W. E. B. Du Bois e o período mais radical da história dos Estados Unidos

Imagem: WikiCommons

Por Angela Davis

A Reconstrução é uma das épocas mais encobertas da história dos Estados Unidos. Foi certamente o período mais radical.

Ocorreu no pós-abolição, com o fim da Guerra Civil. Houve a eleição de negros para altos cargos públicos – foi preciso esperar mais de um século para que isso voltasse a acontecer no país. À frente das legislaturas de diversos estados, aprovaram uma série de leis progressistas.

Houve desenvolvimento econômico e, crucialmente, o desenvolvimento da educação pública. Os estadunidenses ainda não estão cientes de que foram as pessoas escravizadas que levaram a educação pública para o Sul. Que as crianças brancas do Sul nunca teriam tido chance de estudar se não fossem as contínuas campanhas por educação – por uma educação que não fosse mercadoria – levadas a cabo pela população negra. Pois educação equivalia à libertação. Assim se deu a criação das faculdades e universidades que hoje conhecemos como historicamente negras.

Foi uma experiência breve, que durou sobretudo entre 1865 e 1877, quando a Reconstrução radical foi derrubada. Mais que isso: violentamente apagada dos registros históricos. A Ku Klux Klan e a segregação racial nascem nessa época. Não foram produzidas durante a escravidão, e sim nesse refluxo contrarrevolucionário, em uma tentativa de controlar a população negra livre que, de outra forma, teria sido muito mais bem-sucedida em fazer avançar a democracia para todas as pessoas.

Eis a dialética do movimento de libertação negra. Todas as pessoas, do ensino médio à pós‑graduação, deveriam ler Reconstrução negra, de W. E. B. Du Bois. É uma obra que reconfigura a historiografia sobre o período. Du Bois passa a limpo o fato de que a causa da Guerra Civil foi a escravidão; demonstra como a ação política da população negra – tanto a escravizada quanto a livre – foi crucial para a abolição; e argumenta que a Reconstrução foi mais do que uma negação da escravidão. Ao revelar como a abolição desde o início esteve vinculada à superação do capitalismo, este livro prefigurou o conceito de capitalismo racial, tão central nos debates da atualidade.

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Angela Davis é filósofa, professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e ícone da luta pelos direitos civis. Integrou o Partido Comunista dos Estados Unidos, tendo sido candidata a vice-presidente da República em 1980 e 1984. Próxima ao grupo Panteras Negras, foi presa na década de 1970 e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”. Autora de vários livros, sua obra é marcada por um pensamento que visa a romper com as assimetrias sociais. Pela Boitempo, publicou O sentido da liberdade (2022) Construindo movimentos: uma conversa em tempos de pandemia (2020, com Naomi Klein), Uma autobiografia (2019), A liberdade é uma luta constante (2018), Mulheres, cultura e política (2017) e Mulheres, raça e classe (2016).


Reconstrução negra: ensaio para uma história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880, de W. E. B. Du Bois
A obra mais madura de W. E. B. Du Bois ganha sua primeira tradução para o português. Reconstrução negra revisita um momento decisivo da história estadunidense: o pós-abolição e pós-guerra civil nos Estados Unidos – um dos períodos mais radicais da história do país, que não à toa foi sujeito a um violento processo de apagamento.

Du Bois interpreta a Guerra Civil como uma revolução social que derrubou o sistema escravista do Estado confederado, abrindo caminho para uma democracia efetiva a ser construída pelos de baixo. Além de recuperar a riqueza política dessa experiência, o livro trata também da “contrarrevolução dos proprietários” que enterrou esse projeto, lançando as bases para uma nova forma de servidão sob a “ditadura do capital”. “Du Bois explora, em várias dimensões e eventos, como a Reconstrução Negra foi combatida, com armas e crimes de toda sorte, por movimentos e milícias civis de supremacistas brancos a partir dos quais se formaria, entre outros, a Ku Klux Klan”, escrevem Matheus Gato e Sávio Cavalcante na apresentação à edição brasileira.  

“Reconstrução negra é – e provavelmente continuará sendo – um dos melhores livros de história já escritos. É também o ponto culminante da obra de W. E. B. Du Bois e o prenúncio da surpreendente radicalização política de seus últimos anos. Suas mais de 700 páginas encarnam uma maestria de detalhes que só poderia ter sido obra de uma vida inteira.”
— C. L. R. James, autor de Os jacobinos negros





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