Barbaro: no rumo de uma estética do cinema

O trabalho de Umberto Barbaro, na busca de uma estética cinematográfica marxista, não deve nem pode ser esquecido ou minimizado.

Por José Paulo Netto.

Em 1963, Glauber Rocha (1939-1981) – já conhecido por sua intensa atividade na imprensa e sobretudo como o cineasta de Barravento e do então recente Deus e o diabo na terra do sol – publicou o ensaio Revisão crítica do cinema brasileiro. O texto saiu pela Civilização Brasileira (Rio de Janeiro), figurando as suas 147 páginas como o volume de número 21 da coleção “Retratos do Brasil”. A edição deste livro foi como que o pré-teste de um projeto a que se dedicava o incansável Alex Viany (1918-1992) e que se materializou pouco depois: em 1965, a Civilização Brasileira inaugurou uma nova coleção, por ele dirigida, a “Biblioteca básica de cinema”.

Eram os anos do Cinema Novo, mas também os tempos da ditadura imposta pelo golpe civil-militar do 1º de abril de 1964. Compreende-se que não tenha avançado muito a implementação do projeto de Viany: interrompeu-o com brutalidade, após o lançamento de uns poucos títulos, o obscurantismo do AI-5 e dos anos de chumbo, marcados pelo empenho da ditadura, de seus beneficiários e de seus serviçais para asfixiar, na cultura brasileira, quaisquer vetores de renovação e crítica.

No rol de autores que Viany pretendia publicar havia vários marxistas, entre os quais o italiano Guido Aristarco (1918-1996) – deste pensador claramente inspirado pelas teses de György Lukács, Viany queria editar a História das teorias do cinema, que pouco antes saíra em Portugal (Lisboa: Arcádia, 2 vols., 1961-1963). Mas o autor italiano que ele efetivamente fez circular entre nós foi Umberto Barbaro (1902-1959): em 1965, a coleção dirigida por Viany pôs à nossa disposição textos de Barbaro reunidos no volume Elementos de estética cinematográfica. Até então, da bibliografia de Barbaro, apenas se conhecia no Brasil o clássico ensaio, de 1939, Argumento e roteiro (dado a público em 1957 pela Andes, de São Paulo – reeditado depois, em 1983, pela Global, igualmente de São Paulo).

Há que observar que Barbaro escreveu muito e sua intervenção não se esgotou no estrito domínio da teoria cinematográfica. Trabalhando anos com Luigi Chiarini (1900-1975, que em 1935 fundara, em Roma, o Centro Experimental de Cinematografia, no qual Barbaro exerceu a docência e que dirigiu por algum tempo), ele foi influenciado pelas ideias de V. I. Pudovkin (1893-1953, de quem traduziu textos importantes), de Béla Balázs (1884-1949) e de R. Arnheim (1904-2007). Mas a produção de Barbaro foi diversificada: incidiu na dramaturgia, na direção de filmes, na criação de roteiros e na prática da crítica – ela constituiu um enorme acervo, parte inclusive divulgada postumamente.[1] Deste acervo, ao que sei, ainda continuam inéditos em português vários materiais significativos, como Il cinema e l’uomo moderno (1950) e Poesia del film (1955).

Dos anos 1930 até sua morte, Barbaro foi uma figura central, respeitada e polêmica, do mundo do cinema na Itália: seus textos, divulgados na revista Bianco e Nero – que criou em 1937, com L. Chiarini e vinculada ao Centro fundado dois anos antes –, formaram cineastas e críticos de gerações mais novas. Há consenso entre historiadores do cinema (de G. Sadoul a P. Bondadella) acerca do fato de a renovação cinematográfica que se seguiu no país ao fim da Segunda Guerra, designada como movimento neo-realista, esteve diretamente conectada às suas elaborações.[2]

A influência de Barbaro, entretanto, não se limitou à Itália. Na segunda metade dos anos 1940, quando a cultura polonesa, libertada do horror imposto pelas hordas nazi-fascistas, dava os primeiros passos no resgate do seu passado e com os horizontes postos pela sua reconstrução social, Barbaro colaborou concretamente na renovação do cinema nacional da Polônia, que tinha raízes anteriores à guerra: entre 1948 e 1949, ele lecionou na recém-fundada Escola Estatal de Cinematografia da Polônia. Tudo indica que, nestes anos, Barbaro concebeu o que seria um tratado de estética – que ele não redigiu, mas cujos traços essenciais esboçou e que foram publicados postumamente em Il film e il risarcimento marxista dell’arte (Roma: Riuniti, 1960).

Elementos de estética cinematográfica, lançado entre nós em 1965 e hoje verdadeira raridade bibliográfica encontrável em poucos alfarrabistas, é uma compilação de trabalhos antes reunidos no citado Il film e il risarcimento marxista dell’arte e ainda de outros, coligidos em Servitù e grandeza del cinema (Roma: Riuniti, 1962), antologia póstuma do exercício crítico de Barbaro. A excelente seleção textual – de que, ao que tudo indica, encarregou-se o próprio Viany – garantiu ao volume, organizado criteriosamente em quatro partes, uma surpreendente unidade. Nas suas partes I e II, as mais expressivas, filtra-se a concepção estética de Barbaro, articulada nas suas teses sobre o roteiro e o argumento e desenvolvida com a consideração de aspectos técnicos; na parte III, Barbaro discute a problemática do ator, em páginas nas quais esclarece a sua tese do “ator criador” e se detém na “extraordinária atriz” dinamarquesa Asta Nielsen (1881-1972); a parte IV, a mais breve, recupera três de seus incontáveis artigos histórico-críticos.

Barbaro não elaborou sistematicamente um tratado de estética cinematográfica. Parece legítimo, contudo, rastrear nos seus escritos o que seriam os traços constitutivos das suas concepções, talvez o mais importante deles a sua defesa do realismo, que não limitava ao cinema, mas que pensava ser o princípio de toda criação artística. Sempre o distinguiu das representações naturalistas: sustentou expressamente que o realismo haveria de ser “uma síntese entre fantasia e imaginação”. Sem nada conceder a influências positivistas, Barbaro também enfrentou a tradição estético-idealista tão influente de Benedetto Croce (1866-1952), ainda ativo durante boa parte do lapso histórico em que desenvolveu o seu próprio exercício teórico-crítico (Croce estava lúcido e atuante ao tempo, 1945-1947, em que Barbaro assumiu a crítica militante que praticou nas colunas de L’Unità).

Recusando princípios estéticos autônomos para as diferentes artes, Barbaro vislumbrava uma teoria estética que, racionalista e universal, fosse capaz de apreender a particularidade que tornava peculiar cada arte e, nela, cada obra um produto irrepetível. Sem perder de vista a universalidade da teoria estética, centrou seus esforços na apreensão da concretude artística – necessariamente sócio-histórica – do cinema. Estava convencido, desde os anos 1930, que uma estética inspirada no marxismo era “a única que conduz à reta avaliação das obras, na sua complexidade e na integralidade da sua significação ideológica, bem como da influência e importância social, não menos que do seu efetivo valor de arte”. Esta formulação de Barbaro (datada de 1954) mostra bem que ele tinha em mira uma crítica totalizante/totalizadora, qualificada para explicar e compreender a obra de arte cinematográfica.

O exame da contribuição de Barbaro – de que os Elementos de estética cinematográfica nos aproximam – mostra que, mesmo sem chegar a uma cerrada sistematização formal, ele estava no rumo de uma estética marxista do cinema. Na década de 1950, outros italianos tematizaram o mesmo objeto e a mesma problemática e se moveram na mesma direção: pense-se, além de Aristarco, de cuja bibliografia mencionamos a Storia delle teoriche del film,[3] em Della Volpe (Il verosimile fílmico e altri scritti di estetica. Roma: Filmcritica, 1954) – aliás, Galvano Della Volpe (1895-1968) haveria de empreender a tentativa de uma sistematização estética na sua Critica del gusto (Milano: Feltrinelli, 1960).

O autor dos textos de Elementos de estética cinematográfica já falecera quando a tradição marxista registrou, no âmbito de uma teoria estética sistemática, uma original (e tão sintética quanto fecunda) aproximação ao trato da particularidade da obra cinematográfica – as poucas dezenas de páginas que ao filme Lukács dedica na sua Estética I (1963). Mas o trabalho de Umberto Barbaro, na busca de uma estética cinematográfica marxista, não deve nem pode ser esquecido ou minimizado.

Notas

1 Recorrendo ao conhecido Dizionario Biografico degli Italiani/DBI, concebido ainda nos anos 1920, mas publicado continuamente desde 1961 (em 2016, reunia 86 volumes), o leitor interessado encontra no verbete “Umberto Barbaro”, redigido por G. Aristarco (Roma: Istituto della Enciclopedia Italiana, vol. 6, 1964) uma síntese da produção de Barbaro, bem como uma breve bibliografia a ela pertinente, referida de 1930 a 1960. Vale também a recorrência ao mesmo verbete, mais detalhado, preparado por E. Bruno para a Enciclopedia del Cinema 2003 (Roma: Istituto della Enciclopedia Italiana, 2004).

2 Cf. G. P. Brunetta, Umberto Barbaro e l’idea di neorealismo: 1930-1943. Padua: Liviana, 1969 e, aos cuidados deste historiador e crítico, U. Barbaro, Neorealismo e realismo. Roma: Riuniti, 1960). Também de sua lavra foram ensaios que relacionaram a cinematografia soviética à italiana e trataram da análise do cinema alemão – cf., p. ex., “Il cinema sovietico e il cinema italiano” (Rassegna soviética. Milano, 1, gen.-feb., 1958) e Il cinema tedesco (aos cuidados de M. Argentiere. Roma: Riuniti, 1973).

3 Primeira edição de 1951. Da produção de Aristarco, destaque-se ainda Il dissolvimento della ragione. Discorso sul cinema (Milano: Feltrinelli, 1965), Marx, il cinema e la critica del film (Milano: Feltrinelli, 1979) e Neorealismo e nuova critica cinematografica (Firenze: Nuova Guaraldi, 1980).

***

José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. Recentemente, organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). No Blog da Boitempo escreve mensalmente, às segundas, a coluna “Biblioteca do Zé Paulo: achados do pensamento crítico“, dedicada a garimpar preciosidades esquecidas da literatura anticapitalista.

1 comentário em Barbaro: no rumo de uma estética do cinema

  1. Eliane Silva // 13/10/2017 às 18:31 // Responder

    Espero o mês inteiro pelo estudo do professor José Paulo Netto e quando ele chega, está todo cortado à margem direita, forçando o leitor adivinhar o que deveria estar escrito ali. Eu ainda tenho a esperança de ler este texto, inteiro, com o devido gosto que tenho de ler os trabalhos deste autor.

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