9 pontos sobre os novos anexos da delação da JBS

Os novos anexos da delação da JBS e o caos sistêmico brasileiro

Por Carlos Eduardo Martins.

1) O novo anexo cai no colo de Janot, da PGR e dos ministros do STF que deram perdão judicial ilegal aos controladores da JBS. A insinuação de manipulação da PGR e do STF encontra contrapartida material no perdão judicial à revelia da lei da delação premiada, que não os admite em casos que incluem chefes de organizações criminosas ou quando os delatores em questão não são os primeiros a delatar, exatamente a situação dos irmãos controladores da JBS;

2) Os novos áudios da delação dos controladores JBS colocam, entretanto, em questão o próprio acordo de delação que os beneficiou amplamente, e levanta a questão do porquê de tomarem esta iniciativa;

3) Para além da inferência óbvia que beneficiam Temer e respaldam sua denúncia contra a própria JBS e a PGR, quando da divulgação dos áudios que o comprometeram, paira a constatação de que há um mercado da delação premiada e que da mesma forma que a JBS financiou campanhas eleitorais de rivais em busca de benefícios, entra neste mercado como forte predadora vendendo informações;

4) O que estamos assistindo então é deslocamento da competição política do plano eleitoral para o palaciano em um Estado que, com o golpe de 2016, eliminou da soberania popular qualquer relevância;

5) Impõe-se então a conclusão de que o capitalismo neoliberal desregulado, da mesma forma que gera crises econômicas cada vez mais agudas e incontroláveis, passa então a gerar crises políticas similares, ao transformar a política numa mercadoria que rompe ou esvazia sua relação com a soberania popular;

6) Se formos recorrer no século XXI à análise que Polanyi realizou para as primeiras décadas do século XX, o que estamos a observar é o movimento expansivo de um moinho satânico a devorar dimensões da sociedade com certo grau de autonomia e valor de uso – como a soberania popular, a soberania nacional e os direitos sociais –, transformando-as em matérias-primas a serem destruídas no processo de acumulação ilimitada do capital;

7) Até onde este processo de liquidação social pode ir não sabemos. Sabemos que no século XX levou a brutais choques sociais na tentativa de impor novos padrões de regulação, onde o fascismo prosperou como uma das alternativas frente ao socialismo e ao Estado keynesiano de Warfare/Welfare;

8) Em nossos trabalhos temos procurado assinalar que a via keynesiana do capitalismo de pleno emprego e direitos sociais não é mais possível, nem para os países do centro e da franja superior da semiperiferia, muito menos para os países dependentes, onde nunca se consolidaram; e

9) Na busca de alternativas, a esquerda deve conservar sua lucidez e não cerrar fileiras com a extrema-direita, clamando por uma aventureira intervenção militar salvadora, como recentemente fez Moniz Bandeira, que pode nos afastar muito mais da democracia do que já estamos

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

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