Um renascimento do maravilhoso  

Nova ’78, de Rodrigo Areias, que chega em abril de 2026 aos cinemas brasileiros. Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes

Por Nathalia Colli

“Estou esperando 
Pela guerra que virá  
Preparando o mundo 
Para a anarquia 
E estou esperando 
Pelo definhamento definitivo  
De todos os governos 
E estou à espera 
De um renascimento do maravilhoso.”
 
“Estou esperando”, Lawrence Ferlinghetti 

Na 49° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a distribuidora Fênix Filmes trouxe ao Brasil dois longas inéditos que orbitam ao redor da Beat Generation: O último Beat (2022) e Nova ’78 (2025). Ambos os filmes tratam, grosso modo, da memória de dois dos maiores nomes dessa geração, Lawrence Ferlinghetti e William S. Burroughs, respectivamente. Embora semelhantes pelo trato com o material videográfico gerado por poetas no fim de suas vidas, as características pessoais de cada um deles parece ditar o ritmo da montagem e da câmera, produzindo experiências visuais distintas.  

O último beat, de Ferdinando Vicentini Orgnani. Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes

O último Beat — cujo título original é The Beat Bomb —  tem roteiro e direção de Ferdinando Vicentini Orgnani, que conheceu Ferlinghetti em meados de 2007, na Itália, e desde então passou a registrar de maneira caseira seus momentos ao lado do poeta. Essas imagens serão recuperadas por Orgnani em 2021, na ocasião da morte do autor, como celebração de uma vasta vida e obra. O documentário se afasta deliberadamente do modelo tradicional de biografia cinematográfica. Ao invés de oferecer um panorama cronológico ou histórico sobre Lawrence Ferlinghetti e a Beat Generation, o diretor opta por uma espécie de “colagem afetiva”: leituras de poemas em um subsolo em Roma, imagens de Nova York, arquivos pessoais, performances públicas e encontros que, justapostos, produzem mais uma atmosfera do que um repertório informativo sobre o autor, trazendo ao público uma espécie de refúgio para aqueles que se despedem do fundador da City Lights Bookstore.

O filme não é ambicioso, mas sensível e bastante pessoal, já que a ode a Ferlinghetti é deliberadamente determinada pelo ponto de vista de Orgnani. Ainda sim, a presença marcante do poeta no filme faz saltar aos olhos do espectador a defesa desenfreada da imaginação contra a concretude mortífera dos avanços dos testes nucleares, ou dos bairros militares em Nova York. A placidez de Lawrence Ferlinghetti e sua indubitável postura de desimportância (afinal, em um mundo como o nosso, nada melhor do que não ser ninguém), contrastam com os versos afiadíssimos de uma de suas últimas performances, recitando em um palco, com um boné e um terno puído, o seguinte trecho:

Ah o mundo é um ótimo lugar
                                     pra se nascer 
     se não te importam 
                                     algumas mentes mortas 
               nos postos mais altos 
                                              ou uma bomba ou duas 
     de quando em quando 
                                    nas suas caras pasmas1

O último beat, de Ferdinando Vicentini Orgnani. Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes

O discreto engajamento derradeiro de uma das maiores figuras editoriais da contracultura dos Estados Unidos no pós-guerra comove por sua persistência, pela permanente postura de denúncia no interior do coro dos contentes, até mesmo em um levante contra os comunistas acomodados com as burocracias stalinistas e os muros soviéticos. O Ferlinghetti apresentado por Orgnani reorganiza a delicadeza dos malditos, relembra Whitman e Rimbaud, dando à poesia o pequeno lugar que lhe cabe no mundo, dentro de seu grande espaço na vida do sujeito. É assim que o filme O último Beat funciona como um deleite rememorativo de um dos grandes poetas em movimento, para os iniciados, e também como uma grata descoberta para os que ainda não o conhecem.  

Já em Nova ’78, dirigido por Rodrigo Areias com roteiro de Aaron Brookner, o clima muda e se reorienta em direção a influência beatnik na cultura punk dos anos 1970. Se o filme dedicado a Ferlinghetti nos transporta para uma Itália contemporânea bucólica e entristecida, William S. Burroughs chega lisérgico como nunca, acompanhado de Patti Smith, Philip Glass, Susan Sontag, Allen Ginsberg, Laurie Anderson, Frank Zappa e outros jovens disruptivos que transitam ao redor de uma figura literária quase mística, como Burroughs foi. 

Nova ’78, de Rodrigo Areias. Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes

O filme revisita, por meio de registros brutos e até então pouco conhecidos, a lendária Nova Convention, evento que, em 1978, reuniu por três dias nomes centrais da contracultura norte-americana, em Nova York, para celebrar e repensar a influência de William S. Burroughs para as próximas gerações. Mas ao contrário do que se esperaria de um documentário que revisita um encontro cultural tão potente, a obra não se dedica a contextualizar, explicar ou historicizar. Ela escolhe mergulhar diretamente na matéria viva das imagens, como se quisesse ativar, mais do que narrar, o espírito de desobediência estética daquele momento.

Filmado originalmente em 16mm pelo cineasta Howard Brookner e considerado perdido durante décadas, o material foi recuperado através de um projeto de arquivo liderado no Reino Unido pelo seu sobrinho, Aaron Brookner. A partir desse projeto, temos acesso aos bastidores do evento, às conversas com Allen Ginsberg sobre religião e política, e à postura eletrizante de uma jovem Patti Smith ao assumir o palco no lugar de ninguém menos que Keith Richards, que confirmou presença, garantiu parcela do público e não apareceu no evento — produzindo, claro, um efeito ainda maior de mística em torno de sua figura. Dentre os assuntos centrais da Nova Convention paira a ideia de futuro às portas dos anos 1980, tempo em que nos despedimos da história como quem se despede de uma era geológica. Entre otimistas e pessimistas, adeptos do futurismo e representantes das culturas tradicionais, performances, falas e poemas buscam responder o avanço técnico a partir de suas próprias formas, delimitando, ainda, que a transformação do mundo não equivale, necessariamente, ao fim da necessidade da imaginação.

Como se trata de material de arquivo, as imagens falam bastante por si, deixando ao público a possibilidade de avaliação das muitas maneiras de “resistir”, umas mais caricatas e inocentes do que outras, é verdade, mas elucidativas pelo registro de uma época que pode fortalecer ou enfraquecer o processo ideológico em torno de grandes figuras da cena contracultural.  

O poeta William Carlos Williams, em prefácio ao poema O uivo, de Allen Ginsberg, relata que quando o conheceu sentia que ele estava sempre a ponto de ir embora. Para onde? Não se sabe. A misteriosa sensação que desponta da poesia Beat, e que ambos os filmes captam bem, é essa constante intersecção entre o interesse brutal pelo mundo e a vontade reiterada de abandoná-lo, por isso o sofrimento e a negação das formas tradicionais, pois tudo que ainda funciona, dilacera a vida possível dos poetas.

Nova ’78, de Rodrigo Areias. Imagem: Divulgação/ Fênix Filmes

Uma das cenas mais marcantes do Nova ’78 talvez não seja a reunião de figuras consagradas da contracultura, ou ainda as conversas alucinantes dos bastidores do evento, mas um take de estilo road movie, no qual Burroughs fuma um cigarro dentro de um carro com a janela aberta, pelas ruas de Nova York. Seu silêncio sepulcral, sua nítida condição destoante da cidade, movimenta uma contradição autofágica: de quem já deglutiu e ruminou por anos aquele lugar, carregado do melhor e do pior que a experiência humana pode oferecer. Embora não tragam novas perspectivas para a poesia, ver em movimento dois poetas que dedicaram sua vida às demandas e pesadelos incutidos no mundo pela cultura norte-americana pode servir para lembrar que ali houve uma geração interessada em demonstrar que nem só de bombas foi feito esse decrépito império. 

Notas

  1. Lawrence Ferlinghetti, “O mundo é um ótimo lugar”. Trad. Luís Araújo Pereira ↩︎

***
Nathalia Colli é doutoranda em Filosofia e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Assina o posfácio de Prisão perpétua: e outros escritos, de Tiago Ferro (Boitempo, 2025).


Prisão perpétua: e outros escritos, de Tiago Ferro
Entre 2016 e 2024, período de turbulência política, social e econômica não só no Brasil, mas no mundo todo, Tiago Ferro escreveu uma série de textos que perpassam o horror e a distopia contemporânea. Prisão perpétua traz ao leitor 27 escritos que vão de ensaios e intervenções a resenhas e experimentações ficcionais.

“Não surpreendem o som e a fúria da prosa de ensaio reunida nesta Prisão perpétua. Transitando aos trancos e relâmpagos entre o diário de bordo e a montagem, juízos finais e paráfrases, alguma crítica literária e cultural comprimida entre imprecações bíblicas dirigidas à conjuntura de fim de linha em que passamos a viver. Numa palavra, um belo pandemônio.”
Paulo Arantes, autor de O novo tempo do mundo

O texto que dá título ao livro é uma reflexão sobre sua chegada a Princeton, Estados Unidos, cidade onde o autor passou um ano com sua família por conta de uma bolsa de estudos. A experiência do olhar estrangeiro e periférico perpassa outras passagens da obra. O alcance e o fortalecimento da extrema direita no Brasil e no mundo, a precariedade da vida e do trabalho e o aprofundamento da economia neoliberal são também assuntos recorrentes.

Os livros, a música e outras manifestações culturais marcam parte da obra. Ferro passa pela produção de nomes como Chico Buarque, Bob Dylan, Fernando Pessoa, Roberto Schwarz e Judith Butler e os relaciona a temas contemporâneos.

“Estamos diante de uma forma curiosamente outra, que faz da atomização característica de nosso tempo um método de aproximação com a realidade, emprestando elementos da reflexão subjetiva à reflexão objetiva, nem sempre nessa ordem. Dessa outra forma surgem o risco e o desnível de impressões que funcionam como força ordenadora de textos mais longos, como também explodem pequenos fragmentos herméticos, capazes de exigir do leitor tanto a referência teórica quanto a vivida, para o complemento dos recortes”, escreve Nathalia Colli no posfácio.


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