderiam vetar a normalização. Havia exigências sauditas relativas aos direitos palestinos, portanto a negociação não estava concluída nem seu resultado garantido. Ainda assim, a direção era reconhecível: a liberdade de um povo seria subordinada a entendimentos sobre segurança, comércio e influência regional.2 Enquanto isso, a ocupação tornava-se rotina para quem a observava de fora. Bloqueio, assentamentos e controle da circulação podiam aparecer como problemas administrativos de um conflito interminável. Essa normalidade já era uma vitória colonial. Ela dependia de aceitar que uma sociedade pudesse viver indefinidamente sob coerção, desde que sua resistência não perturbasse os negócios e a vida dos que estavam protegidos dela. E essa aceitação era muito grande.

Enquanto isso, a ocupação tornava-se rotina para quem a observava de fora. Bloqueio, assentamentos e controle da circulação podiam aparecer como problemas administrativos de um conflito interminável. Essa normalidade já era uma vitória colonial. Ela dependia de aceitar que uma sociedade pudesse viver indefinidamente sob coerção, desde que sua resistência não perturbasse os negócios e a vida dos que estavam protegidos dela. E essa aceitação era muito grande.3 A formulação sobre aqueles acontecimentos ilumina o 7 de outubro 200 anos depois: a operação liderada pelo Hamas rompeu a pretensão israelense de administrar o confinamento palestino sem consequências políticas. Expôs a fragilidade da segurança assentada na sujeição de outro povo e interrompeu a fantasia de que seria possível retirar a Palestina do horizonte regional. A brutalidade colonial não nasceu naquele dia. O que ocorreu foi que a crise perfurou a fina camada de normalidade que ajudava a protegê-la.

Isso exige distinguir significado histórico de aprovação política, e eu mesmo não tenho afinidades políticas com o Hamas. Incorrendo no risco da falsa simetria, a mesma comissão de investigação da ONU que acusou Netanyahu e outros líderes israelenses, documentou crimes de guerra cometidos pelo Hamas e por outros grupos armados, inclusive ataques deliberados contra civis e tomada de reféns.4 Acredito que podemos fazer uma defesa consequente da vida. Mas isso, evidentemente, não autoriza converter milhões de palestinos em responsáveis coletivos ou explicar o genocídio como uma reação inevitável. O Estado israelense fez escolhas, seus aliados as sustentaram, e ambos devem responder por elas. O resultado do 7 de outubro, independentemente de como o interpretemos, é que a causa palestina voltou ao centro da atenção mundial, num momento em que seu futuro era quase perdido, ainda que esse resultado não transforme a destruição de Gaza em preço aceitável de visibilidade.


Uma faísca foi acesa. A solidariedade aos palestinos que se seguiu a outubro de 2023 alcançou ruas e universidades, sindicatos e espaços culturais. Acampamentos estudantis perguntaram de onde vinham os recursos das instituições e o que seus investimentos financiavam. O levantamento da ACLED (Armed Conflict Location & Event Data), organização que mapeia conflitos violentos em todo o mundo, registrou aumento de 43% nos protestos pró-Palestina entre maio e setembro de 2025, em relação aos cinco meses anteriores.5 O dado contraria a expectativa de um interesse condenado a desaparecer depois do primeiro choque. Uma parte dessa mobilização adquiriu continuidade, criou vínculos e fez da Palestina um critério para julgar instituições que se apresentavam como defensoras dos direitos humanos. Também se ampliou o desejo de ler. No mercado canadense de livros impressos em inglês acompanhado pela BookNet, as vendas da categoria de não ficção sobre Israel e Palestina cresceram 1.233% no primeiro semestre de 2024, comparadas ao mesmo período de 20236. Esse recorte não mede o mercado mundial nem identifica a orientação de cada livro, mas dá uma dimensão da procura. Em janeiro de 2025, a rede Publishers for Palestine declarava reunir quase seiscentas editoras de cinquenta países.7 A circulação de vozes palestinas passou a disputar a autoridade de quem, durante décadas, falou em seu lugar.

Dentre muitos exemplos, o diário de Atef Abu Saif8 oferece algo que uma sequência de imagens dificilmente preserva: a duração de uma vida sob ataque. Ler seus relatos é acompanhar a procura por abrigo, a incerteza sobre os próximos e a transformação violenta dos lugares conhecidos. Em 2024, a Comma Press anunciou a publicação de Don’t Look Left em treze idiomas, incluindo o português pela editora Elefante. Eu mesmo editei, a convite da editora Tabla, o volume 1 da coleção Diários de Gaza, que intitulamos de “A memória é uma casa indestrutível”. Neste volume, 14 autoras e autores palestinos, de e em Gaza, escrevem sobre os primeiros meses do genocídio. Estarão ainda vivos? A tradução participa dessa disputa pela sobrevivência de uma experiência que não pode ser reduzida a números. Também nos compromete: o encontro com essas vozes precisa sobreviver ao calendário dos lançamentos editoriais.

A Palestina entrou ainda em disputas eleitorais muito distantes de suas fronteiras. Mais de cem mil eleitores escolheram a opção “uncommitted” nas primárias democratas de Michigan, em fevereiro de 2024, como protesto contra o apoio de Biden à ofensiva israelense9. No Reino Unido, candidaturas independentes comprometidas com Gaza derrotaram candidatos trabalhistas em julho daquele ano.10 Seria impreciso atribuir à Palestina o mesmo peso em todas as eleições ou fazer dela a explicação única de seus resultados. O que esses episódios demonstram é a disposição de parcelas do eleitorado de cobrar consequências pela cumplicidade de seus representantes.

Essa disposição teve e tem um custo, e encontrou muita repressão. Em novembro de 2024, a organização CIVICUS já registrava pelo menos três mil detenções vinculadas às mobilizações universitárias nos Estados Unidos e documentava proibições de atos, violência policial e represálias profissionais em vários países.11 Ao exigir o fim da destruição de Gaza, manifestantes descobriram os limites concretos da liberdade de expressão celebrada pelas instituições liberais. A acusação de antissemitismo foi também instrumentalizada contra críticas legítimas a Israel. Combater o antissemitismo exige levá-lo a sério, o que inclui recusar sua utilização para imunizar um Estado contra a denúncia de seus crimes.

Mas as notícias são ainda mais temerosas e, a meu ver, a dimensão da mobilização internacional, apesar de grande, não autoriza um balanço triunfal. A solidariedade alterou debates e impôs custos políticos, mas não produziu força suficiente para interromper o genocídio. Entre uma universidade pressionada e um contrato militar suspenso há decisões que a indignação, sozinha, não assegura. Precisamos compreender onde a pressão avançou, onde foi absorvida e como a participação pública pode tornar-se organização duradoura. A persistência dos crimes é uma exigência de revisão das estratégias, não uma prova da inutilidade de agir.


A reação sionista tampouco foi uniforme. A extrema direita israelense explicitou projetos de expulsão e anexação. Sua linguagem torna visível o objetivo de conquistar território e reduzir a presença palestina. Já parcelas do sionismo liberal (no Brasil conhecidos como “sionistas de esquerda”) procuraram preservar a legitimidade do projeto nacional separando-o da catástrofe produzida sob Netanyahu. A crítica aos governantes pode ser sincera e necessária, mas seu limite aparece quando toda a explicação se encerra neles, como se a ocupação, a expropriação e a desigualdade de direitos fossem invenções do atual gabinete. Houve deslocamentos reais nesse campo. Em agosto de 2025, Jeremy Ben-Ami, presidente do grupo liberal de defesa e lobby sionista J Street, passou a admitir a pertinência da acusação de genocídio e a responsabilidade dos dirigentes israelenses.12 Não acredito que toda mudança desse tipo é necessariamente dissimulação. Mas me pergunto até onde ela vai. Condenar o resultado mais extremo de uma ordem e continuar protegendo seus fundamentos pode ajudar a recompor sua legitimidade. Minha crítica a este “sionismo progressista” se dirige a essa possibilidade: salvar a imagem de uma suposta “democracia” sem enfrentar a estrutura colonial-racial que reserva aos palestinos uma condição subordinada.

Outras vozes recusaram esse limite. No relatório Our Genocide, de julho de 2025, a organização israelense B’Tselem reconheceu o genocídio e relacionou suas condições a décadas de apartheid, ocupação e fragmentação da sociedade palestina13. No Brasil, acompanhamos o surgimento, desenvolvimento e qualificação da atuação pública do coletivo Vozes Judaicas por Libertação, formado por pessoas judias antissionistas que atuam em solidariedade à causa palestina e contra o colonialismo do Estado de Israel. A importância dessa posição está em recolocar a estrutura no centro da análise. Também impede que judeus sejam tratados como um bloco indistinto. Há responsabilidades estatais e compromissos políticos a confrontar e pertencimentos religiosos ou origens não deveria determinar a posição de ninguém no reconhecimento do massacre ainda em curso. Essa distinção importa para compreender a disputa pelo poder em Israel. No início deste setembro, Netanyahu tentava reunir a direita para as eleições previstas para 27 de outubro. O Likud, seu partido, depende da composição com aliados, entre eles a extrema direita de Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich. As sondagens indicavam dificuldades para o bloco governista, e Gadi Eisenkot aparecia como seu principal desafiante.14 O desgaste eleitoral é real, mas não corresponde automaticamente a uma rejeição da dominação sobre os palestinos.

A oposição reúne projetos diferentes. O Yashar de Eisenkot disputa espaço com a aliança de Naftali Bennett e Yair Lapid, enquanto os Democratas e o Yisrael Beiteinu ocupam posições distintas nesse campo. O problema das alianças com partidos árabes é especialmente revelador: os votos dos cidadãos palestinos de Israel podem ser necessários para formar uma maioria, ao mesmo tempo que sua participação é apresentada como ameaça à legitimidade de um future novo governo.15 A disputa envolve responsabilização pelo fracasso de segurança de 2023, limites do Executivo e relações entre religião, Estado e serviço militar. São conflitos relevantes. Mas a liberdade palestina exige mais que a substituição de quem administra o poder israelense. É nesse quadro que devemos avaliar o chamado “cessar-fogo”. O acordo de outubro de 2025 reduziu a intensidade de parte das operações e abriu possibilidades de socorro. Para quem consegue dormir, reencontrar familiares ou receber alimento, essa diferença tem valor incalculável. Seria indecente negá-la. O problema começa quando o alívio é usado para declarar encerrado o processo que continua a destruir as condições de existência de Gaza. Uma interrupção dos ataques precisa ser defendida e ampliada e não pode servir de autorização para abandonar os sobreviventes.

No recente relatório de 11 de setembro de 2026, a OCHA (Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários) registrou 1.358 mortes e 4.541 feridos contabilizados desde o anúncio do acordo em 10 de outubro de 2025, com informações até 9 de setembro16. Em 10 de setembro, a Reuters noticiou um ataque que matou um casal e suas duas filhas, de oito e doze anos. Israel afirmou ter atingido uma estrutura militar.17 Uma família morta enquanto dormia não se torna menos morta porque o acontecimento foi inscrito na linguagem de um imaginado conflito militar.

A destruição prossegue também por seus efeitos acumulados e por decisões presentes que impedem a recuperação. No início de setembro, a OCHA descrevia abrigos superlotados, riscos sanitários e restrições à entrada de materiais essenciais. A morte por falta de atendimento não ocupa necessariamente o mesmo espaço público de um bombardeio, embora ambos possam integrar a destruição de uma população. Falar em genocídio por atrição, por exemplo, ajuda a examinar o desgaste imposto à vida, sem dispensar a demonstração das condutas e da intenção. Em junho deste ano, a comissão de investigação da ONU reiterou a conclusão de continuidade do genocídio ao examinar os ataques contra crianças palestinas.18


O vocabulário de um “pós-guerra” pode ocultar essa continuidade. Uma notícia sobre reconstrução tende a deslocar a pergunta sobre quem ainda impede a tal reconstrução. A gestão humanitária pode aparecer como solução suficiente para um povo privado de soberania. Não teria como comprovar, aqui, uma série quantitativa da cobertura jornalística que permita medir esse apagamento. A tese é política: quando o anúncio substitui o exame das condições concretas, o “cessar-fogo” passa a funcionar como um encerramento apenas narrativo. Os mortos seguintes parecem incidentes, e a destruição cotidiana perde a unidade que permite reconhecê-la e enfrentá-la. As propostas de Trump tornam esse risco particularmente cristalino. Em fevereiro de 2025, ele propôs o controle estadunidense de Gaza e o deslocamento de sua população. O território devastado aparecia como oportunidade imobiliária, e seus habitantes como obstáculo a remover. O plano posterior de vinte pontos e os anúncios de 2026 não são idênticos àquela proposta e precisam ser examinados em seus próprios termos. A Casa Branca apresentou uma administração tecnocrática palestina sob uma arquitetura internacional de supervisão, com o chamado Board of Peace. A mudança de formulação não resolve a pergunta decisiva: quem tem autoridade para determinar o futuro palestino e a quem essa autoridade responde? Já sabemos a resposta, não é mesmo?

Na Cisjordânia, a violência desmente qualquer tentativa de confinar a questão a Gaza. Entre 2 e 8 de setembro deste ano, forças israelenses mataram seis palestinos, incluindo duas crianças. O mesmo relatório da já citada OCHA também registrou, em duas ondas de demolições em Masafer Yatta, a destruição de 49 estruturas e o deslocamento de 57 pessoas.

A tomada de terras e a expulsão desfazem no cotidiano aquilo que discursos diplomáticos prometem preservar. Gaza e Cisjordânia pertencem à mesma questão nacional, embora a violência assuma intensidades e mecanismos diferentes em cada território. Pensar o futuro requer enfrentar essa fragmentação. Num interessante artigo intitulado A roadmap for Gaza and Palestine, publicado em 21 de agosto de 2026, Alain Alameddine e Mohammed Zraiy19 propõem quatro frentes: recolocar Gaza no conjunto da Palestina; ampliar as condições materiais de sobrevivência; democratizar a participação social nas decisões; e diversificar os meios de ação política. O texto reconhece divergências internas, inclusive sobre o 7 de outubro, e critica decisões de resistência tomadas sem a participação de quem suporta suas consequências. Sua contribuição mais fértil está na ligação entre subsistência, organização e autodeterminação. Isso não exige endossar todas as propostas do artigo, inclusive sua formulação sobre a emigração de judeus sionistas. O horizonte que, creio, deve ser defendido é o fim da dominação, com igualdade de direitos e segurança para todos. Esse é o caminho apontado por diversos grupos palestinos.


Não há como garantir hoje qual forma institucional realizará esse horizonte. Há, porém, critérios sem os quais qualquer promessa de paz será insuficiente: liberdade política, direito ao retorno, restituição e reparação, fim da ocupação e proteção efetiva da vida. A suposta reconstrução precisa fortalecer a capacidade dos palestinos de decidir, incluindo mulheres, trabalhadores, refugiados e organizações locais. Uma população devastada não perde por isso sua condição de sujeito político. A ajuda que exige sua tutela permanente prolonga exatamente a relação que deveria superar.

Noura Erakat, no excelente livro Justice for Some, infelizmente ainda não traduzido no Brasil,  demonstra que o direito internacional adquire sentido dentro de relações de poder e pode servir à liberdade quando mobilizado por um movimento político.20 Essa advertência ajuda a evitar tanto a confiança passiva nos tribunais quanto seu descarte. Documentar crimes, apoiar processos e exigir responsabilização devem caminhar com pressão sobre os meios que sustentam a violência. Às instituições e aos ativistas cabe construir essa persistência. Universidades podem proteger estudantes perseguidos, sustentar vínculos com pesquisadores palestinos e examinar seus investimentos. Sindicatos podem discutir contratos e cadeias de fornecimento; editoras, museus e centros de documentação podem manter a Palestina em seus programas, preservar testemunhos e remunerar seus autores. Governos precisam ser cobrados por armas, comércio e cooperação militar. Essas escolhas dão consequência à palavra solidariedade e tornam mais difícil que a memória pública acompanhe o ritmo conveniente dos anúncios diplomáticos.

Continuar falando sobre a Palestina significa, sobretudo, aprender a escutar sem exigir a cada dia uma nova imagem insuportável. Ninguém deveria precisar exibir o corpo de seu filho para voltar a merecer atenção. A criança que procura uma escola, o agricultor impedido de alcançar sua terra e a família que tenta reconstruir uma casa já têm razões suficientes para exigir nossa presença política. Aproximamo-nos dos três anos do 7 de outubro com uma responsabilidade que o “cessar-fogo” não suspendeu. Enquanto a liberdade palestina continuar adiada, não temos o direito de tratar essa história como assunto encerrado.


Notas

  1. KHALIDI, Rashid. The Hundred Years’ War on Palestine. 2020. Edição brasileira: Palestina: um século de guerra e resistência (1917–2017). Todavia, 2024. ↩︎
  2. AP. Netanyahu tells UN that Israel is “at the cusp” of a historic agreement with Saudi Arabia. 22 set. 2023. ↩︎
  3. COSTA, Emília Viotti da. Coroas de glória, lágrimas de sangue: a rebelião dos escravos de Demerara em 1823. Companhia das Letras, 1998. ↩︎
  4. ONU. Comissão de Investigação. Detailed findings on attacks carried out on and after 7 October 2023 in Israel. A/HRC/56/CRP.3, 10 jun. 2024. ↩︎
  5. ACLED. Two years of global demonstrations in support of Palestine. 3 out. 2025. Disponível em: https://acleddata.com/infographic/two-years-global-demonstrations-support-palestine ↩︎
  6. BookNet Canada. 2024 Canadian book market half-year review. 4 set. 2024. Disponível em: https://booknetcanada.ca/blog/2024/09/04/2024-canadian-book-market-half-year-review/ ↩︎
  7. Publishers for Palestine, comunicado de 30 jan. 2025. Ver: https://publishersforpalestine.org/ ↩︎
  8. ABU SAIF, Atef. Don’t Look Left: A Diary of Genocide. Comma Press, 2024. Edição brasileira: Quero estar acordado quando morrer. São Paulo: Editora Elefante, 2024. ↩︎
  9. Reuters. Michigan’s 100,000 “uncommitted” votes challenge Biden’s Israel policy. 28 fev. 2024. dISPONÍVEL EM: https://www.reuters.com/world/us/michigans-strong-uncommitted-vote-shows-israel-impact-biden-support-2024-02-28/ ↩︎
  10. Pro-Gaza candidates dent Labour’s UK election victory. 5 jul. 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/uk/pro-gaza-candidates-dent-labours-uk-election-victory-2024-07-05/ ↩︎
  11. CIVICUS. Solidarity with Palestine repressed: Trends and case studies. 4 nov. 2024. Disponível em: https://www.civicus.org/index.php/who-we-ar ↩︎
  12. Times of Israel. J Street head says he’s now convinced Israel committing genocide in Gaza. 5 ago. 2025. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/j-street-head-says-hes-now-convinced-israel-committing-genocide-in-gaza/ ↩︎
  13. B’Tselem. Our Genocide. Jul. 2025. Disponível em: https://www.btselem.org/publications/202507_our_genocide ↩︎
  14. Reuters. Netanyahu races to unify Israel’s right wing in bid to avert election defeat. 8 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/netanyahu-races-unify-israels-right-wing-bid-avert-election-defeat-2026-09-08/ ↩︎
  15. MANSOUR, Joseph. Israel’s Election and Eisenkot’s Arab Coalition Dilemma. Arab Center Washington DC, 15 jul. 2026. Disponível em: https://arabcenterdc.org/resource/israels-election-and-eisenkots-arab-coalition-dilemma/ ↩︎
  16. OCHA. Humanitarian Situation Report | 11 September 2026. Disponível em: https://www.ochaopt.org/content/humanitarian-situation-report-11-september-2026 ↩︎
  17. Reuters. Israeli strike kills parents and two children in Gaza, medics say. 10 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/israeli-strike-kills-parents-two-children-gaza-medics-say-2026-09-10/ ↩︎
  18. ONU. Comissão de Investigação. Israel continues to commit genocide and other atrocity crimes by deliberately targeting Palestinian children. 23 jun. 2026. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2026/06/israel-continues-commit-genocide-and-other-atrocity-crimes-deliberately ↩︎
  19. Disponível em; https://www.middleeastmonitor.com/20260821-a-roadmap-for-gaza-and-palestine/ ↩︎
  20. ERAKAT, Noura. Justice for Some: Law and the Question of Palestine. Stanford University Press, 2019 ↩︎

**** Rafael Domingos Oliveira é Historiador e educador, doutorando em História pela UNIFESP e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas das Afro-Américas (NEPAFRO). É autor de Vozes Afro-Atlânticas: autobiografias e memórias da escravidão e da liberdade (Elefante, 2022) e organizador de Gaza no coração: história, resistência e solidariedade na Palestina (Elefante, 2024) e Diários de Gaza, volume 1: a memória é uma casa indestrutível (Tabla, 2024). Atua nas áreas de história da escravidão e abolição nas Américas, história pública e memória palestina.


Margem Esquerda #43

Como não poderia deixar de ser, Gaza está no centro da nova edição da Margem Esquerda. A revista abre com uma densa entrevista com o historiador palestino-americano Rashid Khalidi, por muitos considerado herdeiro intelectual de Edward Said. Na sequência, o dossiê de capa esquadrinha a atual situação palestina em reflexões de Arlene Clemesha, Samah Jabr, Tithi Bhattacharya, Bruno Huberman e Ilan Pappé. É do artista plástico palestino Yazan Khalili, o ensaio visual da edição. Fechando o volume, nosso editor de poesia traduz e comenta os versos pungentes de Rafaat Alareer, assassinado em dezembro de 2023 por um bombardeio aéreo israelense no norte de Gaza, junto com dois irmãos e quatro sobrinhos.

Caminhos divergentes, de Judith Butler


A partir das ideias de Edward Said e de posições filosóficas judaicas, Butler articula uma crítica do sionismo político e suas práticas de violência estatal ilegítima, nacionalismo e racismo patrocinado pelo Estado. Além de Said, reflete sobre o pensamento de Levinas, Arendt, Primo Levi, Buber, Benjamin e Mahmoud Darwish para articular uma nova ética política, que transcenda a judaicidade exclusiva e dê conta dos ideais de convivência democrática radical, considerando os direitos dos despossuídos e a necessidade de coabitação plural.

Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil, de Arlene Clemesha


A chamada “questão judaica” esteve e está no centro da história contemporânea. Não é de se estranhar que o judaísmo tenha lançado ao marxismo os maiores desafios à sua capacidade explicativa e transformativa. Neste livro, a professora e historiadora Arlene Clemesha passa em revista as metamorfoses dessa controvertida trajetória, desde o ensaio Sobre a questão judaica, de Karl Marx, até o clássico trabalho de Abraham Léon, escrito em pleno desenvolvimento do Holocausto, que ceifaria a vida do seu autor.





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