Aprendendo com Bruce Lee

"Em seu novo filme, Tarantino apenas expôs uma caricatura preconceituosa e distorcida de alguém que sempre se esforçou para mudar a imagem dos orientais no cinema. O oposto do personagem real. Mas Bruce Lee é, por certo, muito maior do que seus detratores. E seu legado permanecerá."

Por Luiz Bernardo Pericás.

Um dos maiores ícones da contracultura do século XX, Bruce Lee foi muito mais do que um ator de cinema e mestre das artes marciais. Nascido em San Francisco, em 27 de novembro de 1940, o lutador completaria 80 anos agora em 2020. Todas as homenagens a ele são merecidas.

Lee pode ser visto como um dos principais símbolos da resistência contra o racismo e o neocolonialismo na sétima arte. Os anos 1960 e o início da década de 1970 foram intensos: a influência e consolidação da revolução cubana, guerrilhas na América Latina, a luta pelos direitos civis se intensificando nos Estados Unidos, a descolonização da África se ampliando, a guerra do Vietnã atingindo seu ápice. Foi naquele período que os soviéticos colocaram o primeiro homem no espaço, enquanto os norte-americanos, mais tarde, levaram sua missão inaugural tripulada para a lua. Ditaduras militares, Woodstock, manifestações em Paris, a revolução cultural na China. A inspiração para a rebeldia contra a opressão capitalista vinha de todo o Terceiro Mundo e mesmo de dentro dos EUA: Che Guevara, Fidel Castro, Malcolm X, Ho Chi Minh, Frantz Fanon, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Kwame Nrumah, Angela Davis, Mao Tsé-tung, Carlos Marighella e muitos outros.

No “Colosso do Norte”, a juventude marginalizada das comunidades sino-americanas fundaria, em 1969, na Califórnia, o Red Guard Party, grupo próximo aos Panteras Negras, que tinha como fonte precípua de seu ideário o maoísmo, enquanto na Costa Leste, em Nova York, surgiria, no mesmo ano, o I Wor Kuen, um coletivo marxista-leninista inspirado nos Young Lords, no BPP, na rebelião dos boxers e na RPC. As duas organizações depois iriam se unir para formar o IWK nacional, que, posteriormente, se juntaria ao Movimento 29 de Agosto, constituindo a Liga da Luta Revolucionária, também vinculada ao pensamento do “grande timoneiro”.

É dentro deste painel turbulento de contestação social que Bruce Lee surgiu como astro de cinema e televisão. Enquanto toda uma geração ia para as ruas protestar, diversos indivíduos ligados à política e às artes personificariam os anseios da massa indignada. Bruce seria um deles.

Os filmes que protagonizava entusiasmavam espectadores de todo o planeta, especialmente os de ascendência chinesa, que viam na estrela das telonas um herói que lutava contra as injustiças que seus antepassados haviam sofrido nas mãos dos imperialistas estrangeiros, assim como o tratamento que eles próprios sentiam na pele em países onde eram discriminados. O caso de Fist of Fury (A fúria do dragão), dirigido por Lo Wei em 1972, é emblemático. Nele, o tema anticolonialista perpassa a narrativa inteira, que tem como cenário Xangai durante a ocupação japonesa. O personagem Chen Zhen (interpretado por Lee) tem de enfrentar atletas da “terra do sol nascente” (provenientes de um dojo no distrito de Hongkou), que vão até sua academia (a escola Jingwu, até pouco antes, dirigida por seu mestre, que, ao longo da trama, se descobre ter sido assassinado por envenenamento), para provocar os alunos, entregando a eles um quadro com a frase pejorativa “O homem doente da Ásia”. Chen, indignado, decide devolver pessoalmente o “presente” aos invasores, em seu próprio local de treinamento. Combate o bando sozinho e ainda dá uma surra em seu sensei. Depois, em alto e bom som, recorda a todos ali: “We are not sick men!” Para completar, quebra a moldura e o vidro do objeto indesejado, rasga o cartaz e obriga dois contendores derrotados a comer o papel com a infame expressão: teriam de engolir suas palavras!

Mais tarde, o protagonista é barrado por um guarda na porta de um parque municipal, que tem afixada na entrada uma placa com a inscrição “Proibida a entrada de cães e chineses”. Quando um japonês diz a Chen que o levaria para dentro do jardim público caso aceitasse fingir ser um cachorro, o protagonista não abaixa a cabeça. Pelo contrário: irritado, imediatamente ataca o interlocutor abusado e seus amigos, nocauteando-os com suas técnicas de artes marciais. Em seguida, destrói o letreiro racista com um chute fenomenal. Ninguém exploraria mais sua gente. Pelo menos, não enquanto Bruce estivesse por perto! Ali estava alguém que, finalmente, poderia representar o orgulho chinês. A plateia nas salas de cinema de Hong Kong delirava em todas as sessões. E a audiência em outras partes do globo também.

O mesmo pode ser dito do filme The Way of the Dragon (O voo do dragão), produzido no mesmo ano. Nessa história, Tang Lung (o personagem de Lee) vai à Itália defender um amigo e seus parentes, donos de um restaurante, contra bandidos locais, que queriam forçá-los a vender o estabelecimento. Desde que chega a Roma, percebe-se o estranhamento de Tang em meio aos europeus. Ele é recebido por Chen Ching Chua (Nora Miao), sobrinha de seu colega, que serve de anfitriã na cidade eterna. Tudo que Tang vê em volta, contudo, parece decadente: de uma prostituta que se insinua para ele numa praça até a arquitetura local. A mocinha pergunta ao recém-chegado o que acha daquela metrópole. E o jovem, que não se impressiona com a capital do Bel Paese, velha e repleta de ruínas, apenas responde: “Our slums are just like this”. É uma clara rejeição ao Ocidente e seus valores. A Europa era o passado; o Oriente, o futuro.

Os bandidos, não conseguindo eliminar o rival vindo da Ásia, decidem contratar Colt (Chuck Norris), considerado o melhor lutador dos Estados Unidos, para dar cabo do protagonista. O filme termina com uma cena memorável, icônica. Bruce Lee confronta Norris dentro do Coliseu. O cenário, grandioso e ao mesmo tempo decrépito, é mais do que sugestivo. Numa arena onde antes escravos eram massacrados, um homem simples, de origem chinesa, em nome dos condenados da Terra, vence o colonizador branco, o representante legítimo do imperialismo norte-americano. Uma vitória simbólica contra os ianques. Fica difícil não torcer por ele…

Bruce era um artista extremamente versátil, que misturava técnicas e incorporava ensinamentos de todas as partes: Caratê, Judô, Tang Soo Doo, Tai Chi Chuan, Taekwondo, Eskrima, Boxe e, claro, Kung Fu. Além de armas, como o tabak-toyok e o nunchaku. Isso para não falar da dança. Não custa lembrar que em 1958 Lee foi campeão de um torneio de chachachá em Hong Kong, local onde passou sua infância e adolescência! Estava longe, portanto, de qualquer atitude purista em relação às lutas. Muito pelo contrário. Possuía uma visão antidogmática da vida, uma abordagem sincrética do esporte e da cultura e uma capacidade de adaptação invejável. “Be water”, costumava dizer. “Esvazie sua mente. Seja amorfo, como água. Se você coloca água em um copo, ela se torna o copo. Se você a coloca em uma garrafa, ela se torna a garrafa. Se você a coloca em uma chaleira, ela se torna a chaleira. A água pode fluir, mas também colidir. Seja água, meu amigo”. Bruce Lee, filósofo e poeta. “O intangível representa o verdadeiro poder do universo; ele é a semente do tangível”, comentaria.

Fazia questão de compartilhar seus conhecimentos com discípulos de diversas origens étnicas e nacionais, o que lhe rendeu duras críticas e perseguições dos praticantes mais tradicionalistas do Kung Fu. Afinal, defendia uma abordagem democrática e multirracial, ensinando a alunos negros, brancos, latinos e asiáticos, tanto em sua academia (o Lee Jun Fan Gung Fu Institute) em Seattle (estado de Washington), cidade onde foi morar aos 18 anos, como nas escolas que dirigia em Oakland e Los Angeles, para onde se mudou mais tarde. Foi professor de celebridades como James Coburn, Kareem Abdul-Jabbar e Steve McQueen, além de trocar experiências e se tornar amigo de muitos atletas conhecidos, como o filipino Dan Inossanto, o sul-coreano Jhoon Goo Rhee e o norte-americano Jim Kelly, este último, astro de diversos filmes de blaxploitation, como Black Belt Jones e Black Samurai, que contracenou com Lee em Enter the Dragon (Operação Dragão), lançado em 1973 com direção de Robert Clouse. Por sinal, neste mesmo longa, vale lembrar a participação de Steve Sanders, um apoiador da causa dos vietcongs, que após se converter ao islã, mudaria de nome para Steve Muhammad e se tornaria um dos fundadores da Black Karate Federation (BKF).

Bruce Lee, o verdadeiro rebelde, o outsider, o campeão dos oprimidos. A rejeição à ortodoxia, sua flexibilidade de pensamento, seu ódio ao autoritarismo… Fundamental para ele, o treinamento constante e uma disciplina férrea. Admirador de Muhammad Ali, um dos maiores pesos-pesados da história, estudava seus movimentos meticulosamente, para depois incorporá-los à sua rotina. “Float like a butterfly, sting like a bee”… Este era o lema de Ali, que sem dúvida inspirou Bruce Lee. Ele também, por certo, absorveu técnicas do nipônico Hidetaka Nishiyama e de tantos outros mestres. Essa diversidade de influências iria resultar na criação do Jeet Kune Do, “the way of the intercepting fist”. Afinal, para ele, o homem, o indivíduo criador, seria sempre mais importante do que qualquer estilo ou sistema estabelecido.

Era contra todo dogmatismo, modelos rígidos, fórmulas. O mais importante era aguçar a sensibilidade, entender o mundo a sua volta e compreender as necessidades impostas pelas circunstâncias, em constante transformação, para então agir, de acordo com as exigências do momento. Ou seja, ter a mente aberta e se apropriar de tudo que for útil, para só utilizar o que, de fato, funcione, mesmo que para isso se tenha de romper as regras e convenções.

O espaço para Bruce Lee transmitir sua mensagem seria o cinema. Ainda que tenha aparecido como ator mirim e teenager em quase duas dezenas de produções do outro lado do Pacífico, teve como primeiro papel de destaque na “América” uma participação no seriado The Green Hornet, no qual interpretava Kato, o assistente mascarado do Besouro Verde (Van Williams). Mesmo sendo o coadjuvante da série, fez mais sucesso que o personagem principal. Começava a se tornar um ídolo, especialmente por sua performance como lutador. Depois, lhe puxaram o tapete, quando a Warner Brothers supostamente roubou sua ideia para um programa de TV no qual ele deveria estrelar, um seriado que recebeu o título de Kung Fu, e que, em última instância, acabou sendo protagonizado por David Carradine, um “caucasiano” caracterizado para viver aquele papel. Para os executivos, a aparência de Lee seria “oriental demais” e, portanto, não estaria de acordo com os padrões que as emissoras desejavam para seus leading men naquele período. Sentiu-se traído e desvalorizado. A esta altura, contudo, já havia se transferido para Hong Kong.

A primeira fita da nova fase profissional seria The Big Boss (O dragão chinês), de 1971, realizada pela Golden Harvest e ambientada na Tailândia, na qual se retratavam a situação de exploração dos trabalhadores, o tráfico de drogas, a busca pelo emprego, o preconceito contra os imigrantes. Um marco do gênero e um enorme sucesso comercial. Em pouco tempo, o êxito de Lee chamaria a atenção dos estúdios norte-americanos e ele seria convidado pela WB para encabeçar uma superprodução, Enter the Dragon, que ficaria várias semanas entre os filmes mais assistidos nos Estados Unidos, na época de seu lançamento.

Lee sempre rejeitou os estereótipos de asiáticos de Tinseltown. Foi um crítico da “yellow face”, uma prática controversa no meio cinematográfico. Não aceitava papéis depreciativos e insistia em mostrar os chineses de maneira positiva. Talvez por isso a indignação de familiares e amigos do ator pela forma como foi retratado na recente película de Quentin Tarantino, Era uma vez… em Hollywood. Acusado de racismo em outras ocasiões (Spike Lee foi um dos que já atacaram o diretor neste sentido), Tarantino apresenta Bruce Lee (interpretado por Mike Moh) como um indivíduo egocêntrico, vaidoso, falastrão e superficial (para todos os efeitos, um farsante), numa cena extremamente desrespeitosa e ofensiva à sua memória, dando a entender que sua imagem pública teria sido uma invenção, uma construção midiática. Em outras palavras, Tarantino apenas expôs uma caricatura preconceituosa e distorcida de alguém que sempre se esforçou para mudar a imagem dos orientais no cinema. O oposto do personagem real. Mas Bruce Lee é, por certo, muito maior do que seus detratores. E seu legado permanecerá.

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Leia também a leitura do filme Django Livre, de Quentin Tarantino, feita pelo historiador Luiz Bernardo Pericás nesta sua coluna no Blog da Boitempo, clicando aqui.

Luiz Bernardo Pericás acaba de lançar a antologia Caminhos da revolução brasileira, que reúne 19 artigos fundamentais em que militantes e intelectuais teorizam sobre o tema da revolução brasileira. Elaboradas entre a República Oligárquica dos anos 1920 e a transição da ditadura militar para a redemocratização nos anos 1980, essas contribuições trazem diferentes perspectivas sobre como, a partir da formação social brasileira, podemos pensar em caminhos para uma transformação estrutural.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. Seu livro Caio Prado Júnior: uma biografia política (Boitempo, 2016), lhe rendeu o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano e o Prêmio Jabuti de melhor biografia. Pela Boitempo, também publicou Os cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010), do romance Cansaço, a longa estação (2012) Che Guevara e o debate econômico em Cuba (2018) e a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Mais recentemente organizou e apresentou a antologia Caminhos da revolução brasileira (2019). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

2 comentários em Aprendendo com Bruce Lee

  1. Aline Passos // 21/02/2020 às 10:34 pm // Responder

    não disse absolutamente nada sobre o filme do tarantino…

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