Não há revolução sustentável que não seja também socialista

“Relance de paisagem” (1926), Paul Klee. Imagem: WikiCommons
Klaus Dörre quer reabilitar três ideias há muito desgastadas: utopia, socialismo e sustentabilidade. A última, carcomida pela hipocrisia da propaganda corporativa do capitalismo pretensamente verde das últimas décadas. As duas primeiras, pelas experiências reais que levaram seu nome e pela falta de perspectiva de transformação deste capitalismo mais que tardio.
O livro é fruto da pesquisa no centro Sociedades Pós-Crescimento (coordenado pelo autor com Hartmut Rosa e Stephan Lessenich em Jena), do movimento Students for Future, de Leipzig, e da pandemia de covid-19, que escancarou a crise ecológico-econômica do capitalismo atual. Dörre critica o tom apocalíptico do discurso corrente sobre a crise ecológica, bem como sua ideologia (um tanto alemã – atenta à crise climática, mas em grande medida ignorante do capitalismo), e sustenta que “catástrofes só poderão ser evitadas por uma revolução sustentável”, ou seja, por uma transformação radical na esfera da produção. No campo do marxismo, noutro flanco, o livro se contrapõe ao “ecoleninismo” de Andreas Malm e sua proposta de que o comunismo de guerra soviético (1918-1920) possa fornecer um modelo para o enfrentamento de situações críticas. Para Dörre, socialismo sustentável quer dizer também socialismo democrático, distanciado do desenvolvimentismo e com distribuição real de renda.
Este livro é um programa de transição. Seu caminho é o inverso do marxismo ortodoxo: da ciência à utopia, mas com propostas concretas. Dörre nos propõe um exercício de imaginação e oferece respostas sobre como transformar o regime de propriedade, a produção e a reprodução social, o consumo, o transporte, o trabalho, as formas de participação política e o direito. Sem utopia, diz, o socialismo não terá chance no século XXI. Sua tese é de que a crítica negativa não é mais suficiente para uma perspectiva política. É preciso mostrar que temos, sim, uma proposta objetiva para a transformação social e que ela é não só viável, mas talvez a única alternativa que nos separe da catástrofe e, até mesmo, da extinção.
Nos últimos anos, a extrema direita logrou restabelecer o fascismo em escala global. Passou da hora de
recuperarmos seu mais antigo inimigo – a única potência que pode pôr fim à sua dominação. Para que esse mundo acabe, e novos possam surgir.
CONHEÇA A OBRA
A utopia do socialismo: bússola para uma revolução sustentável, de Klaus Dörre
É possível uma mudança ecológica radical dentro das regras do capitalismo? Para Klaus Dörre, não haverá revolução sustentável que não seja também socialista. Nesse livro, ele argumenta que uma sociedade capaz de superar democraticamente a lógica incessante de expropriação do espaço e dos bens comuns precisa ser socialista. Na obra, o alemão apresenta, com rigor analítico, um projeto de nova política para o século XXI.
“Com uma convocação urgente e absolutamente necessária, esta obra propõe uma reformulação radical do socialismo em chave ecológica. É o livro certo para os tempos que vivemos e uma bússola para os movimentos sociais contemporâneos. Klaus Dörre demonstra, com força e clareza, por que o verde precisa ser vermelho.”
— Tithi Bhattacharya, coautora de Feminismo para os 99%
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Bruna Della Torre é pesquisadora de pós-doutorado no Centro Käte Hamburger de Estudos Apocalípticos e Pós-apocalípticos da Universidade de Heidelberg, onde também edita a revista Apocalyptica. Integra o comitê editorial da revista Crítica Marxista e o conselho científico de Constelaciones: Revista de Teoría Crítica (Madrid). Em 2023, foi Horkheimer Fellow no Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt (Otto Brenner Stiftung). Realizou pós-doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP sob a supervisão de Jorge de Almeida (2018-2021), com estágio de pesquisa na Universidade Humboldt (anfitriã: Rahel Jaeggi) e no Departamento de Sociologia da Unicamp sob supervisão de Marcelo Ridenti (Fapesp). Doutora em Sociologia (bolsista Capes), mestra em Antropologia Social sob a orientação de Lilia Katri Moritz Schwarcz (bolsista Fapesp) e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Durante o doutorado, realizou estágio de pesquisa na Universidade Goethe, em Frankfurt e no Departamento de Literatura da Universidade de Duke (anfitrião: Fredric Jameson), com bolsa da Capes. Tem experiência de pesquisa em e organização de arquivos. Com bolsa do DAAD, conduziu pesquisa no Arquivo Walter Benjamin/Theodor W. Adorno da Akademie der Künste, em Berlim, em 2014 e em 2019 e no arquivo de Oswald de Andrade (CEDAE/Unicamp) em 2011 com bolsa Fapesp. Em 2024, fez parte do projeto da International Herbert Marcuse Society de organização dos arquivos de Douglas Kellner, abrigado pela Universidade de Columbia. Foi, entre 2017 e 2018 e em 2021, professora visitante na UNB. É autora do livro Vanguarda do atraso ou atraso da vanguarda? Oswald de Andrade e os teimosos destinos do Brasil. É membra da coletiva “marxismo feminista“.
DO MESMO AUTOR
Teorema da expropriação capitalista, de Klaus Dörre
Desenvolvido pelo autor ao longo dos anos e, hoje, amplamente discutido no mundo de língua alemã e inglesa, o teorema do “regime de expropriação capitalista” é ancorado nas contribuições de Rosa Luxemburgo e sua discussão acerca do estatuto da “assim chamada acumulação primitiva” em O capital, de Karl Marx. O autor formulou tal teorema para abordar como a expansão do modo de produção capitalista traz impactos notáveis para as reflexões que envolvem classes sociais, Estado e precarização.
Sua premissa é a de que o capitalismo é “uma economia de mercado que se autonega continuamente”. Para Dörre, o pensamento econômico liberal, baseado na ideia de concorrência e eficiência como ausência de coação e regulação, mascara tanto a dinâmica capitalista quanto a dimensão político-estatal de seu projeto. Se, de um lado, a própria economia ortodoxa reivindica o Estado como fórum que determina as regras do jogo, de outro, Dörre mostra que os atores de mercado operam com base em mecanismos de cooperação. Nesse sentido, o autor sustenta que a tese da economia pura de mercado desempenha função ideológica e estratégica (pois, em situações de crise, pode sempre atribuir a culpa ao erro da regulação existente e se manter eternamente válida). A partir desta crítica, Dörre conclui que a intervenção estatal é uma constante no desenvolvimento do capitalismo.
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