Entre o claro e o escuro do nosso tempo: Agamben e a guerra civil como paradigma político

Protestos em Nova York, outubro de 2025. Imagem: Wikimedia Commons

Por Isabela Pinho

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“Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo para nele perceber não as luzes, mas o escuro”, escreve Agamben em seu célebre ensaio “O que é o contemporâneo?”1. Parece ser esse escuro de nosso tempo que a filosofia agambeniana não cessa de indagar. A crise do multilateralismo, o
enterro fúnebre do ideal de consenso e dialogia, a ascensão de chefes de Estado neofascistas que, em nome da liberdade e da democracia, distinguem entre amigos e inimigos da nação, a expulsão em massa de imigrantes que temos acompanhado em todo o mundo, as guerras tarifárias e as guerras stricto sensu entre Estados parecem ratificar o diagnóstico jurídico-político agambeniano, sem o qual não se pode ler o contemporâneo.

Nos dias de hoje, a intensificação da guerra entre Estados parece correlata à guerra civil em sentido paradigmático. Ao mesmo tempo que observamos uma crescente nas guerras mundiais, há um aumento das guerras intestinas, das “guerras civis” que, a todo momento, distinguem entre o “povo” excluído e o “Povo” eleito. Penso aqui na proposta de revogar a cidadania por direito de nascença (ius soli) da administração Trump 2025. Essa proposta permitiria conceber como não cidadãos até mesmo aqueles nascidos em território nacional, um direito constitucional garantido pela 14ª emenda à Constituição dos EUA. Trata-se da cisão, no próprio corpo social, entre quem é o “Povo” a ser preservado e quem é o “povo” a ser excluído. Segundo Agamben, fascismo e nazismo foram, “antes de tudo, uma redefinição das relações entre o homem e o cidadão”.2

Conceber o político como a relação entre amigo e inimigo, como pretendia Carl Schmitt, é também o que está em jogo na lida do governo Trump com o tema da imigração. Em nome do destino manifesto, ao qual aludiu o atual presidente em seu discurso de posse, do “Povo” estadunidense exclui-se o “povo” imigrante, responsabilizado pela crise econômica e pela crise na segurança pública, inimigo da nação. Esses talvez sejam exemplos evidentes da contemporaneidade de Stasis: a guerra civil como paradigma do político, ao qual poderíamos acrescentar inúmeros outros.

Se há uma íntima solidariedade entre Estados totalitários e Estados democráticos de direito, a única via que resta, para o filósofo italiano, é a deposição da relação entre Estado, direito e a exceção que os fundamenta. Essa questão é tematizada a partir de uma releitura da escatologia judaico-cristã, que comparece em muitos momentos na obra do autor, notadamente em O tempo que resta: um comentário à Carta aos Romanos, em que há uma investigação aprofundada das cartas paulinas. A discussão teológica judaico-cristã acerca do fim dos tempos (eschaton) é mobilizada por ele para pensar, secularmente, uma comunidade após, ou além, do fim do Estado.

Essa discussão reaparece no segundo capítulo deste livro, quando é recuperada a imagem do banquete messiânico em que as duas bestas primordiais, o gigante touro Behemoth e o temível monstro marinho Leviatã, combatem entre si, perecem na luta e são devoradas pelos justos no dia do juízo final. O Estado hobbesiano, que contém em si a multidão dissolvida, é representado por Leviatã, ao passo que a guerra civil da multidão desunida é representada por Behemoth.

Com a imagem do banquete messiânico, presente também em O aberto: o homem e o animal, Agamben alude a outra possibilidade de laço social livre das amarras jurídicas e estatais, que inexoravelmente capturam certas vidas como matáveis e outras como vivíveis. Sua obra é um convite àquelas e aqueles que encaram de frente o escuro de nosso tempo e que são capazes de imaginar uma comunidade política por vir.

* Este texto é um trecho de “Para imaginar uma comunidade política por vir”, prefácio de Isabela Pinho a Stasis: a guerra civil como paradigma político, de Giorgio Agamben.

Notas

  1. Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo?: e outros ensaios (trad. Vinícius Nicastro Honesko, Chapecó, Editora da Unichapecó, 2009), p. 62. ↩︎
  2. Giorgio Agamben, Homo sacer: o poder soberano e a vida nua (trad. Henrique Burigo, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2007), p. 137. ↩︎

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Isabela Pinho é doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professora e tradutora. Autora de Feminino e linguagem: itinerários entre o silêncio e o tagarelar (Relicário, 2023)


Stasis: a guerra civil como paradigma político, de Giorgio Agamben

Stasis é o nome da guerra civil na Grécia antiga – um conceito tão perturbador que a filosofia política posterior preferiu deixá-lo à margem, sem jamais transformá-lo em objeto de uma doutrina consistente nem mesmo entre os teóricos da revolução. Neste ensaio instigante, livro II, 2 da tetralogia Homo sacer, Giorgio Agamben propõe os primeiros passos rumo a uma “stasiologia”, uma teoria da guerra civil, e sustenta que é precisamente ela, a guerra civil, a verdadeira linha de fronteira da politização no Ocidente. Um dispositivo paradoxal que, ao longo da história, ora despolitizou a cidadania, ora mobilizou o impolítico – e que ressurge sob a forma do terror em escala planetária.

“O fato de faltar, atualmente, uma doutrina da guerra civil é geralmente admitido, sem que essa lacuna pareça preocupar demasiadamente juristas e politólogos. Roman Schnur, que já nos anos 1980 formulava esse diagnóstico, acrescentava, contudo, que a desatenção em relação à guerra civil caminhava no mesmo ritmo que o aumento da guerra civil mundial. Depois de trinta anos, a observação não perdeu nada da sua atualidade. Enquanto hoje parece ter diminuído a própria possibilidade de distinguir guerra entre Estados e guerra intestina, os estudiosos competentes continuam evitando com cuidado qualquer tipo de aceno a uma teoria da guerra civil.
— Giorgio Agamben em Stasis: a guerra civil como paradigma político





Aula #2 | Homo sacer, com Vinícius Nicastro Honesko e mediação de Caio Paz.


Lançamento de O que é a filosofia?, com Carla Rodrigues, Isabela Pinho, Raul Antelo e mediação de Juliana Monteiro.


Giorgio Agamben e a linguagem, com Patricia Peterle.



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