A família entre o amor e o ódio: sobre o novo filme de Isild Le Besco
Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes
SEM SPOILERS
Por Cauana Mestre
A família é uma estrutura que tem habilidade para ser, a um só tempo, uma das melhores e uma das piores coisas da vida. Os divãs da psicanálise testemunham o acervo infinito desse material que nos forma e deforma para o mundo. O longa de Isild Le Besco, Minha querida família, expressa com nitidez esse potencial corrosivo e afetuoso do círculo familiar.
Estelle (Élodie Bouchez) tenta escapar de uma relação abusiva e vai para a casa da mãe, Queen (Marisa Berenson), mas não encontra menos agressividade. Os cinco irmãos, todos visitantes da casa materna por alguns dias, se unem e se distanciam repetidamente: brigam e acolhem, amam e odeiam, acusam e defendem… nunca sabemos, ao longo do filme, de onde virá a próxima manifestação de amor ou de ódio. Um perfeito “morde e assopra”, como diz nossa expressão popular.

Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes
Freud ensinou que nossa relação com o objeto de amor é marcada, desde os primórdios, pelo par amor-ódio. Lacan nos oferece, muito mais tarde, o neologismo amódio, que concentra essa ambivalência afetiva em uma única palavra. Chamo de ambivalência e não de paradoxo, pois o que interessou Freud é exatamente essa não contrariedade entre o ódio e o amor, pois ambos são feitos da mesma matéria: libido. Quando odiamos alguém, investimos nesse outro uma intensidade libidinal muito parecida à que investimos quando amamos profundamente. Amar e odiar são decisões inconscientes, incontroláveis, mas muito poderosas; e o encontro entre esses dois afetos é infinito, o que torna impossível qualquer rigidez subjetiva. Não se pode sentir uma coisa só – e resistir a isso é negar a matéria humana.
Como eu gosto muito de comparar a relação que temos com nossa família com aquela relação singular que carregamos com a língua – aprendizado que recolhi de Elena Ferrante –, fiquei feliz ao constatar que, no filme de Le Besco, a pluralidade afetiva é acompanhada por uma mistura de idiomas. A mãe, Queen, quase só fala inglês, enquanto os filhos se dividem entre o inglês e o francês. Para Estelle, há ainda uma terceira língua, o italiano, que ela partilha com o marido. A confusão do filme é magnífica e desemboca em uma pergunta que, em algum momento, aparecerá para cada um de nós e que transborda nas sessões de análise: Qual, afinal, é a língua materna? Qual é a língua e a linguagem dessa mulher que habita o corpo de minha mãe? Quem é ela, o que deseja? Sobretudo, o que deseja de mim?
Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes
Os filhos da Rainha seguem orbitando esse Sol chamado Mãe, uma força vitimista e poderosa que se sustenta no sofrimento de um luto indelével. A dor da perda, quando não é contornada pelo trabalho de luto, pode se tornar uma espécie de recurso para habitar o mundo. Queen é a mãe que sofre, impossível de abandonar. Uma mãe que, pela fragilidade, é maior que o mundo.
Minha querida família é um ensaio sobre o amódio familiar e sua infinitude simbólica. Todos nós estamos ali, no caos de uma família que se ama e se odeia por ser íntima e estranha; por guardar, em si mesma, o doméstico e o estrangeiro, o profundamente familiar e o infamiliar, na mesma medida.
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Cauana Mestre é psicanalista e mestre em Literatura pela UFPR. Junto a Licene Garcia, apresenta o podcast Sobre um dizer.
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