“Operação Contenção”: a chacina como combustível para a extrema direita

Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Por Felipe Brito
A informação oficial, na alvorada do dia 28 de outubro de 2025, era de que aproximadamente 2.500 policiais civis e militares foram às ruas (leia-se: aos Complexos da Penha e do Alemão) para o cumprimento de 100 mandados de prisão, com o objetivo de contenção do Comando Vermelho. Tratava-se de mais um capítulo da megaoperação batizada de “Contenção” — capítulo que redundou, dentre vários estragos sociais e pessoais, no recorde de letalidade no ranking mórbido das operações e megaoperações policiais no Rio de Janeiro. É difícil supor que a finalidade primordial da megaoperação fosse, de fato, desmontar cadeias produtivas, redes de financiamento e ganhos monetários, lavanderias financeiras da mencionada facção criminosa. É mais plausível supor que o fio da meada foi “tocar o terror” — e, para cumprir esse propósito sem tergiversação, empilhar cadáveres (seletivamente).
Este breve artigo não se propõe a apresentar um inventário de mais um episódio de horror urbano do Rio de Janeiro, tampouco entabular um debate especializado da área da Segurança Pública — deixo a tarefa a cargo dos especialistas. Com a “Operação Contenção” ainda oficialmente em curso, minha proposta é compartilhar uma singela contribuição, em caráter ainda propedêutico, sobre efeitos sociais traumatizantes/traumatofílicos contidos em eventos assoberbados de violência (como a referida megaoperação). Ademais, me interessa apontar o quanto isso se reverte em combustíveis para a extrema direita e congêneres. Para os propósitos do texto, de modo sucinto, o que caracterizo aqui como traumatizante/traumatofílico diz respeito ao transbordamento da capacidade psicofísica de assimilação, processamento, elaboração de muitas pessoas ante à virulência, exacerbação, ostensividade, aceleração desses eventos violentos. Diante do poder avassalador, de posições objetivas e subjetivas exacerbadamente assimétricas, frente à impossibilidade de enfrentamento, processamento, elaboração, forja-se um dispositivo de defesa psicofísico que consiste, basicamente, em interiorizar, alojar, introjetar a coerção, opressão, agressão — e cujo efeito é de submissão para se proteger da manifestação do efeito devastador1.
Muitos trabalhadores cariocas padecem das consequências da desagregação econômica, que pode ser descrita sumariamente nos seguintes termos: em uma primeira camada estrutural, por estarem inseridos em uma sociedade da universalização da mercadoria, precisam acessar dinheiro para sobreviver. No amálgama de pós-assalariamento e não assalariamento de massas, marcante no mercado de trabalho do Rio de Janeiro, esse dinheiro muitas vezes provém de rendimentos não ou pós-salariais, obtidos sem direitos trabalhistas ou previdenciários, sem respaldo sindical, em que os custos econômicos e subjetivos são externalizados para os ombros desses próprios trabalhadores e as partilhas de vivências (no e pelo trabalho) são ínfimas. Não é exagero considerar que esses trabalhadores, de fato, atuam assujeitados a uma base objetiva do “cada um por si e todos contra todos” — atuações que requerem largas doses de adestramento, ou seja, uma espécie de preparação corporal e psíquica em registro maquinal, que favorece formas hiperindividualistas de agir-sentir-pensar, impulsionadas por uma mistura de sentimentos e afetos de insegurança, medo, ódio (destrutivo) e ressentimento. Nessa associação de fatores objetivos e subjetivos, muitos trabalhadores sentem e interpretam a sociedade como “selvageria do cada um por si e todos contra todos”.
Junto à desagregação econômica, forma-se um circuito (as)social constituído por segregação socioespacial, violências (oficiais e extraoficiais) do aparato repressivo estatal, disputa/gestão/controle territorial armado do narcotráfico ou da milícia, truculência cultural, desvalias institucionais e, em alguns casos, negligências e/ou invasividades afetivas etc. Ligada à sensação e à interpretação da sociedade como “selvageria do cada um por si e todos contra todos”, desponta-se a sensação e a interpretação da sociedade como um todo social hostil, regido por poderes implacáveis, avassaladores. Essa sensação/interpretação tende a recrudescer formas de ensimesmamento defensivo, sob algum efeito traumatizante, impulsionadas por uma exacerbação da chave afetiva do medo/insegurança, que transitam entre acuamentos, ódios (destrutivos) e ressentimentos.
Subjacente ao supracitado circuito de deteriorações, coerções e desmazelos, há a predominância de um capitalismo de espoliação e pilhagem, com um pano de fundo sócio-histórico belicista, que se infiltra nas raízes coloniais, escravocratas e latifundiárias da formação social brasileira, e na prevalência de uma modernização concentradora de renda/riqueza e eivada de violências. No amálgama de pós-assalariamento e não-assalariamento de massas, um contingente expressivo de pessoas no Rio de Janeiro é absorvido pelos mercados ilícitos, nos quais as fronteiras entre a “licitude” e a “ilicitude” se desmancham, se misturam ou se separam por uma linha tênue. Isso é corolário da apropriação econômica de territórios periféricos e a ponta de um iceberg que alcança Fintechs, a Faria Lima e rentáveis áreas econômicas diversas. Trata-se, na verdade, de “normatividades” sob os auspícios das armas, calcadas no entrelaçamento de “violência econômica” e “violência ‘extraeconômica’” (como diria Marx) e na dissolução/confusão dos limites entre o “legal” e o “ilegal”.
É possível notar que o bolsonarismo, o campo da extrema direita, sofreu recentemente alguns danos e se encontra atravessado por disputas intestinas e fratricidas. Entretanto, os fatores objetivos e subjetivos que levam à adesão ou, pelo menos, identificação com o que ele tem a oferecer e propagar persistem. Os nexos entre extravasamento securitário e “selvageria do cada um por si e todos contra todos” geram combustíveis inflamáveis para o campo da extrema direita. Nessa perspectiva, apontar para El Salvador e postular uma espécie de “bukelyzação”2 à brasileira, buscando guarida no formato trumpista de imperialismo estadunidense, parece se oferecer como um caminho para requentar politicamente a extrema direita e manter sua aderência social. “Tocar o terror” e empilhar cadáveres (seletivamente) são mais do que bandeira política: viram eixo de governança, catalisando os dispositivos traumatofílicos de submissão à (des)ordem social. Na lógica (belicista) da extrema direita, incidir sobre a dimensão sensível e mobilizar afetos constituem móveis estratégicos de ação, com estatuto de centralidade. Inserem-se aí, por exemplo, os bombardeios de fake news — dispositivo semiótico virulento e ostensivo que, de maneira cirúrgica, atinge o “alvo”, ou seja, o perfil psicológico determinado pela captura incessante de dados promovida pelo “extrativismo digital”. A guerra semiótica exponencia o extravasamento securitário, alastra a chave afetiva subjacente da insegurança/medo, atiça o hiperindividualismo.
O tipo de “ênfase” dada pela extrema direita no tema da segurança pública aparenta para muitas pessoas, moradoras das metrópoles brasileiras, uma espécie de “comprometimento”, “implicação” com as manifestações de insegurança/medo. Do outro lado da moeda, estaria uma aparência de “distanciamento academicista” e indiferença por parte da esquerda perante essas manifestações de insegurança e os medos dessas pessoas comuns, bem como os correlatos clamores por “autoridade” e “ordem”. O campo progressista precisa encarar de frente o tema da Segurança Pública. Uma premissa indispensável para conduzir esse desafio é o empenho de se conectar com as pessoas comuns, o que requer uma melhor escuta desses clamores por “autoridade” e “ordem”, dentre outros, sob pena de continuarem sendo preenchidos pelos direcionamentos monstruosos da extrema direita e congêneres.
Notas
- A inspiração desse debate sobre “traumatizações” remonta ao psicanalista Sándor Ferenczi. Por exemplo, em Ferenczi, Sándor. Confusão de língua entre os adultos e a criança. In: Obras Completas. Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011. ↩︎
- Referente a Nayib Bukele, presidente de El Salvador. ↩︎
***
Felipe Brito é docente do curso de Serviço Social da UFF (Universidade Federal Fluminense) no Campus de Rio das Ostras. Pela Boitempo, organizou, com Pedro Rocha de Oliveira, o livro Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social (2013). Autor do artigo “Territórios Transversais” (em conjunto com Pedro Rocha de Oliveira), que integra o livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO

Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social, organizado por Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira
Análise sobre a militarização das favelas cariocas, revelando as UPPs como ocupações armadas e revelando a complexidade da gestão do colapso social. A coletânea destaca a relação entre militarização e vida cotidiana, desmistificando a suposta eficácia das políticas de ocupação permanente.



Crias da favela, de Renata Souza
Partindo do contexto da instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nas favelas do Rio de Janeiro para “salvaguardar” a segurança da cidade durante megaeventos esportivos (como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016), Renata Souza acompanha a experiência cotidiana na favela da Maré e demonstra como a política de “pacificação” desconhece a dinâmica comunitária da favela.
Desmilitarizar: segurança pública e direitos humanos, de Luiz Eduardo Soares
Segurança pública tem sido tema recorrente na agenda pública, mas sua transformação profunda nunca esteve em cogitação. A partir do entendimento dos problemas diagnosticados tanto na esfera pública quanto na privada, os ensaios aqui reunidos formam um conjunto coeso que demonstra que a problemática da violência letal, inclusive a praticada pelo Estado, é decisiva para a reconstrução democrática e o combate ao racismo, aos preconceitos e às desigualdades. Não ficam de fora análises sobre as contraditórias UPPs, a guerra às drogas, a intervenção militar no Rio de Janeiro, o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro e sobre relações entre o poder público e o crime organizado. E o livro conta ainda com um Glossário sobre segurança pública.
Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação
Coletânea que reúne vozes distintas, como psicanalistas, pesquisadores e ativistas, para abordar a complexa problemática da violência policial no Brasil. Desde análises críticas sobre a mídia até reflexões sobre desmilitarização e direitos humanos, oferece uma visão abrangente sobre um tema crucial.
Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
será que não dá para passar adiante desse blablablá de bolsonarismo que despedaça e precisa encontrar outra coesão e falar a verdade: tratou-se de uma operação do poder público para passar o controle do tráfico para a milícia pq o CV não quis aceitar a entrega pacificamente, assim como aconteceu no Jacarezinho em 2021?
CurtirCurtir
Boa análise. Acredito que essa operação tenha sido uma ação bem pensada para salvar a eleição que está vindo aí. E também acredito que manter a população em um medo permanente do vizinho, impede a consciência de classe.
CurtirCurtir