“Margô está em apuros”: por que o prazer das mulheres nos assusta tanto?

Imagem: divulgação

Por Cauana Mestre

A mãe-heroína que faz tudo para alimentar os filhos – leoa feroz disposta a matar e a morrer pelas crias – sempre foi uma das imagens mais consistentes que a cultura ofereceu para a maternidade. Essas mães, e apenas essas, são sempre perdoadas. A série Margô está em apuros, que é baseada no livro homônimo de Rufi Thorpe e foi recém-lançada pela Apple TV, me fez lembrar de que, na verdade, mesmo para essas mães, a redenção tem uma condição muito clara: que a mulher não apareça.

Margô (Elle Fanning) é uma mulher jovem com talento literário inexplorado. Seu professor de escrita aproveita a insegurança da aluna para seduzi-la. Eles têm um romance e ela engravida. A partir daí, todo o clássico se desenha e teria sido apenas mais uma narrativa sobre o machismo nas relações acadêmicas e na parentalidade, mas a série decide iluminar outra história: a de uma jovem que deseja se tornar mãe com a condição de não abandonar nenhuma migalha sequer da mulher. Tentando pagar as contas e comprar infindáveis pacotes de fralda, Margô descobre o mundo do OnlyFans.

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Michelle Pfeiffer e Nick Offerman interpretam os pais de Margô: um casal divorciado, mas que se reencontra no mundo novo da filha. Greg Kinnear é o padrasto recém-chegado e a ótima Thaddea Graham interpreta Susie, a amiga de Margô que completa esse núcleo familiar fora do comum. De quebra, tem Nicole Kidman como a advogada Yael, entregando cenas impagáveis. As reflexões sobre o significado de família são diversas, a começar pelo desmonte dos ideais conservadores de todas as funções que cristalizamos nos moldes da família cristã. Mas o brilho da série – e o que a torna uma das produções mais feministas do audiovisual dos últimos tempos – é a forma como a maternidade surge na vida de Margô para fazê-la reencontrar o desejo e, assim, ela decide não ceder do próprio corpo para tornar-se mãe.

Elena Ferrante escreveu sobre um tipo de vigor exclusivo das mulheres: “como a das plantas, vida invasiva, vida que sobe como trepadeira”. Esse vigor precisa ser vigiado, diz ela; é preciso vigiá-lo para que não seja roubado e as mulheres que conseguem fazer isso sem se transformarem em carcereiras de si mesmas são as heroínas de qualquer tempo. É isso que a personagem de Elle Fanning tem para mostrar, contra tudo e contra todos. Que uma mulher possa ser mãe e apenas não queira; ou então que ela queira ser mãe, mas que faça isso dentro dos próprios termos; e que não apenas ela possa fazer sexo com quem, quando e como quiser, mas que ela queira sua sexualidade para além de um homem. Mais do que isso: que seu próprio corpo porte o desejo e que, com ele, ela possa seduzir e gozar.

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Sempre retornamos à pergunta universal que a psicanálise faz e refaz há muitos anos, sem respostas completas: por que o prazer das mulheres nos assusta tanto? Por que nos assombra, envergonha e desconcerta? Como o prazer nas mulheres – localizado no corpo das mulheres – se entrelaça àquilo que está em todos nós, mas que tentamos abafar ou velar com estratégias de defesa ou segregação?

Numa mistura refinada de drama e comédia, Margô está em apuros nos oferece reflexões em diversas camadas e uma personagem doce e incrivelmente forte na pele de Elle Fanning, uma espécie de Antígona moderna. Ela me lembrou de uma frase de Julia Kristeva: “há uma Antígona em toda mãe que consegue libertar seus filhos dela mesma”. A arte tem nos oferecido cada vez mais exemplares dessas heroínas da própria vida. Sorte a nossa.


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Cauana Mestre é psicanalista e mestre em Literatura pela UFPR. Junto a Licene Garcia, apresenta o podcast Sobre um dizer.


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