O que tem de bolsonarismo no imbróglio do Banco Master?

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Por Felipe Brito
O alcance do Banco Master pelos mais diversos escaninhos da arquitetura institucional vigente no Brasil impressiona. O propósito deste texto não é montar um inventário acerca desse alcance, a partir da catalogação de denúncias. Algumas e alguns jornalistas (especialmente da chamada mídia independente ou progressista) já se debruçam sobre essa tarefa, em meio aos atravessamentos das contendas pré-eleitorais. Fornecendo continuidade às pesquisas acerca do campo da extrema direita no Brasil atual, meu propósito é analisar, de modo sucinto, o que tem de bolsonarismo no imbróglio do Banco Master, posicionando o foco na confluência (radical) de gramática econômica e de revestimentos políticos entre o mercado financeiro e o bolsonarismo — o adjetivo “radical”, aqui, não resulta de uma opção aleatória, mas diz respeito a uma avaliação acerca do enraizamento de laços. O imbróglio do Banco Master está encharcado de Faria Lima. Ato contínuo, tanto a Faria Lima quanto o imbróglio do Banco Master estão encharcados de bolsonarismo. De maneira singela, pretendo dialogar sobre isso com leitores e leitoras.
Tomando como base o modus operandi dominante do mercado financeiro, considero plausível a avaliação de que esse imbróglio não é propriamente casuístico e anômalo (embora possa carregar algumas extravagâncias). Ao contrário, veicula um retrato fidedigno da hipertrofia financeiro-rentista-especulativa do capitalismo atual, anabolizada por uma teia intrincada de dispositivos de obtenção de renda atrelados à propriedade de ativos financeiros mobiliários (como ações de empresas de capital aberto nas bolsas de valores, cotas de fundos de investimento, debêntures, derivativos, moedas negociadas em mercados futuros, títulos de dívidas públicas, dentre outros); ativos imobiliários (como terras, terrenos, prédios, dentre outros); patentes etc. Aliás, o capital industrial também se mantém atrelado à financeirização, de modo que os fluxos econômicos circulantes pelo mundo passam a ter, majoritariamente, proveniência financeira, especulativa e rentista. Uma significativa base histórico-econômica da aludida financeirização reside na superacumulação de capital na forma monetária que, por seu turno, compõe um processo mais amplo de superacumulação/superprodução de mercadorias, capital, dinheiro, meios produtivos, meios destrutivos etc. A superprodução/superacumulação generalizada constitui o miolo da crise econômica capitalista que, ao engendrar um aumento vertiginoso da capacidade produtiva ociosa, ejetando massas de trabalhadores dos circuitos formais de trabalho, impacta, diretamente, no imperativo de acumulação de capital. Isso, por sua vez, implica em queda tendencial média da taxa de lucros. Um dos recursos de “enfrentamento” ou “compensação” (que, todavia, agregou e agrega material na superprodução/superacumulação generalizada) se concentrou na hipertrofia do universo financeiro-rentista-especulativo, cujo substrato, na verdade, é formado por dispositivos de espoliações, expropriações, pilhagens de fundo público, ativos públicos, recursos naturais e socioculturais, sobretudo na periferia do sistema capitalista, no escopo do que David Harvey designou como “acumulação por despossessão ou desapropriação”1.
Com efeito, os tentáculos funcionais, institucionais e culturais da Faria Lima estão presentes na montagem do maquinário de multiplicação (compulsiva) de dinheiro em mais dinheiro, em grande medida sem lastro, do Banco Master. Composto por um emaranhado de fintechs, fundos de investimento, gestoras de fundos de investimento, ativos mobiliários etc., esse maquinário funciona no embaralhamento das fronteiras entre licitude e ilicitude (que, por sua vez, remete ao amálgama de fontes lícitas e ilícitas de liquidez). “Duas faces da mesma moeda” são observáveis — já que estamos diante do universo do mercado financeiro, é pertinente a metáfora.
Em uma face, para ficar em um único exemplo, está a Reag, uma gestora de fundos de investimento investigados por ligações com o PCC (como o Hans 95, o Astralo 95 e o Hans 41). Objeto de liquidação extrajudicial implementada pela atual gestão do Banco Central, a própria Reag constitui-se como um emaranhado de fios financeiro-rentista-especulativos em uma miscelânea de legalidades e ilegalidades, o que pode ser divisado, a título ilustrativo, em um esquema de inflacionamento patrimonial fraudulento (sob o escrutínio de investigações), que envolveu unidades de créditos de carbono referentes a uma fazenda grilada na região da Floresta Amazônica, do tamanho aproximado da cidade de São Paulo.
Na outra face da mesma moeda, as maiores empresas de consultoria do mundo aprovaram os balanços financeiros do Banco Master, e uma das principais agências de rating chegou a classificar o banco com nota A para investimento. Ao mesmo tempo plataformas de investimentos renomadas e aclamadas no país, como XP e BTG Pactual, comercializaram os extravagantes Certificados de Créditos Bancários (CDBs) com o percentual (discrepante) de 140% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), vinculados, “na cara dura”, ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como garantia. Cabe ressaltar que o FGC é formado, a rigor, com dinheiro dos próprios consumidores de mercadorias e serviços bancários, e não possui como função “oficial” exacerbar jogatinas especulativas e bolhas financeiras. O Banco Central, sob comando do ex-presidente farialimer e bolsonarista, deixou a coisa “rolar solta”, conferindo ares de “normalidade” e “normatividade”.
Acompanhar alguns dos fios do emaranhado caso Master pode fornecer insumos empíricos funcionais ao propósito de se averiguar o quanto de bolsonarismo se encontra alojado tanto no imbróglio do Banco Master quanto na própria dinâmica inerente à Faria Lima. Nessa direção, cabe destacar que não parece ser aleatório o fato da maior doação da campanha do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas e uma das maiores da campanha presidencial de Bolsonaro advirem de um dos principais operadores financeiros do maquinário financeiro-rentista-especulativo do banco, cunhado do acionista majoritário e presidente. A Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), privatizada, efetuou compras milionárias dos famigerados CDBs do Banco Master. A compra da EMAE foi efetuada por uma empresa de capital aberto na Bolsa de Valores chamada Ambipar, por intermédio de recursos provenientes da emissão de debêntures lastreados nas ações. Estão em curso investigações sobre suspeitas de esquemas coordenados, envolvendo uma mobilização do cipoal intrincado de dispositivos financeiros do Banco Master, direcionada a provocar um vultoso inflacionamento do preço das ações da Ambipar (no patamar de 863%) para favorecer a compra da EMAE2. Cabe, também, elencar movimentações no âmbito de dois governos estaduais que gravitam em torno da órbita bolsonarista (um deles, inclusive, diretamente envolvido na “balbúrdia” golpista do 8 de janeiro de 2023) — movimentações que compuseram e abasteceram as engrenagens financeiro-especulativo-rentistas do Banco Master, bombeando fundo público. No âmbito do governo do estado do Rio de Janeiro, o Rioprevidência (Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro), que tem o estatuto de autarquia, foi mobilizado para adquirir 970 milhões de reais em títulos de renda fixa. Na alçada do governo do Distrito Federal, o banco público distrital (BRB – Banco de Brasília) foi direcionado à compra de 58% do capital do Banco Master, em um contexto no qual a situação já estava tão escancarada a ponto de o BTG Pactual lavrar uma oferta figurativa de R$ 1,00 pelo banco (isso mesmo: um real). O BRB amargou, ainda, prejuízos milionários em decorrência da aquisição de vários lotes de títulos podres3. Essas movimentações do Rioprevidência e do BRB também estão sob o escrutínio de investigações.
Para os objetivos deste artigo, é interessante prolongar o diálogo com leitores e leitoras sobre as ligações entre financeirização e dispositivos de espoliação/expropriação no Brasil atual, enfocando um setor estratégico para o Produto Interno Bruto do país. No contexto de fermentação do impeachment fraudulento de 2016 (evento crucial para a ascensão do bolsonarismo) e ao longo dos governos Temer e Bolsonaro, a Petrobras foi convertida em veículo de maximização imediatista de renda para acionistas minoritários, por meio do pagamento de dividendos; e polo exportador de óleo cru para ser refinado no exterior (especialmente nos EUA). Os mesmos setores financeirizados do capital que se locupletaram com o maquinário de multiplicação de dinheiro em mais dinheiro do Banco Master, cientes de estarem operando em meio a uma nebulosa bolha financeira, propugnaram, bancaram e atuaram para a aludida reconfiguração da empresa no contexto supracitado. Em 2021, o pagamento de dividendos já havia batido recorde. Em 2022, a quantia triplicou, atingindo 217 bilhões reais. Esse projeto espoliador/expropriador baseou-se no desmembramento da empresa para o objetivo de alienação, a preços módicos, de seus ativos: além das próprias reservas de petróleo e gás, refinarias, polos petroquímicos, empresas subsidiárias, redes de dutos etc. Esse desmembramento/alienação seguiu os rastros de devastação da cadeia de petróleo e gás perpetrados pela Lava Jato. Um dos dispositivos principais dessa máquina de distribuição de dividendos foi a tal PPI (Política de Preços de Paridade de Importação), assentada na dolarização e no atrelamento à cotação internacional de preços do barril de petróleo, atravessada por fatores geopolíticos, pelo acento especulativo dos mercados futuros do petróleo, pelas variações do preço do dólar (que também é perpassado por fatores geopolíticos e por um forte movimento especulativo no mercado futuro do dólar).
Ainda no início deste texto, pontuei o papel do Banco Central, sob o comando de um ex-presidente farialimer e bolsonarista, na eclosão da barafunda do Banco Master. Dando prosseguimento a essa linha expositiva, é importante sublinhar a questão. O furor desregulamentador e a omissão (ativa) do Banco Central naquele momento implicaram no recrudescimento do caráter compulsivo e abstrato da finalidade capitalista de acumulação monetária e no esmaecimento das fronteiras entre a licitude e a ilicitude. Tal furor, cabe demarcar, é da mesma matéria que inundou outros Ministérios e setores do Poder Executivo Federal durante o mandato bolsonarista. Analisada sob uma perspectiva de totalidade da tecnologia bolsonarista de governança, a “desregulamentação” não tem um estatuto meramente técnico. Pode ser enxergada como um componente do móvel e do método de devastação, prototípicos de uma tecnologia de governança modulada em torno da espoliação/expropriação de fundo público, ativos públicos, recursos naturais e socioculturais, atualizadas nas coordenadas da “acumulação por despossessão ou espoliação”. Na área ambiental, encontramos um nítido exemplo da envergadura do desmanche de marcos regulatórios e aparatos fiscalizadores. No período de 1 ano, foram 721 “tratoradas”4, garantindo que se realizasse a paradigmática conclamação do então Ministro do Meio Ambiente de “ir passando a boiada, mudando todo o regramento e simplificando normas”. Muito mais do que uma irascível peça narrativa, tratou-se da proclamação de uma tecnologia de governança que agenciou ao móvel/método da devastação conturbações/pressões dirigidas a um amplo leque de instituições do regime político vigente que, não raro, inclusive, se desdobraram em invectivas e atos diretamente golpistas. Os canais paralelos ao Itamaraty de atuação na política externa, a ABIN paralela, o gabinete negacionista da Saúde, o gabinete do ódio (propagador das fake news), dentre outros, foram produtos desse agenciamento.
À guisa de uma conclusão (ainda em construção), como já se disse, no maquinário de multiplicação (compulsiva) de dinheiro em mais dinheiro (em grande medida, sem lastro) do Banco Master há fraudes, ilegalidades sob o escrutínio de investigações. Entretanto, o funcionamento do emaranhado de fintechs, fundos de investimentos, gestoras de fundos de investimentos e ativos mobiliários que compõem esse maquinário ocorre no entrelaçamento das fronteiras da licitude e da ilicitude, abastecido pelo amálgama de fontes lícitas e ilícitas de liquidez, em um contexto no qual a imensa maioria dos fluxos econômicos globais tem proveniência financeira, especulativa e rentista. O imbróglio do Banco Master está encharcado de Faria Lima e tanto a Faria Lima quanto o imbróglio do Banco Master estão encharcados de bolsonarismo. Há uma confluência de coordenadas econômicas e políticas entre o campo da extrema direita e o mercado financeiro nas suas linhas prevalecentes, assentada em um enraizamento de laços pela financeirização, cujo âmago gravita em torno da espoliação/expropriação de fundo público, ativos públicos, recursos naturais e socioculturais. Esse circuito de enraizamentos de laços, de confluências e convergências é atravessado por um caráter (estrutural) de desimplicações/descomprometimentos sociais abrangentes, embolados, no âmbito da formação sócio-histórica brasileira, com as raízes coloniais, escravocratas, latifundiárias e com os resíduos de uma modernização concentradora de renda e riqueza, truculenta, eivada de golpes e “soluções” (oligárquicas) “pelo alto”, infensa à participação popular. A tecnologia de governança bolsonarista, moldada nas balizas da “acumulação por despossessão ou espoliação”, na esteira das trilhas (re)abertas pelo extremismo neoliberal no contexto do golpe de 2016, recrudesce, catalisa, mas, além disso, milita pelas espoliações/expropriações e pelo rechaçamento a qualquer iniciativa de (re)atualização de um projeto de desenvolvimento nacional (no que for possível, diante da fronteira tecnocientífica), especialmente se pautada pelas metas de distribuição direta de renda/riqueza e participação popular. O correlato disso é o recrudescimento, a catalisação e a naturalização do caráter (estrutural) de desimplicações/descomprometimentos sociais abrangentes. Na associação complexa de fatores objetivos e subjetivos, muitas pessoas comuns no Brasil atual vivenciam a sociedade como “selvageria do cada um por si e todos contra todos”, entrincheiradas em um hiperindividualismo (defensivo). O bolsonarismo fornece “manuais de sobrevivência” para essas pessoas.
Notas
- Harvey, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004. ↩︎
- Kobori, José, O Banco Master e as privatizações de Tarcísio de Freitas em São Paulo. Youtube, 3 de dezembro de 2025. Disponível aqui. Acesso em: 13 de fevereiro de 2026. ↩︎
- Barrocal, André. Mão amiga: o governador Ibaneis Rocha é figura central na investigação sobre o Banco Master. Carta Capital, p. 10-15, 4 de fevereiro de 2026. ↩︎
- Gussen, Ana Flávia. Com Salles, governo assinou em um ano 721 medidas que impactam o meio ambiente. 2 de maio de 2021. Disponível aqui. Acesso em: 13 de fevereiro de 2026. ↩︎
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Felipe Brito é docente do curso de Serviço Social da UFF (Universidade Federal Fluminense) no Campus de Rio das Ostras. Pela Boitempo, organizou, com Pedro Rocha de Oliveira, o livro Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social (2013). Autor do artigo “Territórios Transversais” (em conjunto com Pedro Rocha de Oliveira), que integra o livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.
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Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico, de Leda Paulani
A autora desenvolve sua argumentação e crítica ao que entende, em linhas gerais, como a transformação do país em uma plataforma de valorização financeira internacional. Para Leda Paulani, o abandono de perspectivas de desenvolvimento e soberania determinou a entrega do Brasil a interesses alheios à maioria da população. É esse o mote do Título do livro: um Brasil para entrega, o Brasil Delivery.
A ordem do capital, de Clara E. Mattei
Estudo profundo e interdisciplinar sobre a relação entre austeridade e ascensão do fascismo. Um novo olhar sobre a história da austeridade, intrinsecamente conectada com a economia moderna e com o poder político contemporâneo.
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