Uma biografia de Ruy Guerra, o “outsider” no Cinema Novo

“Na perspectiva curiosa de um moço de fora, uma biografia feita com paixão por historiadora inventiva que se enfronha em período controverso da vida brasileira.” — Sergio Miceli escreve sobre o novo livro de Vavy Pacheco Borges.

Por Sergio Miceli.

A Boitempo acaba de lançar a biografia de um dos maiores ícones do Cinema Novo. A obra é fruto de mais de uma década de trabalho da historiadora Vavy Pacheco Borges, que realizou entrevistas e pesquisas de campo em três continentes diferentes. Nas palavras de Cacá Diegues, na quarta-capa do livro, “Guerreiro solitário, Ruy Guerra foi filmar em outras partes do mundo, sem nunca deixar o Brasil. Ele será sempre lembrado como um dos principais criadores do grande e generoso cinema que sonhamos fazer.” Leia abaixo o texto de orelha escrito pelo sociólogo da cultura Sergio Miceli.

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Vavy Pacheco Borges restitui no livro Ruy Guerra: paixão escancarada o itinerário de vida e de trabalho de Ruy Guerra, o cineasta outsider no Cinema Novo. A autora entrelaça as vicissitudes do percurso pessoal de Ruy às convulsões da conjuntura cinematográfica, cultural e política, em âmbito nacional e transnacional. Recupera o romance familiar, a iniciação no métier, os óbices na travessia e, assim, esboça um retrato confrontado a seus pares em sucessivas etapas: no ambiente acanhado da intelectualidade moçambicana; na turma de estudantes de cinema em Paris; na competição vibrante com colegas de geração já no Brasil.

A força do relato deriva do garimpo de materiais pungentes em momentos de transe de uma vida tripartite. As cartas comoventes do pai; o desnorteio de jovens com veleidades intelectuais na periferia; o choque do retorno à terra natal nos anos 1970-1980, premido entre as diretrizes revolucionárias e o talhe etnográfico de documentários; o saldo deficiente do estágio parisiense, com o bloqueio de oportunidades; por fim, o polimórfico encaixe na cena nativa nas incendiárias décadas de 1960 e de 1970 – eis alguns dos lances instigantes que conformam o Ruy nacional estrangeiro. Logo seria premiado duas vezes com o Urso de Prata no Festival de Berlim, um feito e tanto para um cineasta no Terceiro Mundo.

Nascido em Moçambique numa família de funcionários brancos de origem portuguesa, aprendiz do ofício em Paris nos anos 1950, se firmou no Brasil com filmes – Os cafajestes (1962) e Os fuzis (1964) – que chacoalharam o cinema nacional. Em razão da experiência singular, Ruy se presta à narrativa multifacetada que revigora o imbroglio biográfico, o esboço de uma história social e intelectual da fornada de jovens que reinventaram o gênero no país. Em meio à escassez de escritos reflexivos dos diretores, na qual avultam obras laudatórias, a mirada de Vavy Pacheco Borges sobre o “estranho no ninho” aquilata o cabedal de traços que o distinguem dos comparsas de experimento – entre os quais herdeiros de sumidades da inteligência brasileira, como Joaquim Pedro de Andrade e Carlos Diegues. Uns e outros se deixam ver com mais nitidez à luz da trajetória de Ruy. Na perspectiva curiosa de um moço de fora, uma biografia feita com paixão por historiadora inventiva que se enfronha em período controverso da vida brasileira.

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