Cultura inútil: Quem nunca desejou a morte de alguém?

De Confúcio a Bolsonaro, passando por Einstein, Pagu, Isabel Allende e Pablo Escobar, Mouzar Benedito reúne frases e ditados que revelam desejos de vingança e morte.

Por Mouzar Benedito.

“Não quero vingança, quero justiça!”

Ô, frase que acho dita da boca pra fora! Quem não inclui um pouco de vingança na punição de um crime cometido contra alguém de quem gosta? Mas o bom-mocismo aparece direto em declarações televisivas de pais, mães, irmãos, namorados de vítimas de assassinato. Querem justiça! Acho que tem muita hipocrisia nisso. Em alguns casos, mesmo que um crime não seja contra alguém das nossas relações, baixa uma vontade de vingança, principalmente contra poderosos. Geralmente não acontece nem justiça nem vingança.

Um colunista da Folha de S. Paulo, quando Bolsonaro contraiu a covid-19, escreveu que se ele morresse seria bom para o Brasil. Tenho certeza de que muita gente pensava a mesma coisa, mas choveram críticas ferozes contra ele. Gente boazinha, que não quer a morte de ninguém!

Mas pode ser pior. Jean Meller disse, no século XVIII, que “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Mais ou menos recentemente, o escritor João Paulo Cuenca ironizou trocando “o homem” por “o brasileiro”; “rei” por “Bolsonaro” e “padre” por “pastor da Igreja Universal”. Teve quase cem processos de pastores rolando contra ele, em todo o Brasil. Enquanto isso, a justiça não vê motivos para processos contra responsáveis por muitos milhares de brasileiros e chefes de milícias.

Falando em pastores, alguns religiosos estão riquíssimos. Aí eu me lembro de uma frase atribuída a Balzac: “Por detrás de uma grande fortuna há um crime”.

Quase sempre citam como sendo de Balzac, mas há quem discorde e cite outros possíveis autores. Li em algum lugar que é de César Bórgia, um dos muitos filhos de Rodrigo de Bórgia, nada mais nada menos do que Papa Alexandre VI (que subiu ao trono papal em 1492, mesmo ano do “descobrimento” da América).

Sim, um papa que, como outros em séculos passados, tinha amantes e filhos… Quando precisou deixar Roma por um tempo, deveria nomear um cardeal para administrar a Igreja enquanto viajava, mas nomeou a filha Lucrécia Bórgia, que foi a única papisa da história, sem ser teóloga nem nada, nem freira. Esse papa, além de tudo, era mandante de assassinatos e se apropriava de grandes fortunas que repassavam à sua prole. Ele e seus filhos usavam o poder com toda a violência e truculência possível, depois rezavam como santos homens.

César Bórgia, autor de muitos assassinatos, foi nomeado cardeal pelo pai antes de completar 27 anos. Pouco depois abandonou o cardinalato para se tornar chefe militar. Tentou criar um principado na Romanha (Romagna, em italiano), região vizinha a Toscana. Mandava matar ou matava pessoalmente quem lhe representasse qualquer barreira. Foi nele que Maquiavel se inspirou para escrever o livro “O Príncipe”.

Príncipes… Quem quiser saber como muitos deles se tornaram reis, pode estudar um pouco as monarquias e os monarcas. Na Inglaterra, sugiro Henrique VII e Henrique VIII… Não que sejam só eles, nem só na Inglaterra. São exemplos, e em tudo quanto é monarquia valia tudo para chegar ao trono. Matar crianças, amigos, parentes…

Mas por que estou falando disso? É que a gente se sente culpado por às vezes torcer para que alguém morra, de morte natural mesmo, mas refuga esse pensamento por princípios, enquanto a história das elites econômicas, políticas e religiosas é repleta de crimes bárbaros. Por falar nisso, soube há pouco, que fazia parte do direito canônico o direito de matar alguém que tiranizasse o povo. Não era pecado. Para salvar um povo, valia eliminar quem o destruía. Convenientemente, retiraram isso da lei eclesiástica que rege a igreja católica quanto as ortodoxas.

Colhi frases sobre crimes por aí… E lá vão elas:

Clarence Seward Darrow: “Eu nunca matei um homem, mas li muitos obituários com muito prazer”.

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Millôr Fernandes: “Não é que você não tenha impulso. Apenas lhe falta coragem. Pois algumas pessoas matam. Outras se satisfazem lendo notícias sobre o assassinato”.

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Millôr, de novo: “O Código Penal é a causa de todos os crimes”.

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Millôr, mais uma vez: “Os crimes são apenas os juros que, de tempos em tempos, temos que pagar por viver no pequeno lado ‘bom’ de uma sociedade gigantescamente imoral”.

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Rui Barbosa: “As leis são um meio para os crimes públicos – a religião, para os crimes secretos”.

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Simone de Beauvoir: “Poucos crimes merecem punições piores do que a generosa culpa de se colocar inteiramente nas mãos de outrem”.

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Nietzsche: “O criminoso não está, na maior parte das vezes, à altura de seu ato: o apequena e o calunia”.

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Clarice Lispector: “Talvez eu me ache delicada demais porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente”.

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Clarice Lispector, de novo: “Oh, não se assuste, às vezes a gente mata por amor, mas eu juro que um dia a gente esquece”.

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Giacomo Leopardi: “São raros os patifes pobres”.

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Provérbio japonês: “Quem pede aos deuses que matem seu inimigo às vezes está desejando a abertura de duas covas”.

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Carlos Drummond de Andrade: “Crimes suaves, que ajudam a viver…”

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Emile Durkhein: “Não há que se dizer que um ato ofende a consciência comum porque é criminoso, e sim que é crime porque ofende a consciência comum”.

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Igor Melville: “O crime do futuro é a fraude. Ele vai exigir maturidade, organização e grande domínio de computação”.

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Voltaire: “A História é apenas uma série de crimes e desgraças”.

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Jeanne Marie P. Roland: “Ah, liberdade! Quantos crimes se cometem em teu nome!”.

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Provérbio turco: “Uma arma é um inimigo, até mesmo para aqueles que a possuem”.

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Outro provérbio turco: “Flecha disparada nunca retorna”.

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Joe Orton: “Vivemos numa época de igualdade. Hoje em dia, por exemplo, todas as classes são criminosas”.

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Ralph Emerson: “Cometa um crime e descubra como o mundo é de vidro”.

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Almeida Garrett: “Crime só gera crime”.

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Jair Bolsonaro: “Deveriam ter matado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso”.

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Bolsonaro, de novo (sobre a tortura de presos políticos durante a ditadura): “O grande erro foi torturar e não matar”.

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Winston Churchill: “Quando se tem que matar um homem, não custa nada ser educado”.

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Brecht: “O que não sabe é um ignorante, mas o que sabe e não diz nada é um criminoso”.

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José Martí: “Ver com calma um crime é cometê-lo”.

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Pagu: “Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre”

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Robert Rice: “O crime é a extensão lógica de um tipo de comportamento perfeitamente respeitável no mundo dos negócios”.

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Rubem Alves: “As razões podem transformar crimes em heroísmo”.

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Jean Rosland: “Se alguém mata um homem, é um assassino. Se mata milhões de homens, é um conquistador. Se mata todos, é um deus”

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Juvenal: “Alguns tiveram a forca como preço pelo próprio crime; outros, a coroa”.

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Juvenal, de novo: “Ninguém acha que delinquiu mais do que o permitido”.

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Denis Diderot: “Cospe-se num bandido menor, mas não se pode recusar uma espécie de consideração a um grande criminoso”.

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Shakespeare: “Uns venceram por seus crimes, outros fracassaram por suas virtudes”.

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Al Capone: “Você consegue muito mais com sua palavra amável e um revólver do que somente com uma palavra amável”.

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Maquiavel: “Mate se for preciso, mas alcance seus objetivos”.

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Pablo Escobar: “Os amigos são aqueles que te vem chorando e dizem: ‘A quem matamos?’”.

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Ewelyn Waugh: “Há muitos anos cheguei à conclusão de que quase todo crime se deve a um desejo reprimido de expressão estética”.

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Einstein: “Todo o nosso progresso tecnológico, que tanto se louva, o próprio cerne da civilização, é como um machado na mão de um criminoso”.

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Benjamin Disraelli: “A dívida é a mãe prolífica de loucuras e crimes”.

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Coelho Neto: “O carrasco suprime o criminoso, mas a miséria mantém o crime. Não é com o esmagamento de uma lagarta no campo que se salva a sementeira”.

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Isabel Allende: “Começa-se matando por dever e acaba-se matando por sanha”.

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Jeanne Manon Roland: “Liberdade, liberdade, os crimes que se cometem em teu nome”.

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Martin Luther King: “Nossa geração não lamenta tanto os crimes dos perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos”.

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Woody Allen: “Eu acho que o crime compensa. Passam-se bons tempos, conheces uma grande quantidade de gente interessante, viajas muito”.

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Madame Émile Girardin: “Parecer o que se é, é um crime; parecer o que não se é, um sucesso”.

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Bernard Shaw: “Quando um homem quer matar um tigre, chama a isso desporto; quando é o tigre que quer matá-lo, chama a isso ferocidade. A distinção entre crime e justiça não é muito grande”.

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Marquês de Maricá: “Há crimes felizes que são reputados heroicos e gloriosos”.

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Maricá, de novo: “Em matérias e opiniões políticas, os crimes de um tempo são algumas vezes virtudes de outro”.

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Maricá, mais uma vez: “Os crimes fecundam revoluções, e lhes dão posteridade”.

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Stendhal: “É um argumento dos aristocratas, esse dos crimes que uma revolução implica. Eles se esquecem sempre do que se cometiam em silêncio antes da revolução”.

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Confúcio: “Cuida para evitar os crimes, para que não sejas obrigado a puni-los”.

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Confúcio de novo: “Qualquer um pode julgar um crime tão bem quanto eu, mas o que eu quero é corrigir os motivos que levaram esse crime a ser cometido”.

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Emanuel Wertheimer: “Nunca há suficientes atenuantes para os crimes dos pobres”.

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Danuza Leão: “Perguntar a idade de uma mulher é crime”.

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Ambrose Bierce: “Destino: aquilo que autoriza os crimes dos tiranos e serve de desculpa para o fracasso dos idiotas”.

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Eu: “Assassino profissional, quando não tem contrato para matar ninguém, mata o tempo?”.

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Barão de Itararé: “As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra; e se mata, cobra”.

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Barão de Itararé, de novo: “Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças e os crimes que ele mesmo cometeu”.         

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Howant Scott: “Um criminoso é uma pessoa com instintos predatórios sem capital para formar uma empresa”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2017, e-book). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às terças. 

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