Uma leitura imprescindível para o estudo da esquerda no Brasil

No Blog da Boitempo, Marly Vianna comenta a nova edição de “Sinfonia inacabada”, de Antonio Carlos Mazzeo, destacando o lugar incontornável da obra para aqueles que buscam entender a história da esquerda no Brasil e renovar as esperanças na prática revolucionária.

Por Marly Vianna

Sinfonia inacabada: a política dos comunistas no Brasil, livro de Antonio Carlos Mazzeo reeditado agora na data em que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) completa cem anos de existência, é uma história do partido contada com a paixão de quem está engajado na luta. Nele, o autor faz um relato crítico de erros, ao mesmo tempo que aponta grandes acertos e que, principalmente, destaca a esperança que o PCB mantém em relação ao futuro da humanidade.

Combinando análise teórica com o exame da prática revolucionária, Mazzeo começa por falar das dificuldades – e ao mesmo tempo da grande vitória – que foi a fundação do PCB, em março de 1922. A fundação do partido é abordada levando em conta o contexto histórico internacional – a Revolução Russa de 1917 e a fundação da Internacional Comunista (IC) em março de 1919 – e o nacional, este com todas as dificuldades de uma sociedade repressora e violenta, e buscando o apoio de uma classe operária cuja unidade fora abalada pelo rompimento com os anarquistas.

Percorrendo a história do PCB, Mazzeo aponta suas idas e vindas: a busca, nos anos de 1920, do reconhecimento da classe que queria representar; a intervenção desastrada da IC no fim dos anos 1920 e a reconstrução do partido em 1933-1934; o erro político da insurreição de novembro de 1935; a virada para uma política conciliatória de “união nacional”, de 1938-1939 a 1948; o sectarismo do Manifesto de Agosto de 1950; o início de uma nova reviravolta política com o Manifesto de Março de 1958 e sua afirmação nos V e VI Congressos do PCB – em 1960 e em 1967, respectivamente. Mazzeo fala também dos vários grupos que deixaram o PCB nas décadas de 1960-1970.

Inédito nesta segunda edição é o precioso posfácio que lhe foi incorporado. Nele, o autor trata minuciosamente de um período quase não estudado na história do PCB: de seu tempo no exílio e da saída de Luiz Carlos Prestes do partido, nos anos de 1980, ao inglório fim da maioria dos que até então se juntavam no partido, maioria que acabou por fundar o PPS e deixar de lado as tradições comunistas. Conta também, e com detalhes, a história de duas lutas: pela unidade do PCB em torno de palavras de ordem revolucionárias e pela reconstrução do partido, nos congressos que se seguiram a 1980.

Trata-se de leitura imprescindível para todos aqueles que se interessam pelo estudo da esquerda no Brasil. No livro, Mazzeo segue à risca o ensinamento de Antonio Gramsci: “Sono pessimista con l´intelligenza, ma ottimista per la volontà”.


No final dos anos 1970 e no início dos 1980, as movimentações operárias do ABC paulista abrem perspectiva para a construção de um polo democrático-popular que possibilitaria o aprofundamento da democracia brasileira em dimensões jamais vistas. Se os setores de esquerda aglutinados em torno da vanguarda operária, e que posteriormente formariam o Partido dos Trabalhadores (PT), não conseguem construir essa alternativa, o Partido Comunista Brasileiro, até então hegemônico dentro do movimento operário, também não se mostra capaz de compreender a importância dessas manifestações e tem sua política derrotada no movimento de massas ao insistir em manter a prática calcada nos velhos instrumentais analíticos de sua “teoria do Brasil”.

A construção da teoria da revolução em “etapas”, feita pelo Komintern – a Internacional Comunista –, a influência dessa Internacional no PCB e nas orientações da esquerda brasileira, assim como a incapacidade dos socialistas e comunistas de entender as novas dimensões sociopolíticas do Brasil são analisadas em Sinfonia inacabada que, ao fazer uma exposição abrangente da política dos comunistas, faz também uma análise crítica de toda a esquerda brasileira.

Com apresentação inédita de Mauro Iasi e edição revista e atualizada, a segunda edição da obra de Antonio Carlos Mazzeo chega ao público no contexto de aniversário dos 100 anos de fundação do Partido Comunista – Seção Brasileira da Internacional Comunista (PCB) (1922-2022). O livro ainda conta com texto de orelha de Marly Vianna e prólogo de Milton Pinheiro.


Confira o curso 100 anos do PCB: vida e obra de Astrojildo Pereira, com 5 aulas sobre um dos fundadores do PCB, na TV Boitempo:

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Marly Vianna é doutora em história pela USP, professora aposentada da Universidade Federal de São Carlos. Integra o conselho editorial da coleção Arsenal Lênin da Boitempo.

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