As Jornadas de Julho // Especial Revolução Russa

Os bolcheviques queriam evitar o mesmo destino da Comuna de Paris. Foi por isso que não tomaram o poder em julho de 1917.

Protesto de rua na Nevski Prospekt, principal avenida de Petrogrado (São Petersburgo), em 4 de julho de 1917, logo após as tropas do Governo Provisório abrirem fogo sobre os manifestantes.

Por Daniel Gaido.

Em 1917, a Rússia tinha mais de 165 milhões de cidadãos, dos quais apenas 2,7 milhões viviam em Petrogrado. A capital tinha 390 mil trabalhadores fabris – sendo um terço de mulheres –, 215 a 300 mil soldados na guarnição, e cerca de 30 mil marinheiros e soldados estacionados na base naval de Kronstadt.

Na sequência da Revolução de Fevereiro e da abdicação do Czar Nicolau II, os sovietes, liderados pelos Mencheviques e pelos Socialistas-Revolucionários, cederam o poder a um Governo Provisório não eleito e que estava inclinado a prosseguir com o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial e a adiar a reforma agrária até a eleição da Assembleia Constituinte, cuja data foi postergada indefinidamente.

Esses mesmos sovietes também reivindicaram a criação de comitês de soldados e instruíram estes a desobedecer quaisquer ordens oficiais que fossem contrárias às ordens e decretos do Soviete dos Delegados Operários e Soldados.

Essas decisões contraditórias produziram uma instável estrutura de poder dual marcada por crises de governo regulares.

A primeira dessas crises eclodiu em abril de 1917 durante a guerra e terminou depois que os principais líderes políticos burgueses – Pavel Milyukov, dos Kadetes (Partido Constitucional Democrata) e Alexander Guchkov, do Partido Outubrista – foram afastados do governo. Além disso, ela revelou a impotência do governo em relação à guarnição de Petrogrado: as tropas estavam respondendo ao Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado ao invés de seguirem o então comandante, general Lavr Kornilov.

O governo de coalizão que surgiu dessa crise incluía nove ministros dos partidos burgueses e seis dos então chamados partidos socialistas. O Príncipe Georgy Lvov permaneceu como primeiro ministro e ministro do interior, mas o Ministro da Guerra e da Marinha, Alexander Kerensky, membro do partido Socialista-Revolucionário, logo se tornou a estrela em ascensão do governo. O gabinete também incluía os Mencheviques Irakli Tsereteli, como ministro de correios e telégrafos, e Matvey Skobelev, como ministro de trabalho. Os Socialistas-Revolucionários, Viktor Chernov e Pavel Pereverzev, também entraram na coalizão como ministro da agricultura e ministro da justiça, respectivamente.

O partido polchevique no verão de 1917

Os Bolcheviques tiveram dificuldades durante a primeira metade de 1917. Eles inicialmente se opuseram à manifestação do Dia Internacional das Mulheres, que havia levado à Revolução de Fevereiro. A partir daí o partido bolchevique então passou por uma brusca guinada à direita no meio de março, quando Lev Kamenev, Josef Stalin e M. K. Muranov retornaram da Siberia e assumiram o controle do periódico do partido, o Pravda. Sob seu comando, o jornal passou a defender o apoio crítico ao Governo Provisório, rejeitou o slogan “Abaixo a Guerra”, e exigiu que se desse um fim às atividades de desorganização no front.

Tais posições contrastaram fortemente com a visão de Lênin, expressa em suas “Cartas de longe”, então não é de surpreender que o Pravda publicou apenas a primeira delas, com numerosas supressões. De acordo com o testemunho de Alexander Shlyapnikov:

“O dia em que apareceu o primeiro número do ‘Pravda reformado’, em 15 de março, foi um dia de triunfo para os ‘defensistas’. O Palácio Tauride em sua totalidade, dos membros do Comitê de Duma ao Comitê Executivo, o próprio coração da democracia revolucionária, estavam tomados por uma notícia – a vitória dos Bolcheviques moderados e razoáveis contra os extremistas. No Comitê Executivo, nós fomos recebidos com sorrisos venenosos”.

Essa visão prevaleceu entre os líderes Bolcheviques em Petrogrado até quando, no dia 3 de abril, Lênin chegou à Estação Finlândia. No dia seguinte, ele apresentou suas famosas “Teses de Abril” aos delegados Bolcheviques e ao Congresso dos Sovietes dos Delegados Soldados e Operários de Toda Rússia. Em contraste com Kamenev e Stalin, Lênin reafirmou seu total repúdio ao “defensismo revolucionário” e defendeu a confraternização no front. Ele também adotou a perspectiva de Leon Trotsky, caracterizando o “momento presente” como uma transição entre o primeiro estágio “burguês-liberal” da revolução e o segundo estágio “socialista”, durante o qual o poder seria transferido às mãos do proletariado.

Lênin se opôs a Stalin e a Kamenev na questão do “apoio limitado” ao Governo Provisório, defendendo, ao contrário, a rejeição completa do governo e afastando a noção de que os Bolcheviques e os Mencheviques menos radicais poderiam se reunir. Daí em diante, os Bolcheviques passaram a reivindicar a transferência de todo o poder para os Sovietes, que iriam então armar o povo, abolir a polícia, o exército e a burocracia estatal, confiscar a terra dos proprietários e transferir o controle da produção e da distribuição para os trabalhadores.

Na VII Conferência do Partido Bolchevique, realizada em Petrogrado de 24 a 29 de abril, as posições de Lênin sobre a guerra e o Governo Provisório receberam apoio majoritário.

O partido bolchevique permaneceu pequeno no começo de 1917, com apenas dois mil membros em Petrogrado, constituindo somente 0,5% da classe trabalhadora industrial da cidade. No entanto, quando da abertura da Conferência de Abril, as filiações ao partido aumentaram para 16 mil somente na capital. Ao final de junho, elas haviam dobrado. Dois mil soldados em guarnição entraram na Organização Militar Bolchevique e mais quatro mil tornaram-se associados ao Clube Pravda, uma organização não partidária para militares, mas operada pela Organização Militar Bolchevique.

Esse crescimento massivo transformou a organização. Suas fileiras cresceram com recrutas impetuosos que sabiam pouco de marxismo, mas estavam ansiosos para se engajar na ação revolucionária.

Enquanto isso, os bolcheviques começaram a incorporar organizações já existentes. No dia 4 de maio, o dia anterior à formação do governo de coalizão, Trótski retornou do exílio. Agora que ele e Lênin haviam encontrado uma posição comum, Trótski começou a conectar sua organização, a Mezhraiontsy ou Organização Interdistrital de Petrogrado, ao partido de Lênin.

Apesar do crescimento excepcional, os bolcheviques ainda eram minoria. Eles contabilizavam menos de 10% dos delegados no Primeiro Congresso dos Sovietes dos Delegados Operários e Soldados de Toda Rússia, cuja abertura se deu em 3 de junho. Esse encontro nacional contou com 1.090 delegados – dos quais 822 podiam votar – que representavam mais de trezentos sovietes de operários, soldados e camponeses, e 53 sovietes regionais, provinciais e distritais. Os bolcheviques tinham a terceira maior representação com 105 delegados, atrás dos Socialistas-Revolucionários (com 285 delegados) e dos Mencheviques (com 248 delegados).

Naquela época, Petrogrado tinha três organizações distintas ligadas ao partido bolchevique: o Comitê Central de nove homens, a Organização Militar de Toda Rússia e o Comitê de Petersburgo. Cada uma tinha suas próprias responsabilidades, submetendo-as a diferentes e, às vezes conflitantes, pressões. O Comitê Central, que tinha que considerar a situação do país todo, frequentemente encontrava-se restringindo os grupos mais radicais.

Preparando o palco

A Organização Militar Bolchevique planejou uma manifestação armada para 10 de junho com o intuito de expressar massiva oposição às preparações do Governo Provisório para uma ofensiva militar, às tentativas de Kerensky de reinstituir disciplina nos quartéis e à crescente ameaça de transferência ao front. A ação foi cancelada de última hora, curvando-se à oposição do Congresso dos Sovietes.

Alguns elementos do partido bolchevique, particularmente no Comitê de Petersburgo e na Organização Militar, viram a manifestação abortada como uma potencial insurreição. De fato, o próprio Lênin teve que comparecer em uma reunião de emergência para defender a decisão do Comitê Central de cancelar a mobilização planejada. Ele explicou que o Comitê Central devia seguir a ordem formal do Congresso de Sovietes e que a contrarrevolução tinha a intenção de usar a manifestação para seus próprios propósitos. Lênin acrescentou:

“Mesmo na mais simples guerra, acontece de ofensivas programadas terem de ser canceladas por razões estratégicas e isso também deve acontecer na guerra de classes. É necessário determinar a situação e ser corajoso nas decisões”.

O Congresso de Sovietes decidiu realizar sua própria marcha uma semana depois, em 18 de junho, e ordenou que todas as unidades militares em guarnição participassem desarmadas. Os bolcheviques transformaram isso em uma manifestação massiva contra o governo, com mais de 400 mil manifestantes.

No seu relato, na condição de testemunha ocular da Revolução Russa, Nikolai Sukhanov recorda:

“Todo operário e soldado de Petersburgo tomou parte naquilo. Mas qual foi o caráter político da manifestação? “Bolcheviques de novo”, eu observei, olhando para os slogans, “e lá atrás deles, outra coluna Bolchevique.”, “Todo poder aos Sovietes!”, “Abaixo os Dez Ministros Capitalistas!”, “Paz aos casebres e guerra aos palácios!”. Dessa maneira robusta e pesada, a Petersburgo de trabalhadores e camponeses, vanguarda da Revolução Russa e mundial, expressou sua vontade”.

Os bolcheviques tinham planejado a manifestação original com a Federação de Anarquistas-Comunistas de Petrogrado, um dos dois maiores grupos anarquistas em operação na época. O Comitê Anarquista Revolucionário Provisório decidiu superar seu aliado e resgatou F. P. Khaustov, editor do jornal da vanguarda da Organização Militar Bolchevique, da prisão de Vyborg.

Em resposta, o governo atacou as sedes dos anarquistas, matando um de seus líderes. O assassinato de Asnin, combinado com a Ofensiva de Julho de Kerensky e as novas ordens requerendo homens e armas, a agitação militar se intensificara, particularmente no Primeiro Regimento de Metralhadoras. Esses soldados começaram a planejar uma insurreição imediata já no dia 1º de julho – e com o encorajamento dos Anarquistas-Comunistas.

No Congresso de Toda Rússia das Organizações Militares Bolcheviques, os delegados foram avisados para que não entrassem no jogo do governo ao encenar uma revolta prematura e desorganizada. O discurso de Lênin em 20 de junho pareceu um alerta profético:

“Nós devemos estar especialmente atentos e cautelosos para que não sejamos arrastados para uma provocação…. Um movimento errado de nossa parte pode arruinar tudo…. Se nós fôssemos capazes de tomar o poder agora, seria ingênuo pensar que por tê-lo tomado conseguiríamos mantê-lo.

Nós falamos mais de uma vez que a única forma possível de um governo revolucionário é a de um Soviete de Delegados Operários, Soldados e Camponeses.

Qual é exatamente o peso de nossa fração no Soviete? Mesmo no Soviete de ambas as capitais, sem falar nos demais, nós somos uma minoria insignificante. E o que esse fato mostra? Que ele não pode ser simplesmente descartado. Mostra que a maioria das massas está vacilante, mas ainda acredita nos SRs e nos Mencheviques”.

Lênin retomou essa ideia em um editorial do Pravda:

“O exército marchou para a morte porque acreditou que estava fazendo sacrifícios pela liberdade, pela revolução e pela paz.

Mas o exército assim o fez porque é apenas uma parte do povo, que nesse estágio da revolução está seguindo os partidos dos Socialistas-Revolucionários e dos Mencheviques. Esse fato geral e básico, a confiança da maioria na política pequeno-burguesa dos Mencheviques e dos Socialistas-Revolucionários, que é dependente dos capitalistas, determina a postura e a conduta do nosso partido”.

Mas, nas palavras de Trótski, os trabalhadores e os soldados:

“Lembravam que em fevereiro seus líderes estavam prontos a recuar exatamente na véspera da vitória; que em março a jornada de oito horas tinha sido ganha pela ação vinda de baixo; que em abril, Miliukov tinha sido expulso pelos regimentos que foram para rua por iniciativa própria. A recordação desses fatos tinha aumentado a tensão e a impaciência das massas”.

Os líderes das unidades militares da Organização Militar de Petrogrado apoiavam amplamente a ação direta imediata contra o Governo Provisório e muitos membros da base do partido bolchevique já consideravam uma revolta antecipada inevitável e até mesmo desejável.

Contudo, no momento em que a ofensiva estava prestes a desmoronar, o Governo Provisório caiu em outra crise: quatro membros do Kadet deixaram a coalizão em protesto ao compromisso de Kerensky para com a Rada Central da Ucrânia. Essa deserção abrupta deixou o governo, agora composto por seis ministros socialistas e cinco capitalistas, desorganizado e vulnerável. Conforme os dias de julho começaram, os Bolcheviques ganharam maioria na seção de trabalhadores do Soviete de Petrogrado, comprovando sua crescente influência entre as massas.

A manifestação armada 

A série de eventos conhecida como as “Jornadas de Julho” começou em 3 de julho, quando o Primeiro Regimento de Metralhadoras iniciou uma rebelião com o apoio de inúmeras outras unidades militares. A eclosão da revolta coincidiu com a Segunda Conferência Bolchevique da Cidade de Petrogrado, que havia se iniciado em 1º de julho.

Somente quando ficou claro que aqueles vários regimentos, apoiados pelas massas de trabalhadores, já estavam nas ruas e que a base dos Bolcheviques estava participando junto, foi que o Comitê Central se juntou ao movimento e recomendou que as manifestações continuassem no dia seguinte sob os auspícios Bolcheviques. Embora o Comitê Central soubesse que os protestantes estariam armados, a recomendação não disse nada sobre uma insurreição armada ou sobre a tomada das instituições governamentais. Ao contrário, a resolução oficial reiterava a defesa dos Bolcheviques pela “transferência do poder para o Soviete de Deputados Operários, Soldados e Camponeses”.

Assim, a Organização Militar Bolchevique assumiu a liderança de um movimento de rua que havia originalmente se expandido para além de seu próprio controle. Essa erupção inesperada instalou a desordem no partido. Aqueles que obedeciam ao Comitê Central e se colocavam a favor de prorrogar a revolução se viram em conflito com os outros, principalmente com os membros da Organização Militar e do Comitê de Petersburgo, que eram a favor da ação imediata.

Obviamente, um partido revolucionário passa por crescimento exponencial durante uma revolução: já vimos que, em Petrogrado, o partido bolchevique cresceu 1.600% em menos de cinco meses. Tal situação submeter o partido a uma pressão sem precedentes, que se manifestou em graus variados de intensidade em diferentes órgãos do partido e ameaçava rachar a organização.

Nenhum acordo organizacional pode prever isso; todo um arranjo de circunstâncias – dentre eles a confiança que a liderança do partido tinha conquistado – impactam sobre como os eventos revolucionários de desdobram. Por isso a construção de um partido não pode ser empreendida no calor do momento, como a Revolução Alemã iria demonstrar.

Em 3 de julho, as manifestações armadas tentaram sem sucesso prender Kerensky antes de partirem para o Palácio Tauride, sede do Comitê Executivo Central dos Sovietes. Eles pretendiam forçar esse grupo a tomar o poder do Governo Provisório.

A multidão – estimada em sessenta a setenta mil pessoas – sobrepujou as defesas do palácio e apresentou as suas demandas. O Comitê Executivo as recusou. Trótski percebeu a ironia do momento ao observar que, enquanto centenas de milhares de manifestantes estavam exigindo que os líderes dos sovietes tomassem o poder, a própria liderança estava procurando forças armadas para usar contra a manifestação.

Na sequência da Revolução de Fevereiro, os trabalhadores e os soldados tinham dado poder aos Mencheviques e aos Socialistas-Revolucionários, mas esses partidos tentaram entregá-lo à burguesia imperialista, preferindo a guerra contra o povo a uma transferência de poder em suas próprias mãos sem derramamento de sangue. Quando os manifestantes de julho perceberam que a liderança dos sovietes não ia dispensar seus aliados capitalistas – cuja maioria, de todo modo, já havia deixado o governo por conta própria – a situação atingiu um impasse.

“Tome o poder, seu filho da puta, quando ele for dado a você!”

No dia seguinte, Lênin, que estava na Finlândia, foi direto para a sede do partido bolchevique, a mansão Kshesinskaya. Logo depois, marinheiros da base naval de Kronstadt também chegaram lá. O último discurso público de Lênin antes da Revolução de Outubro não foi o que os marinheiros esperavam: ele enfatizou a necessidade de uma manifestação pacífica e expressou a certeza de que o slogan “Todo poder aos sovietes” iria prevalecer. Ele concluiu apelando aos marinheiros por comedimento, determinação e vigilância.

As Jornadas de Julho projetaram o Comitê Central Bolchevique e, particularmente em Lênin, uma luz incomum: eles acabaram prevenindo uma insurreição prematura na capital, a qual, caso houvesse sido bem-sucedida, poderia ter isolado os bolcheviques e esmagado a revolução, como aconteceu com a Comuna de Paris em 1871 e com o Levante Espartaquista em Berlin em 1919.

Uma marcha de aproximadamente 60 mil pessoas dirigiu-se ao Palácio Tauride apenas para ser recebida a tiros de franco-atiradores na esquina das ruas Nevsky e Liteiny e novamente na esquina das ruas Liteiny e Panteleymonov. A maioria das vítimas, no entanto, vieram de confrontos com dois esquadrões de Cossacos, que inclusive utilizaram artilharia contra os manifestantes. Depois dessas batalhas de rua campais, os marinheiros de Kronstadt, liderados por Fyodor Raskolnikov, alcançaram o Palácio Tauride, onde se juntaram ao Primeiro Regimento de Metralhadoras.

Aconteceu, então, um dos eventos mais dramáticos e tragicômicos do dia: Victor Chenov, o assim chamado teórico dos Socialistas-Revolucionários, foi enviado para acalmar os manifestantes no lado de fora. A multidão então o agarrou e um trabalhador com punho em riste lhe disse: “Tome o poder, seu filho da puta, quando for dado a você!”.

Eles declararam que Chernov estava preso e levaram-no a um carro nas proximidades. A intervenção oportuna de Trotsky salvou o ministro. Sukhanov assim descreveu a bizarra cena:

“Havia confusão na multidão até onde se conseguia ver…. Toda Kronstadt conhecia Trotsky e, como se poderia supor, confiava nele. Mas ele começou a falar e o público não retrocedeu. Se um tiro tivesse sido disparado naquele momento, por provocação, um tremendo massacre poderia ter acontecido e todos nós, incluindo quem sabe o próprio Trotsky, teríamos sido retalhados. Ele, por sua vez, empolgado e sem encontrar palavras naquela atmosfera selvagem, mal podia fazer as fileiras mais próximas ouvi-lo…. Quando ele mesmo tentou chegar até Chernov, as pessoas em volta do carro começaram a enfurecer. ‘Vocês vieram para declarar sua vontade e mostrar ao Soviete que a classe trabalhadora não quer mais a burguesia no poder’, declarou Trotsky. ‘Mas por que prejudicar sua própria causa com atos mesquinhos de violência contra indivíduos aleatórios?… Cada um de vocês demonstrou sua devoção à revolução. Cada um de vocês está pronto para entregar sua vida por ela. Eu sei disso. Me dê sua mão, camarada! Sua mão, irmão!’ Trotsky esticou a mão em direção a um marinheiro que estava protestando de maneira particularmente violenta. Mas esse se recusou firmemente a responder ao gesto…. Pareceu-me que o marinheiro, que deve ter escutado Trotsky em Kronstadt mais de uma vez, agora tinha uma sensação real de que ele era um traidor: ele lembrou de seus discursos anterior e ficou confuso… Não sabendo o que fazer, o povo de Kronstadt libertou Chernov”.

Chernov retornou ao Palácio Tauride e escreveu oito editoriais condenando os Bolcheviques. O jornal dos Socialistas-Revolucionários, Delonadora, no fim publicou quatro deles.

O Governo Provisório como um todo, contudo, vingou-se de forma muito mais pérfida: no dia seguinte ele deu início a uma campanha difamatória que descrevia Lênin – que havia chegado à Rússia atravessando a Alemanha num trem fechado – como um agente do Estado-Maior Alemão.

O triunfo temporário da reação

No dia 5 de julho, o Comitê Executivo Central dos Sovietes e o Distrito Militar de Petrogrado lançaram uma operação militar para retomar o controle da capital. Tropas leais ao governo ocuparam a mansão Kshesinskaya e destruíram as instalações do Pravda. Lênin escapou por pouco.

É inútil especular se, caso ele tivesse sido pego teria tido o mesmo destino de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht após o Levante Espartaquista, mas podemos encontrar uma pista nesta caricatura publicada num jornal de direita, Petrogradskaya gazeta, dois dias depois.

Tropas leais também ocuparam o Forte de São Pedro e São Paulo, ao qual o Primeiro Regimento de Metralhadoras rendeu-se por ordem da Organização Militar Bolchevique. O Comitê Central do Partido instruiu seus seguidores a cessarem as manifestações de rua, pedindo aos trabalhadores que voltassem ao trabalho e aos soldados que voltassem aos quartéis.

Enquanto isso, o governo ordenou a prisão de líderes Bolcheviques incluindo Lênin, Kamenev e Grigory Zinoviev, bem como de Trótski e Anatoly Lunacharsky, os chefes da Organização Interdistrital. Embora alguns desses presos políticos, incluindo Trotsky, tenham deixado a cadeia durante o golpe de Kornilov para organizar a resistência dos trabalhadores, outros permaneceriam na prisão até a Revolução de Outubro.

Assim terminaram as Jornadas de Julho, que foram, nas palavras de Lênin, “algo consideravelmente maior do que uma manifestação e menor do que uma revolução.”

Alguns dos principais líderes do partido bolchevique tiveram que ir para a clandestinidade e os jornais do partido foram fechados, mas esse revés teve vida curta. A ofensiva fracassada do Décimo Primeiro Exército no front do Sudoeste, em resposta a um massivo contra-ataque austro-germânico, e combinado com a deterioração da situação econômica, renovaram a validade das palavras de ordem Bolcheviques.

De fato, os jornais Bolcheviques logo reapareceram com nomes levemente alterados e os comitês do partido se restabeleceram com muita rapidez. Desarmar as unidades militares rebeldes, tal como o governo ordenou, era fácil de falar, mas difícil de fazer. Dentro de pouco tempo, a derrota do golpe de Kornilov, em agosto de 1917, reverteria a situação, finalmente criando condições para a bem-sucedida tomada de poder Bolchevique.

dossiê especial “1917: o ano que abalou o mundo“, reúne reflexões de alguns dos principais pensadores críticos contemporâneos nacionais e internacionais sobre a história e o legado da Revolução Russa. Aqui você encontra artigos, ensaios, reflexões, resenhas e vídeos de nomes como Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Löwy, Christian Laval, Pierre Dardot, Domenico Losurdo, Mauro Iasi, Luis Felipe Miguel, Juliana Borges, Wendy Goldmann, Rosane Borges, José Paulo Netto, Flávio Aguiar, Mouzar Benedito, Ruy Braga, Edson Teles, Lincoln Secco, Luiz Bernardo Pericás, Gilberto Maringoni, Alysson Mascaro, Todd Chretien, Kevin Murphy, Yurii Colombo, Álvaro Bianchi, Daniela Mussi, Eric Blanc, Lars T. Lih, Megan Trudell, Brendan McGeever, entre outros. Além de indicações de livros e eventos ligados ao centenário.


[* Traduzido por Nicole Luy e Mozart Pereira, este artigo é o décimo de uma série de artigos sobre o centenário da “Revolução Russa de 1917″ organizada pela revista Jacobin e que sairá ao longo do ano e publicada no Brasil em uma parceria entre o Blog Junho e o Blog da Boitempo. Redigidos originalmente em inglês, os artigos serão traduzidos em várias línguas, como francês, espanhol, alemão e coreano. Para o português, o blog Junho reuniu um grupo de tradutores e colaboradores, coordenados por Fernando Pureza, que atenderam ao chamado para trazer, ao público brasileiro, alguns dos trabalhos mais atuais sobre a Revolução Russa celebrando o centenário do evento político mais importante do século XX.]

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Daniel Gaido é pesquisador no Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), na Argentina. Este artigo foi escrito especialmente para o dossiê sobre o centenário da Revolução Russa, organizado pela Revista Jacobin, traduzido para o português pelo Blog Junho, e publicado em parceria com o Blog da Boitempo.

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