Paulo Arantes e o fim do mundo segundo Radu Jude  

Por Alysson Oliveira

Como disse Fredric Jameson, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. A frase original é mais longa, mais complicada, mas a ideia central é essa. Em seus filmes, o cineasta romeno Radu Jude tem provado essa proposição das mais diversas maneiras – e as mais contundentes estão em longas como Eu não me importo se entrarmos para a história como bárbaros (2018), Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021) ou Não Espere Muito do Fim do Mundo (2023). 

Selecionado para a mostra Trabalho em Transe, na Cinemateca Brasileira (SP), Não Espere Muito do Fim do Mundo é uma sátira apocalíptica protagonizada por uma jovem assistente de produção à beira de um ataque de nervos. O mundo ao seu redor está ruindo, e, ainda assim, ela precisa se apresentar no trabalho. Pouco importa o apocalipse, uma coisa é certa, o capitalismo não acaba, e este depende da mais-valia. 

“O fim do mundo já ocorreu, e a única coisa que continua acontecendo é o trabalho”, apontou o filósofo Paulo Arantes após a exibição do longa em debate na Cinemateca, em 1o de abril. Apesar de todo catastrofismo do longa, lembra ele, “o filme ainda é otimista, pois se vale do humor para falar sobre isso. Na sessão, as pessoas deram muita risada, se identificam com a protagonista.” 

Imagem: Divulgação

A personagem central é Angela (Ilinca Manolache), uma faz-de-tudo na produtora, que, no momento, dirige um carro por Bucareste para filmar entrevistas para um vídeo sobre a segurança no trabalho. Além disso, faz vídeos para o Tik Tok, muitas vezes usando como filtro o rosto de Andrew Tate, britânico ídolo da extrema-direita, radicado na Romênia, onde foi indiciado por tráfico humano, estupro e crime organizado. Enfim, uma figura pouco cara ao país, daí a referência.  

É por meio desse avatar que a protagonista diz barbaridades, mas, também, verdades. “Ela é uma figura muito inventiva que domina o filme, e, quando ela não está em cena, sentimos sua falta”, explica Arantes. “O avatar é o Grilo Falante, e quanto esse Grilo Falante é de direita, é o fim do mundo”.  

Entrecortando a narrativa de Angela, está a de outa Angela, trazida de cenas do longa Angela goes on (1982), dirigido por Lucian Bratu. O filme é um clássico feminista do cinema do país, que traz uma protagonista motorista de táxi pelas ruas de Bucareste durante o governo de Nicolae Ceaușescu. 

Obviamente, Não Espere Muito do Fim do Mundo olha para o passado para tentar jogar luz no presente estabelecendo paralelos, mostrando, o óbvio, que a vida e o trabalho da Angela de 2023 são mais precarizados do que os da Angela de 1982 – ao menos dentro da verdade estabelecida pelos filmes.  

O longa do passado é filmado no colorido vibrante, típico dos anos de 1970. “São cores, texturas e músicas que respondem a uma pretensa harmonia daquela época”, explica o cineasta Roberto Gervitz, que mediou o debate. “Jude, em seu filme remonta essas cenas para romper isso, relentando as imagens para se concentrar nas pessoas [das ruas de Bucareste], que não são protagonistas, e estão ali por acidente”.  

Essas pessoas aleatórias, aliás, fizeram Arantes se lembrar do Brasil, pois “como aqui, elas ficam olhando para a câmera. E esse é um mundo estranho, mas, ao mesmo tempo, familiar para nós. Um amigo me disse: ‘se quiser ver um filme pior que o Brasil do presente, veja esse filme romeno’. E isso faz todo sentido”.  

***
Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.

Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).


A mostra Trabalho em transe continua até o dia 5 de abril, reunindo filmes que investigam as transformações recentes do mundo do trabalho e também debates que ampliam a reflexão, com a presença de Carlos Augusto Calil, Ruy Braga e Ricardo Antunes, convertendo o cinema em ponto de partida para o pensamento crítico contemporâneo:

Programação dos próximos dias:

03/04 (sex)
15h00 – Peões
17h00 – Mundo Grua
19h00 – Nomadland
→ Debate com Ruy Braga

04/04 (sáb)
15h00 – 7 Prisioneiros
17h00 – Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar
19h00 – Você Não Estava Aqui
→ Debate com Ricardo Antunes

05/04 (dom)
15h00 – Arábia
17h00 – Não Espere Muito do Fim do Mundo

Conheça alguns títulos da coleção Estado de Sítio, coordenada por Paulo Arantes:

 


Descubra mais sobre Blog da Boitempo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário