Luiz Carlos Prestes, Euclides da Cunha e a Semana Euclidiana de São José do Rio Pardo 

Detalhe de exemplar anotado de Os sertões, pertencente a Luiz Carlos Prestes. Imagem: Anita Leocadia Prestes

 Por Anita Leocadia Prestes

A Semana Euclidiana 

Em memória de Euclides da Cunha, desde 1938, realiza-se todos os anos, de 9 a 15 de agosto, a Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo – cidade no interior do estado de São Paulo –, durante a qual são desenvolvidas atividades sociais, cívicas, culturais e acadêmicas voltadas para o resgate da vida e da obra do seu patrono, assim como para o incentivo ao seu estudo e à pesquisa. Vejamos as razões de tão persistente interesse.  

Republicano convicto, Euclides da Cunha, um jovem cadete, em 1886, desafiou o ministro da guerra da Monarquia, na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Em gesto de rebeldia, desrespeitado pelos colegas comprometidos com o protesto, quebrou e atirou sua espada ao chão, recusando-se a prestar continência. Foi logo preso e expulso da Escola Militar. No governo de Floriano Peixoto, anistiado, retornou à academia militar, cujo curso pôde concluir, tornando-se tenente e engenheiro militar. 

Desiludido com a República e tendo abandonado a carreira militar, passou a trabalhar como engenheiro civil no estado de São Paulo, ao mesmo tempo que exercia a atividade jornalística, em particular no jornal A Província de S. Paulo, anos depois denominado O Estado de S. Paulo

Em 1897, Euclides da Cunha é enviado pelo jornal O Estado de S. Paulo na qualidade de correspondente de guerra para acompanhar os acontecimentos no arraial de Canudos. Estava em curso a quarta expedição do Exército do governo monárquico contra os rebeldes de Antônio Conselheiro, após a fragorosa derrota das três expedições anteriores. O jovem jornalista, horrorizado com o massacre realizado pelas tropas governistas, passa a denunciá-lo, o que é feito por ele, logo a seguir, nas páginas imortais de Os sertões (Campanha de Canudos). Impressionado com a resistência dos jagunços de Antônio Conselheiro, é autor de frase lapidar: “Canudos não se rendeu”. 

Em 1898, Euclides da Cunha se estabelece em São José do Rio Pardo, onde trabalha como engenheiro na reconstrução de uma ponte, que desabara, causando grandes prejuízos aos moradores da cidade, obra concluída com sucesso no início de 1901. Ao mesmo tempo escreve Os sertões, também concluído em 1901, quando regressa à capital da República. Para escrever, Euclides constrói à beira do rio Pardo uma barraca “de zinco e sarrafos”, em suas palavras, em que encontra a tranquilidade necessária para seu trabalho criativo.  

É um período em que Euclides da Cunha cultiva várias amizades, inclusive com o prefeito da cidade, Francisco Escobar, que lhe fornece livros, muitas vezes trazidos de fora do país. Também faz amizade com Pascoal Artese, marceneiro de prestígio na cidade e ativista político, defensor de ideias socialistas, fundador de uma associação operária com o nome de “Clube Internacional Filhos do Trabalho”. Euclides é encarregado de redigir o manifesto a ser lançado no Primeiro de Maio de 1901, por ocasião da fundação da associação, quando também seria inaugurado retrato do “insigne mestre socialista K. Marx”. No texto do documento, redigido pelo autor de Os sertões, afirma-se que “promovendo entre nós a comemoração de uma data tão notável, o “Clube Internacional Filhos do Trabalho” procura a vulgarização dos princípios essenciais do programa socialista, empenhando-se em difundi-los entre todas as classes sociais”. 

A partir de 1912, os amigos e admiradores que Euclides da Cunha deixara em São José do Rio Pardo, ainda abalados com a notícia da sua trágica morte, em 1909, durante um duelo no Rio de Janeiro, deram início ao Movimento Euclidiano. Em 1938, por iniciativa desse Movimento viria a surgir a Semana Euclidiana; o Movimento Euclidiano também foi responsável pela transferência dos restos mortais de Euclides da Cunha para um mausoléu especialmente construído na cidade em sua homenagem. Da mesma forma, foi criado o “Museu Euclides da Cunha”, abrigado em sua antiga residência, e providenciada a preservação adequada da barraca onde ele escreveu Os sertões. Lugares de memória que permanecem acessíveis ao público. 

Luiz Carlos Prestes na Semana Euclidiana  

Em 1986, por ocasião dos 120 anos do nascimento de Euclides da Cunha, Luiz Carlos Prestes foi convidado a encerrar as atividades da Semana Euclidiana daquele ano. Segundo pesquisa recentemente realizada pela diretora do “Museu Euclides da Cunha” de São José do Rio Pardo, Sra. Paula Lacerda, a fala de Prestes “se estendeu por cerca de quatro horas e há o registro de que foi uma das exposições mais profudamente euclidiana nas Semanas Euclidianas”. No entanto não houve um registro documental, essa fala não foi gravada nem copiada. Apenas há uma foto de Prestes com participantes do evento (reproduzida abaixo), algumas citações na imprensa local e um vídeo feito pelo cineasta Noilton Nunes, incluído em seu filme sobre Euclides da Cunha. 

Riopardenses homenageando Luiz Carlos Prestes, “O Cavaleiro da Esperança”, em 15 de agosto de 1986 no CCIB (Centro Cultural Italo Brasileiro). Luiz Carlos Prestes está no centro da foto, ladeado pelos professores Manoel de Paiva Filho e Maria Antônia Celeste, com sua sobrinha Gabriela. Na fila de trás estão, da esquerda para a direita, Prof. Rodolpho Del Guerra, Prof. Marcos De Martini, Francisco Braguetta, José Luiz Spessotto, o então prefeito, Silvio França Torres, Cabral e Álvaro Ribeiro.

Entre várias reportagens a respeito nos jornais da cidade, encontramos a seguinte informação publicada na Gazeta de Rio Pardo (23/08/1986): “Todas as pessoas que assistiram ao pronunciamento do líder político Luiz Carlos Prestes, no dia 15 de agosto, no Centro Cultural Ítalo-Brasileiro, consideraram-no como o acontecimento mais importante da Semana Euclidiana deste ano”. A seguir registra-se que “Luiz Carlos Prestes foi aplaudido de pé pelo auditório lotado. Sua presença em São José do Rio Pardo foi considerada como um momento histórico”. 

Anos mais tarde, o cineasta Noilton Nunes, ao recordar sua própria participação na Semana Euclidiana de 1986 (Gazeta do Rio Pardo, 10/08/2021), lembraria “seu desejo imenso de participar de uma Semana Euclidiana”, acrescentando: “fui filmar as cenas da criação do Livro Número Um do Brasil, a Bíblia da Nacionalidade, para o longa “A Paz é Dourada – A Saga de Euclides da Cunha”. A seguir, contou o cineasta Noilton: 

As filmagens foram realizadas durante a Semana que teve Luiz Carlos Prestes como o Conferencista Oficial. Toda nossa equipe técnica e artística foi assistir a conferência do Cavaleiro da Esperança e ouvimos ele afirmar que Euclides tinha recebido das mãos do Escobar, prefeito da cidade, um exemplar de O Capital, de Karl Marx. Olhei para o Breno Moroni, ator que interpretava Euclides, para Katja Alemann, atriz argentina que fazia Ana. Com a mesma sensibilidade aguçada, pensamos em reproduzir a cena. Terminada a conferência, conversamos com o Prestes e ele topou em ir no dia seguinte, bem cedo, ao cenário da cabana que construímos para as filmagens e ele, como ótimo ator, incorporou Escobar oferecendo O Capital para o Breno. Todos os dias de manhã dávamos informações na rádio sobre as filmagens do dia e fazíamos pedidos para a população. Precisamos de um exemplar do livro O Capital. Apareceram três. 

Luiz Carlos Prestes, grande admirador de Euclides da Cunha 

Grande admirador de Euclides da Cunha, Prestes lera Os sertões ainda durante o curso na Escola Militar, no Rio de Janeiro. Muito antes de sua adesão ao marxismo e ao comunismo no final dos anos 1920, Luiz Carlos Prestes cultivaria um interesse permanente pela vida e obra do notável escritor. Indignado com sua morte trágica, em 1909 – verdadeiro assassinato –, pelas mãos do tenente Dilermando de Assis, Prestes veria confirmada sua indignação ao testemunhar a participação desse militar na perseguição aos seus companheiros “tenentes”, rebelados em 1924, em São Paulo. A serviço do governo Artur Bernardes, Dilermando de Assis, fora derrotado durante combate em Guaíra, às margens do rio Paraná, no oeste desse estado, pelas tropas do general Izidoro Dias Lopes, que haviam se retirado sob violento bombardeio da capital paulista. 

Após o término da Coluna Prestes que, sem ter sido derrotada, internou-se na Bolívia em fevereiro de 1927, Luiz Carlos Prestes viajou para Buenos Aires, onde, exilado, residiu de 1928 a 1931. Não obstante as grandes dificuldades financeiras atravessadas por ele e por outros colegas ex-“tenentes”, rebeldes dos anos 1920, Prestes costumava visitar os “sebos” da capital portenha. Mais tarde, sempre recordaria a emoção por ele vivenciada de ter encontrado num “sebo” de Buenos Aires um exemplar de Os sertões com extensa dedicatória de Euclides da Cunha, datada do Rio de Janeiro, em 10 de outubro de 1907, a Estanislao Zeballos, então Ministro das Relações Exteriores da Argentina. Embora carente de recursos, Prestes tratou de adquirir imediatamente a preciosidade encontrada, sempre por ele muito valorizada. Ao viajar para Moscou (URSS), no final de 1931, levou consigo a obra de Euclides da Cunha. Teve que deixá-la com suas irmãs, que também se encontravam na capital soviética, quando regressou ao Brasil em 1935. No final da 2ª Guerra Mundial, as irmãs voltaram à pátria e trouxeram essa preciosidade, guardada com grande zelo pelo “Cavaleiro da Esperança”. Apesar das perseguições movidas contra Prestes, esse exemplar de Os sertões pôde ser doado por esta autora, junto com o acervo de Luiz Carlos Prestes que conseguimos preservar, à Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (SP). Restaurado e cuidado, encontra-se disponível ao público interessado. 

O exemplar de Luiz Carlos Prestes. Imagens: Anita Leocadia Prestes

Luiz Carlos Prestes valorizava muito as posições de Euclides da Cunha favoráveis a Marx, algo inusitado nos meios intelectuais do Brasil no final do século XIX e início do século XX. Costumava citar e recomendar a leitura de Contrastes e Confrontos, coletânea de artigos de Euclides da Cunha, publicados originalmente na imprensa em diferentes momentos, cuja primeira edição fora de 1907. No texto “Um velho problema”, incluído na coletânea, escrevia o autor de Os sertões a respeito de Karl Marx: “… foi, realmente, com este inflexível adversário de Proudhon que o socialismo científico começou a usar uma linguagem firme, compreensível e positiva”. 

A partir da leitura de Marx, Euclides da Cunha entende que  

[…] a fonte única da produção e do seu corolário imediato, o valor, é o trabalho. Nem a terra, nem as máquinas, nem o capital, ainda coligados, as produzem sem o braço do operário. Daí uma conclusão irredutível – a riqueza produzida deve pertencer toda aos que trabalham. E um conceito dedutivo: o capital é uma espoliação. 

A seguir o ilustre escritor pontua que “a exploração capitalista é assombrosamente clara, colocando o trabalhador num nível inferior ao da máquina”, e conclui que tal exploração justificaria em grande parte a posição dos socialistas “chegarem todos ao duplo princípio fundamental: Socialização dos meios de produção e circulação; posse individual somente dos objetos de uso”. Com formação filosófica de origem positivista e evolucionista, como era comum entre os republicanos de então, Euclides da Cunha defende em “Um velho problema” que  

[…] os mais tranquilos e mais perigosos – como Ferri e Colajanni, corretamente evolucionistas, reconhecendo a carência de um plano já feito de organização social capaz de substituir, em bloco, num dia, a ordem atual das coisas, relegam a segundo plano as medidas violentas, sempre infecundas e só aceitáveis transitoriamente, de passagem, num ou noutro ponto, para abrirem caminho à própria evolução. 

Ao mesmo tempo, afirma a seguir que “o caráter revolucionário do socialismo está apenas no seu programa radical. Revolução: transformação”, concluindo que o triunfo revolucionário seria “inevitável”, pois “garantem-no as leis positivas da sociedade que criarão o reinado tranquilo das ciências e das artes, fontes de um capital maior, indestrutível e crescente, formado pelas melhores conquistas do espírito e do coração”. 

Do ponto de vista de Luiz Carlos Prestes, marxista-leninista convicto e comunista assumido, as limitações representadas pelas concepções positivistas e evolucionistas de Euclides da Cunha eram fruto em grande medida do atraso cultural do Brasil – algo sempre por ele destacado. Mas o caráter avançado do compromisso social e político assumido pelo autor de Os sertões com os trabalhadores e os setores populares, ainda nos primeiros anos do regime republicano, constitui legado da maior importância para o pensamento progressista e revolucionário brasileiro. 

Obras consultadas 

CUNHA, Euclides da. Constrastes e confrontros. São Paulo, Via Leitura, 2016. 

FACÓ, Rui, “A permanência de Euclides da Cunha”, Novos Rumos,14 a 20 de agosto de 1959. 

Gazeta do Rio Pardo, São José do Rio Pardo, 16/08/1986, 23/08/1986, 10/08/2021. 

MOURA, Clóvis, “Sobre o cinquentenário de ‘Os Sertões’”, Fundamentos, junho de 1952. 

SODRÉ, Nelson Werneck. A ideologia do colonialismo: seus reflexos no pensamento brasileiro. 2ª ed. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira S. A., 1965. 

NUNES, Noilton. Filme A Paz é Dourada – a Saga de Euclides da Cunha. <https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/FMfcgzQfBsnWvjbTsssdRBNPpJmjLNnC?projector=1

Documentário sobre Euclides da Cunha  – Euclides:Uma tradição eternizada às margens do Rio Pardo https://youtu.be/3pquX5eCBWo 


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Anita Leocadia Benario Prestes é doutora em História Social pela UFF, professora aposentada do Programa de Pós-graduação em História Comparada (UFRJ) e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes. Autora da ambiciosa biografia política Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (Boitempo, 2015), dos livros Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, 2017), Viver é tomar partido: memórias (Boitempo, 2019), em que narra sua extraordinária trajetória de vida, militância e pensamento e A coluna prestes (Boitempo, 2024). Assina também o artigo “Luiz Carlos Prestes e a luta pela democratização da vida nacional após a anistia de 1979”, publicado no livro Ditadura: o que resta da transição? (Boitempo, 2014), organizado por Milton Pinheiro.


A coluna prestes, de Anita Leocadia Prestes
Em comemoração aos cem anos da Coluna Prestes (que durou de 1924 a 1927), a Boitempo relança a obra de Anita Leocadia Prestes sobre o assunto. Fruto da tese de doutorado da autora defendida em 1989 na Universidade Federal Fluminense (UFF), o livro é a mais completa obra de pesquisa e reconstrução sintética sobre a Coluna, apoiada em sólida formação teórica e aparato documental em grande parte inédito à época de sua primeira edição.

Dividida em três partes, a obra começa com um panorama da sociedade na época, ainda com resquícios do sistema escravocrata e caminhando para um maior desenvolvimento capitalista, em meio a uma crise econômica, política e social. A segunda parte aborda a marcha da Coluna, numa narrativa enriquecida por diversos depoimentos, entre os quais o de Luiz Carlos Prestes, pai da autora. Nela, Anita Prestes busca responder à questão central de como uma força armada com parco aparelhamento bélico e dotado de poucos recursos nunca foi derrotada. Já na parte final, é tratado o relacionamento da Coluna com as populações urbanas e rurais e as forças políticas da época.

“Anita conseguiu enveredar pelo difícil caminho da fonte oral – o herói invencível a relatar sua própria história – e saiu-se com rara felicidade dessa empreitada, demonstrando notável isenção como observadora do seu fato histórico e superando a ligação afetiva com aquele que era, ao mesmo tempo, o principal ator e a fonte fundamental de seu relato. Eis o primeiro e não menos importante mérito do trabalho, isto é, não cair na armadilha de seu próprio método”, escreve Maria Yedda Leite Linhares no prefácio.


Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, de Anita Leocadia Prestes
A vida do revolucionário brasileiro cuja saga no movimento tenentista e na resistência antifascista contra Getúlio Vargas marcaram época. A autora, filha de Prestes e historiadora, oferece uma biografia política envolvente, embasada em metodologia marxista e documentação extensa.

Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo, de Anita Leocadia Prestes
A resistência e coragem da revolucionária Olga Benario Prestes nesta narrativa biográfica. Baseada em documentos inéditos da Gestapo, conta a jornada da jovem comunista desde sua luta política até sua execução nos campos nazistas. Amor, resistência e silêncio frente à brutalidade do Terceiro Reich.

Viver é tomar partido, de Anita Leocadia Prestes
Memórias marcantes entrelaçadas à história do comunismo no Brasil e no mundo. Um relato pessoal de lutas e perseguições, destacando o papel fundamental de mulheres na política radical. Leitura sensível e essencial para compreender a resistência contra a lógica capitalista.


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