O mais aquém do tragi(-)cômico da esquerda do século XXI: um comentário sobre o duelo Paraná-Tupinambá

Alexandre Pimenta propõe abordar o "elefante na sala" no debate entre Edemilson Paraná e Gabriel Tupinambá.

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Por Alexandre Pimenta.

Resisti a meter a colher nesse duelo que se iniciou ainda em meados de 2017: estava bom apenas acompanhar. Além disso, não acho que tenho a contribuir na mesma dimensão dos combatentes em jogo. Mas arriscarei mais um experimento nesse debate, e, como um estranho mediador, tentarei costurar alguns comentários provocativos a partir de como tenho visto a coisa toda. Não será mais uma recapitulação do debate, o que ambos vêm fazendo muito bem, mas outro olhar de quem também caminha por essa longa e sinuosa estrada em que, trágica ou comicamente, estamos metidos.

Dois passos atrás da militância

A primeira coisa que os leitores devem ter notado é uma impressionante capacidade de ambos os autores em abordar tantos problemas concretos da política e da militância de esquerda “de uma vez só”, assim como propor formalizações para pensar os mesmos – o último texto de Tupinambá leva isso ao extremo, quase ao nível de um modelo matemático. Mesmo que ambos confessem suas limitações e sejam bem realistas quanto à complexidade dos assuntos e possíveis soluções, o esforço nos oferece uma simples e grandiosa oportunidade de pensar.

O duelo conseguiu suspender um pouco o pragmatismo das lutas diárias, das polêmicas programáticas, da disputa de palavras de ordem etc., sem cair num abstencionismo, fruto de cansaço, desistência ou frustração. Efetivou, na prática, um “afastamento” para posterior aproximação mais concreta e menos imaginária (ideológica) com nossos próprios problemas reais – já para usar um nome de fundo desse debate: Althusser.

De certa forma, o debate é uma concomitante metacrítica: como ampliar esse espaço de intervenção para além de nossos comuns? Ambos, importante frisar, falam da necessidade em se abrir para o “mundão”, de diferentes formas: deixar o mundo invadir a lógica organizativa interna (a fim de mudar nossa forma de inserção social como esquerda); fazer com que o interno se comprometa e intervenha na mundanidade (a fim de acumular força). Mas não se afobam em trazer receitas prontas, mantendo o espaço reflexivo aberto.

Não cair rápido demais na tentação do “que fazer”, é uma lição já repetida por outra dupla: Badiou-Žižek.1 Esta lição nos permite não apenas olharmos mais para nós mesmos (no) aqui-agora – como quer Tupinambá – mas também para nossa posição muito aquém: a profunda crise sobre a qual nos situamos, como diz Paraná, na disputa política e social.

A meu ver, o muito aquém se explica por um mais aquém, um recuo em nossa história de crise, que tem um nome. Este nome é falado por Paraná na sua primeira frase do primeiro texto. Trata-se da crise do marxismo, que nos faz duvidar da efetividade ou não de nossos pressupostos teóricos, visão de mundo, guia de ação tão consolidado no século passado.

Dois passos atrás na militância

No final dos anos 1970, Althusser, ironicamente, se pronunciou de forma tragicômica ao prenúncio dessa crise: “enfim, a crise do marxismo!”. Usou, à época, o termo “crise” não como seus detratores a usavam há muito (sendo sinônimo de colapso, morte), mas como um fenômeno histórico no qual se desenvolvem novas contradições no seio do movimento revolucionário, possíveis (finalmente!) de serem enfrentadas, pois se encontram gritantes à nossa frente. No mesmo âmbito e período, o fraco-argelino fez profundas críticas ao que chamou de “modo de funcionamento burguês da política” do PCF, no texto O que não pode durar no Partido Comunista.2

A própria dificuldade de tratar desse nome, marxismo, no debate em tela, já é índice dessa crise, que, a meu ver, precisamos tratar direta e claramente. Literalmente, “marxismo”, durante todo o debate, aparece apenas quatro vezes.

Sintomático, ainda, é perceber que na última formalização de Tupinambá, esse nome aparece como um não-dito, pois ambos autores tomaram a lógica C como dominante, “espontaneamente”. O típico incômodo foi verbalizado, todavia, através dos colegas de Tupinambá que demonstraram, segundo o autor, “o cansaço e a falta de vontade de participar do debate”, algo que de certa forma encarna a posição da teoria crítica contemporânea: “isso não seria aquela coisa já ultrapassada?”.

Os autores poderiam dizer que se focar na crise do marxismo diminuiria o escopo da análise, que trata da esquerda como um todo, em suas várias vertentes. Mas, me inspirando no “Teorema” de Carlos, apresentado também na última intervenção, arriscaria dizer: o marxismo não seria ainda a referência primordial da esquerda do século XXI – ao menos a que tem pretensões revolucionárias? Não é a partir dessa “fantasmagoria” que se deve prestar conta? A “crise da esquerda” não seria exatamente a crise do modelo geral teórico-prático inaugurado pelas experiências socialistas, e até socialdemocratas, do século passado, que tiveram no marxismo ao menos o ponto de partida?

Um passo à frente

Paraná chama atenção, acertadamente, de que nosso muito aquém não é apenas um déficit teórico-programático. É também, mas não só. Há um vínculo direto com a questão do poder, mais propriamente, de acúmulo de força social. Falhamos com nosso mais além, no jogo político e na disputa com os inimigos.

Nesse aspecto do debate, estranhamente sentimos falta de um conceito (mais um índice da crise do marxismo em nós?), quer seja, classe social – e seu fundo, a luta de classes. É Paraná quem, novamente, anuncia e insiste nesse ponto, mas não vemos se integrar de forma robusta à explicação das “causas” do nosso muito aquém. O autor alega as transformações recentes do capitalismo que reestruturou as esferas da produção, da política, da cultura, mas quase como se esse terreno se modificasse ao largo da luta de classes, precedendo à esfera do confronto.

Tupinambá se esforça em mostrar que a luta de classes começa “em nós”, mas, a meu ver, o foco deixa de ser relacional com o mais além para se converter em mais um fator, tomado de forma pragmática, em sua espécie de “experimento organizacional”.

Aliás, isso merece um parêntese. Vejo com bastante curiosidade (para não dizer preocupação) alguns termos usados pelo autor ao longo do debate. A organização esquerda aparece “como laboratório que simula em condições controladas variáveis de funcionamento mais geral”; “modelo artificial de toda a sociedade”. Impossível não lembrar certa fase do movimento revolucionário em que se focava a construção de sociedades artificiais, nos moldes almejados para o todo o resto. O que Engels, com sua gentileza costumeira, chamou de socialismo utópico. De certa forma, o experimento de Tupinambá parece o inverso (trazer o caos para dentro, e não expulsá-lo), mas, de toda forma, continua uma espécie de indução política – regada com um “mau” formalismo.3

Voltando. A meu ver, e seguindo o jovem Balibar4 nesse ponto, não conseguiremos nomear a crise do marxismo sem falar de uma ofensiva burguesa na luta de classes, em todos os níveis, econômico, político e ideológico. Claro, no sentido de que esta não é “uma resposta, uma solução, mas sempre e antes de tudo […] um problema: fazer a análise concreta de um processo histórico concreto”.

Ou seja, é imprescindível analisar as alterações concretas nas tecnologias, nas políticas de Estado, nas novas formas de subjetivação que estão perpetuando e renovando o sistema capitalista. “A análise do modo de produção e a análise das classes […] não são dois problemas teóricos distintos, mas sim um único e mesmo problema”, mais uma vez Balibar.

Ora, a luta de classes é relacional. E tal complexa ofensiva (com elementos “planejados”, outros não), objetivamente e em última instância, desajustou aquilo que foi o elemento dinamizador da posição proletária5 no século XX, a saber, a junção entre marxismo e movimento operário. Nessa junção, a forma-partido foi a expressão fundamental e dominante, para falar como Badiou (A hipótese comunista).

A linguagem, talvez simplória, pela qual traduzo as inúmeras intervenções dos companheiros é essa: estamos debatendo a crise do marxismo, que trata não apenas de uma derrota interna, mas concomitante avanço da posição burguesa na luta de classes (inclusive em nosso seio), e nesse meio se desarticula a então tradicional forma-partido (e suas relações com a luta econômica, política e cultural e suas organizações). Não há aqui uma causalidade linear, e, no fundo, estamos falando de um processo concomitante e que se retroalimenta, como a “unidade (in)competente” da esquerda do século XXI já analisada no debate.

Ainda não se chegou lá

A “etnografia da militância” iniciada por Paraná, em algumas rodadas se tornou uma aventura de formalização em nível hard no último Tupinambá, que visa redirecionar o debate ao implodir o Pêndulo de Paraná. As mudanças nos termos do debate que proponho em minha tosca “tradução” visa abertamente gerar uma descontinuidade no debate que atropelou algumas etapas, a meu ver. Visa também tornar os marcos da discussão mais objetivos e históricos, além de abrir diálogo mais explícito com grandes teóricos de nosso campo.

Intriga-me saber como ambos se posicionam frente à tese de Badiou da impertinência da forma-partido para a posição revolucionária hoje. Entendendo que, para o autor, esta forma está intimamente vinculada à teoria marxista da revolução e às experiências socialistas do século passado.6 Com isso, talvez ficasse mais clara a relação dos autores com o passado e o nosso mais aquém.

De forma complementar, e para colocar na roda mais um teórico que acho importante, Therborn (Do marxismo ao pós-marxismo): Somos pós-marxistas? Entendendo que o autor compreende o marxismo como uma “corrente social”, presente tanto no campo teórico (para ele, uma filosofia e uma ciência social histórica), quanto no prático, sendo um “modo de política da classe trabalhadora socialista”. Em sua avaliação, esse “triângulo” teórico-prático haveria se quebrado de forma irremediável:

[…] o subdesenvolvimento da teoria política marxista, juntamente com a reestruturação das sociedades capitalistas, torna improvável que uma política socialista ascendente possa ser marxista. O zênite da classe trabalhadora industrial acabou, enquanto sujeitos políticos antes ignorados agora tomam a dianteira.”7

Assim, voltamos às primeiras teses de Paraná que deram início a esse debate, mas sob outras coordenadas. Já podemos encontrar nas intervenções, certamente, muitas respostas indiretas às questões postas. Por exemplo, a crítica ao “economicismo”, na análise e na política, foi uma constante. Mas este seria sinônimo de marxismo, que teria como pressuposto essencial um determinismo da “infra-estrutura”?

Alguns dirão que se trata de fato de um recuo ao já acumulado no debate, que já estava entrando em uma praxiologia da transformação social, nas palavras do último Paraná. Ora, mas se chegamos ao ponto de desenvolver a fabulosa (e consensual?) tese de Engels “a hegemonia política teve por base, em todas as partes, o exercício de uma função social”, no aspecto mais operacional (endógena e exogenamente), devemos também nomear e indicar para onde nos encaminha essa hegemonia política. Acredito que não estamos falando aqui de apenas ir mais à esquerda. Há algo mais, até agora sob o nome geral e escorregadio de transformação social. Para deixar esse nome mais concreto, devemos falar abertamente do elefante na sala, enfim!

NOTAS

1 “Nossos problemas são muito mais os problemas de Marx do que os problemas de Lênin” – Badiou, aqui: http://www.lacan.com/essays/?page_id=323.
“Leia a 11ª Tese sobre Feuerbach, aquela que diz que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo, quando devemos transformá-lo. Mas leia ao contrário. Devemos parar de querer mudar o mundo às cegas, para interpretá-lo, saber o que ele é.” Žižek, aqui: http://piaui.folha.uol.com.br/materia/zizek-o-moises-da-dialetica/.
2 Sobre essa fase da reflexão althusseriana, a da análise do “inconsciente do movimento comunista”, ver Althusser, a crise do marxismo e a crítica à ilusão jurídica da política, de Danilo Enrico Martuscelli, aqui: https://revistas.pucsp.br/index.php/ls/article/view/25749/18383. A Revista Crise e Crítica também publicou recentemente um texto de Balibar que debate essas questões, ver: http://criseecritica.org/wp-content/uploads/2017/11/Althusser-e-o-comunismo.pdf.
3 Novamente, expressão althusseriana, quando se refere a Lévi-Strauss. Aqui, Tupinambá também nos deve explicações sobre a referência a Bogdanov nos 45 minutos do segundo tempo…
4 Balibar, Étienne. Cinq études du matérialisme historique. François Maspero: Paris, 1974.
5 Não se defende aqui um “sujeito da história”, ou uma nostalgia. Novamente Balibar: “apenas existe proletariado histórico sob o efeito dum processo desigual de proletarização, e a estrutura do proletariado nunca é senão o índice das tendências da proletarização, nas condições historicamente determinadas de uma dada formação social […] O proletariado não se reproduz a partir dele próprio, por uma descendência direta, contínua. Reproduz-se a partir do conjunto das condições sociais”. Como diz Edelman, em A legalização da classe operária, recentemente publicada pela Boitempo, “a classe operária jamais ‘existiu’, jamais”.
E o jurista continua, num surpreende diálogo com o “Teorema” de Carlos: “as massas são apenas uma espécie de validação transcendental, um objeto que existe somente para fazer existir esse chamado [da esquerda]”. Esse outro inacessível e evanescente, que a forma jurídica (usada inclusive pela esquerda, na luta “por direitos”) tenta captar, traduzir e engessar, denuncia o caráter assimétrico da luta de classes, que não se dá em um “terreno plano”, sob as mesmas lógicas em ambos os polos. Estaria aí mais uma chave para compreender o nosso muito aquém enquanto força política transformadora? Tentamos resolver os problemas cotidianos, mas sob a linguagem e lógica do outro campo, de fora? O que seria se tornar massa, mantendo a perspectiva estratégica?
Para acabar: lembrei-me do exemplo de Tupinambá do militante que vai panfletar no metrô, com pouco sucesso, na hora do rush. Aqui em Brasília, muitos anos atrás, se sabia que haveria paralisação dos ônibus no outro dia de uma forma muito peculiar. Faróis altos lançados pelos motoristas ao passar nas paradas. Não se precisava de panfleto, militância “deslocada” anunciando o feito… e era algo sabido! Talvez haja um quê de lenda urbana nisso, mas continua rico para análise: claro que se tratava de um imenso trabalho precedente de militância, mas uma invisível aos inimigos, pois operava em outros registros (e aparelhos?), certamente mais próximos às massas.
6 Esse debate já se iniciou nesse blog, com a leitura crítica de Ricardo Musse da tese badiouniana, aqui: https://blogdaboitempo.com.br/2013/08/09/a-forma-partido-e-dispensavel/Noto, no entanto, que o próprio Badiou anuncia, de forma destoante, um “marxismo revolucionário criador”, quando da análise da relação entre Comuna de Paris e Revolução Cultural Chinesa, mas não chega a desenvolver a ideia. Só sabemos que este marxismo ganha corpo com a tentativa de reativação da Comuna por parte da Revolução Cultural (e por vezes, do próprio Mao), em oposição a um “estatismo retrógrado” que posteriormente marcaria o retorno chinês ao capitalismo e definiria tal revolução como experiência limite da forma partido-Estado, desde então “saturada” – palavras de Badiou. Curiosamente, também faço questão de notar, Badiou não trata em nenhum momento das críticas de Althusser aos PCs, no final dos anos 1970, realizadas visivelmente sob influência chinesa e, podemos dizer, tentando salvar a provisória, a seu ver, porém necessária, forma-partido para que não se transformasse em partido-Estado (ou, usando seus termos, um Aparelho Ideológico de Estado como os outros).
7 Göran Therborn, Do marxismo ao pós-marxismo? São Paulo, Boitempo, 2012.

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Alexandre Pimenta é mestre em Sociologia e doutorando em Ciência Política pela UnB (Universidade de Brasília). Participa do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho (GEPT – UnB).

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

1 comentário em O mais aquém do tragi(-)cômico da esquerda do século XXI: um comentário sobre o duelo Paraná-Tupinambá

  1. Aída Paiva // 02/04/2018 às 9:13 pm // Responder

    Desde Slavoj Zizek e sua crítica a militância de esquerda e a crítica a própria esquerda que vejo os intelectuais que nos criticam de um jeito como se eles fossem a direita. Eu aceito as críticas contra a esquerda apenas de quem está do lado, de quem está junto e do mesmo lado, de quem não saiu, de quem está na luta desde que nasceu. Não é possível aceitar uma sugestão de quem não está dentro da luta porque falar do lado de fora é muito diferente de falar com quem está do lado. Quem está ao lado vai por a mão na massa pra te ajudar e não ficar apontando defeitos. Igual o sindicalista que manda alguém lhe dar um tênis pra você que perdeu os sapatos na luta contra o Collor de Melo. Não li o texto.

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