Cultura inútil: Moralismo e moralistas

Por Mouzar Benedito.

Estamos num tempo em que se fecham exposições “imorais”, se proíbe peças de teatro “ofensivas”… E os moralistas que promovem isso fecham os olhos para um governo imoral, veem seus líderes políticos cometendo imoralidades imensas (ferraram outros por muito menos) e ficam de bico calado, fazem parte dos 3% da população que aprovam um governo que acaba com direitos sociais, entregam o país à sanha negocista, promovem a entrega de reservas ambientais e indígenas aos sanguessugas do agronegócio…

E daí?

Quando um moralista fala de um parceiro de comportamentos e ideias, costuma usar muitos adjetivos que gostaria de ver aplicados a ele mesmo. E gosta de expressões metidas a bestas. O seu assemelhado é cheio de qualidades, não é? “Antigamente” se referiam a e essas qualidades e seus portadores com expressões como inteireza moral, caráter incontaminado, decoro (aqui eu me lembro do “decoro parlamentar” – tem cada parlamentar que se diz portador dele!), barbas honradas, espírito firme, alma fácil a todos os sentimentos nobres, homem da estofa dos antigos, encarnação viva e perfeita da honra, incorrupto a promessas e lisonjas, constante como a estrela polar, fiel como a agulha ao polo, criado no trabalho e na honestidade, a serviço das mais lindas e fortes inspirações e (por que não usar o latim para valorizar mais ainda o elogiado?) justus et tenax propositi, quer dizer, justo e obstinado em seus propósitos.

Mas se um dia eles se rompem, o que falam um do outro é um pouquinho diferente. As “qualidades” atribuídas a eles podem ser: velhaco, biltre, bandalho, bilhostre, batoteiro, vendilhão, patife, pulha, embusteiro, tratante, canalha, trapaceiro, malafaia, safardana, troca-tintas, prevaricador, um sete um, merca-honra, crocodilo, delator, perjuro, borra-botas, finório, embusteiro, facínora, repugnante, divorciado da virtude. E que ele tem moral de funil.

Há quem tente diferenciar o moralista do falso moralista. Será que tem jeito? Bom… O que sei é que quando escuto discursos moralistas penso em algumas expressões como “debaixo desse angu tem carne”, “santo do pau oco”… Tenho a convicção que quase todos um dia se revelam… Então, em vez de teorizar, tasco em seguida umas frases catadas por aí.

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Bertrand Russell: “Moralistas são pessoas que renunciam às alegrias corriqueiras para poder, sem culpa e recriminação, estragar a alegria dos outros”.

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Emanuel Wertheimer: “Não há mais severo moralista do que o caloteiro quando é caloteado”.

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Guerra Junqueiro: “Há moralistas imoralíssimos”.

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Clarice Lispector: “Se você procura alguém coerente, sensata, politicamente correta, racional, cheia de moralismo… Esqueça-me! Se você sabe com viver com pessoas intempestivas, emotivas, vulneráveis, amáveis, que explodem na emoção, acolha-me”.

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Stanislaw Ponte Preta: “Os valores morais são os únicos que conservaram os preços de antigamente”.

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Marcel Proust: “Assim que uma pessoa se sente infeliz, torna-se moralista”.

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Mário Quintana: “Ah, esses moralistas… Não há nada que empeste mais do que um desinfetante”.

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Nietzsche: “É preciso ser-se imoral para pôr a moral em ação. Os meios dos moralistas são os mais asquerosos que alguma vez foram usados. Quem não tiver coragem de ser imoral, pode servir para tudo, exceto para dar em moralista”.

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Bob Marley: “Me chamam de louco porque fumo maconha e de gênio quem construiu a bomba atômica”.

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Oscar Wilde: “Um moralista é, quase sempre, um hipócrita; uma moralista, invariavelmente, um bagulho”.

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Vittorio de Sica: “A indignação moral é, na maioria dos casos, uns dois por cento de moral, uns quarenta e oito por cento, indignação, e uns cinquenta por cento, inveja”.

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Ciro Gomes: “Todo mundo sabe que a revista Veja é a folha da canalhocracia brasileira. É ali que o baronato brasileiro explora o moralismo a serviço da imoralidade”.

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Samuel Becket: “Os moralistas são pessoas que coçam onde os outros têm comichão”.

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Eça de Queiroz: “Não sou moralista, sou um artista; o artista é um ser nefasto, que não é responsável pelas suas fantasias, nem pela sua vingança”.

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H. L. Mencken: “A imoralidade é a moralidade daqueles que estão se divertindo mais do que nós”.

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Charles Dickens: “O moralista é como um sinal de trânsito que indica por onde se deve ir para uma cidade, mas não vai”.

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 Charles Lemesle: “O moralista geralmente limita suas funções às de corneteiro de regimento que, após dar o toque de assalto e fazer grande ruído, se julga dispensado de tomar parte na luta”.

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Conde de Lautréamond: “Há uma filosofia para as ciências. Não há para a poesia. Não conheço moralista que seja um poeta de primeira ordem. É estranho, dirá alguém”.

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Lord Byron: “Ainda que os sábios derramassem o tesouro de sua sabedoria, não haveria moralista mais severo que o prazer”.

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Jules Renard: “Os moralistas que louvam o trabalho fazem-me pensar nos palermas que foram ludibriados numa barraca de feira e tentam fazer os outros entrarem ali de qualquer maneira”.

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H. G. Wells: “Toda indignação moral é a inveja equipada com aura”.

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Barão de Itararé: “A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele”.

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Eu:
“Igreja moralista
Quer mesmo é grana:
É capetalista”

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2017, e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

3 comentários em Cultura inútil: Moralismo e moralistas

  1. SÍLVIA M POMPEIA // 18/10/2017 às 6:14 pm // Responder

    Adorei “capetalista”!!!
    Ótima expressão pra falar de igrejas que só querem o $$$ das pessoas!

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  2. Esse artigo me lembrou o recente filme O Jovem Karl Marx. Ali podemos ver um intelectual que bebe, fuma,faz sexo, tem raiva, fica na bebedeira com o amigo Engels…e isso o torna humano, o que é algo lindo, sem moralismo, sem status de pureza cristã que teme pecar o corpo para não perder a alma.

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  3. Chamar de imoral a moral de alguém é fazer moral também.

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