Centenário do PCB: o ingresso de Luiz Carlos Prestes no PCB e a suposta militarização da direção partidária

O golpismo (por vezes entendido como militarismo), assim como possíveis tendências autoritárias e influências positivistas ou de outras correntes filosóficas e políticas, na direção do PCB não pode ser visto como resultado do ingresso de Luiz Carlos Prestes e de alguns outros militares ou ex-militares nas fileiras partidárias. Semelhante postura significaria atribuir-lhes um papel demiúrgico, irreal, que não encontra confirmação nos fatos.

 Por Anita Leocadia Prestes

As versões tradicionais

É muito presente na historiografia brasileira a tese de que o ingresso de Luiz Carlos Prestes no PCB, em 1934, teria trazido o militarismo (entendido como golpismo)1 para a direção partidária. Edgard Carone parece ter sido o pioneiro dessa tese, ao afirmar que o “ex-tenentismo […] vai tornar-se determinante no PCB”.2 A seguir, Leôncio Martins Rodrigues escreve que “a adesão de Prestes teve consequências profundas para o futuro do PCB. Com ele vieram os militares que, posteriormente, assumiriam posições de comando no Partido, produzindo essa mistura de stalinismo e tenentismo que caracterizou o PCB nos anos subsequentes”. Rodrigues afirma que, em 1935, teriam ocorrido modificações “na composição social do Partido”, com “a presença de jovens oficiais na liderança do PCB”, que “transformou a tática stalinista da frente única antifascista, ou da rebelião popular, numa típica quartelada tenentista”.3

Na mesma época, José Antônio Segatto, seguindo a linha de análise de Carone, acrescenta que “entre 1932 e 1934, começam a entrar no PCB os antigos ‘tenentes de esquerda’, que ascendem rapidamente aos cargos de direção, e cuja presença terá consequências várias na organização e atuação política do PCB”. Ressalta que o Partido “incorporará em suas fileiras muitos militares e ex-militares – entre os quais Luís Carlos Prestes – que trazem para o interior do partido uma série de problemas ideológicos e de concepção política”, mas reconhece que colaboram para tirar o PCB de um “certo isolamento político”.4

Moisés Vinhas, ex-dirigente do PCB, escreve que “a adesão de Prestes e do tenentismo mais radical ao PCB traz para o partido o peso da influência pequeno-burguesa e golpista”, embora retire “o pequeno partido de seu isolamento” e lhe dê “um peso político na sociedade que está muito além de sua capacidade de influência e capitalização orgânica.”.5

Ronald Chilcote, conhecido brasilianista, que produziu uma obra sobre o PCB por muitos considerada de referência, afirma que “a entrada de Prestes no PCB destruiu o elemento proletário remanescente e garantiu a dominação burguesa radical sobre o partido”.6

Para Paulo Sérgio Pinheiro, o militarismo de Luiz Carlos Prestes teria se fundido com a estratégia da IC (Internacional Comunista) e do PCB.7 Assim “a superposição do militarismo ao comunismo” seria consequência da “mesma concepção do Estado como uma fortaleza a conquistar através da insurreição armada”;8 “entre 1929 e 1935 […] os comunistas ficaram atrelados às decisões de Luiz Carlos Prestes enquanto militar. Na política partidária e nos sindicatos, davam-se alguns passos em termos de uma estratégia de frente, mas preservava-se a perspectiva insurrecional”.9 Pinheiro conclui que “o golpismo tenentista se conjugou com a estratégia da IC […] porque correspondia a uma visão militarizada da insurreição nos países ‘semicoloniais’ (nos quais se incluía o Brasil)”.10

Uma variante da tese da militarização do PCB, entendida como golpismo, com o ingresso de Luiz Carlos Prestes e outros militares que o teriam acompanhado é apresentada por Marcos Del Roio. Este autor escreve que, a partir de meados do ano de 1934, com “uma ampla reorganização da direção partidária”, teria ocorrido uma “rápida transição do ‘obreirismo’11 para o ‘prestismo’ na composição da direção do partido”, atribuindo tal transformação principalmente à presença de Antônio Maciel Bonfim (Miranda) e Honório de Freitas Guimarães (Martins), respectivamente secretário-geral e secretário de organização. Segundo tal versão, Miranda e Martins seriam adeptos do “prestismo” por supostamente terem militado na efêmera Liga de Ação Revolucionária (LAR), criada por Prestes em seu exílio argentino em julho de 1930 e extinta em outubro do mesmo ano.12 Não se tem notícia de Prestes alguma vez ter se referido a tal adesão, que só poderia ter sido passageira. Jamais Miranda ou Martins foram seguidores de Prestes ou pessoas próximas a ele. Del Roio, contudo, afirma que em junho de 1934 teve lugar “o início do predomínio de elementos egressos do ‘prestismo’ e o fim da instabilidade crônica na composição do CC (Comitê Central)”.13

Vale lembrar que Prestes só foi aceito no PCB em setembro de 1934 e sua incorporação no CC teve lugar no final de novembro de 1935, às vésperas do levante antifascista na capital da República.14 Segundo Del Roio, a partir da Primeira Conferência do PCB, realizada em julho de 1934, formou-se “uma nova direção imbuída de uma visão insurrecional, que promoveria a expansão do PCB para outras camadas sociais que não a classe operária, mas pouco contribuiria para forjar a organização operária nas fábricas, sem o que uma perspectiva revolucionária centrada nessa classe estaria inviabilizada. A fusão entre o prestismo e o stalinismo estava se completando.”  A seguir este autor considera que, com o ingresso de Prestes no CC, atingia-se o “controle do PCB por Prestes” juntamente com Miranda e Martins, e a “intervenção da IC, orientada pela concepção taticista e esquemática do stalinismo, acabou por compor o quadro de modo a configurar uma direção prestista-stalinista no PCB, predisposta ao golpe voluntarista […].”15 De acordo com essa versão, a “fusão prestismo-stalinismo” teria sepultado a orientação política, considerada mais adequada às condições nacionais, que vigorara no PCB até a adoção pela sua direção das resoluções aprovadas no VI Congresso da IC e supostamente imposta por esta a partir de 1930.16 Del Roio conclui que essa “fusão prestismo-stalinismo” teria significado a afirmação da “visão insurrecional do processo de transformação social”,17 entendida como a consagração do golpismo, trazido para o PCB por Prestes e os militares que o teriam seguido.

Em texto mais recente, Del Roio, ao atribuir, nas décadas de 1920/30, uma influência exagerada das ideias positivistas no Exército18 e no movimento comunista, se refere a “uma nova síntese político-cultural” naquele período: “o encontro da esquerda positivista existente nas fileiras do exército com a difusa influência positivista presente nas lideranças do movimento operário que assimilaram o impacto da revolução russa e do marxismo terceiro-internacionalista na sua versão staliniana”.19 Adiante, Del Roio reafirma, sem comprovação alguma, a tese de Antônio Maciel Bonfim e Honório de Freitas Guimarães terem sido “elementos egressos do ‘prestismo’[…] que passaram a “predominar na direção partidária que se consolidou na chamada I conferência nacional do PCB, de julho de 1934”.20 A mesma afirmação é feita pelo autor em outro texto, ao escrever que nessa conferência do PCB “um novo grupo dirigente se conformava a partir de um setor de ‘esquerda’ do grupo dirigente original, engrossado com elementos simpáticos a Prestes e que o seguiram na sua adesão ao comunismo“.21

O sociólogo Décio Saes refere-se a uma suposta “fusão da LAR com o PCB em 1934”, tese desmentida pelas evidências factuais.22 Para Saes, a partir dessa “fusão” a “influência da ‘ala esquerda’ do tenentismo no seio do partido operário não cessará de crescer”, acrescentando: “todavia, é preciso enfatizar que a fusão do tenentismo de esquerda com o PCB não foi suficiente para subtrair ao seu comportamento político todos os traços de sua prática política anterior”. O autor diz que não se refere “ao eventual caráter ‘pequeno-burguês’ da política do partido operário depois de 1934, mas ao golpismo e ao militarismo que caracterizaram sua ação depois da incorporação dos antigos integrantes da LAR”.23

Homero de Oliveira Costa, adotando as posições de Leôncio Martins Rodrigues quanto à “mudança substancial da composição social do partido” com o ingresso de Prestes e demais militares que o acompanharam, afirma que “com a aceitação de Prestes e de Antônio Maciel Bonfim, há uma entrada significativa de militares no partido, assumindo posições de destaque na hierarquia interna”.24

Para Dulce Pandolfi, tanto o comunismo quanto o tenentismo coincidiam em seu desejo de “através das armas, transformar a sociedade brasileira” e, dessa forma, Luiz Carlos Prestes e outros militares rebeldes da década de 1920 “acolheram com simpatia a proposta ‘revolucionária’ dos comunistas”.25 A mesma autora, mais recentemente, escreveu que “o ingresso de Prestes no PCB produziu modificações significativas na estrutura partidária. O ‘prestismo’ era maior que o ‘pecebismo’”. E, citando artigo de Gildo Marçal Brandão, afirma: “Com o PCB, Prestes passava a dispor de uma organização hierárquica, semimilitarizada, bem adequada à sua formação militar e ao seu estilo personalista e carismático”.26

Gildo Marçal Brandão, ao defender a tese da presença na história do PCB de “duas almas”: a “alma civilista e institucional, propositiva, parlamentar e democrática, de um lado, e a de viés insurrecional e golpista, mais tenentista do que marxista, mais positivista do que dialética, mais voluntarista do que analítica”,27 considera que essas “duas almas” iriam marcar a trajetória de Luiz Carlos Prestes. Brandão, com base em artigo de Francisco Weffort, postula que, com “o ingresso de Prestes, então no auge de seu prestígio como o ‘Cavaleiro da Esperança’, no Partido Comunista […] a influência ideológica da pequena burguesia passa, desde então, a ocupar um lugar dominante no setor mais forte da esquerda”, sendo o “prestismo” uma “variante vermelha do tenentismo”, numa citação de Fernando Pedreira. 28

Maria Alice Rezende de Carvalho é mais uma autora a aceitar a tese de Leôncio Martins Rodrigues de considerar a política do PCB em 1935, marcada pelo golpismo, fruto de “uma nova ‘demografia’ partidária, povoada por lideranças radicalizadas do tenentismo […]”.29

Na mesma linha, Lincoln Secco escreve que “a composição social do PCB muda com a entrada de Luís Carlos Prestes”, acrescentando que “depois da Revolução de 1930 aquele partido de trabalhadores manuais atrai camadas médias do estamento militar (os tenentes) e pessoas por eles influenciadas […]”.30 Lincoln Secco afirma que, dos anos 1930-1938 “a maioria dos dirigentes daquele período que permaneceram…[no PCB]…eram oficiais militares prestistas”.31

A historiadora Marly Vianna, ao abordar a História do PCB, identifica a concepção nacional-libertadora adotada pelo partido com posições “tenentistas”, afirmando que, a partir de 1940 até 1980, a influência tenentista fora predominante na direção do partido e a composição da maior parte da Comissão Executiva do Comitê Central do PCB teria sido sempre a mesma desde 1935.32

As informações disponíveis sobre a composição da direção do PCB

Diante das teses apresentadas – cujos autores citados podem ser vistos como representativos de uma corrente que considera o ingresso de Luiz Carlos Prestes no PCB a causa de um suposto militarismo (entendido como golpismo) introduzido na direção partidária –, a comparação com as informações disponíveis sobre a composição dessa direção a partir de 1934 pode contribuir para o esclarecimento da trajetória do partido no período compreendido entre 1930 e 1980.

Embora as informações relativas à composição da direção nacional do PCB – partido clandestino durante quase toda sua existência – sejam insuficientes e precárias, é possível obter uma visão aproximada das transformações ocorridas nesse sentido. Após a desarticulação sofrida pelo PCB no início da década de 1930, com a realização da sua Primeira Conferência em julho de 1934, tem-se a eleição de um Comitê Central (CC) constituído por 17 membros efetivos e suplentes, entre os quais não há nenhum militar,33 pois Antônio Maciel Bonfim, eleito secretário-geral, tivera uma passagem efêmera pelo exército na juventude, chegara a sargento, mas abandonara logo essa corporação, tornando-se professor e dedicando-se a outras atividades.34

O CC eleito em agosto de 1943, na Conferência da Mantiqueira, segundo Moisés Vinhas, ex-dirigente do PCB, era constituído por 21 membros, sendo 6 militares, 6 operários, 5 intelectuais, 1 funcionário e 1 sobre o qual não foi possível obter informações.35 Numa abordagem mais precisa, seriam apenas 4 militares nesse CC, pois Maurício Grabois, segundo seu biógrafo, ingressou na Escola Militar do Realengo em 1932, no meio do ano foi rebaixado a soldado raso e em 1933 expulso da Escola, não sendo possível, portanto, considerá-lo ex-militar;36 e José Militão Soares, também listado por Vinhas como ex-militar, é citado por Dinarco Reis, outro ex-dirigente do PCB, como cozinheiro.37 Vinhas refere-se ao Secretariado do CC então eleito: Luiz Carlos Prestes, Álvaro Ventura, Diógenes Arruda, Maurício Grabois e Pedro Pomar38 (Prestes é o único militar).

Sobre o CC eleito nessa Conferência temos também uma listagem no jornal do PCB Tribuna Popular, citada por Berenice Cavalcante,39 da qual constam 22 membros (16 efetivos e 6 suplentes), entre os quais o único ex-militar citado é Luiz Carlos Prestes; outra lista é apresentada por Dinarco Reis, com 26 membros, sendo 5 ex-militares.

Em julho de 1946, realiza-se a 3ª Conferência do PCB, na qual o CC foi renovado e ampliado, segundo Vinhas, para um total de 29 membros efetivos, incluindo 5 militares, e 15 suplentes. A Comissão Executiva do CC era constituída por Luiz Carlos Prestes, Diógenes Arruda, Pedro Pomar, Francisco Gomes, João Amazonas, Maurício Grabois, Milton Cayres de Brito, Agostinho Dias de Oliveira e Sérgio Holmos (Prestes – o único militar); e pelos suplentes Carlos Marighella, David Capistrano da Costa e Mautílio Muraro.40 Ronald Chilcote apresenta uma listagem dos membros do CC, extraída do jornal Folha do Povo, de 17/12/1946, segundo a qual Agildo Barata (ex-militar) também estaria incluído nesse CC.41

No IV Congresso do PCB, realizado em novembro de 1954, Vinhas diz terem sido eleitos 30 membros efetivos (incluindo 8 militares) e 15 suplentes para o CC (incluindo 2 militares), mas não fornece informações sobre a Comissão Executiva.42

No V Congresso do PCB, realizado em setembro de 1960, são apresentados por Vinhas 33 membros efetivos eleitos para o CC (incluindo 10 militares) e 17 suplentes, composição que é confirmada por Ronald Chilcote com pequenas alterações, baseadas em tese de mestrado defendida por J.W.F. Dulles em 1969. Ainda segundo Vinhas, a Comissão Executiva ficara composta por Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias, Mário Alves, Orlando Bonfim, Ramiro Luchesi, Carlos Marighella e Geraldo Rodrigues dos Santos (Prestes e Gicondo Dias – ex-militares).43

Ronald Chilcote apresenta em seu livro uma listagem do CC em junho de 1964, que ele considera confiável por ter sido publicada em O Estado de São Paulo de 01/07/1964, baseada em informações dadas à polícia por Neri Reis de Almeida, ex-dirigente do partido. Constam dessa listagem 30 membros do CC, incluindo 6 militares. Outra listagem apresentada por Chilcote, referente a janeiro de 1967, revela-se muito falha, citando apenas 22 membros do CC.44

O VI Congresso do PCB, realizado em dezembro de 1967, segundo Vinhas, elegeu 32 membros efetivos (12 militares) e 24 suplentes para o CC. Sua Comissão Executiva foi constituída por Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias, Orlando Bonfim, Jaime Miranda, Zuleika Alambert, Dinarco Reis, Geraldo Rodrigues dos Santos (Prestes, Giocondo Dias e Dinarco Reis – ex-militares) e os suplentes Ramiro Luchesi, Walter Ribeiro e Marco Antônio Coelho.45

As informações apresentadas sobre a composição do CC e do seu Secretariado ou Comissão Executiva, entre 1934 e 1967, embora aproximadas e imprecisas, revelam que em 1934/35 não havia militares na direção do PCB, desmentindo a tese de uma suposta ascensão “militarista” ou “tenentista” no partido no período que antecedeu os levantes antifascistas de novembro de 1935, ainda que muitos ex-tenentes, sob a influência de Prestes, tivessem ingressado nas fileiras partidárias ou se mantivessem nas condições de seus simpatizantes.

A lista de membros do CC em 1934, apresentada por Del Roio, revela também que José Medina de Azevedo (trabalhador marítimo) foi o único entre todos a permanecer na direção eleita na Conferência da Mantiqueira, desmentindo a tese de uma continuidade de direções “tenentistas” e “supostamente militarizadas” a partir daquela data. Na Conferência de 1943, formou-se, efetivamente, um novo grupo dirigente do PCB, o qual, com alterações nada desprezíveis, sobreviveria nas décadas ulteriores. Cabe assinalar, contudo, que a percentagem de ex-militares no CC em todo o período apreciado manteve-se na faixa de menos de 30%, atingindo 37,5% no VI Congresso, realizado após a grave crise provocada pelo golpe civil-militar de 1964 e as grandes defecções ocorridas nas fileiras partidárias. Para o Secretariado e a Comissão Executiva do CC, apenas no V Congresso, junto com Prestes foi eleito outro ex-militar, o ex-cabo do Exército Giocondo Dias, e no VI Congresso, além deles, o ex-tenente da Aviação Dinarco Reis.

O golpismo na direção e nas fileiras do PCB

A partir do exposto, verifica-se a inconsistência da tese de uma suposta “militarização” da direção do PCB, a qual explicaria a tendência golpista presente em suas decisões e práticas políticas. O golpismo, certamente, esteve presente nas orientações adotadas e na atividade prática promovida pelo PCB, tendência que sempre marcou profundamente a sociedade brasileira. Os comunistas brasileiros, dadas as limitações de sua formação num meio cultural conservador e atrasado, não puderam superar essa tendência golpista.

Os militares eram os únicos na sociedade brasileira, principalmente a partir dos meados do século XIX, que dispunham de armas e de organização com capacidade para intervir na política nacional. Caio Prado Júnior assinalou que,

se são militares que formam na vanguarda dos movimentos de regeneração política do Brasil, é que suas armas lhes davam a possibilidade de agir; e não estava ainda em condições de substituí-los a ação das massas populares, desorganizadas e politicamente inativas. Os ‘tenentes’ assumirão por isso a liderança da revolução brasileira.46

Como escreveu Sérgio Buarque de Holanda, referindo-se ao período imperial,

no Brasil, onde funcionava uma caricatura do regime representativo, e onde a participação popular, em vez de ampliar-se, se rarefez cada vez mais, os setores ignorados ou espoliados pelas oligarquias dominantes, e que formavam a grande maioria da nação, se inclinavam a secundar com frequência de bom grado aqueles que, entre os muitos descontentes com a situação, eram os únicos em condições de desafiar com bom êxito as mesmas oligarquias.47

Atribuir a Luiz Carlos Prestes e aos jovens militares que em 1935 o acompanharam na adesão à Aliança Nacional Libertadora (ANL), e a uma parte deles que também ingressou no PCB, a responsabilidade pela presença das tendências “pequeno-burguesas” e golpistas na direção e nas fileiras do partido significa conceder-lhes um papel demiúrgico irreal. Cabe lembrar, como apontou Luiz Werneck Vianna, que “a entrada de Prestes instalou a política dos comunistas no centro da política brasileira, de onde nunca mais saiu”, destacando-se ele “do tenentismo e dos seus ideais liberais, tornando-se um homem de convicções socialistas”.48

Numa sociedade como a brasileira, em que as classes dominantes sempre tiveram força para impor aos setores populares um estado de desorganização e desestruturação social, que se tornou um dos seus traços distintivos; numa sociedade excludente e “gelatinosa”, como diria Antonio Gramsci, na qual inexistiam espaços para as massas populares serem ouvidas, nem canais através dos quais elas pudessem fazer valer seus direitos e reivindicações, a expectativa de um “golpe salvador” seria consequência natural. Em 1930, amplos setores da sociedade brasileira esperavam de Prestes a adesão a um “golpe salvador” por ele recusado, pois compreendeu que inexistiam no país forças sociais e políticas organizadas e conscientes para lhe dar sustentação numa eventual vitória, que o transformaria em refém dos setores oligárquicos que conquistaram o poder em outubro daquele ano com Getúlio Vargas à frente.

Alguns analistas consideram que a intervenção da IC na organização e nas decisões do PCB no final dos anos 1920 – fruto da orientação política sectária e esquerdista aprovada em 1928 no VI Congresso dessa entidade mundial dos comunistas –, a qual “resultou no afastamento do PCB de Astrojildo Pereira e Octávio Brandão” (considerados suas principais lideranças), teria interrompido, como escreve Antonio Carlos Mazzeo, “originais reflexões sobre a realidade brasileira, assim como a linha política  que vinha sendo desenvolvida por aquele grupo dirigente, mesmo que se tenham em conta suas enormes debilidades no plano teórico”.49 Frente a essa tese, cabe lembrar que, sob a influência do meio social onde atuavam os comunistas, as tendências golpistas não deixaram de estar presentes desde o início da existência do PCB.

Os formuladores das “reflexões originais”, referidas pelos defensores da tese que atribui à intervenção da IC no PCB a responsabilidade pelo isolamento do partido nos acontecimentos de 1930, apostavam numa revolta tenentista que os comunistas deveriam apoiar e, ao fazê-lo, tentar conquistar a hegemonia da classe operária – algo praticamente impossível, considerada a debilidade do movimento operário brasileiro durante todo aquele período.50 É admissível especular a respeito de uma suposta não intervenção da IC, assim como de uma possível continuidade da política que vinha sendo adotada até então pelo PCB: nesse caso, a aliança com os “tenentes” teria evitado o isolamento dos comunistas em 1930, mas estes, junto com a maioria dos “tenentes”, ficariam a reboque dos vitoriosos do movimento armado daquele ano. Como é sabido, com exceção de Prestes e mais alguns poucos seguidores seus, a partir de 1929/30, o tenentismo aderiu a Vargas e abandonou seus ideais liberais anteriores e, para alguns, até mesmo “revolucionários”.51

Em 1934/35, a persistência das tradições golpistas na sociedade brasileira, assim como o desconhecimento generalizado da realidade nacional e a débil penetração do marxismo junto à intelectualidade do país contribuíram decisivamente para uma formação teórica precária e insuficiente dos dirigentes comunistas, sujeitos por isso a toda sorte de influências ideológicas burguesas e pequeno-burguesas, como o liberalismo, a maçonaria, o positivismo, o reformismo social-democrata, o radicalismo pequeno-burguês, etc. Tal situação levou o PCB a elaborar uma avaliação errônea da situação nacional, postulando a existência de uma “situação revolucionária” inexistente no Brasil. Ao mesmo tempo, o desconhecimento total da América Latina e, em particular, do Brasil pela IC não permitiu de sua parte uma ajuda consistente aos comunistas brasileiros diante da realidade complexa com que se defrontavam.

Ao fazer um balanço dos acontecimentos de 1935, destaquei os seguintes aspectos:

Na realidade, tanto os comunistas brasileiros quanto os dirigentes da IC revelaram profundo desconhecimento da realidade que pretendiam transformar. Não havia no Brasil uma “situação revolucionária” nem os setores (civis e militares) em que se apostava para desencadear a “insurreição nacional popular” estavam preparados para desempenhar esse papel. As concepções golpistas marcaram de maneira decisiva toda a atividade desenvolvida pelo PCB e a ANL. Luiz Carlos Prestes também estava sob influência de tais ideias, com um agravante, o isolamento em que se encontrava, seu desconhecimento dos dirigentes do PCB e de sua militância, levando-o a se transformar no comandante de um movimento cujo controle não era seu, diferentemente do que ocorrera durante a Marcha da Coluna.52

A argumentação apresentada, com base em pesquisa empírica e factual, é reveladora de que o golpismo (por vezes entendido como militarismo), assim como possíveis tendências autoritárias e influências positivistas ou de outras correntes filosóficas e políticas, na direção do PCB não pode ser visto como resultado do ingresso de Luiz Carlos Prestes e de alguns outros militares ou ex-militares nas fileiras partidárias. Semelhante postura significaria atribuir-lhes um papel demiúrgico, irreal, que não encontra confirmação nos fatos.

O Partido Comunista no Brasil, criado por um pequeno grupo de ex-anarco-sindicalistas e, em grande medida, sob a influência da repercussão mundial da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, foi marcado, ao mesmo tempo, pelos traços característicos de uma sociedade sob o domínio permanente das oligarquias agrárias e escravistas e, em consequência disso, uma realidade em que vigorava a despolitização e desorganização dos setores populares; uma sociedade em que sempre se registrou a violência das classes dominantes, assim como as tendências autoritárias dos governantes. Tais circunstâncias contribuíram decisivamente para a penetração extremamente débil do marxismo na cultura nacional, inclusive no PCB, cuja existência foi marcada pela repressão policial e a necessidade de recorrer à vida clandestina para sobreviver. Como mostraram Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda, o conjunto desses fatores levou os militares a assumirem um protagonismo importante na história nacional e, desta forma, as concepções golpistas adquiriram grande relevo na sociedade em geral e, em particular, junto à militância comunista.


Notas
1 Golpismo – concepção segundo a qual as transformações sociais e políticas podem ser realizadas ou pelo menos iniciadas através de intervenção militar.
2 CARONE, Edgard. A República Nova (1930-1937). 2ª ed. São Paulo: Difel, maio/1976, p. 240; A Terceira República (1937-1945). São Paulo: Difel, maio/1976, p. 482.
3 RODRIGUES, Leôncio Martins. “O PCB: os dirigentes e a organização”. In: FAUSTO, Boris (org.). História Geral da Civilização Brasileira, T.III – O Brasil Republicano, V.3 – Sociedade e Política (1930-1964).  São Paulo: Difel, 1981, p. 371, 375-376.
4 SEGATTO, José Antônio. Breve História do PCB. São Paulo: Livr. Ed. Ciências Humanas, 1981, p. 37, 112.
5 VINHAS, Moisés. O Partidão: a luta por um partido de massas (1922-1974). São Paulo; Ed. Hucitec, 1982, p. 70.
6 CHILCOTE, Ronald H. Partido Comunista Brasileiro: conflito e integração (1922-1972). Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1982, p. 301.
7 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil, 1922-1935. São Paulo: Comp. das Letras, 1991, p. 13, 17, 189, 193, 209, 331.
8 Ibidem, p. 17, 217.
9 Ibidem, p.189; grifos meus.
10 Ibidem, p. 331.
11 “Obreirismo” – política adotada pela Internacional Comunista (IC) e seguida pelo PCB a partir de 1928 com o objetivo de implementar a presença de operários na direção partidária, afastando os intelectuais.
12 PRESTES, Anita Leocadia. Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro. São Paulo: Boitempo, 2015, p. 130-133, 135.
13 DEL ROIO, Marcos. A classe operária na Revolução Burguesa: a política de alianças do PCB: 1928-1935. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990, p. 205, 207, 301-302.
14 PRESTES, A.L. Op. cit
15 DEL ROIO, M. Op. cit., p. 211, 301-302.
16 Ver DEL ROIO, M. Op. cit.
17 Ibidem, p. 317.
18 Para uma abordagem do suposto positivismo de Luiz Carlos Prestes, ver PRESTES, Anita Leocadia, “A respeito do suposto positivismo de Luiz Carlos Prestes”. Disponível em: http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=454:2019-01-17-22-44-23&catid=18:artigos&Itemid=140. Acesso em: 02 ago. 2022.
19 DEL ROIO, Marcos, “A teoria da Revolução Brasileira: tentativa de particularização de uma revolução burguesa em processo”. In: MORAES, João Quartim de; DEL ROIO, Marcos (orgs.). História do marxismo no Brasil. v. IV – Visões do Brasil. Campinas: Ed. da Unicamp, 2000, p. 76.
20 Ibidem, p. 82.
21 DEL ROIO, Marcos, “Os comunistas, a luta social e o marxismo (1920-1940). In: RIDENTI, Marcelo; REIS, Daniel Aarão Filho (orgs.). História do marxismo no Brasil. v. V – Partidos e organizações dos anos 20 aos 60. Campinas: Ed. da Unicamp, 2002, p. 49; grifos meus.
22 PRESTES, A. L. Op. cit., p. 130-133, 135.
23 SAES, Décio. Classe média e sistema político no Brasil. São Paulo: T.A. Queiroz, 1984, p.77; grifos meus.
24 COSTA, HOMERO DE OLIVEIRA. A insurreição comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia. São Paulo: Ensaio; Rio Grande do Norte: Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte, 1995, p. 24.
25 PANDOLFI, Dulce Chaves. Camaradas e companheiros: memória e história do PCB. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; Fundação Roberto Marinho, 1995, p. 109.
26 PANDOLFI, Dulce Chaves. “A trajetória de Luiz Carlos Prestes”. In: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (orgs.). Revolução e democracia (1964…). Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 2007 (As esquerdas no Brasil, v.3), p. 227-228.
27 BRANDÃO, Gildo Marçal. A esquerda positiva: as duas almas do Partido Comunista – 1920/1964. São Paulo: Ed. Hucitec, 1997, orelha do livro.
28 Ibidem, p. 94 (nota 10), 202-203 (nota n. 15).
29 CARVALHO, Maria Alice de Rezende, “Breve história do ‘comunismo democrático’ no Brasil”. In: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (orgs.). Revolução e democracia (1964…). Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 2007 (As esquerdas no Brasil, v.3), p. 267, p.280 (nota 12).
30 SECCO, Lincoln. A batalha dos livros: formação da Esquerda no Brasil. Cotia: Ateliê Editorial, 2017, p. 65.
31 Ibidem, p. 95.
32 VIANNA, Marly, in “Segundo dia do Seminário PCdoB centenário e contemporâneo (14/5/2022)”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Wl_hMWnuoGo&t=893s. Acesso em:18 jul. 2022.
33 A única informação disponível sobre a composição do CC eleito na Primeira Conferência do PCB encontra-se em DEL ROIO, M. A classe operária na Revolução Burguesa. Op. cit., p. 211. Segundo esse autor, a listagem apresentada foi efetuada a partir do cruzamento de informações obtidas em várias obras listadas, com evidente margem de erro.
34 MOREIRA, Raimundo Nonato Pereira, “Antônio Maciel Bonfim (Miranda): um esboço biográfico”, Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 36, n. 72, p. 173-194.
35 VINHAS, Moisés. Op. cit., p. 75-76.
36 BERTOLINO, Osvaldo. Maurício Grabois – uma vida de combates: da batalha de ideias ao comando da Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi; Instituto Maurício Grabois, 2004, p.22-23, 34.
37 REIS, Dinarco. A luta de classes no Brasil e o PCB. V. 1. São Paulo: Ed. Novos Rumos, 1982, p. 62.
38 VINHAS, M. Op. cit., p. 75-76.
39 Tribuna Popular, Rio de Janeiro, 27/06/1946, p. 2; CAVALCANTE, Berenice. Certezas e ilusões: os comunistas e a redemocratização da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Universidade Federal Fluminense/ EDUFF/PROED, 1986, p.133.
40 VINHAS, M. Op. cit., p. 93.
41 CHILCOTE, R. Op. cit., p. 329-331.
42 VINHAS, M. Op. cit., p. 135-136.
43 VINHAS, M. Op. cit., p.184; CHILCOTE, R. Op. cit., p. 329-331.
44 CHILCOTE, R. Idem.
45 VINHAS, M. Op. cit., p. 242-243.
46 PRADO JR., Caio, “Prefácio”. In: LIMA, Lourenço Moreira. A Coluna Prestes: marchas e combates. 3ª ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1979, p. 14.
47 HOLANDA, Sérgio Buarque, “A Fronda Pretoriana”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque (org.). História Geral da Civilização Brasileira, T. II – O Brasil Monárquico, V. 5 – Do Império à República. São Paulo: Difel, 1972, p. 345-346.
48 VIANNA, Luiz Werneck, “PCB, ponto de referência em nossa história política”, Voz da Unidade, n. 51, de 2 a 10/4/1981; apud VINHAS, M. Op. cit., p. 263; grifos meus.
49 MAZZEO, Antônio Carlos. Sinfonia inacabada: a política dos comunistas no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2022, p. 96.
50 Ver CARONE, Edgard. O P.C.B. (1922-1943). V. 1. São Paulo: Difel, fev/1982.
51 PRESTES, Anita Leocadia. Tenentismo pós-30: continuidade ou ruptura? 2ª ed. Rio de Janeiro: Consequência, 2014.
52 PRESTES, A.L. Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro. Op. cit., p. 184; ibidem, p. 161-184.

***
Anita Leocadia Benario Prestes, nascida em 27 de novembro de 1936 na prisão de mulheres da rua Barminstrasse, em Berlim, na Alemanha Nazista, é uma historiadora brasileira, filha dos militantes comunistas Olga Benario Prestes e Luiz Carlos Prestes. É doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada de UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes. Autora da ambiciosa biografia política Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (Boitempo, 2015), do livro Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, 2017) e de Viver é tomar partido: memórias (Boitempo, 2019), em que narra sua extraordinária trajetória de vida, militância e pensamento. Assina também o artigo “Luiz Carlos Prestes e a luta pela democratização da vida nacional após a anistia de 1979” publicado no livro Ditadura: o que resta da transição? (Boitempo, 2014), organizado por Milton Pinheiro.

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