“Manas”: documento de barbárie da normalidade patriarcal

Foto: Divulgação.
Por Diogo Dias
⚠️ ATENÇÃO, SPOILERS NA PISTA! ⚠️
Em uma entrevista sobre o seu primeiro longa de ficção, Manas (2024), Mariana Brennand conta que não sabia da ocorrência de casos de exploração sexual infantil nas balsas da região da Ilha do Marajó até a célebre cantora paraense Fafá de Belém lhe contar sobre esse terrível problema local. Sua primeira ideia era retratar a situação por meio do cinema documental, mas ela logo percebeu uma barreira ética nessa intenção: as personagens mais importantes, as vítimas, não poderiam ser expostas ou convidadas a revisitar suas histórias traumáticas, mesmo sob o mais nobre pretexto. É então que a documentarista decide seguir o caminho da ficcionalização dos relatos que colheu em longa pesquisa, conduzida com sua equipe, a partir da experiência de agentes públicos e da população ribeirinha da região do Marajó.
A decisão ética é acompanhada da escolha estética por uma direção que segue as personagens em seus gestos mais rotineiros para que o público compreenda a dinâmica de uma família ribeirinha a partir do olhar das crianças. Os planos rentes ao chão, fechados nas mãos que brincam, os contra-plongées nada monumentais que observam os movimentos dos adultos criam uma empatia providencial com o ponto de vista idílico da infância, que ainda não compreende a complexidade do mundo ao seu redor. Apesar do plano de fundo ser a difícil condição material de uma família naquele território, ficamos no primeiro ato com a ternura da protagonista Marcielle (Jamilli Correia) e seus 13 anos. Apesar de algumas críticas terem classificado o filme no gênero do amadurecimento (ou como se diz no anglicismo, coming of age), a história de Marcielle não apresenta uma tomada de consciência gradativa e integrada aos problemas comuns da vida adulta. Para ela, o fim da infância se dá pela via do choque traumático.

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Por isso, uma dura virada narrativa é guiada por uma hábil conjunção entre forma e conteúdo. A câmera na mão é quase parte da família, como uma observadora participante, uma documentarista, e nos dá acesso à superfície das relações naquela pequena palafita. Uma observação distanciada a partir da proximidade. As tarefas de casa, as conversas cifradas sobre a ausência da primogênita, a rotina do ganha-pão, a alimentação, a organização na hora de dormir. Tudo isso é registrado. Após nossa inserção na dinâmica familiar, uma certa desconfiança se estabelece diante da figura de Marcílio (Rômulo Braga), o patriarca. O silêncio profundo de Danielle (Fátima Macedo), a mãe, é em si um alerta e estabelece a linguagem do olhar como um código feminino que cortará todo o filme.
Em uma sequência sufocante e brilhantemente dirigida, a caça, atividade essencial para a sobrevivência da família, é inserida como simbologia que retira de Tiele (apelido afetuoso de Marcielle) e de nós (público com juízo ainda suspenso pelos sutis sinais lançados anteriormente) a inocência diante daquele mundo. Pai e predador, filha e paca. A armadilha transforma a menina em outra coisa. Depois daquela caçada, ela já não tem mais o direito de ser criança. Algo morreu, mas a vítima continua viva.

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Em uma sequência sufocante e brilhantemente dirigida, a caça, atividade essencial para a sobrevivência da família, é inserida como simbologia que retira de Tiele (apelido afetuoso de Marcielle) e de nós (público com juízo ainda suspenso pelos sutis sinais lançados anteriormente) a inocência diante daquele mundo. Pai e predador, filha e paca. A armadilha transforma a menina em outra coisa. Depois daquela caçada, ela já não tem mais o direito de ser criança. Algo morreu, mas a vítima continua viva.
Com uma construção exemplar, a diretora retrata essa morte-sobrevivência em uma elipse que vai do gozo perverso do caçador explodindo ao disparo da arma de fogo para um renascimento sufocante de Tiele nas águas do rio que os alimenta, em um resultado tão ou mais chocante quanto qualquer exposição explícita de violência. O efeito da sugestão talvez seja maior, pois nos obriga a completar as lacunas do não visto com a conclusão devastadora do que já desconfiávamos.
O abuso intrafamiliar é colocado na mesa e, a partir de então, o filme assume uma atmosfera asfixiante, pois assim como a jovem protagonista percebemos gradativamente que todas as pessoas ao redor não apenas sabem o que acontece como já estão resignadas diante da rotina perversa de violência contra as meninas e mulheres. “Não é só com você que acontece isso. Daqui a pouco você cresce e vai embora daqui, como sua irmã”, diz Jaci (Ingrid Trigueiro) quando Tiele lhe conta que seu pai a levou para caçar. Irmã que lhe diziam ter ido buscar uma vida melhor na cidade, mas que ela descobre ter sido vítima do mesmo abuso. Ali todos falam em códigos, se sustentam silêncios, os olhares transbordam medo, angústia e tristeza. Agora Tiele vê. E o público lê as expressões em close-ups arrebatadores.

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A raiva se manifesta no olhar e na feição de Tiele que se revolta a cada figura descoberta em seu quebra-cabeça do real. Sua irmã não foi “tentar uma vida melhor”, ela fugiu. Sua mãe carrega o peso do abuso de si e de todas as suas filhas sem ter forças para imaginar uma saída. As mulheres sobreviventes tentam resistir psicologicamente ao sequestro e violação dos seus corpos, enquanto tentam construir formas de conseguir o mínimo dinheiro para sobreviver.
As teias que prendem essas mulheres e meninas são tão complexas que em um primeiro momento a sensação é de que nada pode ser feito. Porém, o filme de Brennand nos convida a pensar profundamente no problema. Na comunidade retratada no filme há uma questão geográfica importante. Casas, escola, igreja e uma venda formam o círculo social da história. O Estado (a polícia civil) e o mercado (a balsa cargueira) são aparecimentos intermitentes, vão e voltam, mas suas presenças constituem aquela vivência através de algum controle social e da troca de mercadorias. A população local, no entanto, ocupa a função de extrativistas das riquezas naturais da região, mas está às margens do sistema como cidadãos, pois não estão inseridos plenamente como consumidores. Na precariedade institucional, a lei dominante daquele lugar é a do poder patriarcal arcaico, que em última instância decide sobre a vida e morte de todo o núcleo familiar. Por isso, a lei moral é a da “honra” do patriarca. A prostituição adulta e infantil é tolerada desde que não ultrapasse os limites de propriedade do homem de família. Inclusive, ela é mais uma entre as trocas econômicas da ilha. Moral também baseada na onipresente fé, que tem o papel ambíguo de ser aporte espiritual das vítimas e suporte encobridor dos algozes. “Sou um homem de Deus”, diz Marcílio ao ser confrontado pela delegada Aretha (Dira Paes).
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A única força regulatória é o dinheiro — ou sua falta — que impõe a dependência financeira como moeda de troca. Ou submeter-se à barbárie ou morrer vítima da violência ou de fome. Os pressupostos da manutenção de um poder patriarcal têm bases materiais, mas também culturais, em nível antropológico. Há um pacto de silêncio que não permite que as mulheres possam nomear violências. A valoração do papel das mulheres como inferiores e submissas é uma construção subjetiva profunda que, nos casos mais graves, leva à completa desumanização e à eliminação desse Outro do masculino, como já demonstrou Simone de Beauvoir.
O desarme dessa armadilha é uma complexa operação social. Em reação aos recentes casos de feminicídio e violência de gênero que tiveram grande repercussão no fim de 2025, os movimentos feministas ativaram em suas redes a pauta urgente do enfrentamento dessa violência. As palavras de ordem foram desde o chamado à consciência aos homens em geral até pedidos pela criminalização da misoginia, passando por apelos por recrudescimento penal, demandas por investimentos públicos, reconhecimento social do problema, entre outras tantas propostas.
Manas, por meio da representação de uma situação concreta específica na região da ilha do Marajó, é lúcido ao colocar na tela o problema, porém, não de modo a resolvê-lo por uma catarse leviana. Apesar do desfecho que se vale de algum efeito catártico, o incômodo permanece, pois pelo olhar cortante das duas irmãs sabemos que as consequências psicológicas, materiais, jurídicas e sociais da reação de Tiele ficam e reverberam para fora da tela no tocante plano final. Aquelas personagens ficcionais nos atingem com intensidade no nosso real.
O longa de Mariana Brennand alia com propriedade e sensibilidade a denúncia e a apresentação dos imbricamentos da questão trabalhada no filme. Como em uma cirurgia de alta complexidade, é preciso decidir sobre a intervenção de modo que a mazela seja atacada sem prejudicar além da conta a integridade do organismo, que precisa voltar mais forte para encarar a vida. Ainda que as cicatrizes o marquem definitivamente.
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Diogo Dias é doutorando de filosofia na Unifesp, onde estuda teoria crítica do cinema no Brasil
PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO

Lacrimae Rerum, de Slavoj Žižek
Coletânea de ensaios que explora o cinema contemporâneo, revelando conexões entre cineastas renomados e a psicanálise. Seus comentários lúdicos e imersão no universo das telas oferecem uma perspectiva única e cativante sobre o cinema, destacando a influência das narrativas na percepção da realidade.
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