“A psicanálise não é uma técnica cruel”: Maria Rita Kehl lança seus livros na Rússia

Entrevista de Maria Rita Kehl à Horizontal Publishers

Maria Rita Kehl na DR com Demori . Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Por ocasião do lançamento de Ressentimento na Rússia, Maria Rita Kehl concedeu uma entrevista aos editores da Horizontal Publishers. É o segundo livro da psicanalista traduzido no país pela mesma editora, que já havia publicado O tempo e o cão – eleito recentemente como um dos melhores livros brasileiros de não ficção do século, pela Folha de S. Paulo. Reproduzimos a conversa na íntegra abaixo.


Olá, Maria Rita, é uma grande alegria conhecê-la. Sou um grande admirador do seu trabalho. O livro O tempo e o cão me marcou profundamente quando o li, há vários anos, e se tornou um acontecimento fundamental na minha pesquisa pessoal. 

Obrigada por me contar isso!

Minha primeira pergunta é sobre a personagem central desse livro: uma pessoa deprimida. Sua forma de compreender a depressão se distancia da visão convencional, que a considera uma experiência puramente individual. Costuma-se dizer: a pessoa está apática, perdeu o gosto pela vida, então deve procurar um terapeuta ou tomar antidepressivos. Gostaria que você nos contasse como combina psicanálise e teoria social crítica na sua compreensão da depressão.

Não é uma pergunta fácil de responder! A psicanálise é mais óbvia: desde Freud, a investigação psicanalítica busca as causas inconscientes do sofrimento psíquico. Freud inventou a “cura pela fala”, na expectativa (acertada) de que ao falar livremente, para o analista, tudo o que lhe passasse pela cabeça, sem censuras, a pessoa facilitaria o acesso (com ajuda do analista) a fantasias e/ou experiências dolorosas que ela tentou recalcar. A prática freudiana é a de suspender o recalque, de modo a que a pessoa possa entrar em contato com pensamentos, fantasias e/ou ações de que se envergonhava. Ao suspender o recalque, o tratamento psicanalítico possibilita que a pessoa possa tornar conscientes seus pensamentos “inconfessáveis”, descobrir a origem deles e substituir a culpa/angústia pela elaboração dos conflitos.

Você escreve no livro que a privatização das experiências depressivas é apresentada como uma maneira de livrar a pessoa da angústia e da inquietação por meio da terapia e da medicação. No entanto, isso acaba resultando numa vida sem cor, retirando a pessoa da posição de sujeito do desejo. Em essência, trata-se de parte do fenômeno que Mark Fisher chamou de privatização do estresse. Mas o seu comentário explicativo é especialmente interessante. Como o próprio projeto de livrar uma pessoa da depressão, paradoxalmente, acaba empurrando-a ainda mais fundo no sofrimento psíquico? 

Não se trata de “empurrá-la” mais fundo no sofrimento psíquico. A psicanálise não é uma técnica cruel. Trata-se de ajudá-la a elaborar as causas, as origens de seu sofrimento, de modo a que ela possa desenvolver maneiras de lidar com ele e, se tudo der certo, diminuir tal sofrimento. Não é fácil acessar as causas de nosso sofrimento psíquico: frequentemente, elas remetem a pensamentos, ou atos, que nos envergonham ou nos trazem sentimentos de culpa. É isso que precisa ser elaborado. Claro que a psicanálise não promete que a pessoa nunca mais vá sofrer – a vida nos traz, constantemente, novos sofrimentos. Mas se a pessoa não recalcar (reprimir) as fantasias que a fazem sofrer, é mais fácil se livrar delas. 

Vamos agora construir uma ponte entre seu livro sobre depressão e o livro sobre o Ressentimento. Comentando as ideias de Nietzsche sobre o ressentimento, Max Scheler argumentou que o conceito de igualdade de direitos e oportunidades é uma fonte de ressentimento. Em sua opinião, o que mudou desde então? E como a ideologia neoliberal, com sua orientação meritocrática, influencia essa situação?

Discordo de Scheler porque, se por um lado o pressuposto da igualdade não garante  igualdade,  por outro lado, a aspiração à igualdade move montanhas!  E não se trata de igualdade absoluta. Trata-se de igualdade de condições. O importante é que todos tenham as mesmas condições para tentar alcançar o que desejam – o que não significa que todos irão conseguir.

Brian Massumi usa o termo “capitalismo de oportunidade”, no qual cada empreendedor investe seu próprio capital humano. São situações de alto risco, com grandes chances de não se alcançar nada além de depressão e dívidas. Como a própria estrutura da vida nesse mundo influencia o crescimento do ressentimento? E quais seriam formas realistas de mudar essa situação?

Psicanalistas (como é meu caso) nunca sabem, nem devem fingir que sabem, como as coisas ruins podem mudar. O que podemos fazer é investigar as origens do que nos afeta, para desenvolver formas de lidar com elas e, com isso, conseguir mudar, pelo menos em algumas coisas importantes.

Minha última pergunta será mais prática. As pessoas modernas, forçadas ao empreendedorismo, arriscam suas vidas todos os dias, vivendo em um estado de crise permanente. Isso realmente contribui para o aumento do estresse, dos transtornos psíquicos e de uma sensação geral de desesperança. Como uma pessoa comum pode lidar com essa situação? Como pode ajudar a si mesma e, ao menos, às pessoas próximas nessa nova realidade? 

Olha só: a psicanálise não é uma forma antiquada das atuais terapias de “autoajuda”. Nós não dizemos o que a pessoa deve fazer para lidar com uma situação, simplesmente porque nós também não sabemos. Nosso trabalho é investigativo: ajudamos a pessoa a descobrir as causas de seu sofrimento e, a partir daí, elaborar o que, para aquele que sofre,  parece incompreensível. Ao compreender de que forma, por quais caminhos, essa pessoa enveredou por uma via de sofrimento, o/a analista pode ajudá-la a investigar quais são seus recursos para lidar com o sofrimento e, depois de algum tempo, deixar de sofrer. 

Não que ela deixe de sofrer para sempre – a vida sempre nos apresenta novas causas de sofrimento. Mas a psicanálise consegue que a pessoa pare de sofrer sempre pelas mesmas razões. 


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Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e atua, desde 1981, como psicanalista em São Paulo. Entre 2006 e 2011, atendeu na Escola Nacional Florestan Fernandes do MST, em Guararema (SP). Integrou a Comissão Nacional da Verdade (2012-2014). Foi jornalista de 1974 a 1981 e segue publicando artigos em diversos jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 2010, ganhou o prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção, com a obra O tempo e o cão: a atualidade das depressões publicada por nossa casa. Também pela Boitempo, publicou Tempo esquisitoVideologias: ensaios sobre televisão (em coautoria com Eugênio Bucci), 18 crônicas e mais algumasDeslocamentos do femininoBovarismo brasileiro e Ressentimento. Pela Boitatá publicou, em parceria com Laerte Coutinho, Neném outra vez! e O disco-pizza


Bovarismo brasileiro, de Maria Rita Kehl
Conjunto de ensaios marcantes sobre temas que abarcam desde a literatura de Machado de Assis até um estudo de caso, passando por reflexões acerca das origens do samba, do manguebeat, do período de expansão da rede Globo e da primeira campanha de Lula. Para dar liga às suas análises, a autora vale-se do conceito de bovarismo, cunhado pelo filósofo e psicólogo Jules de Gaultier com base na personagem Emma Bovary, de Gustave Flaubert, uma ambiciosa e sonhadora pequeno-burguesa de província que, à força de ter alimentado sua imaginação adolescente com literatura romanesca, ambicionou ‘tornar-se outra’ em relação ao destino que lhe era predestinado.

Ressentimento, de Maria Rita Kehl
O livro aborda a conceitualização do ressentimento a partir de quatro pontos de vista: a clínica psicanalítica, a filosofia de Nietzsche e Espinosa, a produção literária e o campo político. O ressentimento não é um conceito clássico da psicanálise; assim, Maria Rita Kehl mobiliza tanto as suas observações clínicas quanto conhecimentos de outras áreas para definir e explicar a constelação afetiva que forma o ressentimento.


Tempo esquisito, de Maria Rita Kehl
A coletânea de ensaios traz para o leitor um conjunto de reflexões e análises feitas durante o período da quarentena da covid-19: “Diante de tanta tristeza, escrever foi uma forma de ocupar o espaço do debate público sem romper o isolamento físico. Uma forma de estar com os outros”, conta a autora no prólogo. Nos textos, além da questão da saúde pública, Kehl aborda temas recorrentes desde 2019 – início do mandato de Jair Bolsonaro na presidência –, como violência policial, desigualdade social e outros. Há artigos, por exemplo, sobre o linchamento do congolês Moïse Kabagambe, no Rio de Janeiro, em 2021, e também sobre o assassinato de Genivaldo dos Santos, morto pela Polícia Rodoviária Federal, em 2022, em Sergipe. Além, é claro, do olhar sempre voltado à psicanálise, campo principal de atuação da autora.


Videologias: ensaios sobre televisão, de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl
Com pouco mais de 50 anos de existência, é onipresente. É impossível ignorá-la ou pensar o mundo hoje sem considerá-la. É a televisão. O livro de Maria Rita Kehl e Eugênio Bucci, é, desde o trocadilho no título com a célebre obra Mitologias, de Roland Barthes, uma obra que une visão crítica e psicanálise para dissecar as relações entre mitologias, ideologias e televisão.

O tempo e o cão: a atualidade das depressões, de Maria Rita Kehl
Escrito a partir de experiências e reflexões sobre o contato com pacientes depressivos, o livro aborda um tema que, apesar de muito comentado, é pouco compreendido e menos ainda aceito atualmente. Para abordá-lo, Maria Rita faz um apanhado do lugar simbólico ocupado pela melancolia, desde a antiguidade clássica até meados do século XX, quando Freud trouxe esse significante do campo das representações estéticas para o da clínica psicanalítica.

Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade, de Maria Rita Kehl
A obra questiona as relações que se estabelecem entre a mulher, a posição feminina e a feminilidade na clínica psicanalítica. Existe uma diferença irredutível entre homens e mulheres, afinal? Partindo da defesa de uma ‘mínima diferença’, um modo de ser e de desejar através do qual homens e mulheres assumem papéis distintos na sociedade, a autora investiga o campo a partir do qual as mulheres se constituem como sujeitos, de modo a contribuir para ampliá-lo.


Neném outra vez!, de Maria Rita Kehl e Laerte Coutinho
A divertida incursão de Maria Rita Kehl na literatura infantil aborda o ciúme entre irmãos como pretexto para falar sobre questões mais profundas com as crianças, como o poder da vontade, o amor próprio e aceitação de mudanças na vida. O livro é ilustrado pela cartunista Laerte Coutinho.

O disco-pizza, de Maria Rita Kehl e Laerte Coutinho
Gil é um garotinho de sete anos que tem muita vontade de comemorar o Natal. Sua família diz que é uma data comercial e, por isso, eles nunca fazem os tradicionais festejos em casa. O menino até concorda com a decisão, mas pensa que seria bacana uma árvore cheia de bolas coloridas e luzinhas, presentes ao pé da cama e muita coisa gostosa para comer. Maria Rita Kehl e Laerte trazem ao leitor essa nova obra cheia de criatividade e ressignificação de tradições.


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