O negro como sujeito histórico: a “Reconstrução negra” de W. E. B. Du Bois 

Imagem: WikiCommons

Por Douglas Barros

Ser negro e ler Du Bois é como receber uma lufada de oxigênio. Tornou-se comum – e até naturalizado, à sombra da miséria espiritual que vivemos – narrar o negro como objeto das circunstâncias, como mero peão de uma estrutura que o nadifica. Du Bois, em seu esforço intelectual notável, mostra o negro não apenas como sujeito, mas como substância dos eventos históricos. Essa posição muda tudo. 

Não escutamos aqui a ladainha – perniciosa, em todo caso – que faz do negro uma eterna vítima. Vemos o escravizado resistindo à formação reacionária e racista daquele que se tornaria o maior império já visto. Percebemos, aliás, como a hierarquização racial consagrou desigualdades sociais, sendo utilizada como forma de gerir o novo país surgido das chamas da Guerra Civil. 

Por fim, entendemos que o negro não é apenas produto das circunstâncias históricas, mas um de seus principais agentes, já que eram suas mãos que produziam as riquezas. O leitor pode festejar o lançamento: estamos diante de uma obra clássica, cujo apagamento integra a própria história do pensamento do século XX; uma história que buscou silenciar autores negros e apagar, de uma vez por todas, aqueles que, além de negros, eram comunistas. 

Assim, Reconstrução negra é uma obra que, apesar de diversos expedientes ideológicos que tentaram ofuscá-la – da sanha macarthista ao liberalismo negro estadunidense –, tornou-se canônica graças à profundidade e ao rigor de sua pesquisa. Ou seja, é leitura obrigatória. Tê-la traduzida, em ótima edição, após noventa anos – a obra foi lançada em 1935 –, é um privilégio.

Du Bois, nascido em 1868 e contemporâneo de Weber e Durkheim, foi um sociólogo que, desiludido com as promessas da modernidade, fez de Marx um de seus principais interlocutores. Com a ascensão do fascismo e no rescaldo da Primeira Guerra, ingressou no Partido Comunista, no qual permaneceu até o fim da vida. Essa opção política não apenas o colocou sob vigilância, como também contribuiu para seu ostracismo intelectual. Além disso, o antimarxismo presente em parte de experiências negras demagógicas – como a garveyista – contribuiu para o apagamento de suas contribuições fundamentais.

Silenciar, no entanto, um pensamento intelectualmente robusto e coerente nunca foi tarefa possível. E, graças a isso, as obras de Du Bois resistiram às intempéries ideológicas. Sua postura intelectual não foi de adesão cega nem se reduziu a uma ortodoxia engessada, e isso lhe permitiu uma inventividade crítica que resulta em um deslocamento importante: a revelação da centralidade da questão racial na modernidade. Reconstrução negra realiza precisamente esse movimento. 

Ao recolocar em perspectiva a noção marxiana de acumulação primitiva, Du Bois opera uma inflexão ao demonstrar como o colonialismo, fundamentado na escravidão, constitui força motriz do capitalismo. Ao inscrever a questão racial em chave dialética, evidencia as contradições que sustentam a sociedade da mercadoria: o arcaico não apenas convive com o moderno, como a relação entre ambos é condição de sua manutenção. Desse modo, a racialização não aparece como mero acidente de percurso na modernidade.

Em Reconstrução negra, isso se torna patente ao demonstrar que os Estados Unidos se converteram em uma força reacionária ao organizar a racialização não apenas internamente, mas também como elemento de exportação para a submissão do trabalho em escala mundial. Para que esse ordenamento se consolidasse – e a própria racialização se naturalizasse –, crimes e o apagamento das lutas negras foram promovidos pela propaganda histórica, difundida em larga escala. 

O problema era, antes de tudo, interno. Os Estados Unidos não apenas armaram milícias supremacistas brancas – cujo caso emblemático é a Ku Klux Klan –, como ainda estruturaram suas instituições sob bases racistas. A força da luta negra, tanto na Guerra Civil quanto na Reconstrução, precisou ser recalcada. Utilizando formas cada vez mais violentas – por meio do purismo racial e étnico –, os Estados Unidos exportaram o racismo para o mundo. Tornando-se um país marcado por linchamentos, serviram de referência para Hitler, que encontrou na administração estadunidense um modelo para seu próprio governo. 

Com efeito, a racialização não é apenas um elemento constitutivo, mas um princípio organizador do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, tanto entre regiões do globo – daí a sanha imperialista associada à industrialização e à abertura de mercados – quanto no interior da própria classe trabalhadora. Assim, Du Bois denuncia um ideal racializado de exclusão que se converte em motor da estabilização de uma nação que, ao se tornar vanguarda do capitalismo mundial, suprimiu os lampejos de uma democracia abolicionista – radicalmente social e igualitária – em favor de uma democracia oligárquica, industrial, representativa e excludente.

O livro evidencia que a democracia social, forjada na luta negra contra a escravidão, permanece como horizonte – como veremos, combatido, pelas forças da reação, durante todo século XX. Por isso, aquilo que Du Bois chama de democracia abolicionista buscava destituir radicalmente o regime escravista, suprimindo inclusive a racialidade como modo de organização social. Sendo objeto de anseio de milhares de líderes e militantes, orientou a luta de centenas de grupos que representavam os escravizados e buscou superar a dominação racial e a exploração econômica.

No lugar dessa democracia vibrante e social, instaurou-se uma de fachada, chamada por Du Bois de industrial. Adequada aos interesses de oligarquias do Sul e do Norte, ela interditou qualquer possibilidade de uma formação social que correspondesse aos ideais de liberdade, igualdade e dignidade humana. O período da Reconstrução revela os subterfúgios utilizados pela burguesia estadunidense para estabilizar uma desigualdade cuja manutenção operava pela naturalização da racialização. 

Ao investigar o período de 1865 a 1876 – imediatamente posterior à Guerra Civil –, Reconstrução negra demonstra a centralidade da luta contra a escravidão e o papel decisivo dos negros na reconstrução política e social do país. O negro não aparece como vítima, mas como agente – tão inoportuno para as burguesias do Sul e do Norte que estas recorreram ao crime, ao assassinato e à construção de um imaginário que o define como ameaça interna permanente. 

Du Bois evidencia como a violência política direta – imposição das leis Jim Crow e aceitação da Ku Klux Klan – se articulava com a violência simbólica: uma literatura e um cinema que consolidavam a imagem do negro como infantil e subalterno. Trata-se de uma ideologia racista, alicerçada na produção cultural, que conformou um imaginário nacional no qual o negro escravizado aparece como subserviente e o negro liberto como ameaça.  

A escrita da história, nesse contexto, torna-se conivente com a supremacia branca. Ao renegar a escravidão como fundamento da Guerra Civil, a historiografia oficial apagou as contribuições centrais dos negros na luta e na consolidação da nova sociedade. Pensando a contrapelo, Du Bois mostra que a busca pela autonomia sulista – estopim do conflito – visava preservar uma forma de exploração do trabalho baseada na escravização. Os proprietários do Sul buscavam, afinal, combinar trabalho escravo e mercado capitalista. 

Eis a tese fundamental de Du Bois: não foi a benevolência do Norte – muito menos de seu principal líder, Abraham Lincoln – que garantiu a abolição. Foi a participação ativa dos negros, que por meio de uma greve geral nas fazendas e de sua adesão à guerra definiram os rumos do conflito. Mais do que isso: os trabalhadores escravizados tornaram-se uma força social decisiva contribuindo para a vitória do Norte. E, dessa forma, a Reconstrução – pós-Guerra Civil – contou com a contribuição fundamental dos ex-escravizados.

Contudo, a força emancipatória da democracia abolicionista foi derrotada pela reação oligárquica. Uma derrota que consolidou, no plano simbólico e institucional, uma “democracia” voltada aos interesses das elites e de uma nova burguesia que instrumentalizou o racismo para dividir os trabalhadores. No contexto do imperialismo do século XX, os Estados Unidos exportariam esse modelo racializado ao mundo.

Enfim, os méritos da obra de Du Bois são numerosos – uma análise histórica inaugural, a centralidade da escravidão na Guerra Civil, teses decisivas sobre os movimentos abolicionistas. Diante dos limites deste espaço, destaco aquele que me parece mais atual: a compreensão do negro como elemento fundamental da modernidade capitalista, que buscou objetificá-lo e subalternizá-lo, mas cujo fracasso revela sua condição de sujeito histórico. Portanto, os estudos que essa obra, agora publicada pela Boitempo e pela Editora Unicamp, fará florescer certamente nos afastarão de uma melancolia negra hoje importada do Norte. 

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Douglas Rodrigues Barros é psicanalista e doutor em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor na pós-graduação em filosofia da Unifai. Investiga principalmente a filosofia alemã conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas principais contribuições teóricas no campo da arte e da política. Pela Boitempo, publicou O que é identitarismo? (2024). Escritor com três romances publicados, também é autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial (Hedra) e Hegel e o sentido do político (lavrapalavra).


Reconstrução negra: ensaio para uma história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880, de W. E. B. Du Bois
A obra mais madura de W. E. B. Du Bois ganha sua primeira tradução para o português. Reconstrução negra revisita um momento decisivo da história estadunidense: o pós-abolição e pós-guerra civil nos Estados Unidos – um dos períodos mais radicais da história do país, que não à toa foi sujeito a um violento processo de apagamento.

Du Bois interpreta a Guerra Civil como uma revolução social que derrubou o sistema escravista do Estado confederado, abrindo caminho para uma democracia efetiva a ser construída pelos de baixo. Além de recuperar a riqueza política dessa experiência, o livro trata também da “contrarrevolução dos proprietários” que enterrou esse projeto, lançando as bases para uma nova forma de servidão sob a “ditadura do capital”. “Du Bois explora, em várias dimensões e eventos, como a Reconstrução Negra foi combatida, com armas e crimes de toda sorte, por movimentos e milícias civis de supremacistas brancos a partir dos quais se formaria, entre outros, a Ku Klux Klan”, escrevem Matheus Gato e Sávio Cavalcante na apresentação à edição brasileira.  

“Reconstrução negra é – e provavelmente continuará sendo – um dos melhores livros de história já escritos. É também o ponto culminante da obra de W. E. B. Du Bois e o prenúncio da surpreendente radicalização política de seus últimos anos. Suas mais de 700 páginas encarnam uma maestria de detalhes que só poderia ter sido obra de uma vida inteira.”
— C. L. R. James, autor de Os jacobinos negros




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