Qual vitória feminista foi atingida sem fúria?

Uma resenha da série Fúria, de Elizabeth Meriwether

Imagem: Divulgação.

Por Cauana Mestre

⚠️ ATENÇÃO, PODE CONTER SPOILERS! ⚠️

Uma mulher cuida das flores enquanto seu pai estupra uma menina no quarto ao lado. É a filha que entrega as meninas, satisfazendo de forma estranhamente incestuosa os desejos perversos de um pai estuprador. O brilhantismo da série Fúria se deu, para mim, nessa cena, que levantou imediatamente uma pergunta sobre a ambivalência: tendo sido criada por esse homem e se tornado cúmplice em busca de amor paterno, essa mulher é vítima ou algoz? Ou ambas as coisas?

Para mim, Fúria tem três protagonistas impecáveis. Alice Black (Emmy Rossum) é uma ex-detetive tentando voltar à sua função antiga depois de ter mudado de departamento para se afastar de um ex-namorado agressor — também policial. Nora Washington (Quincy Tyler Bernstine) é uma agente veterana, responsável por crimes sexuais cibernéticos e tem um dos trabalhos mais horripilantes do mundo, que é detectar pornografia infantil. O caminho delas se encontra quando a terceira protagonista, Catherine (Lola Petticrew), vira alvo do FBI depois de matar homens poderosos que, apesar de viverem plenamente suas vidas, são responsáveis por tráfico de meninas e crimes sexuais.  Seria mais uma série sobre um serial killer se o acento da narrativa não estivesse tão bem colocado no título.

Fiquei pensando na palavra Fúria, em sua etimologia. Lembrei de Virgílio, que escreve as Fúrias, três irmãs mitológicas (Alecto, Megera e Tisífone) vingadoras, que torturam criminosos até a loucura ou à morte. Elas não respondem aos deuses e fazem justiça com as próprias mãos. Parece um pouco o roteiro de O mistério da viúva negra, filme de 1987 que inspirou a criação da série.

Não podemos esquecer que a produção da Hulu foi construída após o caso Epstein e as referências a ele são declaradas. E, na semana em que assisti os episódios, houve a quebra de sigilo do banco Master e foi impossível não pensar na festa de Vorcaro, na boate Madame Satã, para qual ele convidou 20 homens e 120 mulheres, “só menina nova”.

Uma série continua sendo um produto do capital — principalmente as hollywoodianas — mas quando é criada para dar corpo às incontáveis histórias de violência que pesam sobre as vidas femininas, extrapola os próprios muros. Parece que Elizabeth Meriwether, criadora da série, reinventa as três Fúrias mitológicas, subvertendo a fúria feminina, temida ou desprezada pela cultura. Mulheres raivosas, como escreve a tradwife, personagem de Caro Claire Burke no livro Bons tempos. Furiosas, raivosas e histéricas cada vez que um direito precisa ser conquistado ou alguma justiça precisa ser alcançada. Afinal, alguma vitória feminista foi atingida sem que um traço de fúria precisasse aparecer para firmar o propósito da causa?

Fúria é uma série um tanto disruptiva porque aborda a violência contra mulheres de um jeito que só poderia ser feito hoje, no mundo pós Me too e Epstein, e, no entanto, não faz disso nenhuma agenda e não renuncia a nenhuma complexidade na construção de suas personagens, principalmente as femininas. “Não pude decidir uma única coisa minha vida inteira”, diz Catherine para Alice. Uma menina traficada e violada de incontáveis formas e uma agente do FBI, mulher de certo poder e, ainda assim, submetida à violência masculina. O roteiro implica todos os personagens na própria narrativa e não deixa de fora nenhum traço de profundidade, mostrando que ninguém é uma coisa só, mas todo mundo carrega o próprio sintoma. Fúria não reinventa o gênero thriller, mas o expande para além da briga entre bem e mal, e perturba nossa tendência maniqueísta, nos fazendo consentir com as contradições.



*** Cauana Mestre é psicanalista e mestre em Literatura pela UFPR. Junto a Licene Garcia, apresenta o podcast Sobre um dizer.



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