Capitalismo racial nas telas: filmes e séries para refletir sobre o regime racializado de acumulação capitalista

Taís Araújo em cena de Medida Provisória (2022), dirigido por Lázaro Rammos. Imagem: Divulgação

No novo volume da coleção Pontos de Partida, o professor de Sociologia da Universidade de São Paulo, Ruy Braga, oferece uma ampla introdução ao conceito de “capitalismo racial”, investigando o que caracteriza como “regimes racializados de acumulação capitalista”. Segundo ele:

“Vale lembrar que um regime racializado de acumulação de capital é uma estrutura que articula, em diferentes graus e contextos, as instituições responsáveis por sustentar a exploração econômica da classe trabalhadora, vinculando-as ao impulso de expropriação política dos povos e grupos subalternos racializados por meio da violência do Estado. Na história da expansão mundial do capitalismo, é possível identificar distintos regimes racializados de acumulação, cujas transformações acompanham, em linhas gerais, os desdobramentos das lutas de classe.”

O livro busca, assim, responder ao desafio de “entender por que o racismo persiste como uma questão central nas sociedades contemporâneas” — e como enfrentá-lo.

Inspirados pelo lançamento de Capitalismo racial: uma introdução, que chega em primeira mão aos assinantes do Armas da Crítica de setembro, o Blog da Boitempo pediu ao autor que indicasse algumas produções audiovisuais para refletir sobre o tema. Confira abaixo as recomendações de Ruy Braga:


Quilombo (1984), de Cacá Diegues

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Santa Rita, século XVII. Um grupo de escravizados se rebela contra os desmandos senhoriais e ruma para Palmares, “a terra dos homens livres que não querem ser escravos”. Baseado nos livros Gunga Zumba, de João Felício dos Santos, e Palmares, de Décio de Freitas, o filme de Cacá Diegues enfatiza a luta coletiva, a resistência cultural e o significado político do quilombo como símbolo duradouro de liberdade. Seu enredo acompanha a sucessão de Ganga Zumba (Tony Tornado), criticado por suas posições conciliatórias, por Zumbi (Antônio Pompêo) na liderança do quilombo que se tornou um dos maiores símbolos de enfrentamento à empresa colonial. Antonio Pitanga e Grande Otelo também integram o elenco.


A cor púrpura (1985), de Steven Spielberg

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Celie (Whoopi Goldberg) é a protagonista dessa história. Nascida em uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, ela é sujeitada a uma série de violências não apenas do racismo estrutural, como patriarcais: com apenas 14 anos, após ser estuprada pelo pai e dar à luz duas crianças (que são imediatamente retiradas de seus braços), ela é separada da única pessoa que a ama no mundo, sua irmã Nettie (Akosua Busia). Casada à força com “Mister” (Danny Glover) — que a transforma em uma espécie de escrava doméstica —, Celie passa a escrever cartas, buscando mitigar sua solidão. Mas são as redes de solidariedade feminina, nascidas da improvável amizade com Shug (Margaret Avery), a cantora de blues por quem seu marido é apaixonado, e com a cunhada Sofia (Oprah Winfrey), que a conduzem na busca por autonomia em um contexto profundamente opressor. O longa é baseado no romance epistolar homônimo de Alice Walker.


Malcolm X (1992), Spike Lee

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Nesta cinebiografia do líder revolucionário negro, o diretor Spike Lee acompanha a trajetória de Malcolm Little (Denzel Washington) desde a juventude no Harlem dos anos 1940 até a militância como porta-voz da Nação do Islã e, posteriormente, como ativista internacionalista, mostrando como sua trajetória esteve sempre ligada à crítica radical do racismo e à denúncia da exploração econômica. Disponível no Prime Video.


Invictus (2009), Clint Eastwood

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Clint Eastwood recria um episódio histórico real: a tentativa de Nelson Mandela (interpretado por Morgan Freeman), já presidente da África do Sul, de usar a Copa do Mundo de Rugby de 1995 como ferramenta simbólica de reconciliação nacional. Para isso, ele junta forças com o capitão da seleção, Francois Pienaar, vivido por Matt Damon. O filme mostra como o fim do apartheid, embora tenha aberto um novo cenário político, não significou o fim de tensões raciais e de classe naquela sociedade.


Searching for Sugar Man (2012), de Malik Bendjelloul

Cena de A negra de… (1966), de Ousmane Sembène. Imagem: Divulgação

Esse documentário, disponível no Prime Video, acompanha a redescoberta de Sixto Rodríguez — um cantor norte-americano praticamente desconhecido em seu país, cuja música se tornou trilha da juventude branca anti-apartheid nos anos 1970 e 1980. A obra revela o poder da arte como instrumento de contestação em meio à censura cultural do regime sul-africano.


The Wire (2002-2008), criada por David Simon

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A aclamada série da HBO Max retrata a cidade de Baltimore como um microcosmo das contradições sociais dos EUA contemporâneos. Ao mostrar a intersecção entre tráfico de drogas, colapso da indústria, precarização do trabalho e corrupção política, expõe como o racismo estrutural sustenta a lógica capitalista de exclusão.


Quanto vale ou é por quilo? (2005), de Sérgio Bianchi

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Com estrutura fragmentada, o filme traça paralelos entre o período colonial e o Brasil contemporâneo, denunciando a permanência de mecanismos de exploração racializada. Aponta como ONGs, empresas e o Estado transformam a pobreza em mercadoria, reafirmando a atualidade da lógica escravocrata.


Medida Provisória (2020), de Lázaro Ramos

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Distopia ambientada no Brasil, em um futuro próximo, quando o governo decreta a deportação compulsória de pessoas negras para a África. O filme dramatiza, com humor ácido e tensão política, a radicalização da opressão racial e as lutas pela sobrevivência e pela afirmação de direitos. Protagonizado por Taís Araújo, Alfred Enoch e Seu Jorge, o longa que marca a estréia de Lázaro Ramos como diretor está disponível no Prime Video.



Por que a compreensão do capitalismo racial é tão urgente para quem deseja transformar o mundo em um lugar mais justo e humano? O novo título da coleção Pontos de Partida, de autoria do sociólogo Ruy Braga, traz o tema para o centro de debate. Capitalismo racial: uma introdução examina o conceito a partir do marxismo negro e analisa três espaços geográficos diferentes: África do Sul, Brasil e Estados Unidos.  

O autor, que também coordena a coleção, inicia destacando as teses que identificam o racismo como o principal motor das relações de dominação e exploração ocidentais e capitalistas. A obra segue apresentando e discutindo autores que estudaram a articulação entre acumulação econômica e opressão racial, como Frantz Fanon, Walter Rodney, Cedric J. Robinson, W. E. B. Du Bois, C. L. R. James e outros. A comparação entre os três países no contexto do capitalismo racial é tema da terceira parte e se dá por meio de uma análise comparativa das três diferentes trajetórias históricas nacionais.  

“Compreender a articulação entre acumulação econômica e opressão racial é indispensável para a construção de uma autêntica unidade internacionalista da classe trabalhadora. E assumir uma perspectiva comparativa e internacionalista permite iluminar não apenas as formas de dominação, mas também as trajetórias de resistência, solidariedade e articulação política entre as diversas lutas dos povos e grupos sociais racializados ao redor do mundo”, escreve.

“A ascensão de lideranças como Donald Trump revela a atualidade da relação entre racismo e imperialismo. O político republicano, ao buscar elevar o antagonismo racial à condição de principal motor dos conflitos sociais nos Estados Unidos, também usou o racismo como pano de fundo para sua guerra comercial com a China. Infelizmente, essa realidade não é exclusiva dos Estados Unidos. Em diferentes contextos históricos, a ascensão do nacionalismo autoritário e as ameaças à democracia muitas vezes assumem uma forma xenofóbica ou abertamente racista. 

Ideologicamente, a opressão racial no Brasil foi associada à suposta incapacidade da massa negra em se integrar ao modo de vida moderno. Daí chegou-se à naturalização da condição marginal do negro e à necessidade de submeter suas comunidades ao assédio policial constante. Ainda hoje, cobra-se ao trabalhador negro um comportamento submisso, equivalente àquele que o senhor exigia do escravizado. Afinal, a morte do trabalhador negro continua dependendo da decisão autocrática do braço armado do Estado. Diante de tamanha opressão, quais seriam as principais características da resistência negra no país?”
— Ruy Braga

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