As greves de 2026 na USP e a irrupção do proletariado estudantil

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Lincoln Secco

O primeiro semestre de 2026 marcou na Universidade de São Paulo (USP) a irrupção de um novo sujeito: o proletariado estudantil. E, com ele, a universidade internalizou a luta de classes. Mas o semestre também reiterou o modus vivendi da universidade periférica: o neoliberalismo.

Entre o antigo movimento estudantil da USP, de alta classe média e branco, e o atual, policlassista e multirracial, há continuidades e rupturas. Como antes, o movimento continua sendo a vanguarda das lutas pela universidade pública. Isso não mudou. No entanto, a natureza do protesto e a reação mal disfarçada dos dirigentes indicam uma ruptura.

O Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE) e outros correlatos atingem cerca de 1/4 dos alunos de graduação. Muitas bolsas são formas disfarçadas de trabalho em laboratórios, congressos, escritórios, secretarias e diversas atividades que visam sustentar a carreira dos docentes. Há ainda os estágios em que estudantes cumprem funções típicas de um funcionário. Some-se a isso a mudança no perfil do ingressante, em função da cota de 50% de alunos de escola pública e das cotas raciais.

A carreira docente, por outro lado, introjetou a lógica das plataformas e da produtividade acadêmica. Um docente ingressa na USP depois de montar uma estratégia de carreira desde a graduação, disputando bolsas, cumprindo as etapas de formação até o pós-doutorado, dando aulas de forma precária até o concurso de ingresso definitivo em competição com dezenas de candidaturas. Uma vez escolhido, o docente aprofunda a competição por bolsas, recursos, espaços, viagens, cargos e gratificações. Três consequências imediatas são verificáveis: o fim de qualquer compromisso com a ideia de universidade e com a convivência universitária; o estabelecimento de vínculos externos com empresas, fundações e agências de fomento; o abandono da sala de aula como núcleo que congregava ensino, orientação, pesquisa e eventualmente até extensão universitária. Dar aula não conta pontos nas plataformas de autovalorização docente.

Deixemos de lado o fato histórico de que as contratações de docentes só acontecem por pressão do movimento estudantil. A situação de competição docente, entretanto, levou uma parte expressiva da categoria a trocar a reivindicação salarial pela busca por gratificações, às custas das receitas de aplicações financeiras da USP – que poderiam servir para reformas dos prédios e criação de bolsas para estudantes de graduação e pós-graduação. Esse foi o caso da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (GACE).

A USP teria condições de ter um sistema próprio de financiamento à pesquisa de seus alunos. O valor da GACE seria muito melhor aplicado nos jovens que fazem iniciação científica e que iniciam um mestrado ou doutorado. A maioria dos estudantes do programa de pós-graduação em História Econômica, por exemplo, faz sua pesquisa nas horas vagas e fins de semana.
Em vez de brandir o argumento hipócrita de que é preciso gratificação para evitar a fuga de cérebros, a direção uspiana poderia se preocupar com a formação de “cérebros” e corpos também. E vocacionados a tratar dos problemas de um país periférico. Não consta que haja uma demanda significativa por docentes da USP em universidades chinesas, estadunidenses e europeias. Mas há quem se tenha em alta conta…

A carreira de funcionários está submetida ao arbítrio de dirigentes universitários e do corpo docente em geral, e não há espaço para a coparticipação na gestão e (por que não?) na discussão das pesquisas e atividades de extensão. Essa é uma condição estrutural e só o corpo discente, pela sua posição na organização, tem sido a ponta de lança dos movimentos de defesa do caráter público da universidade.

Não foi por outro motivo que a greve estudantil de 2026 durou 54 dias, tendo início em 14 de abril e término no dia 8 de junho (muito mais longa que a dos servidores técnico-administrativos, os quais têm um fardo pesado para sustentar muitos dias de paralisação). No caso da greve dos docentes ela foi mínima e teve pouquíssima adesão.

Ao abrir-se tardia e incompletamente para as filhas da classe trabalhadora, a USP desencadeou processos que nem a coerção administrativa, nem o apelo à repressão policial poderão conter. Vai soar a hora de reconhecermos que anualmente estudantes que trabalham na universidade e vivem de auxílios indispensáveis ao estudo demandarão reajustes. Para trabalho (reconhecido ou não) é preciso que haja salário de verdade e digno.

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Lincoln Secco é professor livre-docente de História Contemporânea na Universidade de São Paulo e autor de Caio Prado Júnior: o sentido da revolução (Boitempo, 2008).


Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar, de Fernando Cássio (org.)
Fernando Cássio, organizador da obra e especialista em políticas públicas de educação, convidou mais de vinte autores para propor um debate franco e corajoso sobre as principais ameaças à educação pública, gratuita e para todas e todos: o discurso empresarial, focado em atender seus próprios interesses; a perseguição à atividade docente e à auto-organização dos estudantes; e o conservadorismo que ameaça o caráter laico, livre e científico do ambiente escolar.

A escola não é uma empresa, de Christian Laval
Com uma abordagem pioneira na discussão educacional, trata da influência do neoliberalismo na escola, destacando como as instituições de ensino se moldam às necessidades do capitalismo contemporâneo. Análise crítica sobre a transformação da educação em mercadoria, com Prefácio inédito do autor.

A educação para além do capital, de István Mészáros
Ensaio provocante sobre a educação, questionando visões liberais e utópicas. O autor enfatiza a conexão entre processos educacionais e sociais e destaca a necessidade de romper com as relações sociais sob o controle do sistema do capital para promover mudanças no sistema educacional.

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Carolina Catini é professora da Faculdade de Educação da Unicamp.

Gustavo Mello é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo. 


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