Para reinventar uma relação é preciso antes reinventar nosso próprio desejo pela vida
Uma resenha de O convite, filme de Olivia Wilde

Imagem: Divulgação.
Por Cauana Mestre
⚠️ ATENÇÃO, SPOILERS NA PISTA! ⚠️
O convite, novo filme da A24, dá uma aula de roteiro. Apenas um apartamento, quatro excelentes atores e a direção impecável de Olivia Wilde, mas a mistura é irresistível e mostra que o humor pode ser muito sexy.Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen) têm um casamento em crise. Ele parece decidido a viver em uma cápsula de monotonia, mas descobre que Angela convidou os vizinhos de cima, o casal Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para jantar.
Os anfitriões brigam, reclamam um do outro sem parar e criam uma tensão que a sensualidade de Penélope Cruz termina de temperar.
O filme brinca o tempo todo com a ambivalência dessa tensão. É agressiva ou sexual? Ambas, e o roteiro vai nos mostrando que nem sempre é possível diferenciá-las.
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Freud, que escreveu a teoria das pulsões, disse também que a pulsão erótica, aquela que nos salvaria das guerras e da destruição, precisa da pulsão de morte se quiser firmar seu propósito. Ou seja, se elevarmos demais o objeto amado corremos o risco de consagrá-lo e, assim, torná-lo sem graça, opaco para o desejo.
É o que está em jogo em grande parte dos impasses de casais que têm filhos, por exemplo. Quando as funções parentais aparecem — e, muitas vezes, roubam a cena —, pode ser difícil preservar o lugar da sexualidade, já que os pais, enquanto funções, são essas figuras que não gozam e querem sempre o bem.
Entre Angela e Joe, há uma dança clássica: a discussão começa lentamente, vai crescendo com o tom da música, cria uma tensão de prender o fôlego e deságua num ápice de mágoas — o roteiro é o mesmo da cena sexual.

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Quando as brigas substituem o sexo e passam a ser aquilo que alimenta a parceria, como acontece com o casal do filme, as coisas podem passar ao pior, mas a tensão também pode ser um indício de vida, pois o contrário do amor não é o ódio e sim a indiferença. (Vale lembrar, para deixar claro, que a agressividade da qual falamos em termos psíquicos é diferente de violência).
As cartilhas do amor romântico e do relacionamento saudável nos fizeram acreditar em parcerias assépticas, indiferentes ao que acontece dentro da fantasia de cada um. Como se fosse possível amar de forma limpa e livre da variedade de afetos dos quais somos feitos.
Na outra ponta, Hawk e Piña, um casal recentemente formado e sem filhos, que mantém uma relação aberta. Eles parecem ser uma versão perfeita do ideal de amor sensual e o filme decide mantê-los assim porque eles estão ali para escancarar a crise dos anfitriões.
Com essas duplas, Olivia Wilde constrói uma anti comédia romântica em que não há garantia de final feliz e o protagonismo é da crise. Aquela história que já ouvimos tantas vezes: nada como o barulho de sexo dos vizinhos para perturbar uma vida sexual meia-boca.
O convite, para mim, é um filme que se desenvolve perfeitamente e termina muito bem, sem garantir desfecho nenhum. A cena final nos lembra de que, para reinventar uma relação é preciso que antes reinventemos nosso próprio desejo pela vida. Assim como um piano não é um piano se você não se atreve a tocar e errar, também não é amor se não há falha.
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Cauana Mestre é psicanalista e mestre em Literatura pela UFPR. Junto a Licene Garcia, apresenta o podcast Sobre um dizer.
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