“Eat the rich”, mas salvem Miranda Priestly: o que “O diabo veste Prada 2” tem a dizer sobre o presente?

Imagem: Divulgação.
ALGUNS SPOILERS
Por Alysson Oliveira
O diabo ainda veste Prada, muito embora os vinte anos que separam o primeiro filme de sua sequência tenham sido marcados por mudanças sociais e profissionais profundas – em especial na imprensa, métier que serve de base para ambos os enredos. A tensão central do novo longa protagonizado por Meryl Streep e Anne Hathaway, porém, está mais relacionada às transformações tecnológicas que moldam o jornalismo do que às questões de moda e tendências fashion. O filme diz: o jornalismo sério ainda importa – mesmo que esse jornalismo esteja basicamente a serviço da afirmação do fetiche da mercadoria.
Anna Wintour, famosa editora da Vogue estadunidense, que não apenas reportou, mas ditou moda por quase 40 anos pode não estar mais à frente da publicação, mas Miranda Priestly (personagem de Streep) não abandonou seu cargo na revista fictícia Runway, embora o periódico enfrente problemas, como a concorrência das redes sociais e seu imediatismo, que sacrifica a profundidade.

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É um tema que fala e é caro aos corações e mentes de jornalistas ao redor do mundo, num momento em que a mídia séria enfrenta desafios diante das redes sociais, do sensacionalismo e das fake news que se propagam mais rápido – e, estranhamente, são levadas mais a sério – do que reportagens de fôlego e densidade.
Tudo isso compõe a figuração de um momento de crise, abordado no filme, no entanto, a partir da perspectiva de certa elite cultural e econômica. Não por acaso, O diabo veste Prada 2 foi lançado nos cinemas mundiais no final de semana que antecipa o Met Gala – um baile beneficente (é estranho pensar isso, mas, supostamente, é a realidade) que acontece todo ano na primeira segunda-feira de maio no Metropolitan Museum of Art, e arrecada fundos para o Costume Institute do museu.
A definição de “beneficente” está correta, mas, mais do que isso, o baile é na verdade uma ocasião para a ostentação, valendo-se da criatividade exacerbada da indústria fashion. O tapete vermelho é marcado pela pergunta de sempre: Quem você está vestindo? – mais uma vez, algo estranho, pois a pergunta não é Quem vestiu você? Trata-se, enfim, do fetiche de uma mercadoria inatingível, pois são figurinos, ops, looks que nem são para sair à rua, nem servem exatamente para ir a uma festa que não seja essa. É, ao mesmo tempo, a criação do desejo da mercadoria – se não essa, que seja outra roupa de grife cara que, talvez, o consumidor ou consumidora nem tenha onde usar, mas a posse conta.

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Como já disse o bom velhinho barbudo: “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘enorme coleção de mercadorias’, e a mercadoria singular como sua forma elementar.” E olha que ele nem chegou a conhecer o Met Gala.
A contradição mais rasteira entre valor de uso e valor de troca foi figurada por O diabo veste Prada, o original, no famoso monólogo de Miranda Priesley sobre o suéter azul cerúleo. Na cena, ela traça a jornada dos itens de alta moda até se transformarem em algo além do prêt-à-porter, alcançando a massificação mais crua:
“No entanto, esse azul representa milhões de dólares e inúmeros empregos, e é meio cômico como você pensa que fez uma escolha que a isenta da indústria da moda quando, na verdade, você está usando um suéter que foi escolhido para você pelas pessoas nesta sala… dentre uma pilha de ‘coisas’”, diz a personagem.
Uma fala como essa não encontra ecos no segundo longa, pois se na trama original Miranda era uma vilã do mercado de trabalho, odiada pelos pares, na mais recente versão ela se adapta à nova realidade (woke, diria uma certa demografia, tendo até uma assessora para a corrigir quando diz algum absurdo sobre classe, gênero ou raça) e se torna inclusive vítima de um mercado de itens de luxo que ela mesma delineou. Até mesmo o malfadado suéter é transformado.
O Met Gala nunca atraiu tanta crítica como neste ano, em que o principal patrocinador do evento é Jeff Bezos. Diversas pessoas famosas boicotaram o baile. Zohran Mamdani foi o primeiro prefeito da cidade a dizer que não iria, o que rendeu reportagens de diversos veículos, do New York Times à Teen Vogue (!). A versão ficcional de Anna Wintour saberia como lidar com isso – abriria mão de Bezzos num piscar de olhos, em nome da história. Por mais desesperada que estivesse por verba, preferiria manter a tradição a aceitar dinheiro de novos ricos das Big Techs.
Ou seja, Miranda Priestly começou a jogar para a galera, a se curvar e ser gentil por força das circunstâncias. Ela percebe que os ventos do presente demandam que os ricos sejam devorados – mas se isso vai realmente acontecer, ou se o diabo ainda vai poder continuar usando Prada, só o tempo dirá. Mas o filme sabe muito bem como a colocar numa espécie de entre-lugar, permitindo que possa ser salva se a revolução estiver no horizonte um dia.
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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.
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