Contra Nego Bispo

Imagem: Murilo Alvesso (via Itaú Cultural)
Por Douglas Barros
Inconscientemente alemão
Se a história nada nos ensina, pelo menos serve para mostrar que toda transformação de ordem estrutural traz consigo algo que rapidamente se torna, nos meios eruditos – ou nem tanto –, popular: a negação da realidade e, com ela, a negação da racionalidade. Exemplos históricos no assim chamado Ocidente não faltam: com a queda do Império Romano, a fuga para a religião possibilitou a emergência do poder da Igreja; com a Revolução Francesa, a reação romântica, construindo castelos nas nuvens, impôs a fuga para as montanhas.
Claro, é preciso separar os alhos dos bugalhos. A tradição romântica – sobretudo a alemã – tinha elementos progressistas e, mais que isso, do ponto de vista estético, tornou-se uma das mais espetaculares experiências artísticas. Na interessante contradição que animava o espírito romântico, jamais, porém, podemos esquecer sua tendência ao nacionalismo, que deu corpo a experiências antissemitas. Certamente havia um embate fundamental entre aqueles que queriam escolher o árduo caminho de tentar viver uma vida verdadeira – não reduzida ao império da burguesia – e aqueles que negavam a realidade para respirar o ar das alturas imaginárias de seu desejo.
Se alguns românticos queriam poetizar a própria vida, negando os princípios pequeno-burgueses, outros buscavam alcançar a harmonia e a homogeneidade de uma vida autêntica em sua própria alma. Parte dessa tendência aderiu a uma vida, ao mesmo tempo, conformada e evasiva. Esses românticos erguiam belos castelos nas nuvens e, como pequeno-burgueses – seria hoje a classe média branca ilustrada? – tomavam uma atitude passiva diante da realidade. Para eles, diferentemente de Belchior, sonhar é melhor do que viver.
Foram esses românticos – dentre os quais destaco Novalis – que organizaram um arcaico sonho na busca pela era perdida: uma nostalgia que procura no passado a grande realização de suas aspirações. Fala-se em ascendência – beleza do arcaísmo alemão e de sua ancestralidade: o homem perdido nas brumas do tempo que é preciso resgatar –, uma pureza das raízes que reconduziria à grandeza da coletividade homogênea e sagrada da língua, do território (geografia) e da fé (religiosidade pagã).
Além disso, é claro, se coloca em perspectiva os supostos crimes da razão: ela não importa diante dos sentimentos – hoje chamaríamos de afetos? A pseudorradicalidade dessa tendência de pensamento, que ressurgiu hoje, no século XXI, deixa de lado o mundo concreto, a necessidade da análise concreta, para erguer um mundo imaginário novo, radicalmente homogêneo e ultraidentitário, de acordo com a vontade do proponente – que imaginariamente buscará legitimidade numa tradição imaginária e mítica.
Ora, caro Watson, tudo isso deve ressoar familiar, afinal, o discurso da busca pelas raízes se espalhou no mundo globalizado – tudo um museu de grandes novidades, e lugar em que a extrema direita nada de braçadas. A novidade do século XXI, porém, é que grandes frações da esquerda – que, por motivos políticos e/ou ideológicos, abandonaram a reflexão crítica – reatualizaram, a seu modo “progressista”, uma gramática reacionária maldisfarçada de radical.
Os motivos para isso são múltiplos e interessantes:
- vivemos ainda na ressaca das ruínas da URSS, o que acaba equivalendo a experiência socialista à burocracia estatal;
- as revoluções permanentes no interior do capitalismo organizaram um poderoso arcabouço de dominação simbólica e imaginária, que acabou capturando a própria imaginação política;
- as transformações na sociabilidade, guiadas pela revolução informacional e pela dominação integral do tempo de vida – tornado agora tempo de trabalho –, também consolidaram um radical espírito antirracional, auxiliado até mesmo pelas universidades.
É esse Zeitgeist (espírito do tempo) que cria as condições para que a negação da verdade como relação objetiva e reflexiva se projete e se perverta na ideia da privatização da verdade em nome do subjetivismo. A verdade torna-se algo íntimo, ligada à apreensão de uma experiência identitária de mundo: uma pequena verdade de grupo orientada pela noção de vivência territorial. Os afetos passam a deter maior importância do que a possibilidade de reflexão sobre eles e o corpo torna-se mais importante que a alma.
É curioso, à primeira vista, comparar autores alemães do século XIX com um quilombola negro do Brasil; tal aproximação parece complicada. Ela soaria, de fato, incongruente se os fins a que aspiram não surgissem de um trauma em comum: a crise da sociabilidade que conduz à desconfiança em relação à razão, organizando respostas mítico-religiosas para impasses da realidade concreta.
O caso Nego Bispo
É difícil não nutrir simpatia por Nego Bispo. Seu carisma envolvente, fruto de sua relação umbilical com as lutas populares – sindicais e quilombolas –, cativava progressistas “urbanos”, como ele mesmo os chamava, oriundos da classe média branca e afastados do dia a dia popular. Figura conhecida nos meios progressistas desde os anos 1990, Antônio Bispo dos Santos (1959-2023) foi também uma liderança sindical no Piauí, ligado à corrente petista Tendência Movimento. Nela, exerceu relevância nos debates internos, em uma época em que falar em luta de classes não lhe representava um problema.
Desde então, ao encampar o debate antirracista, ele passa a desvinculá-lo cada vez mais da questão de classe e, aos poucos, abandona a análise do capital para se centrar na categoria colonialismo. Essa operação não deixará de produzir profundos impactos em sua maneira de se apropriar de “conceitos”, reorientando paulatinamente sua “crítica” para uma espécie de determinismo cultural. Afinal, não se separa o colonialismo de sua base material de produção impunemente.
Essa cisão no “pensamento” de Bispo – a separação do colonialismo de sua base material de produção – leva-o à recusa da análise material para aderir a uma noção de epistemologia como produtora de mundos. Trata-se da clássica inversão idealista: é a teoria do conhecimento que produziria o mundo material, e não o contrário.
Ao fazer essa escolha – sabe-se lá o que o conduziu a ela, provavelmente a desilusão com o movimento sindical e, sobretudo, com o PT –, Bispo afasta-se cada vez mais de uma crítica embasada na realidade material para adequar-se a uma noção cujos limites são ideológicos, no sentido pobre de ideologia – entendida como uma Weltanschauung ou, como seus seguidores preferem, uma cosmovisão.
É essa virada em direção à vaga noção de que o mundo é resultado de cosmovisões – quase alheias à reprodução social – que o leva a afirmar que “daqui para frente cada vez mais vai se discutir cosmologia, diversidade, politeísmo e cada vez mais as relações vão ser outras”1. E ele não se enganou completamente: cada vez mais esse assunto se torna central na grande mídia e na academia. Dificilmente se pode afirmar, porém, que isso tenha alterado algo das relações, haja vista o momento histórico atual, no qual o capitalismo já não se envergonha de mostrar seu rosto desumano.
É claro que Nego Bispo se importava com isso, mas sua escolha para combatê-lo se define por uma luta contra as “denominações” colonialistas, e não contra o sistema que as faz operar. É dessa maneira que ele estrutura um discurso cuja centralidade repousa na noção de cosmovisão como resposta às urgências das lutas sociais e, sobretudo, antirracistas.
Vou me orientar aqui na crítica a três linhas que organizam e dão contornos a seu discurso:
- a ideia de uma luta a-histórica entre cosmologias;
- a homogeneização da experiência colonial, que hipostasia o conceito de raça e
- a sustentação mítico-religiosa de sua “oralidade”.
Não se trata aqui de negar a complexidade do pensamento de Bispo, mas de identificar o eixo dominante que organiza suas formulações mais influentes e cujo impacto político é problemático. De aparência transgressora e anticapitalista, a análise crítica do “pensamento” de Nego Bispo revela, ao fim, um fundo passivo, mítico-religioso e romanticamente orientado, mais um sintoma do capitalismo de crise e da falta de perspectiva de transformação à esquerda2.
A luta cosmológica
O saber, para Bispo, é orgânico: não nasce da especulação ou do espanto, mas da criação que deve à ancestralidade seu caráter formador. A vivência é, então, posta como elemento central, e a relação com o território, como algo singular. Há, portanto, um caráter intuitivo, delimitado por aspectos geográficos – territoriais – e culturais. Tal posição ilustra uma visão essencialista, como se grupos não europeus, não brancos, ocupassem um lugar privilegiado na produção do conhecimento simplesmente por permanecerem no lugar da exclusão.
A objetividade cede espaço à subjetividade, e assim a longa marcha da consolidação simbólica da racialização torna-se um dado natural, já que não se coloca em questão sua produção histórica, orientada pela exploração moderna; ao contrário, toma-se a raça como atributo diferencial e privilegiado na produção do conhecimento por meio da “vivência”. Bastaria ter nascido quilombola – indígena ou negro – e ser criado no território para atuar ao lado da resistência e ter acesso a outros saberes. O que, como sabemos, é falso.
O modo subjetivista – da “vivência” como privilégio epistêmico – não se detém nas contradições produzidas por processos históricos díspares. A luta entre cosmologias pouco diz sobre o processo material escravocrata e sobre a necessidade da racialização como forma de dominação. Assim, entende-se a exclusão das benesses da modernidade – vivida pelos escravizados – como equivalente à exclusão total da modernidade, sem levar em consideração que a própria modernidade foi fundamentada pelo trabalho do escravizado.
Por isso, esse excluído passaria a supostamente deter um saber autêntico, porque orgânico, nascido no seio da Gemeinschaft – desculpem-me pelo alemão; da comunidade. “O pensamento operacionalizado pela escrita é um pensamento sintético, desconectado da vida. O nosso pensamento”, afirma Bispo, “movimentado pela oralidade, é um pensamento orgânico”3. Essa é a conclusão lógica dos pressupostos internos que organizam a “oralidade” de Bispo, sendo fundamental para conferir coerência à redução cosmológica que ele opera. Nesse sentido, torna-se necessário abandonar a análise concreta do colonialismo.
Entendendo por colonização “todos os processos etnocêntricos de invasão, expropriação, etnocídio, subjugação e até substituição de uma cultura pela outra, independentemente do território físico-geográfico em que essa cultura se encontra”4, Nego Bispo vê na luta cosmológica a possibilidade de um resgate ancestral-epistemológico capaz de restituir a comunidade originária. As especificidades do colonialismo se perdem barrando a possibilidade de análise crítica e historicamente orientada de suas determinações.
Homogeneização da experiência colonial e essencialismo racial
Sustenta a Weltanschauung (cosmovisão) de Nego Bispo a homogeneização das especificidades do processo escravocrata. Não importa as mediações e a complexidade de cada coletividade africana ou indígena, as especificidades precisam ser ignoradas em nome de uma unidade fornecida por uma identidade imaginária: os “contra-colonizadores”.
Como ele mesmo afirma: “vamos tratar os povos que vieram da África e os povos originários das Américas […] independentemente de suas especificidades e particularidades, chamando-os de contra-colonizadores. O mesmo faremos com os povos que vieram da Europa, independentemente de serem senhores ou colonos, tratando-os como colonizadores”5. A hipóstase dessa identidade imaginária fornece também o programa político. Já não importam as contradições que orientam encontros e desencontros históricos; o que vale, em última instância, é a essencialização da identidade – ou, em termos mais diretos, o identitarismo.
Assim, a luta entre supostas cosmologias – essencialmente atribuídas a “nós” e a “eles” – organiza uma cisão fundada em formações culturais ancoradas na experiência territorial. A terra converte-se em elemento definidor do caráter e da experiência histórica particular: um apriorismo essencial que distribui, segundo a cosmovisão de Nego Bispo, quem é colonizador e quem é contracolonizador.
Essa posição é coerente com a maneira pela qual Bispo compreende o colonialismo. Ao abandonar uma análise que o apreenda como forma objetiva e historicamente determinada de exploração – isto é, como relação social que cinde a humanidade racialmente para organizar um padrão específico de dominação mundializada –, ele o reconduz a algo a-histórico, orientado por uma “gana epistemológica” e sustentado por uma cosmovisão eurocristã.
O colonialismo passa, assim, a ser entendido sobretudo como uma relação epistemológica que impõe uma visão de mundo como forma de dominação. Vão-se os anéis e também os dedos: abre-se mão da análise das mediações históricas e da reprodução social em nome de uma fórmula dual e, diga-se de passagem, maniqueísta. Esvaziar o sentido histórico do colonialismo, entretanto, é condição necessária para que o programa contracolonial de Bispo se mantenha coerente internamente.
Marcado pela tentativa de reencontro com raízes imaginárias, o contracolonialismo torna-se, em Bispo, equivalente à emancipação humana, desde que se elimine tudo aquilo identificado como colonial. Para tanto, é preciso ignorar os processos históricos concretos e suas contradições, transformando o colonialismo em um tropo genérico, orientado por uma cosmovisão imaginária elevada à condição de princípio explicativo fundamental. O capitalismo se torna só um desenvolvimento lógico de uma suposta cosmovisão.
Há inúmeros problemas nessa conclusão, mas o que mais se destaca é a ausência de uma problematização acerca da constituição histórica da racialização. Mais grave ainda é a essencialização identitária que reduz a multiplicidade das experiências humanas a uma unidade imaginária vinculada ao território e a uma cultura supostamente estanque. Se não se detém nas contradições internas entre os próprios escravizados, tampouco se examina as distintas formas pelas quais o colonialismo estruturou seus regimes de exploração e o papel decisivo que o elemento racial desempenhou nesses processos.
Marcada por um viés subjetivista – centrado na “vivência” –, a teoria do conhecimento de Bispo reduz a verdade à experiência empírica mediada pela identidade. Trata-se, afinal, de um conflito entre “saberes” e “formas de vida” que ignora os processos de produção e reprodução sociais, reduzindo a complexidade das relações sociais a uma disputa por “denominações” – entendidas como a nomeação linguística da realidade. “É o que chamamos de guerra de denominações”, afirma Bispo, “o jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las”6.
Sendo, antes de tudo – segundo o próprio Bispo – uma cosmovisão essencialista, o colonialismo só poderia ser combatido por meio de outra cosmovisão que lhe fizesse frente. Tal posição só se sustenta em seu caráter mítico-religioso, cuja fé repousa no resgate de valores cosmológicos politeístas como resposta política. O resultado é uma deificação identitária daqueles considerados contracoloniais e uma recomposição mítico-religiosa que promete livrar-nos de um mal absoluto, identificado com o cristianismo.
Um novo guru: a posição mítico-religiosa
Reduzindo a complexidade dos acontecimentos passados, Bispo reconstitui uma metafísica que orienta a limpeza supostamente colonial a partir da reativação do caráter mítico-religioso. A exploração e a violência coloniais estariam inscritas não em necessidades materiais, mas em uma cosmovisão que orientava a Europa.
Nesse excerto, isso aparece em todo o seu vigor: “me incomodava quando se falava que a escravidão no Brasil surgiu porque um modo de produção precisava de mão de obra escrava. Eu posso até concordar com isso, mas a pergunta é: quem determinou qual povo seria escravizado? Eu fui procurar essa determinação e encontrei a bula papal de 1455, escrita pelo papa Nicolau V no dia 8 de janeiro. […] Foi o cristianismo. E o cristianismo é uma religião monoteísta, de um deus só. O povo que o cristianismo, através desse papo, determinou que deveria ser escravizado eram os povos de religiões politeístas, ou de cosmologias politeístas”7.
Mais do que propriamente cristã, a visão de mundo europeia se caracterizaria pelo engessamento monoteísta, fechado à diferença e marcado pela busca de domínio. Se essa conclusão não está inteiramente distante da realidade, o problema reside em tomá-la como núcleo explicativo da cosmovisão e, mais ainda, em tornar o monoteísmo determinante da exploração colonial. Trata-se de uma linha teleológica e a-histórica que culpa o deus, e não as necessidades sociais concretas que lhe deram condições de possibilidade para surgir e se estabelecer.
Mais do que isso, inscreve-se nessa conclusão uma luta de afirmação religiosa: o cristianismo teria determinado que deveriam ser escravizados os povos de religiões politeístas, como se a religião fosse condição sine qua non para a escravização. Essa noção não resiste minimamente à prova histórica, já que o critério da escravização moderna era ser africano ou indígena, e não monoteísta ou politeísta. Sabemos de milhares de africanos muçulmanos que foram continuamente escravizados.
Isso não deixa de levar em consideração que, sim, o cristianismo funcionou como legitimação ideológica da escravidão, mas não como sua causa determinante. Apelando, porém, para uma teleologia bíblica, Nego Bispo vê inscrita na religiosidade cristã a determinação fundamental da escravização moderna. E, para sustentar essa posição, ele se utiliza do que alcunha de cosmofobia: “A cosmofobia é a necessidade de desenvolver, de desconectar, de afastar-se da originalidade. A cosmofobia é a mesma coisa que o pecado original. E tudo o que é original assusta o eurocristão monoteísta”8.
Novamente se marca, em sua posição, a ideia de originalidade e de resgate das raízes, orientada pela recomposição de uma identidade imaginária vinculada a uma religiosidade diferente da religião colonial. Enfim, opta-se pela recusa do deísmo cristão (do mal) em nome de um politeísmo (do bem). Ambos se tornam a-históricos e marcados por um essencialismo: cristianismo monoteísta, de saberes sintéticos, versus politeísmo contracolonial, de saberes orgânicos.
Na medida em que o leitor se acostuma com as obras de Nego Bispo, percebe-se um mesmo mote: a homogeneização a-histórica de processos históricos específicos e contraditórios surge como possibilidade de tamponar as debilidades conceituais e epistêmicas por ele utilizadas. Tal como o cristianismo se reduz a uma teleologia cuja finalidade seria a escravização, também o politeísmo aparece como uma mixórdia de elementos indistintos, de apelo mágico.
Ou seja, não se sabe bem se se trata de religiões de matriz africana e de experiências com o sagrado nas comunidades originárias ou simplesmente de uma nova religião na qual Nego Bispo figura como mentor. O que se sabe, porém, é que a vivência, a identidade fechada e o saber correlacionado ao território e a empiria são pressupostos fundamentais de uma contracolonização em abstrato.
Seja como for, esse movimento parece correlacionar-se com o abandono da análise histórica e da preocupação com o modo de sociabilidade capitalista. Quando se opta por interpretar o colonialismo como um dado oriundo de uma cosmovisão – e não como uma especificidade histórica ocasionada por transformações materiais pontuais – abandona-se a reflexão sobre as contradições e as relações internas à reprodução da vida social.
Os efeitos práticos e políticos dessas noções são preocupantes e perigosos: primeiro, porque se essencializam diferenças surgidas de processos históricos contraditórios; segundo, porque, ao essencializar tais diferenças como identidades estanques (identitarismo), corta-se qualquer possibilidade solidária; e, por fim, porque se compreende a racialização como um dado a-histórico. Além disso, se tudo é uma questão de cosmovisão, a extrema direita parece ter entendido isso muito bem e sai em defesa de sua identidade eurocristã. Se agimos como ela, não me parece que estamos no caminho razoável.
Enfim, se o que define alguém como colonizador ou contracolonizador é tão somente a cor da pele, o território e a religiosidade, e não um processo materialmente organizado em torno de uma sociabilidade que delimita sua forma de ser e estar no mundo, então o espaço de sua liberdade está tolhido. Se a cosmologia é aquilo que define o sujeito moral e eticamente, então esse sujeito é apenas um objeto.
Se a religião é a causa determinante dos movimentos históricos, e não as relações materiais que a produziram, então basta retornarmos à luta religiosa. É aqui que as conclusões de Nego Bispo se tornam ainda mais perigosas: “como no mundo monoteísta só há um deus, é uma disputa permanente. O povo de Israel contra o povo da Palestina, por exemplo. Estão se matando na disputa por um deus. No nosso caso, não é preciso: temos Exu, Tranca Rua, Pomba Gira, Maria Padilha… Se não estamos com um, estamos com outro.”9 Se a disputa é a religião como fundamentação da cultura e da cosmovisão, os laços solidários são cortados.
As posições de Nego Bispo não conduzem apenas à insensibilidade diante da causa palestina; elas operam algo ainda mais grave: reduzem a complexidade histórica e política do presente a uma suposta guerra entre religiões. Ao fazê-lo, dissolvem relações materiais, interesses geopolíticos e determinações históricas concretas numa narrativa mítica confortável. Enquanto o mundo caminha para a guerra mais tecnologicamente sofisticada da história humana é obscenamente confortável refugiar-se numa cosmologia imaginária de “povos originários” igualmente imaginados – consumida, não raro, no interior de apartamentos gentrificados de Santa Cecília, Leblon ou Vila Mada.
Numa época em que todos parecem buscar um mestre, ou um guia espiritual para justificar a abdicação do pensamento crítico, permitam-me declarar, sem ambiguidade: fico fora dessa.
Notas
- BARBOSA NETO, Edgar Rodrigues; SILVA, Natalino Neves da; LOWANDE, Walter Francisco Figueiredo. Entrevista “Estamos no começo do replantio das palavras”: uma conversa com Antônio Bispo dos Santos (Nego Bispo). PerCursos, Florianópolis, v. 24, p.6, 2023. ↩︎
- Devo todas as observações e a necessidade de leitura dos textos de Bispo à excelente dissertação de Patrick Leonardo da Silva Oliveira em que fui membro da banca de avaliação (Cf. OLIVEIRA, Patrick Leonardo da Silva. A crise da razão e a questão racial: elementos para uma crítica ontológica do irracionalismo de esquerda contemporâneo. 2025. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2025.) ↩︎
- BISPO DOS SANTOS, Antônio (Nêgo Bispo). Somos da terra. Piseagrama, nº 12, 2020, p. 44–51. ↩︎
- BISPO DOS SANTOS, Antônio. Colonização, quilombos: modos e significados. Brasília: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), 2015, p.48. ↩︎
- Ibidem, p. 32. ↩︎
- BISPO DOS SANTOS, Antônio (Nêgo Bispo). A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu / Piseagrama, 2023, p. 13. ↩︎
- BISPO, Antônio (Nêgo Bispo). Entrevista com Renato Noguera: Por que essa questão da cosmologia? In: Amarello — Cultura, 2022. Disponível aqui. ↩︎
- BISPO DOS SANTOS, Antônio (Nêgo Bispo). A terra dá, a terra quer, cit., p. 27-30. ↩︎
- BISPO DOS SANTOS, Antônio (Nêgo Bispo). A cosmofobia e a disputa dos deuses. In: Cidades e cosmofobia. São Paulo: publicação independente/opinião, 2023, p. 19. ↩︎
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Douglas Rodrigues Barros é psicanalista e doutor em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor filiado ao Laboratório de experiências coloniais comparadas, ligado ao Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor na pós-graduação em filosofia da Unifai. Investiga principalmente a filosofia alemã conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas principais contribuições teóricas no campo da arte e da política. Pela Boitempo, publicou O que é identitarismo? (2024). Escritor com três romances publicados, também é autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial (Hedra) e Hegel e o sentido do político (lavrapalavra).
O que é identitarismo?, de Douglas Barros
Na última década, um termo tem se proliferado de maneira espantosa no discurso político. Moralmente carregado e lançado a torto e a direito em disputas de internet, mesas de bar, espaços acadêmicos e palanques políticos. Mas, afinal, o que é identitarismo? Na interpretação original do psicanalista Douglas Barros, o termo nomeia sobretudo uma forma de gestão da vida social contemporânea que engole esquerda e direita. Com um olhar da periferia do capitalismo sobre a colonização, Douglas revisita, pelo prisma da identidade, o surgimento e desmonte do sujeito, do Estado e do capitalismo modernos para jogar luz sobre os impasses da política contemporânea.
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