Odisseu e seu remorso: “A Odisseia” de Christopher Nolan

Imagem: Divulgação.
Por Alysson Oliveira
⚠️ ATENÇÃO, SPOILERS NA PISTA! ⚠️
Na tradução da Odisseia assinada pelo português Frederico Lourenço, publicada em seu país em 2003 e, no Brasil, em 2011, Odisseu é descrito como um “homem versátil”. Na clássica versão de Manoel Odorico Mendes, realizada entre 1862 e 1863, o herói é um “varão astucioso”. Já na do médico Carlos Alberto Nunes, publicada em meados do século XX, o protagonista ainda é astucioso, mas é tratado por “homem”. Na versão para o inglês da classicista Emily Wilson, lançada em 2017, e a primeira traduzida para essa língua por uma mulher, Odisseu é “a complicated man” – deixando, com a ambiguidade, cada leitor livre para compreender como quiser o complicated.
Em sua adaptação do poema de Homero, o cineasta britânico Christopher Nolan transita entre essas diversas possibilidades de Odisseu, interpretado por Matt Damon, que assume a forma de um herói ao mesmo tempo complicado e astucioso, mas, estranhamente no filme, medido por uma régua burguesa. Ao tentar refletir sobre o presente a partir do clássico, Nolan – que assina o roteiro, tendo por base a tradução de Wilson – pretende fazer com que o protagonista e sua história sejam compreensíveis e identificáveis pelo público contemporâneo. Para tal, ele se vale de estratégias narrativas mais hollywoodianas do que homéricas.
Não existe nada de errado em tornar a Odisseia compreensível a todos, pelo contrário. Qualquer obra canônica que se torna acessível é uma vitória – o que não significa rebaixá-la, mas possibilitar sua compreensão. Não há nenhum problema, por exemplo, em se atualizar a linguagem em nome da compreensão, sem sacrificar o sentido. É até divertido quando Odisseu solta um “We’ve been on this fucking beach for ten years”.
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O filme, porém, se move por caminhos mais misteriosos e conturbados do que os do próprio Odisseu em seu retorno à ilha de Ítaca, onde sua mulher Penélope (Anne Hathaway) o aguarda cercada por pretendentes ferozes, ao lado do filho Telêmaco (Tom Holland), que, cansado de esperar pelo retorno do pai, decide sair numa viagem ao encontro de Menelau (Jon Bernthal), com quem Odisseu estivera na queda de Tróia.
Nolan adapta a narrativa do poema a um percurso mais direto, mas reluta em encontrar um fio condutor mais seguro que se estenda e se mova fluidamente entre personagens, tempos e cenários. A primeira meia-hora (das quase três horas de duração do filme) é excessivamente didática e, ao mesmo tempo, confusa. Custa ao filme se achar e, no fim, funciona melhor em partes do que como um todo. Os episódios mais famosos do poema – o encontro com o ciclope, o canto das sereias, a passagem pela ilha de Circe, o massacre dos pretendentes, a descida a Hades – estão todos lá, mas de maneira desequilibrada. Alguns duram mais do que os outros.
Não há dúvida de que o ponto central de A Odisseia, de Nolan, é a tomada e destruição de Troia. A sequência dentro do cavalo, por exemplo, é aflitiva. O que segue depois é mostrado aos poucos – só na reta final temos a total dimensão do ocorrido, o que traz a Odisseu um remorso enorme pela destruição de uma civilização. Um sentimento que o personagem original desconhece.

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É nesse momento que Nolan busca a reverberação do seu longa no presente. Troia poderia representar Gaza ou qualquer outro lugar destruído por uma guerra. O discurso de Odisseu sobre seu arrependimento pode comover ou ser lido como cínico – isto é, ao gosto do freguês –, mas o distancia do protagonista épico. Assim, mais do que a jornada do personagem, o filme trata da disputa de poder e do preço a pagar por dizimar um povo, a saber, a perda da alma de quem o destruiu.
É poder que os pretendentes espalhados pelo palácio de Odisseu, enquanto Penélope tece e destece a mortalha, buscam – o casamento com ela é apenas o meio para cumprir esse objetivo. Antínoo (Robert Pattinson) é o principal deles, e não poderia ser um vilão mais caricato em seus diálogos, ações e feições. Já os deuses, aqui materializados na figura de Atena (Zendaya), são meros coadjuvantes – ela tem apenas uma meia dúzia de cenas e ainda menos falas.
Nolan é um cineasta cuja carreira e estilo sempre se manifestaram pela grandiloquência, e A Odisseia seria o veículo ideal para isso. Ao contrário de outra adaptação recente do poema homérico – O Retorno, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, um filme com tom intimista –, o longa do diretor britânico abraça o épico com resultados irregulares. Ao se concentrar na guerra e suas consequências, deixa de lado outros elementos que reverberariam com a mesma força no presente.
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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.
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