Cultura inútil: Maria-fumaça, leão-de-chácara, toma lá, dá cá etc.

Maria-fumaça, leão-de-chácara, testa-de-ferro, robô, nenê, gilete e strip-tease. Na coluna "Cultura inútil", Mouzar Benedito seleciona curiosidades sobre a origem e os usos de expressões e palavras.

Por Mouzar Benedito

Maria-sem-vergonha é uma flor bonitinha, que tem esse nome porque “dá em qualquer lugar”. Em algumas cidades de Minas Gerais, ela é chamada de “biscatinha”, justamente por “dar em qualquer lugar”. Há muitas coisas com nomes compostos que começam por “maria”, como maria-mijona (mulher que usa saia comprida e larga), maria-vai-com-as-outras (pessoa sem opinião própria), maria-gasolina (que sai com um cara só porque ele tem um carro, de preferência caro), maria-chuteira (que namora tudo quanto é jogador de futebol), maria-mole (vale para o doce e para a mistura de pinga com groselha), maria-fedida (um tipo de percevejo fedorento), maria-teimosa (um dos sinônimos de cachaça), maria-fumaça…

Bem, maria-fumaça, agora, é quase só na memória de velhos, pois as locomotivas a vapor, movidas a lenha, praticamente não existem mais. No Brasil, só há alguns trens turísticos puxados por locomotivas tipo maria-fumaça. E esse apelido só pegou no século XX. Antes disso, no final do século XIX, importava-se dos Estados Unidos locomotivas a vapor da marca Baldwin, e essa marca vinha escrita nelas. Então esse tipo de locomotiva era chamada de balduína. Como Maria é nome popular usado para quase tudo, quando viam uma balduína, muitos diziam: “Lá vem a Maria soltando fumaça”, daí surgiu o nome maria-fumaça.


Frequentando botecos, vejo uns leões-de-chácara altos, fortes, mas mais gordos do que fortes, e imagino que se tiverem que correr atrás de alguém não aguentam cinquenta metros. Estão ali mais para marcar presença e intimidar, imagino. Numa situação “de fato”, não resolvem. “Pesquisei” e fiquei sabendo que, no início, policiais de baixa categoria faziam bico exercendo essa função, e valiam mais pela “estampa” e pela presença, e receberam essa denominação porque eram comparados a leões de louça que antigamente decoravam a entrada de chácaras de ricaços…


Sobre computador, já comentei o que se segue em algum lugar, mas vá lá. O escritor José Cândido de Carvalho, autor de O coronel e o lobisomem, nascido em Campos dos Goytacazes (RJ) em 1914, morreu em 1989. Muitos anos antes de morrer, não havia internet e os computadores não tinham nem um centésimo das funções que têm hoje, mas ele já se incomodava muito com certas mudanças ocorridas no mundo, incluindo essa máquina que hoje manda nas pessoas, nas relações pessoais, comerciais e tudo mais.

No livro Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicão (publicado em 1970) tem um texto intitulado “JCC”, história pessoal em que ele mesmo se apresenta. Reproduzo a seguir o último parágrafo desse texto:

“Publiquei o primeiro livro em 1939 e o segundo precisamente 25 anos depois. Entre Olha para o céu, Frederico e O coronel e o lobisomem o mundo mudou de roupa e de penteado. Apareceu o imposto de renda, apareceu Adolph Hitler e o enfarte apareceu. Veio a bomba atômica, veio o transplante. E a Lua deixou de ser dos namorados. Sobrevivi a todas essas catástrofes. E agora, não tendo mais o que inventar, inventaram a tal de poluição, que é doença própria de máquinas e parafusos. Que mata os verdes da terra e o azul do céu. Esse tempo não foi feito para mim. Um dia não vai haver mais azul, não vai haver mais pássaros e rosas. Vão trocar o sabiá pelo computador. Estou certo que esse monstro, feito de mil astúcias e mil ferrinhos, não leva em consideração o canto do galo nem o brotar das madrugadas. Um mundo assim, primo, não está mais por conta de Deus. Já está agindo por conta própria.”


O lápis, invenção do químico francês Nicolas Jacques Conté, começou a ser produzido em 1795.


A palavra “robô” foi criada pelo escritor tcheco Karel Capek (1890-1938), com base no termo “robota”, que em sua língua significa “trabalho”. Ele usou esta palavra na peça R.U.R (abreviatura de Rossum’s Universal Robots), que fez grande sucesso em Paris, Londres e Nova York.


Isso eu também já comentei por aí: vocês sabem por que criança de colo é chamada de “bebê” e de “nenê” ou “neném”? Bebê era o apelido de um anão francês, bem pequenininho, chamado Nicolas Ferry. Do apelido dele derivou a palavra “bebê” com o significado que tem hoje inclusive aqui no Brasil. Já a palavra “nenê”, e sua variante “neném”, é de origem brasileira mesmo, dos tempos da escravidão indígena. As senhoras lusitanas usavam mulheres indígenas como babás. Criança indígena quando faz cocô é logo limpada e não fica fedendo, pois não usa cueiro. Já as crianças que as brancas punham aos cuidados das escravizadas indígenas, borravam-se e ficavam fedendo, envoltas em panos. As indígenas, com nojo, falavam para as mães das crianças: “nê… nê”. As matronas achavam que as mulheres indígenas estavam falando coisinhas bonitas dos seus pimpolhos fedidos e passaram a se referir a eles como nenês… Mas “nê”, em tupi, significa “feder, fedido”. Nenê é “muito fedido”.


Assim falou Guimarães Rosa: “Só o pobre é que tem direito de rir, mas para isso lhe faltam os fins ou motivos”.


Quase não ouço mais a expressão “testa-de-ferro”, para falar de pessoas que aparecem como donas de um negócio ou empresa, enquanto os verdadeiros nomes ficam na moita, escondidos, dissimulados. Xingava-se de testa-de-ferro, por exemplo, pessoas que representavam interesses de capitalistas gringos. Roberto Campos, que comandou a política econômica entreguista (tá aí outra expressão em desuso, apesar do entreguismo estar cada vez mais escancarado) do governo Castello Branco, era um deles, chegando por isso a ser apelidado Bob Fields.

Entreguista era um xingamento. Hoje em dia, há muitos como ele, mas acham isso normal. Algumas coisas mudaram nesta área: muitos capitalistas usam agora pessoas que aparecem como donas de suas empresas mutreteiras sem saberem, e são chamadas de laranjas. Não se sabe a origem do termo “laranja” para falar de uma dessas pessoas, mas acredita-se que seja porque, como fazem com a fruta, tiram tudo de útil dela e jogam o bagaço fora.


Outra palavra que não ouço mais: “gilete”. Durante muito tempo, a única lâmina de barbear descartável existente no Brasil era da marca Gilete, nome do seu inventor, o estadunidense King Kamp Gillette. Outras lâminas foram surgindo, mas chamavam de “gilete da marca tal”. Não vinham já “montadas” em aparelhos de barbear, como nos atuais. Elas tinham lâminas dos dois lados. Por isso, a palavra gilete passou a ser usada também como sinônimo de bissexual: “corta dos dois lados”. Já não se usa a palavra nesse sentido também.


Existem trens que atingem a velocidade de mais de 400km/h (em testes, já tem no Japão um trem que chega a 580km/h). Na Rússia, um trem chamado Sapsan vai de Moscou a São Petersburgo e Nizhny Novgorod viaja a 250 km por hora. Sapsan é o nome russo do falcão, considerada a ave mais rápida do mundo.


O verbo inglês “to strip” significa retirar o invólucro ou a cobertura, e, por extensão, tirar a roupa. “To tease” significa, entre outras coisas, excitar. Da junção dos dois surgiu a expressão strip-tease.


Segundo o professor Darcy Damasceno, a expressão “toma lá, dá cá”, que hoje é uma espécie de unanimidade na política brasileira, tem uma origem bem diferente dessa pornopolítica. A expressão teria vindo do casamento, em que há a troca de alianças, diante do altar. O toma lá, dá cá, quer dizer, a troca de anéis aos pés do altar era visto como condição fundamental para união do casal.


O Boitatá e os boitatinhas

Em O Boitatá e os boitatinhas, Mouzar Benedito questiona o “progresso” que destrói a natureza e expulsa as comunidades tradicionais. As ilustrações vibrantes de Hallina Beltrão mostram aos pequenos leitores os encantos da fauna e flora.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia), O Boitatá e os boitatinhas (2019) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.

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