Um mosaico assustador e inspirador do trabalho pós-pandêmico

Ruy Braga escreve sobre “Os laboratórios do trabalho digital”, organizado por Rafael Grohmann, destacando como o livro expõe os riscos da não regulação da atual gig economy ao mesmo tempo em que inspira ao demonstrar que cada reestruturação capitalista cria seu próprio antagonista e as formas de resistência.

Por Ruy Braga.

Após o advento da epidemia do novo coronavírus, profissionais e trabalhadores passaram a enfrentar um mundo do trabalho em estado inainda mais acelerado de transformação: o home office generalizou-se, as lives multiplicaram-se e o trabalho por aplicativos redefiniu nossa relação com o tempo e o espaço, consolidando um amplo setor de novos infoproletários formado por motoristas, entregadores, professores, empreendedores populares e trabalhadores de microtarefas virtuais.

Para além, como fica claro em vários capítulos de Os laboratórios do trabalho digital: entrevistas, a precariedade das condições de vida e de trabalho desses setores tem revelado o problema mais geral do aumento das desigualdades entre trabalhadores protegidos e desprotegidos, trabalhadores brancos e negros, homens e mulheres, trabalhadores nativos e migrantes indocumentados.

Daí a importância de buscar compreender como formas de dominação social presentes em relações de classe, raça e gênero vêm sendo reconfiguradas pela explosiva mistura entre a desconstrução da proteção social do trabalho, a financeirização do capital, a ideologia do Vale do Silício e o empreendedorismo neoliberal, que caracteriza o desafiador capitalismo de plataforma.

Por meio da combinação entre aquilo que há de melhor na produção teórica nacional e internacional sobre os desdobramentos sociais e políticos da plataformização do trabalho e estudos empíricos criteriosamente selecionados e analisados por especialistas renomados, Rafael Grohmann nos oferece um mosaico ao mesmo tempo assustador e inspirador a respeito do presente e do futuro do trabalho em um mundo pós-pandêmico.

Assustador por expor os riscos que todos que vivem do trabalho correm caso não consigamos regular a atual gig economy; e inspirador por demonstrar, uma vez mais, que cada reestruturação capitalista cria seu próprio antagonista e as formas de resistência ao trabalho plataformizado tendem a se multiplicar em um mundo dilacerado pela conjunção de financeirização, dataficação e neoliberalismo autoritário.

Nesse sentido, os laboratórios do trabalho digital são, antes de tudo, um campo de experiências de mobilização e de reconfiguração das identidades coletivas dos trabalhadores plataformizados. O livro Os laboratórios do trabalho digital: entrevistas é parte desse processo necessário e atual de desenvolvimento das lutas de classes em escala global.

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O trabalho mediado por plataformas está presente em toda a sociedade. Termos como “plataformização”, “uberização”, “dados” e “algoritmos” são vocábulos definitivos na gramática do capital contemporâneo. Em contrapartida, as lutas dos trabalhadores também ganharam novos contornos, em artifícios como o cooperativismo de plataforma, o sindicalismo digital e as plataformas de propriedade dos trabalhadores.

Em Os laboratórios do trabalho digital: entrevistas, o cientista social Rafael Grohmann traça um panorama dos estudos sobre trabalho e tecnologia por meio de 38 entrevistas com os principais pesquisadores da área no Brasil e no mundo, como Virginia Eubanks, Jamie Woodcock, Ursula Huws, Ludmila Costhek Abílio e Ricardo Antunes.

Uma das várias lições deste livro é que o cenário atual do trabalho em plataformas não é inevitável como aparenta ser; é, pelo contrário, um laboratório. Se, por um lado, o capitalismo experimenta novos mecanismos de subjugação da classe trabalhadora, por outro é possível formular alternativas, construir projetos prefigurativos e lutar pela não precarização do trabalho gerido por algoritmos e realizado por milhares de trabalhadores em todo o mundo.

“A uberização, na verdade, trata da transformação do trabalhador nesse profissional just-in-time. Acho que essa é uma forma de resumir a história, mas é uma definição complexa. A ideia do trabalhador just-in-time é consolidar uma forma de subordinação e gerenciamento do trabalho inteiramente apoiada em um trabalhador desprotegido. E essa desproteção é mais perversa do que a simples ausência de direitos, de uma formalização da jornada. É um trabalho totalmente desprotegido em termos legais porque o trabalhador é transformado em um autogerente de si próprio, que não conta com nenhuma garantia associada às leis trabalhistas. Mas penso que isso seja algo ainda mais profundo, que vai além do caráter da desproteção. Há a ideia de que é possível constituir uma multidão de trabalhadores disponíveis, que podem ser recrutados pelos meios tecnológicos existentes hoje. Então, eles são recrutados na exata medida das demandas das empresas ou do capital, se quisermos falar de uma forma mais genérica, não dispondo de garantia alguma sobre a própria forma de reprodução social.”
– LUDMILA COSTHEK ABÍLIO

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Os laboratórios do trabalho digital, organizado por Rafael Grohmann, tem texto de orelha de Ruy Braga, quarta capa de Edemilson Paraná, Muniz Sodré e Nuria Soto e capa de Antonio Kehl. O livro faz parte da coleção Mundo do trabalho da Boitempo e contou com o apoio do MPT-Funcamp.

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E-book à venda nas principais lojas do ramo:


Confira o debate que marcou o lançamento da Margem Esquerda #36, com dossiê sobre o Capitalismo digital, e contou com a presença de Rafael Grohmann, organizador de Os laboratórios do trabalho digital e Ludmila Abílio, que foi uma das entrevistadas do livro, além da mediação de Tulio Custódio.

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Saiba mais:

Margem Esquerda #36: a edição dedica-se investigar as formas de exploração e dominação no capitalismo digital, bem como os novos desafios e potenciais para sua superação. Artigos de João Alexandre Peschanski, Rafael Grohmann, Mariana Valente, Sergio Amadeu, Amanda Jurno, Ludmila Abílio, Jodi Dean, Evgeny Morozov e muito mais.

Blog da Boitempo:
Capitalismo digital e luta de classes, apresentação da Margem Esquerda #34 por Artur Renzo e Ivana Jinkings
Trabalho virtual?, por Ricardo Antunes
Breque no despotismo algorítmico: uberização, trabalho sob demanda e insubordinação, por Ludmila Costhek Abílio
Uberização do trabalho: subsunção real da viração, por Ludmila Costhek Abílio
O mosaico da exploração do trabalho, por Graça Druck

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Ruy Braga é professor titular do Departamento de Sociologia da USP, onde dirige o Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic). É autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (Xamã, 2003). Na Boitempo, publicou A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista (2012) e A rebeldia do precariado: trabalho e neoliberalismo no Sul global (2017). Também coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), e é um dos autores dos livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, Carta Maior, 2013) e Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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  1. Um mosaico assustador e inspirador do trabalho pós-pandêmico – DMT – Democracia e Mundo do Trabalho em Debate
  2. Os nomes por trás do trabalho plataformizado – Blog da Boitempo

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