História, historiografia e materialismo histórico

Fotografia do historiador Fernando A. Novais. Fonte: Acervo Boitempo

Por Fernando A. Novais

Historiador marxista, o tema destas reflexões esteve necessariamente presente ao longo de todo o meu percurso intelectual. Isso porque o marxismo é, antes e acima de tudo, uma teoria da história; e minha formação acadêmica coincidiu com os debates em torno dos destinos do socialismo no mundo contemporâneo. Assim, as atividades universitárias (docência, debates, pesquisas etc.) mesclaram-se, sempre, com a problemática dessa visão do mundo centrada na temporalidade e de suas implicações em todas as esferas da existência. Por isso, julgo uma boa entrada para este ensaio a rememoração daquele período, sendo, aliás, a reminiscência marca incontornável desta fase da vida.

No pós-guerra, a ascensão dos Estados Unidos da América e o declínio da Europa manifestavam-se, no campo das humanidades, pelo declínio da filosofia e pela ascensão das ciências sociais, tornando-se aquela antiga sabedoria um comentário aos pressupostos teóricos dessas modernas disciplinas do conhecimento. Concomitantemente, a polarização entre o capitalismo hegemônico e o socialismo contrastante inseria o pensamento marxista nesse contexto, fundindo-se o debate das ideias e o confronto político numa batalha infinita travada em todas as dimensões do vivido.

Nesse cenário, meu trabalho sobre o antigo sistema colonial e a posição do Brasil no seu interior1 foi discutido e criticado a partir de duas perspectivas: no quadro dos debates do pensamento marxista e do ponto de vista da “nova história” ascendente. Contudo, a recepção favorável sempre acentuou o caráter não dogmático e mesmo integrativo de minhas análises. Nos últimos tempos, estudos sobre historiografia – esse exame de consciência do historiador – me levaram a refletir sobre esse percurso, questionar essa experiência, daí resultando o texto que, juntamente com Rogério Forastieri da Silva, elaborei para a introdução à antologia Nova História em perspectiva, publicada em 2011.2

Naquela ocasião, em que procuramos situar a Nova História dominante nos quadros da história geral da historiografia, nos defrontamos diretamente com o materialismo histórico, pois é sobretudo contra ele que a nova tendência hegemônica se apresenta triunfante. Definimos o perfil da Nova História por duas características fundamentais: a abertura para novos temas e a desconceitualização. Efetivamente, se o ilimitado alargamento temático, expressado nas suas melhores realizações, marca sua grandeza, a segunda característica assinala sua inserção no campo das ciências sociais, frente à chamada crise dos paradigmas: enquanto aquelas reagem intensificando o debate teórico em torno de seu aparato conceitual e metodológico, a história responde alargando o campo e maximizando os objetos de indagações. Nas duas vertentes, há o abandono do geral pelo particular, a substituição das “grandes visadas” pelas análises exaustivas do recorte rigoroso, em busca de maior objetividade e cientificidade. Ora, em história, a grande interpretação visada era direta ou indiretamente o marxismo, isto é, o materialismo histórico, então entendido quase sempre como interpretação econômica da história. Assim, em busca de uma melhor compreensão do perfil contemporâneo de nosso ofício, fomos levados a examinar o marxismo no conjunto das ciências humanas.

Essa perspectiva – que então denominamos o “ponto de vista da história geral da historiografia” – buscava, em primeiro lugar, demarcar a especificidade da história, isto é, do discurso do historiador, no conjunto das humanidades. O ponto de partida era, naturalmente, a Antiguidade clássica – merecedora da proteção da eterna musa inspiradora, Clio. Essa antiguidade gloriosa, sempre unanimemente assinalada, tem implicações fundamentais, nem sempre levadas em conta na problemática aqui analisada, quais sejam a especificidade da história dentre as ciências sociais e a posição do marxismo nesse contexto. Examinemos, portanto, três implicações da antiguidade da história, decisivas para nossos propósitos.

Em primeiro lugar, essa “Antiguidade clássica” tem muito a ver com a questão dos “povos sem história” e, pois, com as relações entre história e antropologia. Mais ainda: é central, para conceituar a civilização ocidental, isto é, nossa civilização. Afinal, isso, em segundo lugar, leva-nos à observação de que o “milagre grego”3 não se consistiu apenas na emergência do logos, mas também na autonomização da narrativa do acontecimento. Quer dizer: na polis, o discurso do filósofo e o discurso do historiador se tornaram independentes da mitologia, e é isso que singulariza nossa civilização nos seus albores. Da mesma forma, não se pode minimizar a diferença entre a narrativa mitológica e o discurso do historiador, isto é, a diferença entre narrativa e acontecimento, postura característica dos mentores da Nova História. Contudo, como dissemos, essa questão terá de ser tratada mais à frente; aqui é mencionada apenas para exemplificar a importância dessa segunda dimensão de nossa longevidade. Sua terceira implicação é ainda mais importante; para nós, decisiva. Voltaremos a este ponto.

A terceira implicação é ainda mais importante. Efetivamente, se a história é muito mais antiga que as ciências sociais, impõe-se afirmar que sua gestação não corresponde, historicamente, às mesmas demandas socioculturais que engendraram as modernas ciências humanas. A asserção é unânime, mas vale avançar nos seus desdobramentos, ainda que sumariamente. A economia, a sociologia e a antropologia instituem-se como disciplinas científicas entre 1750 e 1914. Sua formação tem muito a ver, respectivamente, com a Revolução Industrial enquanto consolidação do capitalismo, com a expansão dominante da sociabilidade urbana e com o neocolonialismo consubstanciado na partilha da África. Dissemos “tem a ver”, pois situamo-nos num plano além dos debates sobre a natureza dessas relações; basta-nos lembrar sua existência, pois negá-la seria admitir como simples coincidência sua coetaneidade. Já a história nada tem a ver com esses grandes processos estruturais. Na Alta Idade Média, não havia capitalismo, burguesia, imperialismo, e lá estava o Venerável Beda a redigir a Historia ecclesiastica gentis anglorum [A história eclesiástica do povo inglês].

Temos que indagar, portanto, a que demanda sociocultural respondia o discurso do historiador na sua Antiguidade clássica. Aqui também nos defrontamos com uma unanimidade: a narrativa do acontecimento respondia às necessidades de constituição da memória social. Atentemo-nos para o significado desta constatação: a polis grega necessitava desse tipo de discurso para a constituição de sua memória. Como nem toda formação social tem essa carência essencial para sua articulação e sua reprodução, segue-se que estamos diante de um marco distintivo da cultura helênica, ao lado da emergência do logos – sempre apontado como fundamental na gestação da paideia. Não se trata, aqui, de comparar ou medir a importância dessas transformações culturais; é claro que o advento da racionalidade sobreleva o nascimento da história, podendo aliás este considerar-se parte daquele. Cumpre destacar que filosofia e história autonomizam-se concomitantemente, separando-se do mito, nos quadros do milagre grego; e que esse é o marco distintivo da Grécia clássica, que a singulariza em meio às inumeráveis formações sociais no curso da história. Poderíamos retomar aqui o diálogo das ciências humanas (no caso, história/antropologia), lembrando que talvez este seja o critério para caracterizar os chamados “primitivos”: aqueles para os quais a narrativa do acontecimento não é condição essencial para a constituição de sua memória social, bastando-lhes sua mitologia.

Sendo, porém, nosso objetivo a caracterização do discurso historiográfico, sigamos explicitando as implicações e os desdobramentos desse primeiro passo. Partindo da antiguidade do discurso historial nascente e de sua relação com a memória, a primeira reflexão que se impõe é a de que a história permanecerá operante enquanto persistir aquela demanda nos quadros de nossa civilização. Embora apresente modificações em várias fases no longo percurso até a atualidade, mantém sempre o vínculo originário como componente fundamental na formação da memória. Por isso, em nossa história intelectual, cabe indagar a respeito do impacto das ciências sociais sobre a história, e não o contrário.

Mais ainda: as ciências sociais já nascem como ciência, e a história – que era tida como arte – teve que se adaptar às novas condições da vida cultural. Efetivamente, o século XIX – o “século da ciência”, também significativamente chamado “século da história” – assistiu à mudança de postura dos historiadores em face do seu ofício: ao mesmo tempo que se profissionalizavam, queriam ser também cientistas. Quer dizer: já não lhes bastava narrar os acontecimentos, almejavam também explicá-los. Dito de outro modo: há uma correspondência entre a demanda da explicação científica e a necessidade de divisão do objeto.

Efeito perverso dessa nova mentalidade, os historiadores se descuidaram da qualidade da escrita, ou melhor, passaram a escrever mal; e a história deixou de figurar como capítulo nas histórias da literatura. Mas deixemos de lado essa senda para nos mantermos na rota que vimos trilhando.

O encontro da história persistente com as ciências sociais emergentes oferece um excelente critério para aclarar a opaca distinção entre historiografia “tradicional” e “moderna”. Se a segunda dialoga com as ciências sociais, a primeira não vivencia esse diálogo – nem poderia fazê-lo, pois é anterior às ciências do homem. Se os cultores da historiografia “tradicional” eram simples cronistas, com a modernidade, o discurso historiográfico adquire uma nova dimensão (explicativa), que se soma à originária (narrativa).

Logo, na historiografia moderna, há uma inevitável tensão entre essas duas dimensões do discurso ou entre análise e reconstituição. Essa diferença específica penetra fundamente nas relações entre as ciências sociais e a história. Para compreendê-las melhor, precisamos assinalar ainda outra diferenciação, que singulariza a história no campo das humanidades: tratar todas as esferas da existência – enquanto as ciências sociais as recortam como objeto.

Importa, em primeiro lugar, demarcar claramente dois blocos: de um lado, as relações recíprocas da história com cada uma das ciências sociais; de outra parte, as relações das várias ciências sociais entre si. Nesse caso, nos defrontamos com o diálogo entre as várias esferas da existência; naquele, o todo dialoga com as partes. Em segundo lugar, a especificidade, como mostramos anteriormente, interfere no diálogo das humanidades e nos ajuda a compreender a reação da história diante da chamada “crise dos paradigmas”. Enquanto as ciências sociais intensificavam o debate teórico-metodológico, os historiadores dedicavam-se preferentemente à abertura de novos temas4.

Mas examinemos a postura dos historiadores diante da conexão entre explicação científica e divisão do objeto. É que seu objeto é irrecortável, por ser ilimitado. Como narrativa do acontecimento, o discurso historiográfico visa a todo o acontecer humano, de qualquer tipo, em todo o espaço, durante todo o tempo; logo, a característica essencial do objeto da história é sua infinitude. Atentemo-nos, agora, para o contraste: o que qualifica a ciência é, precisamente, o rigoroso recorte de seu objeto e um método adequado à sua análise. Ora, a história, além de um objeto indelimitável, não tem propriamente um método, senão técnicas de investigação documental e tratamento dos dados. Na historiografia tradicional, o que hoje chamaríamos questões metodológicas penetravam o campo da filosofia da história, desaguando, quase sempre, na Teodiceia; modernamente, essas questões integram o diálogo com as ciências sociais, com o que voltamos ao núcleo de nosso problema.

Para ir direto ao ponto, concentremo-nos na historiografia francesa, na Escola dos Annales, na qual o tema foi mais intensamente explicitado. Em suma: para ser moderno, científico, o discurso historiográfico, mantendo a narrativa, deve empregar os conceitos das ciências sociais, historicizando-os. Como proceder à narrativa, sendo, ao mesmo tempo, analítico/explicativo é evidentemente um problema; mais ainda, definir quais conceitos e como historicizá-los.

Os conceitos, evidentemente, seriam aqueles da ciência social respectiva, em que se anicha o fragmento recortado para a reconstituição: econômicos, sociológicos, antropológicos. Já a historicização de conceitos implica dificuldades de outra ordem. Vejamos: historicizar conceitos significa, fundamentalmente, situá-los no tempo, isto é, ver como operam no tempo do objeto recortado para a reconstituição. Para definir estruturalmente esse “tempo”, contudo, são necessários conceitos mais amplos, que extrapolam os limites da esfera da existência referida, os quais a priori desconhecemos. Noutras palavras: girando num círculo vicioso, configura-se um impasse. Uma vez que não se vislumbra resolução teórica do problema, a avaliação dos resultados sempre ficou vinculada à capacidade ou ao talento dos autores.

Esse desafio intelectual foi vivido de maneira dramática no meu percurso de formação. Lembro-me bem que, já como estudante universitário, inquietava-me a questão sobre o que, afinal, distingue a história das ciências sociais. Na universidade, era unânime a rejeição à simplista visão tradicional, fundada na cronologia, segundo a qual a história tratava do passado, enquanto as ciências sociais estudariam o presente. Pois é tão vigente e mesmo imediata a história contemporânea quanto o são retrospectivos os estudos de ciências sociais situados no passado.

Essa constatação, entretanto, não resolvia o problema, até pela dificuldade de definir rigorosamente passado, presente e futuro. E a questão se reformulava em outros termos: se não é essa a diferença, o que então distingue a história das outras ciências sociais? Pessoalmente, a lembrança persiste: a vacuidade insatisfatória das respostas e a incomodidade do assunto; observações como a de que os historiadores propendem ao passado pela necessidade de certo distanciamento para manter a objetividade. Como na academia essas questões se mesclavam inevitavelmente com a disputa por espaço, poder e, sobretudo, prestígio, pode-se imaginar o ambiente em que se desenrolavam esses encontros na nossa vida intelectual. Desencontros à parte, importa-nos assinalar que essa situação, se contida, ainda hoje não foi inteiramente superada. De um modo geral, os cientistas sociais tendem a considerar suas disciplinas rigorosamente científicas, explicativas, sendo a história meramente descritiva (devia-se dizer “narrativa”; “descritiva”, a geografia). Em contraposição, os historiadores veem a história como a síntese e o coroamento de todas as humanidades. Nesse diapasão, o diálogo vem se travando, desde o pós-Segunda Guerra Mundial até nossa brilhante XXI centúria, sem avanço, mas com grande vigor e desentendimento.

Notas

  1. Fernando Novais, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808) (2. ed., São Paulo, Editora 34, 2019). A obra é fruto de tese defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), em 1973, e foi publicada como livro originalmente em 1978, pela editora Hucitec (N. E.). ↩︎
  2. Fernando A. Novais e Rogério Forastieri (org.), Nova História em perspectiva, v. 1 (São Paulo, Cosac Naify, 2011), p. 6-70. ↩︎
  3. Ver Henri Berr, “La Grèce et la civilisation hellénique. Le miracle grec”, em En Marge de l’histoire universelle, v. 1: Les problèmes de l’histoire, les origines humaines, les premières civilisations, le miracle grec, l’aube de la science (Paris, Albin Michel, 1954, coleção L’Évolution de l’humanité), p. 155-269. ↩︎
  4. É claro que falamos, em termos gerais, de dominância, e não de exclusividade. Para exemplificação, poderíamos retornar aos três volumes da momentosa Faire de l’histoire. Ver Jacques Le Goff e Pierre Nora (org.), Faire de l’histoire, v. 1: Nouveaux Problèmes; Faire de l’histoire, v. 2: Nouvelles Approches; Faire de l’histoire, v. 3: Nouveaux Objets (Paris, Gallimard, 1974). ↩︎

**** O artigo completo está disponível na Margem Esquerda #47, a Revista da Boitempo do 2° semestre de 2026. A Margem Esquerda #47 faz parte do Armas da Crítica de setembro de 2026. Clique aqui para assinar.

*** Fernando Novais foi professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou história moderna e contemporânea de 1957 a 1986, atuou também como docente junto ao Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre 1986 e 2003. Continuador das ideias de Caio Prado Júnior e integrante do grupo de estudos sobre O CAPITAL (entre 1958 e 1964), em seus trabalhos aprofundou, debateu e inovou teses caras aos historiadores de diferentes gerações – entre as quais, a tese da colonização do Brasil como ocupação mercantil articulada ao longo processo de acumulação de capital, desencadeado a partir da crise do feudalismo – teses, portanto, que contribuíram ao desenvolvimento dos estudos sobre o caráter do poder das classes dominantes e das lutas sociais que se estabelecem no Brasil desde a colônia aos dias atuais).


A obra-prima Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777- -1808), suas tomadas de posição historiográficas e suas concepções no marxismo são marcos situados em três “séries”: o acúmulo da discussão entre comunistas a respeito da natureza da colonização portuguesa; a academização do métier historiográfico, marcado pela recepção uspiana da École des Annales; uma peculiar apropriação do livro O capital, de Karl Marx – leitura proposta por ele mesmo a José Arthur Giannotti (1930-2021), mentor da “disciplina filosófica” do “seminário Marx” (1958-1964). Difícil, senão impossível, consolar a imensa tristeza em que habitam seus discípulos, com sua partida, em 30 de abril de 2026, porém, talvez o voltejo por essas três linhas de força a amenize um pouco.

Naturalmente, Novais não foi o primeiro historiador marxista do país. Numa história intelectual de longa duração, perfila-se uma plêiade de autores comunistas que o antecedem e, de certo modo, pavimentaram o terreno para seu esquema interpretativo, destacadamente: Alberto Passos Guimarães (1908- -1993), Nelson Werneck Sodré (1911-1999) e Caio Prado Jr. (1907-1990).

Em sua obra, trata-se de deslindar “mecanismos de conjunto do sistema colonial, isto é, das relações entre o conjunto do mundo colonial e o mundo metropolitano em seu conjunto”. É de tal modo que confere concretude ao “sentido da colonização”, isto é, a aceleração da acumulação primitiva de capitais, pressuposto do advento da Revolução Industrial, no polo metropolitano da “economia mundo” da Era Moderna.

Para Novais, o período abarcado entre os séculos XV e XVIII, que corresponde à vigência do Antigo Sistema Colonial, não é mais feudal e ainda não é capitalista. De tal modo, não é cabível “classificar” o período em um modo de produção supostamente “predominante”, pois sua característica é a transição entre dois outros (o feudal e o capitalista) – complicando enormemente a tarefa do historiador e exigindo a mobilização da categoria “totalidade sistêmica (dialética)”.

De tal modo, para ele, ser marxista não consiste em abster-se do domínio de outras vertentes teóricas. Ao contrário, o marxismo o exige. A singularidade dessas tomadas de posição, marcos na história do marxismo brasileiro, pressupôs as demais “séries” supramencionadas, frentes de batalha igualmente complexas.

Ao partir, Fernando leva o mundo que o formou: o Brasil dos anos 1950, o auge da historiografia marxista global, uma universidade pública, laica e de qualidade. Essa instituição é ameaçada diariamente por forças políticas externas a ela e por uma competição irracional que a mina por dentro, resultante do desenfreado produtivismo como “meta”. Sabemos o que Fernando pensava disso. Jamais se rendeu a quaisquer dessas forças destrutivas.

Fernando se foi deixando filhos, netos, discípulos, máximas e saudades. Não deixemos o mundo dele ir embora também. Resistamos.


**** O artigo completo está disponível na Margem Esquerda #47, a Revista da Boitempo do 2° semestre de 2026. A Margem Esquerda #47 faz parte do Armas da Crítica de setembro de 2026. Clique aqui para assinar.

*** Lidiane Soares é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais da UFABC e professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFSCar. Foi professora visitante na Brown University e na Ècole Nomale Supérieure Paris-Saclay e integra o grupo de trabalho em história da sociologia da Associação Internacional de Sociologia.

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— Christian Dunker em Psicanálise nos trópicos

Em meio a debates sobre regulamentações e afins, em Psicanálise nos trópicos: mitos e percursos lacanianos, Christian Dunker apresenta ao leitor, de forma pioneira, o trajeto da psicanálise lacaniana e sua influência no Brasil. O autor argumenta que a recepção de Jacques Lacan no país não se reduz à simples importação da teoria francesa, mas expressa tensões profundas da formação cultural brasileira.  

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