A valentia dos covardes

Tenho visto muitas demonstrações de “valentia”, especialmente nas redes sociais, mas são valentes do tipo que chuta cachorro morto. Eles fazem lembrar uma frase de Goethe: “O covarde só ataca quando está a salvo”. Então, aí vai um monte de frases sobre valentes e seus opostos, de Platão a Sartre, passando por Sêneca, Clarice, Che e Martin Luther King Jr., entre outros.

Por Mouzar Benedito.

Em pau caído, todo mundo faz graveto.
Depois da onça morta, até cachorro mija nela.
Depois da onça morta, todos metem o dedo na bunda dela.

O que é ser valente? Os sinônimos são muitos, entre eles, intrépido, corajoso, destemido, audaz, brioso, desassombrado, indômito, valoroso, pujante, intimorato… É alguém que tem bravura, brio, arrojo, denodo, ousadia, galhardia, rijeza de têmpera…

Valentão é diferente. Nos dicionários, ele pode significar “muito valente”, mas nem sempre os sinônimos são positivos, pois valentão é mais frequentemente usado para definir quem é dado a bravatas, a arrumar encrencas, se meter em brigas e provocações. É o brigão, fanfarrão, acaba-novenas, arranca-toco, arreliento, bambambã, venta-rasgada, surunganga, caborjudo, espanta-patrulhas, arruaceiro, cabra-seco, guasca-largado, desmancha-samba, fecha-bodegas, ferrabrás, guampa-torta, quebra-feio, bulhão, couro-n’água, de sangue na guelra, rixoso, turbulento, belicoso, mavórtico, rufião…

Para esse tipo, que gosta de mostrar valentia ante os mais fracos, lembro um trecho do samba de Noel Rosa, quando ameaçado: “No século do progresso, o revólver teve ingresso pra acabar com a valentia…”. E um outro samba, de Nelson Cavaquinho, diz: “Nas mãos de um fraco sempre morre um valente”.

E covarde? Embora haja quem use “medroso” como sinônimo, acho que o sentido não é bem esse. Está mais para outros sinônimos como poltrão, baixo, vil, desprezível, sem brio, abjeto, indigno, homem de palha, podricalho…

Escolhi esse tema pra tratar aqui porque tenho visto muitas demonstrações de “valentia”, especialmente nas redes sociais, mas são valentes do tipo que chuta cachorro morto. Eles fazem lembrar uma frase de Goethe: “O covarde só ataca quando está a salvo”. Ou ditados como os citados no início do texto e outros como “quando o gato sai, os ratos dançam” ou “quando os gatos não estão na casa, os ratos passeiam em cima da mesa”.

Então, aí vai um monte de frases sobre valentes e seus opostos, os covardes, e também sobre os adjetivos valentia e covardia.

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Vão Gogo (Millôr Fernandes): “Até um covarde é capaz de enfrentar um leão – desde que haja uma grade entre os dois”.

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Ditado popular: “Valentia não é privilégio”.

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Ovídio: “Os covardes esmagam o que já caiu”.

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Ovídio, de novo: “Contra valentes, a valentia não é segura”.

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Geordge Landsdowe. “Depois de vestido o uniforme, os covardes podem passar por valentes”.

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Maomé: “A pior forma de covardia é testar o poder na fraqueza do outro”.

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Clarice Lispector: “Coragem e covardia são jogo que se joga a cada instante”.

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Clarice Lispector, de novo: “Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, e é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceita-la”.

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Caio Fernando Abreu: “Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem”.

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Caio Fernando Abreu, de novo: “Sinto impulsos covardes, assustadiços e escapistas de voltar. Também porque sinto saudade, muita, de tudo. Mas sei que não devo”.

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Confúcio: “Ver o bem e não fazê-lo é covardia”.

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Shakespeare: “Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimente a morte apenas uma vez”.

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Coelho Neto: “A valentia sem um ideal que a enobreça degrada-se em ferocidade”.

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Marquês de Maricá: “A bravura é taciturna, mas a covardia garrulenta”.

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Fernando Pessoa: “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos)”.

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Catarina, a Grande: “Peço que tenham coragem; a alma valente pode reparar inclusive o desastre”.

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Sêneca: “Quem é valente é livre”.

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Veronica Roth: “Um homem valente reconhece a força dos demais”.

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Christopher Paolini: “Sem medo não pode haver coragem”.

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Cervantes: “A força dos valentes, quando tombam, vai para a fraqueza dos que se levantam”.

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Bruce Lee: “Os erros são sempre perdoáveis, se se tem a valentia de admiti-los”.

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Olavo de Carvalho: “Não há covardia mais torpe que a covardia da inteligência, a burrice voluntária, a recusa de juntar os pontos e enxergar o sentido geral dos fatos”.

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Mary Tyler Moore: “Não se pode ser valente se só te ocorrem coisas maravilhosas”.

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La Montaigne: “A covardia é a mãe da crueldade”.

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Antônio Machado: “Todo néscio confunde valor com preço”.

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Thomas Mann: “A guerra é a saída covarde para os problemas da paz”.

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Erasmo de Rotterdam: “Um valente encontra outro mais valente que ele”.

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Aristófanes: “Nada é mais covarde do que a riqueza”.

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Francisco Quevedo: “O valente tem medo do seu adversário; o covarde tem medo do seu próprio temor”.

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Khalil Gibran: “O prisioneiro que tem a porta do seu cárcere aberta e não se liberta, é um covarde”.

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Homero: “Apoiada, a coragem nasce até mesmo naqueles que são muito covardes”.

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Abraham Lincoln: “Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes”.

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Ghandi: “A não-violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse das armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não-violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível”.

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Jean Giraudoux: “Em que consiste a pior das covardias? Parecer-se covarde perante os outros e manter a paz? Ou ser-se covarde perante nós próprios e provocar a guerra?”.

* * *

Alonso de Ercilla y Zúñiga: “O medo é natural no prudente, e saber vencê-lo é ser valente”.

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Mark Twain: “É curioso que o valor físico seja tão comum no mundo e a coragem moral tão rara”.

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Mark Twain, de novo: “A proteção mais infalível contra a tentação é a covardia”.

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Oscar Wilde: “A consciência e a covardia são, na realidade, a mesma coisa. A consciência nada mais é que a firma dessa razão social. E isso é tudo”.

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Valéry Laubarud: “O dever, eis o nome que a burguesia tinha dado à sua covardia moral”.

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Aristóteles: “O homem que evita e teme a tudo, não enfrenta coisa alguma, torna-se um covarde”.

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Helen Keller: “Nunca poderíamos aprender a ser valentes e pacientes se somente houvesse alegria no mundo”.

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Goethe: “A multidão não pode ficar sem homens valentes, e os valentes são sempre um peso para ela”.

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Martin Luther King Jr.: “A covardia coloca a questão: é seguro? O comodismo coloca a questão: é popular? A etiqueta coloca a questão: é elegante? Mas a consciência coloca a questão: é correto? E chega uma altura em que temos que tomar uma posição que não é segura, não é elegante, não é popular, mas o temos que fazer porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta”.

* * *

Ana Jácomo: “Tomara que, apesar dos pesares, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir feliz”.

* * *

Wendell Phillips: “A valentia física é um instinto animal; a valentia moral é muito maior e uma coragem mais verdadeira”.

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Albert Einstein: “O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer”.

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Júlio Cortázar: “Ser valente é muito mais fácil do que ser homem”.

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Benjamin Franklin: “O homem fraco teme a morte, o desgraçado chama-a; o valente procura-a. Só o sensato a espera”.

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Platão: “Um homem que não arrisca nada por suas ideias, ou não valem nada suas ideias, ou não vale nada o homem”.

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Sartre: “Aos verdugos se reconhece sempre. Têm cara de medo”.

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Sartre, de novo: “Os covardes são os que se encobrem sob as normas”.

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Joseph Campbell: “A cova a que temes entrar contém o tesouro que desejas”.

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Cícero: “Aos valentes não é só a sorte que ajuda, domo diz o velho provérbio, mas ajuda muito mais a razão”.

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Che Guevara: “Não podemos estar seguros de ter algo por que viver se não estamos dispostos a morrer por ele”.

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Robert Anthony: “O contrário da valentia não é a covardia, mas o conformismo”.

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JoyBell C.: “Não tenha medo de teus medos. Não estão para assustar. Estão aí para fazer saber que algo vale a pena”.

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Stevenson: “Os homens valentes não necessitam de muralhas.

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Peter Ustinov: “A coragem é frequentemente falta de conhecimento, enquanto que a covardia, em muitos casos, se baseia em boa informação”.

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Norman Vincent Peale: “Os covardes nunca tentam, os fracassados nunca terminam, os vencedores nunca desistem”.

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Jean-Jacques Rousseau: “A força fez os primeiros escravos, a sua covardia perpetuou-os”.

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Provérbio judaico: “Covarde é aquele que não abre novos caminhos na vida, nem emprega as suas forças para enfrentar obstáculos”.

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Ambrose Bierce: “Covarde: alguém que, numa situação perigosa, pensa com as pernas”.

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Joseph Joubert: “O medo depende da imaginação, a covardia do caráter”.

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Isaac Asimov: “Tem sido minha filosofia de vida que as dificuldades se desvanecem quando são enfrentadas com valentia”.

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Friedrich Wilhelm Riemer: “Um adversário que mostra sua cara abertamente é uma pessoa honrada, moderada, com a qual é possível se entender, chegar a um acordo, a uma reconciliação; em compensação, um adversário escondido é um patife covarde e informe, que não tem a coragem de assumir seus julgamentos, portanto alguém que não defende sua opinião, mas se interessa apenas pelo prazer secreto que sente em descarregar sua ira sem ser reconhecido nem sofrer retaliações”.

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Gostou? Clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

2 comentários em A valentia dos covardes

  1. Humberto Lago // 18/07/2017 às 21:29 // Responder

    Mouzar
    Gostei muito.
    Bela pesquisa.
    Abs.
    HLago

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  2. À
    Autor do artigo
    Digníssimo autor … brava gente brasileira … longe vá … temor servil … ou ficar a pátria livre … ou morrer pelo Brasil …, IDIOTAS .., ultimamente o Brasil tem muitos, são os idiotas uteis a serviço dos golpistas, oras, os ladrões golpistas continuam no poder e o povo se ferrando em todos os âmbitos de direitos sociais nacionais principalmente traído e vergonhosamente ludibriado mais uma vez pela MÍDIA/comunicações golpistas que vem dia após dia enganando todas as classes dos IDIOTAS brasileiros, e aí chega esse artigo acusando aqueles que são vítimas dos sistemas e que segundo a este artigo os IDIOTAS passam a ser os COVARDES, oras caro dono do blog, assim fica difícil lhe dar uma ajudazinha financeira, por que se queres ajudar e ficar do lado do POVO, então por favor não atrapalhe o pequenino, por que cada um labuta de acordo suas possibilidades, mas o covarde sim é o dono deste blog que sem nada a acrescentar ou pelos menos dar esperança ou notícias novas, etc., oras vai chupar prego na ladeira empurrando a um caminhão, esse sim é teu ramo, sua sapiência profissional .., talvez seu amadorismo veste melhor em você Caro Autor.
    Resposta de um COVARDE brasileiro resistindo a um provocante incauto, ou senão um IDIOTA.

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