Cultura inútil | Dicionários, futebol, Asterix etc.   

Zico, em 1981. Imagem: WikiCommons

Por Mouzar Benedito

Como um ser analógico, não muito adaptado a estes tempos “digitais”, tenho saudade dos dicionários impressos, aqueles volumes enormes… Procurei saber quantos verbetes têm (ou tinham) os mais usados no Brasil e, segundo as informações que obtive, o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa tem 228.500 verbetes, e o Aurelião (Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa) varia conforme a edição, mas são em média 435 mil verbetes, locuções e definições. 


Vem aí mais uma Copa do Mundo de futebol masculino em que veremos uma legião estrangeira atuando pelo Brasil, sem que a gente saiba quem são a maioria dos jogadores. Além de atuarem no exterior ($$$), alguns se naturalizam lá e podem até jogar nas seleções gringas. Relembro aqui alguns jogadores brasileiros que atuaram em seleções estrangeiras: Deco, de São Bernardo do Campo, jogou pela seleção portuguesa em 2006 e 2010; seu conterrâneo, Thiago Motta, jogou pela Itália em 2014; na vizinha São Caetano do Sul nasceu Mário Fernandes, que jogou pela seleção russa em 2018; o sergipano Diego Costa, nascido em Lagarto, atuou pela Espanha em 2014 e 2018; o curitibano Thiago Cionek jogou pela Polônia; o maranhense Elkeson (nascido em Coelho Neto) atuou pela China; o alagoano Alexandre Guimarães, de Maceió, jogou pela Costa Rica; e o paranaense Marlos, de São José dos Pinhais, jogou pela Ucrânia. Um dos mais famosos desses casos é o do piracicabano José João Altafini, apelidado Mazzola, que jogava no Palmeiras e atuou na seleção brasileira de 1958. Foi para o Milan e, em 1962, jogou pela seleção Italiana no Chile. O apelido Mazzola se devia à sua semelhança física com um jogador lendário da Itália, Valentino Mazzola. Quando foi para a Europa, Altafini perdeu o apelido e passou a ser chamado pelo sobrenome.  


Zague (José Alves dos Santos), ídolo do Corinthians de 1956 a 1961, foi para o Club América, do México, onde se tornou ídolo também. O apelido foi dado por uma tia, porque gostava de correr em zigue-zague nas praias de Salvador. Seu filho, Zaguinho, jogou na seleção mexicana de 1994. 


Só para lembrar: as seleções brasileiras campeãs mundiais mais famosas pela qualidade e beleza do seu futebol (de 1958, 1962 e 1970) não tinham nenhum jogador que atuasse fora do Brasil. Era bem mais fácil torcer, a gente conhecia bem os jogadores.


O flamenguista Zico foi para o futebol japonês e chegou a ser treinador da seleção japonesa de 2002 a 2006. Mas o brasileiro mais idolatrado no futebol japonês talvez tenha sido Alcindo Sartori, que depois de atuar nas equipes do Flamengo, São Paulo e Grêmio foi para o Kashima, em 1993. Os japoneses não conseguiam pronunciar seu nome e, lá, ele virou o Arucindo.


Falando em Zico, ele tem dois irmãos que também foram futebolistas: Nando e Edu Coimbra. Nando era também um craque e chegou a ser cotado para a seleção de 1970, mas por ter cometido o “crime” de participar do Programa Nacional de Alfabetização do governo João Goulart em 1964, aos 18 anos, usando o método Paulo Freire, foi perseguido pela ditadura e não o convocaram. Seguiu para o Belenenses, de Portugal, mas lá também se vivia sob uma ditadura (de Salazar) que era cúmplice da brasileira, e a perseguição continuou. Teve que voltar para o Brasil, foi preso, torturado e abandonou o futebol para não atrapalhar a carreira dos irmãos. “Meu crime era ser professor”, dizia. Tornou-se um excelente pintor. Acredita-se que o próprio Zico não foi convocado para a seleção olímpica de 1972 por ser irmão dele.


Olha a sorte… O tarô, jogo de cartas usado como oráculo, já era usado em Veneza no século XIV, onde era chamado de tarocchino.


Miguel de Cervantes tinha publicado alguns textos na Espanha, com algum sucesso, quando resolveu ir para a Itália, berço da Renascença, mas lá mudou de rumo: alistou-se no exército em 1571, para lutar contra os otomanos que ameaçavam a Europa. Grande guerreiro, foi ferido na mão esquerda e no peito, durante a batalha de Lepanto. A mão ficou inutilizada, e ele ganhou um apelido: “O maneta de Lepanto”. Depois disso, decidiu voltar para a Espanha, mas piratas tomaram a embarcação em que estava, foi levado para a Argélia e ficou cinco anos em cativeiro, até ser trocado por um resgate. Passou dois anos em Portugal, onde tentou ser professor, sem muito sucesso. Em situação financeira precária, voltou a escrever e, depois de um tempo, em 1605, publicou a primeira parte de sua obra-prima, O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha. Nascido em 1547, morreu em 1616.

Costumam chamar Campos de Jordão – a cidade mais alta do Brasil, a 1.628 m de altitude, localizada no estado de São Paulo – de “Suíça brasileira”, por causa do frio. Mas tem também a “Suíça do Nordeste”, a pernambucana Garanhuns, que fica a 896 m acima do nível do mar. Há décadas, quando achavam normal usar casacos de pele, algumas mulheres da burguesia recifense compravam algum nas viagens à Europa, mas como usar aqui? Chegando o inverno, grudavam no rádio à espera de notícias do frio em Garanhuns e corriam para lá quando esfriava. Eu achava que não fazia tanto frio assim, e não faz, não é nenhuma Suíça, claro, mas passei frio lá num final de julho. Bem frio mesmo. Outras “Suíças” nacionais: Guaramiranga (CE), a 865 m de altitude; Nova Friburgo (RJ) a 846 m; e Monte Verde (MG) a 1.555 m – segunda cidade mais alta do Brasil… Quer dizer, não é uma cidade, mas distrito do município de Camanducaia.


Muita gente diz que sente até falta de ar em Campos do Jordão, cidade altíssima. Pois bem… Não vou citar pequenas ou médias cidades bolivianas e peruanas, por exemplo, muitas delas bem altas. Lembro só algumas capitais de países latino-americanos: La Paz está a 3.650 m, Quito a 2.850 m, Bogotá a 2640 m e a Cidade do México a 2.240 m. Na América Central, a capital mais alta está abaixo de Campos do Jordão e Monte Verde: é a cidade da Guatemala, a 1.529 m.


Quando eu era criança, diziam na minha terra, Nova Resende (MG), que ela era a terceira cidade mais alta do Brasil. Mas não era bem assim, não havia um levantamento exato. Depois, a cidade foi perdendo para outras cidades, muitas vezes distritos que passaram ao estatuto de município. No início dos anos 2000, procurei saber e ela era a 17ª em altitude, chegando a 1.252 m na praça central.


A cidade considerada a mais fria do mundo é Oymyakon, na Sibéria Oriental (Rússia). A média de temperatura durante o inverno lá é -50ºC, mas comumente chega a -55ºC. O recorde foi de -67,7°C, registrado em 1933, mas já li que em 1924 pode ter chegado a -71,2°C. Não me lembro se foi nessa cidade que Sebastião Salgado ficou três meses fotografando… Ele contou que nesses três meses não tomou banho nenhuma vez.


A “cidade” mais quente do mundo não é bem uma cidade, é um povoado chamado Furnace Creek, que fica no Vale da Morte, Califórnia (EUA). O recorde de calor registrado foi 56,7 °C. Outra cidade quente: Dallot (Etiópia), onde a média anual (dia e noite) é de 34,4°C, mas entre 1960 e 1966 alcançou 41°C de temperatura média. Os recordes de calor em alguns lugares: Ghadames (Líbia), 55ºC; Timbuktu (Mali), 54,4ºC; e Wadi Halfa (Sudão), 52,8ºC. No Brasil, as temperaturas no Rio de Janeiro, por exemplo, parecem insuportáveis, chegaram a mais de 40ºC, com sensação térmica de mais de 50ºC, mas a média no verão é de 31ºC (a média anual, considerando inverno etc., é 24ºC). O recorde de calor lá foi em Guaratiba, na Zona Oeste, batendo 44°C com sensação térmica de 62,5°C.


A capital estadual mais quente do Brasil é Cuiabá, onde a temperatura comumente ultrapassa os 40°C. Já peguei temperatura semelhante em Palmas (Tocantins). Nas minhas viagens pelo Brasil, os lugares que achei mais quentes foram Corumbá (MS), com calor muito úmido no verão, e Picos (PI) com calor seco.


Agora Inês é morta! Originalmente, “agora é tarde, Inês é morta”, é um ditado popular usado quando não há mais o que fazer, uma desgraça já aconteceu e é tarde demais pra mudar o resultado. A expressão faz referência à história de amor entre Inês de Castro e o príncipe herdeiro Dom Pedro, que viveu de 1320 a 1367. Aos 20 anos de idade, Dom Pedro, que viria a ser o rei D. Pedro I (de Portugal, não do Brasil; o Pedro I daqui é o Pedro IV de lá), passou a ter como amante a galega Inês de Castro. Ele era casado. Quando sua esposa, Constança, morreu, em 1345, passou a viver “maritalmente” com Inês. Os irmãos dela começaram a ter muita influência sobre o príncipe, o que desgostava seu pai, Dom Afonso IV, que mandou assassinar a amante do filho, em 1355. Dois anos depois, Dom Afonso morreu, Dom Pedro assumiu o trono, mandou matar os assassinos da amada e desenterrá-la. Ela foi vestida devidamente, coroada e colocada no trono, como rainha. E todos os membros da nobreza, convocados para essa cerimônia, foram obrigados a beijar a mão dela. Ele a queria como rainha, mas… “agora Inês é morta”. Nunca usei esse ditado, preferi sempre a forma caipira “a vaca já foi pro brejo”.


Uma tragédia muito lembrada nos Estados Unidos é o terremoto de São Francisco, ocorrido em 1906. O tenor Enrico Caruso estava lá, havia se apresentado na noite anterior cantando Carmen. Morreram cerca de 3 mil pessoas. Ele jurou nunca mais pôr os pés em São Francisco, e cumpriu a promessa.


Asterix e Obelix são os protagonistas de uma série francesa de quadrinhos criada por Albert Uderzo e René Groscinny. Nela, uma pequena aldeia gaulesa resiste bravamente ao exército invasor de Júlio César, e o humilha. Os romanos levavam o maior cacete. A história foi inspirada em Vercingetórix, líder gaulês que se dedicou a combater os romanos. Ele percorreu a Gália tentando convencer os chefes das diferentes tribos a se unirem para expulsar os romanos. Conseguiu unir boa parte deles. Júlio César deixou Roma e foi à Gália combater os resistentes. Os dois exércitos se enfrentaram onde é hoje a cidade de Bruges e, como o poderio romano era maior, Vercingetórix recuou para a atual Clermont-Ferrand e lá impôs uma derrota enorme aos invasores. Mas os romanos não desistiram e conseguiram derrotar os gauleses perto de Dijon. Ao contrário dos quadrinhos, que tratam aquela tribo como invencível, Vercingetórix foi preso, acorrentado e forçado a desfilar atrás de Júlio César, em Roma, que anexou a Gália oficialmente ao império no ano 52 d.C. Depois de seis anos preso, Vercingetórix foi estrangulado na prisão. Foi derrotado, mas entrou para a história.


Assim disse Guimarães Rosa: “A vida é boba. Depois é ruim. Depois, cansa. Depois, se vadia. Depois, a gente quer alguma coisa que viu. Tem medo. Tem raiva de outro. Depois cansa. Depois a vida não é de verdade… Sendo que é formosa!”


O valor da informação: de como o capital se apropria do trabalho social na era do espetáculo e da internet, de Marcos Dantas, Denise Moura, Gabriela Raulino e Larissa Ormay
Com a ótica da teoria marxiana do valor-trabalho, revela como a informação se tornou mercadoria fundamental nas relações de produção e consumo. Explora os aspectos da propriedade intelectual, trabalho não remunerado em plataformas digitais e a produção de valor nos campeonatos de futebol.

Democracia Corintiana: a utopia em jogo, de Ricardo Gozzi e Sócrates
Nos anos 80, o Corinthians rompe com tradições autoritárias no futebol, liderando a marcante Democracia Corintiana. Combinando memórias e pesquisa, revela histórias surpreendentes. Uma leitura envolvente sobre a transformação possível no cenário futebolístico brasileiro.


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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.


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