Friedrich Engels e a dialética da evolução 

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Por Michel Goulart da Silva

Embora mais conhecido como um dos pioneiros do materialismo histórico, Engels dedicou parte de sua vida intelectual ao estudo das chamadas Ciências Naturais. Produto disso é a obra Dialética da natureza, obra inacabada escrita em 1883. Em diversas edições, essa obra conta com o texto “O papel do trabalho na hominização do macaco”, escrito em 1876 e publicado pela primeira vez em 1896. Nesse ensaio, Engels afirma que o trabalho “é a primeira condição fundamental de toda vida humana”, sendo possível afirmar que, em certo sentido, “ele criou o ser humano como tal”.1

O consenso da comunidade científica, até o início do século XX, era oposto ao tipo de explicação oferecida por Engels. Enfatizava-se o desenvolvimento do cérebro como o ímpeto subjacente à evolução humana, nutrindo-se a expectativa de que os “elos que faltavam” entre os primatas e os seres humanos, quando fossem descobertos, mostrariam um cérebro num nível intermediário de desenvolvimento. Contudo,

“[…] estas expectativas colapsaram com a descoberta, no início dos anos 1920, do gênero Australopithecus, datando de aproximadamente 4 milhões de anos. O cérebro do Australopithecus era apenas ligeiramente aumentado e tinha, em geral, a proporção dos símios em relação ao corpo. Ainda assim, os australopitecinos eram claramente da espécie hominídea, ficando eretos, exibindo mãos (e pés) desenvolvidos e já fabricando ferramentas.”2

Engels analisa em seu ensaio as transformações na relação entre a humanidade e o restante da natureza, e de que forma sua intervenção sobre o meio ambiente influenciou a formação da própria sociedade. Engels afirma que o trabalho e a fabricação de instrumentos favoreceram a “hominização do macaco”, um processo lento que inclui, entre outros elementos, o desenvolvimento de certas características físicas, como a mão, a fala e o próprio cérebro. Marx e Engels,

“[…] viram a relação humana com a Terra em termos coevolucionário – uma perspectiva que é crucial para uma compreensão ecológica, já que nos permite reconhecer que os seres humanos transformam seu ambiente não totalmente de acordo com suas escolhas, mas baseado nas condições oferecidas pela história natural.”3

Para Engels, o fato de um grupo de macacos, há alguns milhões de anos, ter deixado de necessitar das mãos para caminhar, passando a adotar cada vez mais uma posição ereta e deixando as mãos livres para executar as mais variadas funções, foi o “o passo decisivo para a transição do macaco para o homem”4. Engels explica que, antes, usava-se a mão apenas em tarefas como

“[…] apanhar e segurar o alimento, como já ocorre no uso das patas dianteiras pelos mamíferos inferiores. Com ela alguns macacos constroem abrigos nas árvores ou até, a exemplo do chipanzé, coberturas entre os ramos como proteção contra as intempéries. Com ela seguram paus para se defender dos inimigos ou os bombardeiam com frutas e pedras.”5

Segundo Engels, quando desceram das árvores e fizeram uso da postura ereta, nossos ancestrais adaptaram as mãos a novas tarefas. Embora nesse período de transição a mão cumprisse funções bastante simples, adquiriu ao longo do tempo mais destreza e habilidade, transmitindo de geração em geração essa flexibilidade adquirida. Para Engels, a mão é produto do trabalho, explicando que ela chegou a sua forma

“[…] através da adaptação a operações sempre novas, através da transmissão hereditária do formato específico adquirido nesse processo, dos músculos, dos tendões e, em períodos mais longos, também dos ossos, e através da aplicação sempre renovada desse refinamento herdado a novas operações cada vez mais complexas.”6

Engels dialoga com a teoria da evolução desenvolvida por Charles Darwin, corroborando a chamada “lei de correlação do crescimento”, segundo a qual “determinadas formas de partes individuais de um ser orgânico estão sempre vinculadas a certas formas de outras partes, que aparentemente não têm ligação nenhuma com elas”7. Nesse sentido, a mão seria beneficiada, de alguma forma, pelo que beneficia todo o corpo, ou seja, “o refinamento gradativo da mão humana e, a par deste, o aprimoramento do pé para o andar ereto indubitavelmente também influenciaram outras partes do organismo em virtude dessa correlação”8.

Engels relaciona a fabricação de ferramentas próprias para a realização da caça e da pesca com a passagem de uma alimentação essencialmente vegetariana para uma alimentação mista. Essas novas características da alimentação teriam oferecido ao organismo importantes ingredientes para seu metabolismo, influência expressa no cérebro, “para o qual passaram a fluir em profusão muito maior do que antes as substâncias necessárias à sua nutrição”9. Esses novos hábitos alimentares demandaram o uso do fogo, que auxiliava no processo de digestão pelo cozimento dos alimentos, e a domesticação de animais, aumentando as reservas de carne.

Engels também destaca a fala como característica essencial da evolução dos seres humanos, na medida em que vivem coletivamente, se comunicam e expressam o que aprendem e observam, levando à necessidade de desenvolver uma linguagem articulada, que pudesse expressar ideias, conceitos e símbolos. Em função do progressivo domínio da natureza e do desenvolvimento de novas técnicas, o ser humano aos poucos foi descobrindo nos objetos propriedades que até então não conhecia, ao passo que

“[…] o aprimoramento do trabalho necessariamente contribuiu para estreitar os laços entre os membros da sociedade, na medida em que multiplicou os casos de apoio mútuo, de cooperação, e proporcionou uma clara consciência clara da utilidade dessa cooperação para cada indivíduo.”10

O desenvolvimento da linguagem e da fala também tem relação com modificações no organismo. Segundo Engels, “a laringe pouco evoluída do macaco foi mudando de forma de maneira lenta, mas segura, passando da modulação para uma modulação cada vez mais desenvolvida, e os órgãos da boca aprenderam aos poucos a articular uma letra após a outra”11. Engels afirma que o trabalho e a linguagem foram “os dois impulsos mais essenciais, sob cuja influência o cérebro de uma macaco gradativamente passou a ser o de um humano”12.

Com o desenvolvimento do cérebro, desenvolvem-se também os sentidos, que são os instrumentos de contato mais imediato com o meio. Para Engels, “do mesmo modo que o aperfeiçoamento gradativo da linguagem necessariamente foi acompanhado de um refinamento correspondente do órgão da audição, o aperfeiçoamento geral do cérebro foi acompanhando de refinamento de todos os sentidos”13. O desenvolvimento do trabalho, da linguagem, da capacidade de abstração, dos sentidos, foi o fator determinante para que o ser humano e a própria sociedade também se desenvolvessem.

O ser humano diferencia-se dos demais animais pela capacidade de adaptar-se a diferentes contextos, intervindo coletivamente na natureza e construindo ferramentas que possibilitem a ele mediar suas relações com o meio. O trabalho está diretamente associado ao metabolismo entre o ser humano e o meio natural. Fala-se em trabalho humano apenas quando uma determinada atividade modifica os materiais naturais e altera sua forma original. O trabalho é o processo que realiza a mediação entre o ambiente e o ser humano, quando este põe em ação as forças de que seu corpo está dotado – braços, pernas, cabeça, mãos –, transformando em produtos os elementos disponíveis na natureza, suprindo assim suas necessidades, não importando se “elas provêm do estômago ou da imaginação”14.

O trabalho, entendido como ação deliberada sobre o meio e mediado pelas funções cerebrais e pela capacidade de abstração, nada tem a ver com as atividades que realizam outros animais, como as abelhas ou as formigas. O ser humano, ao “se apropriar da matéria útil para sua própria vida”, coloca “em movimento as forças naturais pertencentes a sua própria corporeidade. Agindo sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza”15. O trabalho não é ação realizada sobre o meio de forma instintiva ou mecânica, mas processo complexo de aprendizagem, no qual o ser humano, além de repetir ações e processos, como os outros animais, desenvolve técnicas e tecnologia.

Em seu ensaio, Engels não se preocupa em definir um grupo de hominídeos e sua localização espacial e temporal, mas expõe o processo de evolução humana em sua relação com o trabalho. Embora seu texto remonte a uma única origem humana, procura defender a hipótese de que foi o trabalho – que, neste caso, apontamos como o responsável pelas diversas especiações – o fator que diferenciou a adaptação humana da adaptação de outros animais. Se todos os ancestrais humanos e seus contemporâneos, de diferentes regiões e épocas, têm características próprias, é óbvio que isso se deu em função das diferentes formas que essas espécies encontraram para se adaptar ao meio em que viviam, produzindo diferentes formas de trabalho e utilizando diversos instrumentos. Retomando Engels, percebe-se que não é apenas em função de uma determinação biológica que o homem se transforma, mas também pela sua intervenção e pelo trabalho sobre a natureza.

Em seu contato com o meio ambiente, o ser humano desenvolveu habilidades como a caça, a pesca, a agricultura e a tecelagem. O trabalho humano desenvolveu, além de uma grande diversidade de técnicas e ferramentas, diferentes formas de organização das sociedades. Por meio da cooperação entre as mãos, os órgãos da linguagem e o cérebro se produziram as artes e a política, a cerâmica e as navegações, o direito e as religiões, a escravidão e o capitalismo. Segundo Engels, “diante de todas essas formações, que de início se apresentavam como produtos da mente e pareciam dominar a sociedade humanas, as produções mais modestas da mão trabalhadora passaram para segundo plano”16.

O desenvolvimento da técnica pelo qual passou a humanidade foi atribuído apenas às atividades do cérebro. Segundo Engels, “com o passar do tempo, surgiu aquela cosmovisão idealista que dominou as mentes, principalmente após o declínio do mundo antigo”17. Uma das consequências disso apontadas por Engels – e que ainda permanece, considerando a persistência do criacionismo – era a de que, a despeito das indicações presentes na obra do próprio Darwin, “os pesquisadores da natureza materialistas da escola darwiniana ainda não conseguirem chegar a uma representação clara da gênese do ser humano porque, sob a sua influência ideológica, não reconhecem o papel que o trabalho desempenha nela”18.

Engels, em seu ensaio, apesar dos limites das investigações científicas de sua época, mostra o papel do materialismo dialético para o desenvolvimento do conhecimento e do método científico. Engels combate no terreno da ideologia e da luta de classes as compreensões metafísicas e idealistas do trabalho e da evolução humana. Mostra, assim, o papel do trabalho no desenvolvimento da humanidade e, por conseguinte, a necessidade de superação da exploração econômica na sociedade.

Notas

  1. ENGELS, Friedrich. Dialética da natureza. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 337. ↩︎
  2. FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. São Paulo: Expressão Popular, 2023, p. 290-1. ↩︎
  3. Ibidem, p. 292. ↩︎
  4. ENGELS, Friedrich. Dialética da natureza, op.cit., p. 339. ↩︎
  5. Ibidem. ↩︎
  6. Ibidem, p. 340. ↩︎
  7. Ibidem. ↩︎
  8. Ibidem, p. 340-1. ↩︎
  9. Ibidem, p. 344. ↩︎
  10. Ibidem, p. 341. ↩︎
  11. Ibidem. ↩︎
  12. Ibidem, p. 342. ↩︎
  13. Ibidem. ↩︎
  14. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro 1. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 113. ↩︎
  15. Ibidem, 255. ↩︎
  16. ENGELS, Friedrich. Dialética da natureza, op.cit., p. 345. ↩︎
  17. Ibidem, p. 345-6. ↩︎
  18. Ibidem, p. 346. ↩︎

***
Michel Goulart da Silva é doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e servidor técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).


Dialética da natureza, de Friedrich Engels
Obra póstuma e inacabada que conecta ciência e materialismo dialético, revelando o compromisso do marxismo com o desenvolvimento científico, recuperado pela ecologia marxista contemporânea. Tradução direta do alemão publicada durante o bicentenário de nascimento do autor.


Empenhada há três décadas em traduzir as obras de Marx e Engels, com rigor acadêmico e editorial, e sempre a partir dos manuscritos originais, a Boitempo conta hoje com mais de trinta volumes dos dois autores publicados, além de dezenas de livros dedicados ao estudo da teoria marxista. Conheça o catálogo de obras já publicadas pela coleção – algumas das nossas edições foram reconhecidas como as melhores do mundo por Gerald Hubmann, ex-diretor da MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe, instituição detentora dos manuscritos dos autores).


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