Será que Marx era estiloso? Entrevista com Vincent Berthelier
Imagemelaborada a partir de elementos da capa de Questão nacional e Marxismo, organizada por Jaime Pinsky, Brasiliense, 1980, capa de Otávio Roth e Felipe Doctors.
Por Rob Grams
Vincent Berthelier1 é especialista das relações entre estilo, literatura e política. Ele é autor de uma notável obra sobre o estilo reacionário intitulada Le style réactionnaire,2 assim como de uma contribuição sobre a literatura e a extrema direita na obra coletiva do Institut La Boétie, Extrême droite: la résistible ascension.3 Em Le style de Marx (Éditions Sociales, 2025) ele aborda vários pontos que ressoam em questões que nós formulamos na Frustration Magazine: o uso da ironia, os “ataques corrosivos”, a voz dos “principais envolvidos”, além da exigência do rigor combinada a maior acessibilidade possível… Conversamos com ele sobre tudo isso.
Por que o estilo de Marx?
Geralmente se lê Marx como um teórico da economia ou da política. Por que era importante, ou em todo caso interessante, na sua opinião, encarar a obra dele pelo âmbito do estilo?
Eu já vinha lendo Marx há muito tempo. Havia esse seminário de leitura de Marx na ENS,4 ao qual eu assistia, mas eu era da literatura: não era nem filósofo, nem economista, nem historiador. Eu não pertencia a uma disciplina canônica que mobilizasse habitualmente o marxismo. A partir desse seminário, a gente lançou outro espaço de trabalho, mais orientado para a crítica e para a teoria literárias. Não era um seminário stricto sensu marxista, mas um espaço no qual a gente pensava a literatura a partir de um ponto de vista materialista, historicizado, contextualizado, levando em conta determinismos sociais e econômicos. Do meu lado, eu tinha trabalhado no doutorado sobre a questão do estilo, partindo de um corpus bem diferente, já que se tratava da extrema direita. Um trabalho que se tornou em seguida o livro Le style réactionnaire, publicado pela editora Amsterdam. E aí, por efeito de contraponto, eu considerei que essa reflexão sobre o estilo podia também se aplicar à outra vertente política.
Houve, em seguida, um elemento bem concreto: uma editora das Éditions Sociales, Marina Simonin, deparou-se com um velho livro de Ludovica Silva, Le style littéraire de Marx, escrito em espanhol. Ela cogitou traduzi-lo (a editora Verso o tinha feito em inglês) e pediu minha opinião. O assunto era cativante, mas o livro estava meio ultrapassado. Propus um posfácio consequente ou, finalmente, fazer um livro novo. Foi assim que o projeto nasceu. É essa a causa material.
Além disso, no que diz respeito ao interesse específico dessa abordagem para Marx: evidentemente, esse não é o ângulo mais imediatamente político. Mas estudar o estilo de um autor, qualquer que seja, significa sempre situar-se no ponto de junção entre o político e o individual. O estilo é tanto um repertório de procedimentos já presentes – portanto tem algo de coletivo, ligado a tendências de época, a tradições literárias às vezes muito antigas – e ao mesmo tempo algo de individual: o jeito do autor de se reapropriar dessas formas, de retomá-las, às vezes para exprimir um pensamento novo, que pode em si ser coletivo ou atravessado por uma sociabilidade muito particular. Durante a redação, é claro que eu me perguntei qual podia ser o sentido político de tudo isto. Na minha opinião, ele se dá precisamente nesta articulação entre o individual e o coletivo. Tento trabalhá-la em várias partes do livro, e principalmente na conclusão, refletindo sobre o que o estudo do estilo permite pensar sobre uma subjetividade revolucionária. O que significa, por exemplo, ser um intelectual prussiano, mas à margem da Prússia, longe de Berlim, na sua parte ocidental; ser tomado pelo turbilhão do século XIX, com todo um conjunto de aspirações e atravessar em seguida a Europa – França, Inglaterra – em busca de uma liberdade bem concreta: de movimento, de expressão, de publicação? Eu não acho que refletir sobre o estilo de Marx seja, em si, uma questão ardente. É bom não se iludir nesse aspecto. Mas acho que é um bom meio de refletir sobre nossa própria subjetividade quando estamos engajados, quando estamos atravessados por um desejo revolucionário, quando estamos envoltos nas contradições da história.
O estilo, em Marx, adquire diferentes formas de expressão e essas formas remetem tanto a tarefas políticas distintas, quanto a problemas políticos difíceis de resolver. Eu não sou obviamente o primeiro a formular estas questões: elas já foram abordadas por outros críticos. Meu objetivo era também o de propor uma síntese. Mas, sobretudo, tratava-se de entrar não somente no pensamento de Marx – sobre o qual há bibliotecas inteiras – mas naquilo que seu estilo desenha como trajetória de engajamento. E isso, eu acho que pode dialogar bem diretamente com a gente. Por exemplo: a contradição ligada à posição social de Marx. Ele vem de uma classe média superior, é filho de um advogado liberal; não é um burguês no sentido estrito, contrariamente a Engels, mas sua situação é ambígua. Seu pai, judeu convertido, sofreu antissemitismo e uma certa marginalização. Marx não é proletário, mas enfrentou momentos de grande precariedade. No fundo, sua situação parece com a de muitos estudantes, muitos professores precários – um importante viveiro sociológico de militantes hoje em dia. Pessoas que se encontram em uma posição contraditória: por exemplo, quando você vai ao campo e cruza com pessoas que ganham muito pouco, com modos de vida e referências bastante distantes das suas, mas que, ainda assim, você sabe que têm interesses econômicos e políticos comuns a defender. Como você encara isso? Será que você fala “por”? Será que você se cala em nome da legitimidade dos outros, arriscando deixar de lado o que você, por sua vez, assimilou?
Em Marx, essas tensões se exprimem de maneira discreta, sem adquirir a forma de uma culpa infinita, que me parece ser hoje a modalidade dominante entre militantes. Essa ideia de que estaríamos sempre, de antemão, na posição de um mau dominador, culpado por uma “violência simbólica”, parece hoje superinvestida. Marx propõe, à sua maneira, pistas de resolução em torno da questão do porta-vozismo, da teorização de situações sociais que nós mesmos não vivemos. São desafios bastante contemporâneos, que podem ser pensados a partir de Marx não pela reativação direta de seus grandes conceitos (exploração, modo de produção capitalista etc.), mas pela retomada de sua posição como pensador engajado, situado em sua própria realidade concreta.
Tomemos um exemplo concreto. O Manifesto do Partido Comunista é um dos textos políticos mais lidos do mundo. Tem isso a ver com sua potência estilística?
De um modo geral, sobre a questão do estilo, eu sou bem deflacionista. Isto é, considero que é importantíssimo não lhe dar uma importância excessiva. O estilo não pode ser descolado do resto: do conteúdo, do contexto, das condições materiais de produção e de circulação dos textos. Não se trata portanto de estudar o estilo pelo estilo, como uma pura criação formal separada do mundo social. Podemos – e devemos – estudar o estilo historicamente e politicamente, mas sem lhe atribuir virtudes que ele não tem.
Peguemos O Manifesto do Partido Comunista. É um texto de uma abrangência internacional absolutamente colossal, que não precisa ser demonstrada. Mas, se procurarmos entender por que ele se tornou assim conhecido, as causas são múltiplas e não têm todas o mesmo peso. A primeira questão, muito concreta, é a dos intermediários: quem permitiu que o texto fosse publicado, e republicado? Afinal, qualquer livro é publicado uma primeira vez; o que faz a diferença, no entanto, é o que lhe permite circular, ser lançado de novo, ser reeditado. Desse ponto de vista, o fato que Marx tenha sido erigido em uma figura teórica central, quase como um profeta, pelos bolcheviques, e que estes últimos tenham feito, com sucesso, uma revolução em um país imenso, dotado de um potencial econômico considerável, conta evidentemente muito mais que o estilo do texto. Podemos fazer uma experiência de pensamento: imaginemos que Marx não tenha tido tempo de terminar O Manifesto e que tivéssemos ficado apenas com o Catecismo comunista de Engels, um texto dialogado, de estilo bem diferente. As ideias são, em linhas gerais, as mesmas, já que se trata de um trabalho comum, vinculado à linha política que eles buscavam impulsionar no interior da Liga dos Justos,5 e depois da Liga dos Comunistas6. Nada impede de pensar que esse texto poderia ter circulado e entrado para a posteridade. Seu estilo é, porém, completamente diferente. No Manifesto, reconhece-se imediatamente a marca de Marx: essa tendência a fazer falar diferentes instâncias, esse lado marionetista, essa ironia permanente… Coisas que se encontram muito menos em Engels, que é, todavia, igualmente bom escritor quando atua como historiador.
Se observarmos os livros que tiveram uma difusão mundial massiva – a Bíblia, o Corão, o Pequeno Livro vermelho – veremos que seu sucesso não se baseia em uma suposta legibilidade estilística. A Bíblia e o Corão são, para muitos leitores, textos dificílimos, às vezes quase ilegíveis. O Pequeno Livro vermelho é um objeto muito estranho: há ali explosões de lirismo, vindas de parábolas chinesas, misturadas a trechos de discursos de congresso com os quais nem sempre se sabe o que fazer – e no entanto, ele foi lido, recitado, estudado de maneira quase religiosa. Quando um texto é impulsionado por uma força política massiva, ele pode tornar-se um estandarte seja qual for o seu formato. É nesse sentido que eu me digo deflacionista.
Isso dito, podemos formular a questão de outro jeito, pelo lado do uso vivo dos textos. Aí, o estilo volta a ser importante. Em que medida um texto como O Manifesto pode funcionar como um repertório de slogans, ou como um texto no qual comunidades políticas se reconhecem? Nesse nível, há mesmo elementos estilísticos que produzem efeitos. Se retomarmos o Pequeno Livro vermelho, por exemplo, certas metáforas – o “tigre de papel” etc. – constituem verdadeiros espaços de elaboração estilística, que convocam a reprise, a citação, a reapropriação. E aí, efetivamente, o estilo conta.
Em breve “O Estilo de Mao”?
(Risos.) Não é a ideia, mas seria bem interessante. Atualmente, estou trabalhando sobre questões de circulação internacional dos textos e também sobre a história das formas. O caso de Mao é fascinante. Ele escrevia poesia clássica ao modo da dinastiaSong,7 portanto em formas com mais de mil anos de existência. Um estilo antigo, muito arcaico. É mais ou menos como se Mélenchon8 escrevesse hoje poemas ao modo de Villon,9 ou mesmo epopeias tipo A Canção do Rolando10: dá para imaginar o grau de arcaísmo. Mao escrevia em versos bem regulares, e nem mesmo seus adversários políticos contestavam a qualidade formal dos seus poemas.
O que é divertido é a recepção na França. Quando esses textos foram traduzidos, os situacionistas e os anti-maoistas diziam que era uma porcaria. Mas não tem nada a ver com isso: é simplesmente muito difícil de ler. É mais ou menos como a poesia da dinastia Tang11: quando não conhecemos o sistema, parece-nos intragável. Com Mao, estamos diante de um líder comunista que defende a educação das massas, a simplificação do chinês, a substituição do chinês literário pelo chinês falado – e que, paralelamente, escreve em um chinês hiper arcaico, com formas bem elitistas. É um objeto profundamente contraditório, e é por isso que é instigante.
Já que estamos falando da circulação, será que os operários do século XIX realmente liam Marx no próprio texto ou o faziam indiretamente através de jornais e de círculos de leitura? Será que o pensamento de Marx junto a eles se difundia pela leitura dos textos ou por via oral?
De maneira geral, os operários do século XIX não liam muito Marx. Seu verdadeiro triunfo veio sobretudo após a Revolução de Outubro.12 Isso dito, não é inteiramente falso afirmar que ele foi lido em vida: esteve bastante presente, por exemplo, nos círculos dirigentes da social-democracia alemã.
A circulação das suas ideias se dá, portanto, de maneira bem desigual. Podemos pensar em Jules Guesde,13 por exemplo, que lê Marx, encontra-o e com ele colabora para a redação da introdução do programa do Partido Operário Francês (POF). Mas será que esse programa foi realmente escolhido pelos operários? Nada o garante. Aliás, ainda hoje, quem lê os programas políticos?
Se observarmos o período 1848-1870, podemos dizer que, na realidade, quase ninguém lê Marx. Aqueles que o leem o fazem sobretudo através do New York Daily Tribune,14 no qual ele publica enormemente: é provavelmente aí que seus textos são mais lidos durante a sua vida. Por outro lado, ele publica pouquíssimos livros. Contribuição à crítica da economia política é uma obra erudita, e Marx espera aliás ser recebido como economista pelos economistas, com uma recepção científica. O mesmo vale para O Capital. Há o caso particular da edição francesa d’O Capital e seu prefácio no qual Marx explica como ler o livro aos operários franceses. Há, portanto, essa espera por um leitorado operário. Mas, na realidade, o próprio Marx parece estar pensando mais no seu trabalho como uma versão sólida, rigorosa, destinada a ser em seguida vulgarizada por outros. Marcello Musto mostra isso muito bem na sua biografia dos últimos anos de Marx: enquanto prepara a sequência do Capital e suas diferentes edições, Marx vigia de pertinho as versões vulgarizadas que circulam – geralmente sem sua autorização, em forma de piratagem. O roteiro é quase sempre o mesmo: ele lê, diz primeiro “é uma porcaria, há erros por todos os lados”, depois termina concluindo que “no final das contas, não está de todo mal”.
Do lado dos operários, o acesso direto aos textos de Marx permanece bem limitado. Há as aulas que ele dá em associações operárias, em Paris ou em Bruxelas, mas elas são frequentadas por um pequeno número de operários e de operárias, geralmente artesãos alemães. Aí, a transmissão é essencialmente oral.
Temos também que levar em conta a circulação dos textos no seio da Internacional. Salário, preço e lucro, por exemplo, sai de uma discussão com um operário. Mesmo que a Internacional conte com intelectuais burgueses e pequenos-burgueses como Marx e Engels, trata-se de fato de uma organização operária, inclusive sociologicamente. Há, portanto, uma audiência operária, mas ela é restrita e bem localizada.
Em suma: os “grandes livros” de Marx quase nunca são lidos diretamente pelos operários, a não ser por uma ínfima minoria. Existem, todavia, figuras de operários muito educados – tipógrafos, autodidatas, militantes – um pouco à maneira de Proudhon, que dedicam tempo à própria formação, por vezes escrevem as suas memórias e que, nos círculos militantes, inevitavelmente ouvem falar de Marx. Esses, sim, podem lê-lo. Mas temos que imaginar as condições materiais: O Capital, impresso em gótico, seiscentas páginas… Mesmo após a primeira tradução francesa, em 1875, o acesso permanece difícil. Quanto ao Manifesto, leva tempo antes que ele seja retraduzido e amplamente republicado. Vários desses textos só ficam realmente disponíveis depois da Comuna de Paris em 1871, no momento em que a figura de Marx emerge no debate público e midiático.
Qual a relação de Marx com a literatura? Será que ele se inscreve em uma herança particular no nível do estilo, enquanto escritor?
Marx tem várias heranças literárias. Para começar, seus primeiros textos são poemas. Foram traduzidos há menos de dez anos pela L’Insomniaque, uma pequena editora anarquista de Montreuil. São poemas bem românticos, de juventude, descabelados, cheios de instigação juvenil.
Mas Marx não é somente um poeta de juventude. Ele é também um leitor compulsivo: conhece tanto os clássicos – Cervantes, Goethe, Shakespeare, Balzac – quanto a literatura contemporânea de sua época, incluindo best-sellers como Dumas ou Eugène Sue. Já Victor Hugo o conhece de longe: reconhece seu talento, mas o considera politicamente equivocado. Há, nos seus escritos, uma alusão a Quasímodo; portanto, ele sem dúvida leu O Corcunda de Notre-Dame. Leu também o panfleto de Hugo sobre a Comuna.
Isso não significa que Marx se inscreve em uma corrente literária particular. Os partidos comunistas, durante muito tempo, apresentaram Marx e Engels como partidários do realismo, em oposição ao romantismo “degenerado” burguês. Mas esse realismo é uma construção a posteriori. Na época em que Balzac morre, o realismo literário está só começando a se forjar e, nos textos de Marx, as referências balzaquianas não são tão centrais assim. Suas principais referências são antes Shakespeare e Don Quixote, e ele é amante dos grandes romances pré-modernos, essa forma exuberante e extravagante. Dizer que Marx é partidário do realismo literário como doutrina é um exagero, ainda que seja verdade que ele não defenda a arte pela arte: considera que a literatura pode e deve refletir o mundo, o que era uma posição comum na época e de modo algum específica do realismo ou do marxismo.
Marx, escritor plurilíngue
Marx escreve em alemão, em francês e em inglês, e lê fluentemente várias línguas. Será que o plurilinguismo é importante para entender sua escrita e sua política?
Sim, claramente: o plurilinguismo é importante para entender tanto a escrita quanto a política de Marx.
Primeiro, a escrita. Quando lemos os textos mais espontâneos na língua original – cartas, borrões… –, deparamo-nos com algo bem impactante: uma prosa estranha, que mistura o tempo todo várias línguas. Marx passa do alemão ao francês, intercala citações latinas, às vezes inglês. A respeito disso, fala-se de “babelismo”15 – a expressão não é minha –, e é um traço que se deve levar absolutamente em conta se quisermos falar do estilo de Marx.
A partir daí, a questão se torna: por que ele escreve assim? E é nesse ponto que chegamos, indiretamente, na política. Essa mistura de línguas não se explica somente pelo nomadismo de Marx – fenômeno bem comum nos militantes do século XIX. Há também algo de mais social, quase lúdico: um lado presunçoso, ingênuo, ligado ao habitus do estudante de filosofia. Marx é doutor em filosofia, o que, na época, é extremamente raro. Ele pertence a um mundo sábio em que é corriqueiro trocar umas piscadelas eruditas, fazer piadas de “ratos” de biblioteca, brincando com as línguas. Sobretudo porque esse domínio é, em grande medida, livresco: quando Marx chega em Paris, por exemplo, ele tem dificuldade em falar francês e convive principalmente com alemães. Mas o que chama mais a atenção é que o lugar das línguas evolui no decorrer da sua vida. Quando ele chega em Londres, o inglês se integra progressivamente a esse emaranhado linguístico, ao passo que tinha ficado quase ausente até então. E essas línguas têm conotações políticas. Escrever em alemão com pitadas de latim é estampar uma cultura sábia; adicionar um pouco de francês é indicar uma relação com a França, com a herança da Revolução e com um certo liberalismo político. Quando Marx começa a utilizar o inglês, ele adota também a língua da economia política – língua que ele não dominava no começo, já que primeiro lê Smith e Ricardo em tradução francesa.
É neste momento que o plurilinguismo se torna plenamente político. Marx aprende línguas para entender situações concretas. Ele se dedica ao espanhol para acompanhar uma crise revolucionária na Espanha; aprende o russo quando começa a perceber que há ali algo de importante após ter, durante muito tempo, mantido esse país à distância por russofobia. Ele encomenda livros sobre as comunas agrárias russas, simplesmente para se informar direto na fonte, em uma época em que não havia nem internet nem circulação fluida de informação. Poder ter acesso direto aos textos, sem intermediários, é um privilégio político de marca maior.
Isso também lhe permite ocupar uma posição central em uma vasta rede de correspondentes: militantes, responsáveis políticos, agitadores de toda a Europa. Mesmo que o poder real da Internacional permaneça limitado, essa capacidade de dialogar em várias línguas cumpre um papel crucial na difusão das suas ideais. Marx se torna uma espécie de joelho operário – sem trocadilho de mau gosto – desse espaço internacional.
Há nele uma tensão interessante: tanto um internacionalismo afirmado, quanto uma maneira bem novecentista de falar dos povos, dos seus “caracteres”: o espírito francês, inglês, alemão etc. Isso não o incomoda particularmente. Mas, ao mesmo tempo, porque atravessou esses contextos, ele sabe muito bem que as situações políticas mudam em função do país, e que os programas devem ser adaptados. Essa visão panorâmica, plurinacional, protege-o de um certo dogmatismo. É, aliás, um tanto irônico, quando sabemos que Marx é geralmente acusado de rigidez doutrinal. Na realidade, ele não para de lembrar que a análise deve ser articulada às situações concretas, e que os programas políticos não são fadados a ser idênticos em todos os lugares. Sabemos até que ponto, mais tarde, certas tradições oriundas da Terceira Internacional ou do trotskismo sofreram com a aplicação mecânica de fórmulas engessadas a contextos nos quais não funcionavam. Desse ponto de vista, o plurilinguismo de Marx não é um detalhe biográfico: é uma condição central da sua prática política.
A reviravolta: escrever contra a ordem estabelecida
Você consagra um capítulo inteiro a uma figura de estilo aparentemente técnica: a antimetábole. Será que você poderia dizer do que se trata e por que essa utilização por Marx?
A antimetábole é uma figura de estilo simplicíssima: é uma repetição invertida. Pegamos uma fórmula A-B e a revertemos em B-A. O exemplo mais famoso, é a Filosofia da miséria de Proudhon, que se torna, em Marx, Miséria da filosofia, em 1847.
Como todas as figuras de estilo, a antimetábole é trans-histórica. Podemos encontrá-la em Platão, em Heródoto, na poesia chinesa clássica: é uma estrutura extremamente simples, uma forma de repetição. Em si mesma, essa figura não tem, portanto, nenhuma significação política ou filosófica. Mas a questão interessante é: por que Marx faz dela um uso tão massivo?
De um ponto de vista estilístico, temos que permanecer prudentes. Podemos adotar uma leitura “deflacionista”: Marx e Engels utilizam muito a antimetábole, mas não são os únicos. Os Jovens Hegelianos também recorrem a ela abundantemente. Podemos, então, ver aí uma moda de escrita, um marcador de grupo, uma forma de reconhecimento interno – como há constantemente na história literária e militante. Poderíamos fazer um paralelo contemporâneo: certas metáforas que circulam hoje nos meios militantes terminam transformando-se em tiques de linguagem, sinais de pertencimento, às vezes às custas de um empobrecimento do seu sentido. Em outras palavras, nem todas as formas estilísticas são necessariamente o produto de uma necessidade filosófica profunda; elas podem ter a ver com dinâmicas de rede, de imitação, de circulação.16
Isso posto, o objetivo do capítulo era justamente o de não se ater a essa explicação. Se a antimetábole é talvez, em parte, uma moda, o que permite apesar de tudo atribuir-lhe uma significação mais profunda em Marx?
Primeiro, há origens filosóficas: hegelianas, depois feuerbachianas. Em Feuerbach, por exemplo, a antimetábole acompanha o gesto de inversão do idealismo em materialismo. Não é bem a dialética em sentido estrito – quer dizer, a ideia que a realidade é contraditória e avança pela superação das suas próprias contradições – mas antes um gesto de reviravolta conceitual. Em Marx, essa figura aparece de maneira desigual de acordo com os textos. Está muito presente em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, texto central tanto para o materialismo histórico aplicado, quanto para a filosofia política. Aí, a antimetábole se adapta particularmente bem à escrita polêmica: Marx descreve um mundo invertido, absurdo – um “cretino” que toma o poder17 – e a figura estilística abraça essa inversão. Ela dá uma forma linguística ao sentimento de um mundo pelo avesso. Mas, ao mesmo tempo, Marx não se atém a esse primeiro nível. O miolo da sua análise consiste justamente em superar a aparência do mundo invertido para explicar suas causas materiais e os interesses de classe que aí se operam.
Na realidade, a dialética estilística de Marx se encontra em outra parte: no movimento conceitual do Capital, no qual passamos da mercadoria à moeda, depois ao capital – um desencadeamento de categorias que imita o movimento real do sistema. É aí que se opera a dialética, mais que nas fórmulas de inversão. Resta um momento em que a antimetábole adquire um alcance político e poético forte: o fim do livro I do Capital, com “a expropriação dos expropriadores”.
A transformação da propriedade privada dispersa em propriedade privada capitalista é, naturalmente, um processo mais difícil que a transformação da propriedade capitalista em propriedade social. Ali, tratava-se da expropriação da massa do povo por um pequeno número de usurpadores; aqui, trata-se da expropriação de um pequeno número de usurpadores pela massa do povo.
Essa passagem funciona como uma conclusão provisória, um epílogo, um ato de bravura. Marx concentra uma energia polêmica e revolucionária em uma estrutura de repetição invertida. Que ele coloque essa fórmula no fim de uma obra densa, árida, técnica, não é anódino. Ele sabe que os leitores leem geralmente a introdução e a conclusão, e que essas passagens podem circular como slogans, como arquivos, como recursos militantes. Essa página cita, aliás, O Manifesto do Partido comunista, que é ainda pouco disponível na época. Essa antimetábole inscreve na língua a própria ideia da reviravolta social.
Uma escrita de combate
Você mostra que Marx é geralmente polemista, adota um estilo às vezes frontal, ou até francamente violento. Você mostra também que em Marx a polêmica, seus “ataques corrosivos”, não são gratuitos. Que função eles têm?
Eles atendem a uma lógica precisa: Marx procura superar o indivíduo para alcançar o tipo, o social, o estrutural.
Em certos contextos particulares, como a Comuna de Paris, ele leva em consideração qualidades individuais: quem será um bom chefe? Encontra-se aí retratos personalizados, como o de Thiers18 ou seus comentários sobre Blanqui19 – ele pensava que, se estivesse presente, ele teria podido manter a insurreição por mais tempo. Mas, no conjunto, o indivíduo é analisado como representativo de um tipo, e esses tipos permitem englobar realidades sociais mais gerais. É um gesto literário, presente de Don Quixote até as personagens de Balzac ou de Molière: passar do individual ao geral para entender o mundo.
Marx utiliza muito as antonomásias: transformar um nome próprio em nome comum, do indivíduo ao geral. Por exemplo, em A Ideologia alemã, Sancho Pança se torna um tipo universal aplicado a Max Stirner.20 Esse método liga o passado literário de Marx a uma função analítica: ele constrói tipos que encarnam estruturas sociais e políticas.
A polêmica tem também um papel muito concreto na vida militante. Podemos citar o panfleto monumental contra Carl Vogt nos anos 1860. Vogt, socialista e cientista, que era também um espião de Napoleão III21 tinha caluniado Marx. Marx junta todos os documentos, desmonta ponto por ponto os escritos de Vogt, utiliza antonomásias e tipos caricaturais da literatura para ridicularizá-lo. No âmbito teórico, o interesse é limitado. Mas, no âmbito militante, é uma defesa procedural da sua reputação. O mesmo habitus procedural se encontra em outros lugares, por exemplo em As Revelações sobre o processo dos comunistas de Colônia ou O Cavaleiro da nobre consciência diante de August Willich22. Nesses textos, Marx defende seus camaradas e expõe a má fé e as manipulações dos seus adversários. É um gesto de militante perante o Estado autoritário: para sobreviver em um contexto repressivo, é preciso reunir provas, montar dossiês, manipular o formalismo, mesmo sabendo que é geralmente em vão. Essa polêmica tem igualmente uma função para a posteridade o para o capital militante: desmontar a reputação do outro permite consolidar a sua, deixar um traço escrito para a história, e marcar a legitimidade de um posicionamento no seio do movimento. Marx pode assim combinar um prazer literário de “desmontagem” com uma estratégia política militante e concreta.
Você insiste no fato que a ironia de Marx é “manifesta”, nunca elitista. Será que você pode explicar essa distinção que você faz?
A ironia é um conceito complexo. É uma noção bem antiga: é possível encontrá-la já na Antiguidade, em Platão, com a ironia socrática. Sócrates diz coisas que dão a impressão que ele está zombando, mas não são necessariamente antífrases – ele não diz o inverso do que pensa, ele o diz de maneira desviada. Da mesma forma, desde a Antiguidade, comentadores refletem sobre a ironia de Cristo. Portanto, estamos lidando com uma noção muito antiga, com estratos sucessivos de sentido.
A isso se acrescenta a ironia romântica alemã, que encontramos notadamente em Goethe, e que Hegel tenta analisar: uma ironia própria à modernidade, ligada à relativização dos valores, ao fato que um sujeito moderno tem consciência da pluralidade dos sistemas de pensamento e que, pode, portanto, colocar todas as certezas à distância.
Se quisermos uma definição mínima, podemos dizer que a ironia consiste, para o enunciador, em colocar uma distância com relação ao que ele diz. Essa distância pode adquirir várias formas: dizer o contrário, falar de um certo modo, retomar falas existentes sem que os outros saibam a que ponto aderimos a elas, ou ainda operar com graus de concordância ambíguos. É, aliás, por isso que a ironia é geralmente suspeita nos meios militantes: reprova-se nela o fato de nunca abolir completamente o primeiro sentido, de deixar pairar uma dúvida sobre a posição real daquele que fala. E como essa distância deve ser interpretada pelo leitor ou pelo auditor, a ironia implica um trabalho de decodificação. Isso pode produzir mal-entendidos, ou até um efeito de exclusão – alguns entendem, outros não – e criar uma forma de incerteza interpretativa permanente.
Ora, Marx não corresponde a esse modelo. O que se observa nele não é uma ironia que dissimula o fundo do pensamento. Marx não procura multiplicar os níveis de sentidos para deixar o leitor em uma suspensão infinita. Não é um escritor que cultiva a ambiguidade ou a proliferação interpretativa. Pelo contrário, sua ironia é ligada à sua atividade de polemista e de propagandista. Ele tem posições filosóficas e políticas bem nítidas, e suas conclusões são sempre legíveis. A ironia lhe serve para zombar do adversário.
No livro, eu o comparo a outras figuras da ironia, notadamente Heinrich Heine,23 que Marx lia. Heine, por sua vez, mantém uma forma de incerteza sobre seus valores e suas posições: nunca se sabe completamente o que ele pensa, e esse embaçado pode ser lido como uma ironia moderna, pós-romântica, fundada na relativização dos valores. Não é de jeito nenhum o caso de Marx. É por isso que eu situo sua ironia, antes, do lado de Voltaire ou de Brecht, do que de Flaubert ou de Heine. Em Voltaire ou Brecht, a ironia permanece orientada, polêmica, dirigida contra alvos precisos. Ao passo que em Flaubert – e mais ainda no que tange a certas formas de humor – podemos ir a uma relativização mais larga, em que os próprios valores são suspendidos, ou até em que o autor se toma ele mesmo o alvo (através da figura de Frédéric Moreau).24 Há todo um espectro entre ironia e humor, com formas bem diferentes, e me perecia interessante situar Marx nessa cartografia.
Fazer falar os outros
Você diz que Marx tem uma escrita “polifônica”. Que significa isso? E qual função política isso tem?
Polifonia quer dizer que há várias vozes. Mas é uma noção bem plástica. Se a tomarmos no sentido estrito, um romance polifônico é, por exemplo, um romance tipo Faulkner, com vários narradores, vários pontos de vista. Se alargarmos, a polifonia é simplesmente o fato de uma obra produzida por um único autor fazer ouvir várias vozes.
A noção adquiriu uma dimensão política notadamente com Bakhtin, que se interessou pelos romances de Dostoievski. Para ele, esses romances são polifônicos porque fazem ouvir várias vozes ideológicas que se confrontam sem que nenhuma domine. Ao lado de Bakhtin, há Volóchinov, grande linguista soviético, que defende a ideia que todo discurso social é atravessado por vozes diversas: nenhum enunciado é puramente individual, toda fala é carregada de social. Essas teorias circularam massivamente nos anos 1960, notadamente na França, onde foram retomadas em contextos bem diversos: estudos literários, linguística, psicanálise lacaniana, marxismo crítico. Havia por trás disso a ideia que o sujeito não é um bloco unificado – quando eu falo, “algo fala” através de mim, ouve-se vários estratos de discursos sociais. E, politicamente, essa noção serviu também para des-dogmatizar certas leituras marxistas da literatura. Em vez de reduzir uma obra a um simples reflexo de estruturas econômicas, podíamos dizer: a esfera estética é atravessada por ideologias, mas ela as põe também à distância, ela as faz dialogar. A polifonia permitia tanto conservar uma grade marxista como evitar um reducionismo demasiado rígido. Com o tempo, a noção se degradou um pouco, às vezes associada a uma espécie de pluralismo democrático mole: literatura como espaço de coexistência pacífica das vozes. Vemos isso por exemplo em certas formas contemporâneas de romance policial bem polifônico, mas politicamente bem centristas (como o mostra o ensaio de Lucie Amir).25
Aplicada a Marx, a polifonia suscita um problema interessante. Primeiro, é preciso lembrar: mesmo que Marx faça falar várias vozes, é sempre ele o maestro. Ele pode pôr em cena burgueses, operários, inspetores, mas, no final, é ele quem enquadra e dirige o confronto. E isso é impactante n’O Capital. Marx cita em abundância: seus adversários, economistas, discursos operários, inspetores de fábrica. Ele faz falar figuras típicas: “o operário”, “o burguês”, personagens abstratas que encarnam posições de classe. Ele raciocina antes em termos de tipos que em termos de indivíduos singulares. Ao mesmo tempo, O Capital é um objeto bem estranho: é uma obra científica, extremamente fundamentada, rigorosa, que adota protocolos de escrita muito modernos para a época; mas é também um livro feito de colagens, de citações, de superposições de vozes. Não é um tratado clássico do século XIX. E, no entanto, tampouco se trata de um texto pós-moderno: a voz teórica principal nunca é dissolvida. Um momento chave para entender essa polifonia é o capítulo 8 do Capital, sobre a jornada de trabalho. Marx descreve nele situações absolutamente horríveis, notadamente a exploração de crianças de seis ou oito anos, seu embrutecimento cognitivo assim como sua destruição física e moral. É um capítulo profundamente carregado moralmente. Ora, Marx, por princípio, não quer dar lição de moral. Ele quer analisar a história como uma confrontação de forças sociais e recusa o melodrama de certos socialistas do seu tempo. Mas, ao mesmo tempo, ele não pode deixar de falar nisso. É o que instiga a ira, a indignação, o engajamento político. Então, como fazer? A solução formal que ele encontra é a delegação da voz moral. Em vez de se indignar diretamente, ele faz falar outras pessoas e em particular inspetores de fábrica, que ocupam uma posição social intermediária. Essas vozes exprimem a indignação no seu lugar. Marx se apaga momentaneamente, integrando essa indignação ao seu dispositivo teórico. É uma polifonia que lhe permite assumir politicamente a emoção sem comprometer a postura científica.
Há outro desafio: fazer falar os operários. Marx é confrontado com um problema: o operário “real” não é espontaneamente marxista. Na França, ele é geralmente proudhoniano, na Inglaterra, cartista, na Alemanha, às vezes milenarista cristão. E mesmo quando ele é revolucionário, sua formulação pode ser julgada por Marx como teoricamente “limitada”. O que fazer, então? Dar diretamente a palavra aos operários, correndo o risco que isso contradiga sua teoria? Ou fabricar uma figura ideal do operário, que exprime a consciência de classe tal como Marx a concebe? Em O Capital, Marx oscila entre essas duas opções: às vezes faz falar um operário abstrato, típico; às vezes cita operários reais, discursos cartistas. E mais tarde, ele tenta outra solução com seu questionário operário (em francês e em inglês) – notadamente estudado por Juliette Farjat26: um dispositivo que dá a palavra aos trabalhadores, mas em um âmbito estruturado pela sua teoria. É, para ele, uma forma de compromisso entre autonomia operária e exigência teórica.
Sobre o assunto de fazer falar os outros, você mesmo utiliza epígrafes (curtas citações) em começo de capítulo?
A base disso foi algo que comecei a fazer um pouco por acaso: eu anotava pequenas citações, pensando “isso cairia bem no livro”. No começo havia três ou quatro, depois eu percebi que esse tipo de citação poderia atravessar o livro inteiro. Isso também coincidia com o momento das minhas leituras. Eu estava em uma fase de poesia chinesa, em paralelo ao meu trabalho sobre Marx. Em algum momento, pensei: olha só, talvez haja algo a fazer com isso. Espero que não pareça demasiado presunçoso, tipo “estou espalhando meu saber” – mas tratava-se, realmente, de algo ligado às minhas áreas de interesse naquele momento.
Lendo Marx, notadamente O Manifesto, há uma passagem muito famosa em que ele explica que o capital estende as relações capitalistas ao mundo inteiro e que é preciso fazer emergir uma literatura mundial. É uma passagem amplamente comentada hoje em dia, sobretudo no meio literário: a noção de literatura mundial ganha cada vez mais amplitude – e isso me interessa muito. Passei, a partir daí, a procurar citações por todos os lados, dizendo a mim mesmo: eu venho dos estudos literários franceses, minha cultura é bem europeia, bem eurocêntrica. E, ao mesmo tempo, eu me perguntava: como pensar o internacionalismo a partir deste ponto de vista? Como fazer coexistir o espírito de cosmopolitismo próprio à literatura – essa abertura ao mundo – com uma reflexão política sobre o internacionalismo? Falo disso também porque havia lido, na Frustration Magazine, um artigo que discutia justamente a maneira de pensar o internacionalismo hoje sem cair em uma forma de campismo simplista. Não acho que os estudos literários possam responder diretamente a essa questão, mas podem contribuir para enriquecê-la.
É uma questão que deveria atravessar mais os estudos literários. Quando fazemos letras, encontramo-nos rapidamente em um âmbito franco-cêntrico, mas, na realidade, mesmo quando fazemos literatura francesa, nunca lemos unicamente literatura francesa. Não estudamos Baudelaire sem nos interessar um pouco por Edgar Poe, não estudamos Claude Simon sem pensar em Faulkner: todos os autores entram em redes de influência internacionais. E, ao mesmo tempo, eu via que nos doutorandos de letras, terminamos geralmente nossa tese sem nunca termos lido uma linha de literatura indiana, chinesa ou árabe – literaturas milenares que ignoramos completamente. Portanto, a ideia das epígrafes era também a de fazer pequenas incursões em literaturas não europeias (não somente, aliás: há também o poeta latino Horácio, por exemplo). A ideia geral era imaginar uma espécie de antologia possível das leituras de um Marx do século XX ou do século XXI: o que poderia ele ter lido? o que poderia ele apreciar?
Há portanto poesia russa (não comunista, aliás), poesia árabe clássica, um eco a uma anedota contada por Marcello Musto,27 em que Marx chega na Argélia e lhe contam uma pequena fábula local sobre um sábio que não sabe nadar. Há o Japão, a China, lugares importantes da elaboração do marxismo no século XX. Através das epígrafes, eu tentei produzir um eco discreto à ideia de literatura mundial em Marx, e abrir o texto para um horizonte mais amplo. Trata-se de uma forma deliberadamente explicitada e alusiva, por vezes um tanto obscura – e também de um certo prazer da escrita.
*** Rob Grams é editor-chefe da Frustration Magazine.
Entrevista realizada em 22 de janeiro de 2026, e publicada em 5 de fevereiro de 2026 no site da plataforma Frustration Magazine com o título “Marx était-il stylé?”. Traduzido por Diogo Santiago.
Agradecemos ao autor e ao editor, Vincent Berthelier e Rob Grams, pela permissão da publicação.
Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).
Notas
- Todas as notas de rodapé são da tradução; quando forem do redator, aparecerão em itálico, com “ndr” no início. ↩︎
- Vincent Berthelier, Le style réactionnaire – De Maurras à Houellebecq, Paris, ed. Amsterdam, 2022, 392 p. ↩︎
- Ugo Palheta (coord.), Extrême droite: la résistible ascension, pref. Johann Chapoutot, posf. Clémence Guetté, Paris, ed. Amsterdam, 2024, 280 p. ↩︎
- École Normale Supérieure, Paris. ↩︎
- Ndr: organização revolucionária do século dezenove, ativa principalmente em Paris e na Alemanha. ↩︎
- Ndr: organização política internacional de trabalhadores do século dezenove, vinda da Liga dos Justos. ↩︎
- Ndr: dinastia que reinou na China entre 960 e 1279. ↩︎
- Jean-Luc Mélenchon, fundador e figura de proa do partido de esquerda La France Insoumise (LFI). ↩︎
- Ndr: poeta francês do fim da Idade Média). ↩︎
- Ndr: poema épico do fim do século onze. ↩︎
- Ndr: poemas da época da dinastia Tang: 618-907. ↩︎
- Ndr: revolução na Rússia que leva os bolcheviques ao poder em 1917. ↩︎
- Ndr: jornalista e político francês, fundador do socialismo marxista na França. ↩︎
- Ndr: um dos jornais mais influentes do século dezenove nos Estados Unidos. ↩︎
- Cf. comutação (n. f.): uso alternado de dois idiomas por pessoa bilíngue. Aulete Digital. ↩︎
- mpossível não pensar na atual querela suscitada pelas publicações de um artigo de Vladimir Safatle, intitulado “O grande FMI universitário”, Revista Piauí, janeiro de 2026, e de um de Douglas Barros, intitulado “Contra Nego Bispo”, blog da Boitempo, 21 de janeiro de 2026 – ambos disponíveis na internet. ↩︎
- Como não pensar naquele que, sem “tomar” o poder no sentido estrito, empossou-se dele após ter sido “democraticamente” eleito no Brasil, em 2018? ↩︎
- Ndr: político francês do século dezenove, presidente da República e responsável pela repressão da Comuna de Paris. ↩︎
- Ndr: revolucionário francês do século dezenove, partidário de uma insurreição imediata para instaurar o socialismo. ↩︎
- Ndr: filósofo alemão que defende o individualismo radical e a liberdade pessoal contra toda autoridade. ↩︎
- Ndr: imperador dos franceses de 1852 a 1870, conhecido por seu regime autoritário. ↩︎
- Ndr: militar e revolucionário alemão do século dezenove, engajado nas revoluções de 1848 e mais tarde general no Exército da União durante a Guerra de Secessão. ↩︎
- Ndr: poeta e escritor alemão do século XIX, famoso por sua ironia, seu lirismo e sua crítica política. ↩︎
- Frédéric Moreau, personagem principal de A Educação sentimental, romance de Gustave Flaubert (1821-1880), publicado em 1869. ↩︎
- Lucie Amir, Politiques du polar, Paris, ed. Amsterdam, 2025, 176 p. ↩︎
- Juliette Farjat, Le Langage de la vie réelle – Pour une philosophie critique des pratiques langagières, Paris, ed. Les Éditions Sociales, 2024, 344 p. ↩︎
- Marcello Musto (1976-), professor de sociologia na York University (Canadá), um dos principais nomes atuais dos estudos sobre Marx. ↩︎
CONHEÇA A COLEÇÃO MARX-ENGELS
Empenhada há três décadas em traduzir as obras de Marx e Engels, com rigor acadêmico e editorial, e sempre a partir dos manuscritos originais, a Boitempo conta hoje com mais de trinta volumes dos dois autores publicados, além de dezenas de livros dedicados ao estudo da teoria marxista. Em 2025, a Coleção Marx-Engels ganhará mais dois volumes: Do socialismo utópico ao socialismo científico, de Friedrich Engels, e o primeiro tomo das Teorias do mais-valor, obra inacabada de Karl Marx que foi por muitos considerada como o Livro IV de O capital.
Enquanto esses lançamentos históricos não chegam, conheça o catálogo de obras já publicadas pela coleção – algumas das nossas edições foram reconhecidas como as melhores do mundo por Gerald Hubmann, ex-diretor da MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe, instituição detentora dos manuscritos dos autores).



O capital [livros I, II e III], de Karl Marx
Em 2011, a Boitempo deu início a uma de suas maiores empreitadas editoriais: a tradução completa de O capital, a principal obra de maturidade de Karl Marx. Em março de 2013, em meio ao projeto MARX: a criação destruidora, um conjunto de eventos que reuniu milhares de pessoas para debater a atualidade de seu pensamento, foi lançado o primeiro livro, O processo de produção do capital. A tradução de Rubens Enderle, vencedora do prêmio Jabuti 2014, foi a primeira realizada no Brasil a partir do texto preparado no âmbito da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA2). Além dos prefácios elaborados por Marx e Engels para as diversas edições da obra e notas, a edição da Boitempo conta ainda com extenso aparato crítico.
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Manuscritos econômico-filosóficos, de Karl Marx
Publicados apenas após sua morte, estes manuscritos foram escritos em 1844, quando Marx tinha apenas 26 anos. Neles, o filósofo alemão desenhou a crítica ética e política ao capitalismo, explorando a desvalorização humana em prol da mercadoria. Embora esboços, revelam a raiz da teoria do mais-valor.
Para a crítica da economia política, de Karl Marx
Publicada em 1859, esta é a primeira tentativa de Marx de publicar de maneira sistemática sua crítica da economia política. Trata-se do único volume que efetivamente veio à luz numa série prevista de seis livros. Oito anos depois, remodelado o projeto inicial, a concepção ganharia corpo na principal obra do autor, O capital, publicada em 1867. Para a crítica delineia os conceitos equivalentes ao que depois comporia a Seção I da obra-prima do filósofo alemão.
Grundrisse, de Karl Marx
Estes manuscritos, em tradução rigorosa feita diretamente dos originais em alemão, revelam a gênese da crítica do pai do socialismo científico à economia política. Escritos entre 1857 e 1858, são uma oportunidade ímpar para compreender, detalhadamente, o laboratório de estudos do renomado teórico.
Resumo de O capital, de Friedrich Engels
Mais de 150 anos após sua publicação, a obra-prima de Karl Marx continua suscitando debates acalorados. Friedrich Engels, o principal parceiro intelectual de Marx, buscou durante muitos anos de sua vida divulgá-la e publicá-la em outras línguas, além de ter sido o principal editor e organizador dos livros 2 e 3. Este livro traz um conjunto de resenhas feitas por Engels logo após o lançamento do primeiro volume de O capital, além de um manuscrito que o resume, uma espécie de guia para entender a obra, publicado pela primeira vez em português.
Manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels
No final de fevereiro de 1848, foi publicado em Londres um pequeno panfleto que acabaria por se tornar o documento político mais importante de todos os tempos. Passado mais de um século e meio, a atualidade e o vigor deste texto continuam reconhecidos por intelectuais das mais diversas correntes de pensamento.
O 18 de brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx
Nesta célebre análise sobre o processo que levou da Revolução de 1848 para o golpe de Estado de 1851 na França, o filósofo alemão desenvolve o estudo do papel da luta de classes como força motriz da história e aprofunda sua teoria do Estado, sobretudo demonstrando que todas as revoluções burguesas apenas aperfeiçoaram a máquina estatal para oprimir as classes. Embasado por essa observação, Marx propõe, pela primeira vez, a tese de que o proletariado não deve assumir o aparato existente, mas desmanchá-lo.
A sagrada família, de Karl Marx e Friedrich Engels
Edição esmerada de um trabalho seminal dos dois pensadores, introduzindo conceitos revolucionários como “consciência de classe” e “ideologia” e fazendo uma crítica mordaz aos intelectuais de sua época. Uma oportunidade para a compreensão das origens do pensamento materialista da história.

A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels
Um clássico da teoria social, este escrito de 1884 apresenta uma análise crítica dos modos de organização da vida social. Levando em consideração as relações entre os sexos para além da biologia, Engels trata da opressão de gênero e do papel do casamento e da autoridade masculina na constituição da sociedade moderna.
A mais inovadora e abrangente antologia de textos de Marx e Engels já chegou!
Mais de cento e quarenta anos após a morte de Karl Marx e cento e vinte da morte de Friedrich Engels, qual a contribuição intelectual desses dois filósofos para o Brasil e para o mundo? Muito se fala hoje, da esquerda à direita, de Marx e Engels, mas o quanto estamos de fato lendo suas obras?
Concebida pela Boitempo, principal editora de Marx e Engels no Brasil, para atingir um público amplo, a antologia O essencial de Marx e Engels propõe um mergulho de fôlego e amplitude sem precedentes nos principais pontos do projeto teórico desses dois autores. A organização, as apresentações de cada volume e as notas explicativas são de Marcello Musto, professor italiano com contribuições decisivas no florescente campo de estudo marxiano contemporâneo. A obra conta também com prefácio de José Paulo Netto e textos de apoio de alguns dos maiores especialistas brasileiros: Marilena Chaui, Jorge Grespan, Leda Paulani, Virgínia Fontes, Lincoln Secco e Alfredo Saad Filho. A edição é de Pedro Davoglio.



O essencial de Marx e Engels reúne os textos mais importantes dos pensadores e revela cartas, manuscritos e rascunhos inéditos ou pouco conhecidos. Os três volumes, separados em escritos filosóficos, econômicos e políticos, contam com 16 partes temáticas e 66 extratos diferentes, incluindo obras publicadas, documentos e alguns escritos inacabados que foram anteriormente negligenciados. A obra revela, entre outras coisas, como estão equivocadas as interpretações que retratam Marx e Engels como pensadores eurocêntricos e economicistas, interessados apenas no conflito entre trabalhadores e capital.
Os volumes seguem uma linha cronológica que vai do início da década de 1840 até a morte de Engels, em 1895. Temas como a filosofia pós-hegeliana, a concepção materialista da história, método de pesquisa, trabalho e alienação, crise econômica, socialismo e muitos outros trazem ao público as ideias mais conhecidas e uma faceta pouco explorada da dupla. Em uma época em que as teorias de Marx e Engels voltam a ser investigadas em escala global, esta obra permite uma nova e mais completa interpretação geral de sua produção intelectual.
Além dos três volumes citados, a caixa contém o livreto Para ler Marx e Engels, com material complementar às obras publicadas no Brasil, como aulas, debates, palestras, itinerários de estudo e indicações de leituras de apoio.

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