Localizando a maternidade no modo de produção capitalista: um diálogo a partir de Leopoldina Fortunati

Pôster da campanha por salários para o trabalho doméstico, nos Estados Unidos. Imagem: Wikimedia Commons
Por Ana Clara Ferrari
Em O arcano da reprodução, Leopoldina Fortunati refaz uma análise do modo de produção capitalista, que classicamente foi dividido por Marx entre produção de mercadorias (campo produtivo, que gera valor) e reprodução social (campo improdutivo, que não gera valor), redesenhando essa duplicidade e redefinindo o terreno da centralidade ao considerar que a reprodução social é criação de valor, sendo parte integrante e crucial do ciclo capitalista.
Essa crítica que aponta para a centralidade da reprodução, também feita de outras formas por feministas como Silvia Federici e até mesmo Gerda Lerner, reforça a compreensão de que “a duplicidade é o elemento que permite que esse modo de produção [capitalista] exista e funcione, […] porque lhe permite funcionar de forma muito mais produtiva do que os modos de produção anteriores” (Fortunati, 2025, p. 23). Em outras palavras, não existiria produção de mercadorias sem a reprodução social e, mais do que isso, é justamente essa divisão que permite a maior exploração de mais-valor no campo produtivo, já que é por meio do trabalho de reprodução que se transferem ao “operário” as condições para exercer a capacidade de sua mercadoria – a força de trabalho.
Até aqui, o feminismo, de maneira geral, e o feminismo marxista, em particular, conseguiram historicamente avançar bastante em formulações teóricas, políticas e práticas. Embora ainda haja ecos jurássicos da falácia da hierarquização entre luta de classes e luta das mulheres, a compreensão sobre a correlação da luta das mulheres trabalhadoras contra o patriarcado e o capitalismo tem delimitado o escopo das agendas feministas mais recentes.
No entanto, é possível (e necessário) avançarmos ainda mais no desvelamento do núcleo de sustentação do modo de produção capitalista, de modo a entender precisamente onde se localiza e qual o papel da maternidade nesse sistema.
Na produção de mercadorias, a relação de troca entre o operário e o capital é mais evidente. Não por acaso, é o caminho por onde Marx trilha a maior parte de suas análises. Já na reprodução social, além de ser tida como “processo natural” (vamos tratar disso mais à frente), é comum que se associem as relações de troca a uma relação entre “o homem e a mulher”, porque é essa sua aparência. Porém, na realidade, essa relação se dá entre a mulher e o capital, por meio dos homens, enfatiza Leopoldina. Porque embora a reprodução social apresente-se como a criação de não-valor, é a lógica única da duplicidade (valor/não-valor) que permite ao capitalismo usar tanto a produção quanto a reprodução como aspectos do processo de valorização, para explorar tanto o trabalho fabril quanto doméstico na criação de valor.
“[…] o capitalista não pode ter a operária da casa trabalhando sob seu controle direto, mas deve necessariamente servir-se do operário como mediador do controle sobre ela. Caso contrário, ele não seria mais capaz de estabelecer o trabalho doméstico como a força natural do trabalho social.” – Leopoldina Fortunati em O arcano da reprodução, p. 120.
Portanto, temos até agora três avanços estratégicos na compreensão do papel da reprodução social no cerne do capitalismo: 1) gera valor, portanto, produz uma mercadoria; 2) o capitalismo só opera por meio da duplicidade (produção e reprodução); 3) a reprodução social realiza-se na relação entre a mulher e o capital (e não entre homens e mulheres).
Uma vez reforçada a centralidade da reprodução social não só para a emergência do capitalismo, mas também para a própria existência desse modo de produção; e a centralidade das mulheres na sustentação do núcleo que mantém esse sistema vivo, podemos avançar no funcionamento e na complexidade da maternidade dentro do campo reprodutivo.
A maternidade no centro da reprodução social e da produção de valor
“O trabalho ‘doméstico’, como atividade consistente com sua finalidade, é trabalho para a produção e reprodução da força de trabalho. Ou seja, a finalidade e o produto do trabalho ‘doméstico’ são a força de trabalho.” – Leopoldina Fortunati em O arcano da reprodução, p. 119.
Se a reprodução social é parte indissociável do núcleo central de existência do modo de produção capitalista; se dentro da reprodução social, as mulheres são centrais porque estabelecem relação direta com o capital; a maternidade é o centro nevrálgico desse sistema, não só pelas razões inerentes ao campo da reprodução, mas também porque ela garante a existência e a renovação do campo da produção. Ou seja, sem ela, tudo rui. A maternidade, portanto, a partir da perspectiva crítica proposta por Fortunati, pode e deve ser entendida como o átomo-síntese do modo de produção capitalista, tanto compreendida como criadora de valor quanto como produtora da força de trabalho por meios materiais e imateriais.
Aparentemente, você pode achar que, no campo da reprodução social, causamos uma confusão entre trabalho doméstico e maternidade. E é precisamente aqui que vamos desvelar mais uma camada de aprofundamento da compreensão do funcionamento do núcleo do capital.
Para fins de discussão, a autora de O arcano da reprodução distingue a produção da força de trabalho de sua reprodução, pois embora sejam processos distintos, o primeiro não vive sem o segundo. E vamos acompanhar seu raciocínio comprovando como a maternidade é central em ambos.
Produção de força de trabalho
No caso da produção de força de trabalho, a centralidade da maternidade é mais evidente porque envolve justamente gerar os indivíduos que serão explorados pelo capital, da forma mais literal possível: parindo gente, o que consiste em dois momentos, a procriação e a gestação. Ambos pressupõem a existência da figura materna (ou, no caso da procriação, de alguém que exerça o papel que se espera de uma mãe). Na gestação, seu corpo é matéria-prima e o próprio meio de trabalho e culmina em um novo produto, ou seja, em uma nova força de trabalho. Portanto, o meio de produção de força de trabalho é inerente ao corpo da mulher (no caso, da mãe). Podemos dizer, então, que “no momento do nascimento, o indivíduo geralmente incorporou nove meses de trabalho da mãe” (Fortunati, 2025, p. 121).
Nesse sentido, a força de trabalho não deve ser considerada uma “matéria natural transferida ao organismo humano” como sugere Marx, mas sim o resultado do trabalho de fatores objetivos e pessoais das mulheres que se tornam mães. Ainda que tenhamos clareza de que força de trabalho não é uma coisa nem um objeto palpável, ela não existe à parte do indivíduo que a detém.
Mulheres gestam e dão à luz desde que o mundo é mundo. Nesse sentido, obviamente, o capitalismo não transformou a maneira como o trabalho das mães, sobretudo no gestar, é realizado (embora possamos dizer que interfere bastante, ainda que o cerne fisiológico permaneça); mas ele transformou a relação entre as mulheres e seus corpos, retirou das mulheres o poder de controlar os próprios corpos, o próprio útero e, consequentemente, a própria vida. Nas palavras de Fortunati, “[…] o capital transformou o corpo da mulher […] em uma ‘máquina’ de produção de trabalhadores, de novas forças de trabalho” (p. 122).
Nas formulações feministas, aprendemos rapidamente a colocar o pé no chão e não destilar conceitos sem materializá-los na concretude da vida cotidiana, porque é justamente esse descolamento (proposital ou não) que historicamente tem invisibilizado e dificultado o aprofundamento da compreensão sobre o papel da reprodução social no modo de produção capitalista e, consequentemente, interditado a agenda política das mulheres, assim como, de modo mais específico, a elaboração de políticas voltadas para a maternidade.
Uma vez que as mães gestam, dão à luz e criam novos trabalhadores, esse processo não acontece descolado das necessidades materiais e imateriais de reprodução. Para completar o ciclo produtivo da força de trabalho, as mulheres mães devem estar inseridas em um sistema de reprodução social, que engloba o trabalho doméstico, para garantir a própria existência, a existência de sua prole e de um eventual trabalhador assalariado, seu companheiro. (Aqui, poderíamos ir mais a fundo, colocando o trabalho doméstico como o pilar de sustentação desse sistema, de tal modo que o capitalismo é capaz de evocar um ideal de maternidade basicamente inatingível, sem contudo abrir mão do processo análogo à escravidão do trabalho doméstico, seja ele realizado pela própria operária do núcleo familiar ou terceirizado, na maior parte das vezes para uma mulher racializada).
Reprodução social
A realização do produto “força de trabalho” pressupõe anos de dedicação e trabalho material e imaterial, porque bebês humanos não nascem prontos para se consolidarem enquanto capacidade produtiva. E até mesmo os adultos, no caso dos homens (ou do operário, para usar os termos de Fortunati), com sua capacidade produtiva em pleno funcionamento, precisam desse trabalho constante e incessante relacionado à reprodução social e ao cuidado da vida – centrado majoritariamente no trabalho doméstico e de cuidado – para que possam realizar a sua finalidade primária no capitalismo: produzir.
Portanto, para além do trabalho de reprodução social necessário enquanto a força de trabalho reside no indivíduo (o exaustivo, repetitivo e infinito trabalho doméstico para que o operário se levante todos os dias e continue sendo explorado), existe um acúmulo de trabalho de reprodução social neste próprio indivíduo, desde o momento em que ele é gerado até que ele desenvolva a sua capacidade reprodutiva – e quem realiza majoritariamente esse trabalho acumulado sobre o indivíduo para que ele se realize enquanto promessa no sistema capitalista são as mães (ou, em menor escala, tutores responsáveis que cumprem a função de maternar). Nesse aspecto, podemos concluir que, quando falamos dessa “parte do processo de trabalho doméstico, relacionada à reprodução da força de trabalho” (Fortunati, 2025, p. 129), estamos basicamente falando de trabalho materno, de mulheres mães, de maternidade, em toda a sua complexidade.
Gestar, cuidar, amamentar, alimentar, criar. Todos esses são processos materiais que envolvem satisfazer as necessidades básicas e objetivas de sobrevivência do ser humano. Mas não só, a autora destaca também os processos imateriais – que envolvem satisfazer as demandas subjetivas do indivíduo – no âmbito do afeto, das emoções, da cultura, da saúde mental.
Dentro dessa perspectiva imaterial, podemos separar duas abordagens interrelacionadas. A primeira diz respeito à reprodução social do núcleo familiar e da própria individualidade da mãe – a autora explica que nesses casos as matérias-primas e os meios de trabalho coincidem com a operária da casa, em sua totalidade de indivíduo, em seu corpo e alma. Em outras palavras, existe uma captura da subjetividade feminina para que ela funcione apenas dentro das propostas exigidas pelo modo de produção capitalista, sem espaço algum para o exercício e o aprofundamento da própria individualidade: “suas necessidades imateriais [das mulheres] não devem e não podem existir exceto como forma de satisfazer as necessidades imateriais do operário ou de seus filhos”, escreve Fortunati (2025, p. 130).
Paradoxalmente, em termos coletivos, a nível de sociedade, a maternidade cumpre um papel estratégico de influência e transferência de valores e de cultura, que nenhuma outra relação humana é capaz de exercer de forma tão peremptória. É por meio delas, de seu corpo, de sua alma e de sua subjetividade, que novas mentalidades se erguem para a existência no mundo – o que permitiria a elas, por exemplo, “dar um troco extraordinário” à sociedade apesar de toda opressão sobre suas costas, parafraseando Lélia Gonzalez. É sobre o lombo de quem exerce as estruturas mentais, de formação de valores culturais, humanos e intelectuais das futuras gerações; de quem “ensina” como a vida funciona e quais são as regras a serem seguidas, que se ergue para o horizonte a base fundante da civilização: a própria humanidade.
A centralidade da maternidade na agenda política
Temos aqui, então, a maternidade no cerne do modo de produção capitalista. Entendemos que seu papel não se dá apenas enquanto procriadora e gestadora, mas também cuidadora. Ou seja, até que a “força de trabalho” tenha condições de ser explorada no indivíduo, ele necessita ser provido de elementos materiais e imateriais para que sua capacidade possa ser realizada dentro do capitalismo.
Assim como o capitalismo transforma a experiência da maternidade em máquina de produção de força de trabalho, podemos dizer que, dialeticamente, a experiência da maternidade (compreendida como procriar, gestar e cuidar) transforma profundamente a relação das mulheres com a própria existência e o meio em que estão inseridas, fazendo com que elas vivenciem as facetas mais profundas e arcanas da reprodução, centro nevrálgico do modo de produção capitalista, a começar pelo mecanismo de controle mais efetivo do capital: o tempo.
A relação com o tempo, entendida objetiva e subjetivamente, é o ponto crucial do potencial de desvelamento do sistema capitalista, por meio da experiência da maternidade. A existência de um ser humano que não obedece às regras rígidas do horário de expediente imposto pelo sistema capitalista, não se adapta, não se insere e apresenta demandas materiais, sobretudo fisiológicas, e imateriais de forma aleatória confronta as mulheres com a própria noção de organização do tempo no sentido mais amplo e filosófico, tanto em relação a si quanto à família e à sociedade. Independentemente de se há ou não um processo de tomada de consciência, as necessidades impostas pela gestação e cuidados de um bebê empurram as mulheres para um espaço de temporalidade que não corresponde mais às regras produtivas “do mercado”.
Enquanto um homem pode ser pai em um dia e, no outro, seguir o relógio da vida como se nada tivesse acontecido, a mãe tem a sua relação com o tempo e o próprio corpo totalmente transformada. Seu relógio da vida passa a obedecer outra lógica, e aqui reside a faísca primária do potencial revolucionário da maternidade. Por exemplo, a experiência pragmática da escala 6×1 na vida de uma mãe negra trabalhadora possui um nível de sofisticação e proximidade com a desumanidade e a barbárie – seja por ela, pela cria, por ambos – que nenhum outro operário é capaz de alcançar, por mais explorado que seja. Obviamente, o confronto em si – da mulher-mãe com a lógica temporal “não-capitalista” – não se traduz automaticamente em potencial revolucionário, assim como um operário explorado, no plano do indivíduo, não se traduz automaticamente em sujeito revolucionário.
No âmbito da construção do pensamento social, podemos citar outro aspecto impactado por essa transformação da relação com o tempo na qual a maternidade incide e transforma radicalmente a sociedade: a linguagem. Em entrevista à TV Brasil, Lélia Gonzalez destrinchou o papel da mãe preta no imaginário brasileiro e sua influência direta naquilo que conhecemos por português brasileiro (ou melhor, pretuguês). Ela enfatiza o papel estratégico da mulher na socialização das crianças e, principalmente, na introdução da criança à ordem da cultura de uma sociedade. Isso foi possível porque quem passava a maior parte do tempo cuidando das crianças brancas de senhores de escravos eram as mães pretas.
“O escravo tinha várias obrigações, uma delas é entender o idioma do Senhor; a outra, a religião; e a outra, ser obediente. Debaixo dessa tríplice opressão, eles desenham suas estratégias de acomodação e sobrevivência. E me parece que a mãe preta, nesse sentido, deu um troco extraordinário. Todo ritmo, toda musicalidade do português falado no Brasil, nós devemos a elas.” – Lélia Gonzalez
O fato é que a experiência da maternidade, por estar na centralidade da produção de valor, coloca as mulheres em novas formas de relação com o capital – que começa pelo tempo e se espraia por toda experiência da condição e reprodução humanas. E não são quaisquer “outras formas” de relação com o capital, mas são aquelas que atingem profundamente o cerne da existência do modo de produção capitalista, revelando portanto o nível de controle e opressão do sistema sobre os corpos, as mentes e os corações das mulheres.
Não por acaso, o capitalismo tem suas bases fundantes nas noções de família e propriedade, tendo criado um arcabouço ideológico estruturante para dirigir, controlar e dominar a concepção de maternidade, expropriando as mulheres da autonomia de decidir não só sobre os próprios corpos, mas também sobre o próprio maternar e sobre a própria concepção do que é ser mãe. Isso acontece para proteger o cerne de sua própria existência, não só da perspectiva da produção de força de trabalho, mas também da reprodução social e da criação de um sistema cultural que legitima e perpetua a forma como “as coisas são como são”.
De toda forma, podemos entender as razões pelas quais o capitalismo se empenhou de tantas formas na construção, concepção e consolidação do ideal de maternidade que, historicamente, tem sido elaborado das mais diversas maneiras, nos mais diversos campos, de forma tão requintada, assertiva e perversa; e que conseguiu se apresentar basicamente como o único ideal possível de existir enquanto mãe na face da Terra.
De maneira geral, esse “ideal de maternidade” capitalista centraliza a figura da maternidade, entendendo a mulher-mãe como funcional apenas para garantir a estrutura familiar, a transferência de propriedade e a reprodução da força de trabalho. No entanto, há de se fazer uma diferenciação. A centralidade da maternidade, nessa perspectiva, enaltece a figura da mãe para poder controlá-la, portanto, por mais que aparente centralizar a maternidade, o capitalismo, na verdade, centraliza o controle sobre a maternidade. O capital teve êxito em performar uma preocupação legítima com o protagonismo materno, transformando-o em ferramenta de expropriação de corpos, extração de mais-valor, opressão e subjugação.
Essa articulação contou com os esforços de aliados como a Igreja e o Estado, e o ideal materno tornou-se tão bem apresentado por meio do enaltecimento da “mãezinha”, da “santa mãe” e da criação de mecanismos de controle das mulheres que, historicamente, interditou a possibilidade de sequer cogitar a experiência da maternidade como um potencial de transformação da realidade e de resistência das mulheres ao patriarcado e ao capitalismo.
Ao longo da história, as feministas acertadamente combateram a visão do ideal de maternidade imposto pelo modo de produção capitalista; ergueram a categoria da mulher a sujeito político de direitos, independentemente de sua função reprodutiva; denunciaram o controle do patriarcado e do capitalismo sobre os corpos das mulheres de todas as formas, incluindo o parir, o gestar e o criar. No entanto, apenas margearam – e muitas vezes marginalizaram – o potencial revolucionário da experiência da maternidade. Historicamente, esse fenômeno é compreensível porque, no capitalismo, a única possibilidade de visão e concepção de mãe é o ideal construído pelo sistema. Para romper com essa visão, era necessário romper com o ideal de maternidade e adotar a estratégia de “descentralizar” a maternidade, fazendo com que ela fosse apenas um dos aspectos que compõem o sujeito-mulher, totalmente suscetível ao poder de escolha das próprias mulheres, reforçando e apresentando outros papéis e potências das mulheres dentro da sociedade.
No entanto, como desenvolvemos aqui, o capitalismo apenas aparenta centralizar a maternidade, quando, na verdade, ele centraliza o controle sobre seu exercício. Portanto, embora tenhamos avanços consideráveis e conquistas históricas da luta feminista sobre esse tema, a experiência das mulheres com a maternidade, a partir da perspectiva feminista, tem sido historicamente pouco trabalhada e pouco elaborada enquanto potencial transformador da sociedade. Obviamente, as questões que tangenciam o cotidiano das mães são abordadas, contudo, podemos notar que as respostas progressistas minimamente mais elaboradas dão conta de organizar a vida da mulher para que ela volte a ser explorada no mercado de trabalho e coloque o filho na creche. Tudo isso diluído em caixinhas do mundo do trabalho, da educação, e de pautar na opinião pública o hercúleo esforço de divisão de tarefas e de legislação para que o genitor cumpra obrigações mínimas. Em outras palavras, há uma resistência do nosso campo em, de fato, aprofundar e centralizar a maternidade enquanto potencial transformador da realidade, por conta das peculiaridades históricas aqui abordadas.
O fato é que na atual crise do capitalismo, da transição democrática para a consolidação neoliberal, as políticas de austeridade e a redução do financiamento do bem-estar social reforçaram a transferência dos custos da reprodução da vida para os lares, conforme aponta o dossiê 98 da revista Tricontinenal, “A agenda antifeminista da extrema direita latino-americana”. No caso do Brasil, mais de 51% dos lares são chefiados por mulheres, em sua maioria, mães. Por mães, entenda-se 75% de toda a população feminina brasileira. Ou seja, não existe “agenda ampla para mulheres” em sua totalidade que não passe, necessariamente, pela maternidade – seja realizada ou em latência.
Então quando o dossiê aponta acertadamente que “o lar se tornou um amortecedor das crises, discursos sobre ‘valores familiares’, ‘resiliência’ e ‘responsabilidade individual’ legitimaram o retrocesso do Estado e naturalizaram a expectativa de que as famílias (grifo meu) absorvam sozinhas as consequências do desemprego e da precariedade”, ao colocar como sujeito “as famílias”, a publicação está sendo generosa ou eufemista, porque concretamente sabemos que esse fardo cai pesadamente sobre as mães.
A necessidade de dar respostas mobilizadoras por meio da maternidade para transitar por essa nova fase de aprofundamento do neoliberalismo não é uma leitura exclusiva do nosso campo. A direita e a extrema direita nas últimas décadas têm se organizado e se debruçado sobre a imposição e o aprofundamento do ideal de maternidade, nos moldes patriarcais e capitalistas, abrindo diálogo e mobilização diretamente com as mães. O dossiê aponta o avanço da agenda antifeminista na América Latina, apoiada por organizações ultraconservadoras globais, regionais e locais, tendo como eixo principal a Campanha “Con Mis Hijos No Te Metas” (CMHNTM), um chamado direto e expresso à mobilização de mães. A campanha não trata somente das questões da maternidade, é uma agenda ampla de retrocesso em que rejeita a educação laica e científica sobre direitos reprodutivos, se opõe aos direitos das pessoas das diversidades sexo-genéricas, especialmente ao casamento homoafetivo, rejeita a interrupção da gravidez, acusa de um suposto “marxismo cultural” os avanços nesses direitos e demoniza o comunismo, resume o dossiê. No entanto, a extrema direita delineou claramente um alvo de mobilização, centralizou seus esforços nele para traçar a trincheira das disputas ideológicas contemporâneas e tem buscado oferecer respostas (mesmo que ilusórias) para seus descontentamentos.
As expressões brasileiras dessa campanha são visíveis como: o espraiamento de conteúdos em massa nas redes sociais exaltando as tradwives, esposas-troféus, que pregam uma espécie de “volta” àquilo que nunca foi. A exaltação de um passado ilusório em que as mulheres eram “felizes em seus lares” e a figura do “pai provedor” dialogam diretamente com o esgotamento de mães trabalhadoras, que estão sendo sugadas por jornadas exaustivas de trabalho, salários arrochados, proteção social desmontada e relações precarizadas. O acolhimento das igrejas evangélicas abarrotadas de mães negras, cansadas de verem seus filhos expostos à violência do tráfico e do Estado em seus territórios, torna esse “retorno ao lar” (do qual nunca efetivamente saíram) a esperança de uma estabilidade, diante de um mundo em que as possibilidades de futuro desmoronam à nossa frente. Além do cerco e da censura aos materiais educativos escolares, a propagação de lobbies nos parlamentos para a adoção do homeschooling (ensino dentro de casa).
Por mais que as respostas da agenda da direita aprofundem ainda mais as desigualdades estruturantes na vida das mulheres e das mães, ao centralizar o chamado, o diálogo e a mobilização desse setor, em um momento tão estratégico da crise do capitalismo, eles conseguem cercear, “proteger” e tomar para si a centralidade da maternidade (na verdade, do controle sobre ela) – objetivo primordial para defender o acúmulo de capital.
Ao não avançarmos para a elaboração, formulação e luta por novas experiências de maternidade, não pautadas pela lógica capitalista, aprofundando nosso diálogo com as mães brasileiras e trazendo a maternidade (de fato) para o centro do nosso debate, o nosso campo perde uma grande oportunidade de ousar e sonhar, com o potencial indescritível e revolucionário que as mães possuem de acreditar em seu próprio sonho.
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Ana Clara Ferrari é jornalista e especialista em políticas públicas para igualdade de gênero. Pós-graduada em Gestão Pública, foi relatora do GT de Transição (2022) da pasta de Mulheres; e Coordenadora-Geral de Autonomia Econômica e Combate à Fome e à Pobreza, no Ministério das Mulheres. Trabalhou na Prefeitura de São Paulo de 2013 a 2020, nas Secretarias de Comunicação, Relações Internacionais, Saúde e Inovação e Tecnologia, coordenando projetos de comunicação e inovação em todas as áreas. É autora do livro Querido Diário da República, lançado em 2019. E atualmente é coordenadora de formação política para mulheres da Fundação Perseu Abramo.
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O arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital, de Leopoldina Fortunati
Publicado pela primeira vez em 1981, O arcano da reprodução é um clássico do feminismo italiano que ganha sua primeira tradução para o português. A partir das grandes revoltas sociais que contestaram as divisões sexuais e raciais do trabalho em todo o mundo na década de 1970, a obra de Leopoldina Fortunati expande e transforma o modo como analisamos o processo de reprodução – parte do ciclo capitalista que diz respeito à produção de indivíduos como mercadoria força de trabalho.
O patriarcado do salário, de Silvia Federici
Revisitando a crítica feminista ao marxismo e trazendo para o debate perspectivas contemporâneas sobre gênero, ecologia, política dos comuns, tecnologia e inovação, Federici reafirma nesta série de artigos a importância da linguagem, dos conceitos e do caráter emancipador do marxismo. Ao mesmo tempo, esclarece por que é preciso ir além de Marx e repensar práticas, perspectivas e ativismo a fim de superar a lógica social baseada na propriedade privada e desenvolver novas práticas de cooperação social.
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