Dinarco Reis Filho, um sorriso em nossa bandeira

Mauro Iasi presta uma homenagem a Dinarco Reis Filho, histórico militante do PCB que faleceu no último dia 31 de julho.

Por Mauro Luis Iasi

Quando é abatido o que não lutou só
O inimigo
Ainda não venceu

Bertold Brecht

Era o dia 14 de novembro de 1932, fazia pouco tempo que Getúlio Vargas havia amarrado seus cavalos no obelisco na cidade do Rio de Janeiro. Prestes havia entrado no PCB e conclamava a necessidade de uma revolução socialista, feita por operários, camponeses, soldados e marinheiros. Um tenente aviador, ex-operário eletricista, que havia se rebelado junto com os revoltosos de 1930, entrou em contato com o livro de John Reed, Os dez dias que abalaram o mundo, e leu o Manifesto Comunista. Seu mundo estava mudando, mas, por um momento, toda sua atenção desviou-se dos ventos tempestuosos da história. Era 14 de novembro de 1932 e sua esposa, Lygia França Reis, trazia nos braços um pequeno bebê, seu filho.

Ele, tenente aviador, pronto para embarcar em uma revolução, acreditou que uma vida só seria pouco e resolveu deixar seu nome com o menino que acabara de nascer, assim veio ao mundo Dinarco Reis Filho. O pai, no ano seguinte, entraria para o PCB e dois anos depois estava na tentativa revolucionária de 1935. Depois da derrota, partiu para a Espanha e se aliou aos seus camaradas na Guerra Civil contra os fascistas de Franco, foi preso e levado a um campo de concentração de onde fugiu para se somar à resistência francesa e lutar contra os nazistas.

No Rio de Janeiro, uma criança crescia e só veria seu pai novamente em 1944, mas nunca ficou sozinha. Nós comunistas somos seres estranhos, nossa família não reconhece somente laços de sangue, nosso sangue percorre as veias do planeta e desabrocha na solidariedade de nossa classe. No aparelho do Partido em Niterói, Dinarquinho, com seus doze anos, morava junto com Carlos Marighella, David Capistrano e Claudino José da Silva.

Quatro anos depois, cumpria-se a profecia de seu pai. Dinarquinho entrava para a União da Juventude Comunista e, em 1951, passaria a compor as fileiras do PCB. Seu pai tinha razão, uma vida só é pouco, não basta tentar uma revolução no Brasil, lutar contra os fascistas na Espanha e contra os nazistas na França, era preciso defender o petróleo brasileiro e lutar contra o envio de tropas para a Coreia. Era preciso organizar os trabalhadores para mudar o mundo.

Dinarquinho se tornou petroleiro em 1959 através de um concurso público e logo passou a militar pela criação do Sindicato dos Petroleiros em Caxias, do qual foi fundador e participou da direção em 1962. Era preciso mudar o mundo.

Mas, nossos inimigos não aceitariam o fim da exploração que os enriquece e da qual se fundamenta seu poder. Em 1964 vem o golpe infame que unia burgueses, latifundiários e o imperialismo com seus títeres militares para promover um banho de sangue e jogar nosso país em uma imensa e sofrida noite. Dinarco Reis Filho seria demitido e cassado pelo crime de opinião. Mais uma vez a clandestinidade, mais uma vez a vida em aparelhos e mais uma vez a resistência, a coragem e a determinação daqueles que não se rendem.

Toda noite, enfim, encontra sua aurora. Nossa bandeira se tinge novamente do vermelho que lhe dá vida, convida os trabalhadores a se unirem para mudar o Brasil e o mundo, forjar o futuro com o machado da história, semear e colher o trigo de novos pães cortando as raízes da exploração com nossa foice afiada.

Assim, como Dinarquinho estava lá na dura clandestinidade, apresentou-se mais uma vez na difícil tarefa de reconstrução do PCB, não apenas contra a ditadura, mas também contra o oportunismo e o liquidacionismo daqueles que optaram por se somar às hordas da barbárie, tornando-se linha auxiliar da direita. Os comunistas verdadeiros não escolhem caminhos fáceis. Dinarquinho estava com seus camaradas sob uma frondosa árvore, sem aparatos, recursos, cargos, mas mantendo nossa bandeira e nossos princípios.

Durante todo o período de reconstrução revolucionária esteve lá, não apenas com sua dedicação e zelo no cumprimento das tarefas como membro do Comitê Central do PCB, com sua firmeza na hora de fazer a crítica ou defender suas opiniões, mas também com seu sorriso e sua alegria, cercado sempre de jovens que o respeitavam e riam com ele.

Seu pai tinha razão, uma vida só é pouco. Por isso Dinarquinho transformou em seus filhos todos nós que o seguimos e respeitamos. Nossa bandeira vermelha recolhe um dos imprescindíveis e tremula mais altiva do que nunca. Segue vermelha, traz em sua carne os símbolos da luta de operários e camponeses e ainda os conclama para a unidade necessária. Cada um dos nossos contribuiu com esta imensa bandeira, com uma gota de sangue, com o suor do trabalho, com o esforço muitas vezes invisível da organização e da militância. Dinarco Reis Filho deixou um pouco de tudo isso, mas quando olho agora nossa bandeira, na hora de sua partida, vejo um inconfundível enorme e generoso sorriso.

Dinarco Reis Filho… presente!

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Confira o Café Bolchevique, coluna mensal de Mauro Iasi na TV Boitempo, em que nosso querido colunista comenta os 100 anos de história do PCB e nos ajuda a confrontar a realidade para entendermos que o comunismo está muito longe de ser uma ideia anacrônica nos dias de hoje.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.

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