“Uma coleção de encontros grandiosos”: a passagem de Leopoldina Fortunati pelo Brasil

Leopoldina Fortunati no Brasil. Foto: Isadora Szklo
Por Isadora Szklo
A feminista italiana Leopoldina Fortunati esteve no Brasil durante o mês de maio para divulgar seu livro O arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital, escrito em 1981 e editado no Brasil em 2026 pela Boitempo, com tradução de Rita Matos Coitinho.
Em sua obra, a autora argumenta que o trabalho doméstico – que ela insiste em chamar de trabalho, recusando o apelido de “cuidado” – é parte fundamental da engrenagem do sistema capitalista, que muito ganha com nossas duplas e triplas jornadas de trabalho, cada vez mais precarizadas. Se a teoria marxista originalmente entende o trabalho reprodutivo como a criação de não-valor, Leopoldina subverte essa lógica e defende que esse trabalho não só cria valor, como é crucial para o ciclo capitalista. A luta feminista seria, então, capaz de afetar a produção de mais-valor ao questionar o trabalho doméstico como trabalho não assalariado.
No Brasil, sua visita se iniciou com uma conferência na Festa de Aniversário do Marx, evento anual da editora. Mediada por Carolina Peters, responsável pela edição brasileira da obra, Leopoldina falou sobre a importância do trabalho doméstico para o capital hoje. A autora dialogou com um público diverso, composto por homens e mulheres, mães, filhas, pessoas que já a conheciam e outras que se surpreendiam com o poder de elaboração e a atualidade de sua teoria.
Como diz Leopoldina, a “única esperança que temos é nos unirmos e vencermos”. E foi justamente o esforço de união e coletividade entre mulheres que guiou a breve visita da autora, que atualmente escreve adições para a versão em inglês de Il grande calibano, livro que escreveu em 1984 com Silvia Federici.




Passada a Festa, ela se reuniu com a deputada estadual Ediane Maria na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) para falar sobre trabalho doméstico, escravidão, escala 6×1 e conhecer a trajetória de figuras históricas como Laudelina de Campos Melo, fundadora do primeiro sindicato de empregadas domésticas no Brasil. Leopoldina também se encontrou com as mulheres do PSOL em um debate qualificado sobre o enfrentamento à extrema direita e a reprodução social. Além disso, visitou a sede da Sempreviva Organização Feminista (SOF), organização que faz parte do movimento de mulheres e que reuniu militantes importantes de outras frentes, como a Marcha Mundial das Mulheres.




A convite da professora Simone Diniz, a autora visitou a Faculdade de Saúde Pública da USP e participou de um evento sobre atenção obstétrica, nascimento e saúde materna, onde debateu com pesquisadoras pautas essenciais para se pensar a reprodução no Brasil. No mesmo dia, foi entrevistada por duas produtoras de conteúdo parceiras da Boitempo, Bárbara Krauss e Carol Bonomi.
Nas ruas do Bixiga, encontrou-se com uma das mais importantes figuras do feminismo brasileiro: Amelinha Teles, que a recebeu emocionada e contente. Segurando sua mão pelas subidas e descidas do bairro, Amelinha a levou até a sede da União de Mulheres para uma conversa e troca de livros. Junto com sua irmã, Criméia, ela contou sobre a ditadura militar, a importância da imaginação, sua primeira ação feminista, aos 12 anos de idade, e as dificuldades de financiamento que o movimento enfrenta nos últimos tempos. O encontro entre as duas figuras da mesma geração, nascidas e criadas em diferentes continentes, mas com ideias tão similares, foi um dos pontos altos da visita.



Leopoldina fechou com chave de ouro sua passagem pelo Brasil no Festival MEL (Mulheres Em Lutas), organizado em parceria com o instituto E Se Fosse Você?, que viabilizou a vinda da autora ao país. O evento, que durou de 29 a 31 de maio, reuniu milhares de mulheres de todo o país em torno de temas como feminicídio, maternidades, mobilização social, futebol e luta internacionalista. No painel sobre a potência do trabalho das mulheres, a autora dividiu o palco com Juliana Cardoso, Valdete Souto Severo, Alana Cavalcanti e Mazé Morais. Ao falar sobre a importância do trabalho reprodutivo, feito majoritariamente por mulheres e quase sempre de maneira não remunerada, Leopoldina comoveu a plateia. Comoveu também a si mesma diante de tantas mulheres que passaram o final de semana inteiro debruçadas sobre conversas feministas.
A visita de Leopoldina Fortunati ao Brasil foi uma coleção de encontros grandiosos que nos lembram do tamanho do legado de luta que o movimento feminista brasileiro construiu: com muita coletividade e um trabalho essencial que quase nunca é remunerado.
* As fotos que ilustram este texto são da autora, Isadora Szklo.
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Isadora Szklo é responsável por eventos na Boitempo. É professora, comunicadora e mestranda no programa de História Econômica da USP. Cofundadora do Vozes Judaicas por Libertação, desenvolve pesquisa sobre Israel/Palestina e Teoria da Reprodução Social.
CONHEÇA A OBRA
O arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital, de Leopoldina Fortunati
Publicado pela primeira vez em 1981, esse livro é um clássico do feminismo italiano que ganha sua primeira tradução para o português. A partir das grandes revoltas sociais que contestaram as divisões sexuais e raciais do trabalho em todo o mundo na década de 1970, a obra de Leopoldina Fortunati expande e transforma o modo como analisamos o processo de reprodução – parte do ciclo capitalista que diz respeito à produção de indivíduos como mercadoria força de trabalho.
“O arcano da reprodução é um verdadeiro tour de force, único tanto no campo do marxismo quanto no do feminismo. Enquanto as marxistas feministas elaboraram a importância da obra de Marx para compreender a opressão e a exploração das mulheres, Fortunati revoluciona o senso comum sobre produção e reprodução ao testar as categorias marxianas por meio de sua aplicação heterodoxa.”
— Silvia Federici, autora de Mulheres e caça às bruxas e O patriarcado de salário
Partindo de categorias marxistas, Fortunati vai além, explorando inclusive a visão parcial de Karl Marx em relação à análise de reprodução, uma vez que o autor, que reconhecia o papel do trabalho doméstico no processo geral de produção como momento da reprodução da força de trabalho, não atribuía a essas atividades – centrais para a manutenção da vida tanto no âmbito material, da subsistência, quanto imaterial, no que diz respeito aos afetos e à sexualidade – a capacidade de produzir valor.
Fortunati procura demonstrar, não contra Marx, mas para além dele, como o trabalho de reprodução realizado pelas “operárias da casa” e pelas “operárias do sexo” integra o processo geral de reprodução do capital. Original, a obra nos apresenta valiosas ferramentas de análise do estado contemporâneo do desenvolvimento capitalista e das lutas das mulheres hoje. No momento em que o trabalho digital borra ainda mais as fronteiras entre as jornadas de trabalho doméstico e extradoméstico, o texto continua sendo precursor e essencial.
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